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Friday, August 23, 2013

Provincianos há muitos: bons, maus e os "figurões da terrinha". E eu embirro com os dois últimos.

Este é um modelo genuíno.

Numa época em que muitos portugueses parecem fazer desesperada questão de ser "muito urbanos, muito cosmopolitas,  muito trendy" (o que é algo parolo em si mesmo, já que boa parte nasceu ou tem origem no campo) eu que sou orgulhosamente de Coimbra - logo, para os provincianos que se fazem lisboetas, provinciana e com muita honra - mas vivi parte da vida na nossa tradicional, amorosa e familiar Capital que certos hipsters querem transformar à viva força numa mini e afectada Nova Iorque (outra parolice) e que tenho raízes familiares numa das mais antigas e particulares vilas do nosso país, faço toda a questão de abraçar o meu lado campestre. Tenho mesmo pena de não me poder esconder lá não sei para onde, algures no Norte, num provicianismo elegante e desbragado, estilo "A Cidade e as Serras". Mas lá dizem os espanhóis: pueblo chico, infierno grande. E há "complexos saloios" verdadeiramente insuportáveis.

Porque podemos analisar aqui,  só por carolice, vários tipos de provincianismo. Comecemos pelos provincianismos simpáticos:

- O provincianismo naïve, genuíno, simples e campesino, de quem não é nem quer ser outra coisa (ou "a boa gente do campo").

- O provincianismo cool, blasé, nonchalant, de quem se está perfeitamente marimbando para modernices pretensiosas e vive lindamente retirado, até porque sai "da terrinha" quando quer e bem lhe apetece (e às vezes, nem quer): o género "fidalgote de província" ou provinciano cosmopolita, se quiserem.

- O provincianismo de quem se mudou, ou voltou, para a "província"/campo/terra onde Judas perdeu as botas por opção. Gente empreendedora e desempoeirada.

- O provincianismo algo extravagante, mas inofensivo, de certos hippies que se escondem nas serras a fazer agricultura biológica, a recuperar cottages e outras coisas que os hippies fazem.

 Depois temos os provincianismos péssimos:

- Os tais provincianos que dão mau nome à espécie e que fazem com que o termo seja um insulto. Têm complexo de ser "provincianos". Queriam ser lisboetas ou viver na Linha e não se conformam com isso (como se a "Linha" não fosse, sem desprimor algum, um "arredor", e Cascais não fosse uma vila!). Tornam-se mais lisboetas que os lisboetas, mais parisienses que a gente nada e criada em Paris, o seu sonho é ser nova iorquinos, fazem-de de hipsters, divulgam sushi no instagram quando na realidade detestam peixe. Poseurs, pseudo, wannabes, tudo neles é postiço, deslumbrado, pateta, típico do provinciano que nunca viu nada, a quem falta mundo,  em suma.

- E por fim, os provincianos do piorzinho: os que não renegam as suas origens, mas "evoluem" sem se polir, perdendo a ingenuidade e franqueza que lhes dava algum encanto.
Figurões lá da aldeia, que têm a mania que mandam em tudo: nas "colectividades", na paróquia, na junta, nas IPSS, na filarmónica, no clube de futebol e em todas as organizações  que são o "ai Jesus" desse povo.  Uns porque emigraram com sucesso, voltaram e decidiram "fazer pela terra" com um paternalismo disfarçado de generosidade, ou seja, esperam vassalagem de toda a gente e medalhas do Presidente da Câmara.
 Outros porque são políticos de pacotilha, o verdadeiro "Presidente da Junta", tiranetes de meia tigela. E há outros ainda que foram "tirar um curso", ganhar alguma "cóltura" mas, à parte muita mania de se arvorarem em "pessoas finas" - termo que para eles significa gente civilizada - ou "defensoras da cultura/da Igreja/ da literatura/ do Património", voltaram exactamente na mesma. Para começar ninguém lhes consegue tirar o ar de sopeiras/cavadores de enxada/figurantes de rancho folclórico nem com aguarrás, porque isso do ar que se tem nasce e morre com cada um e por mais que se encaderne, nada feito. 
Eles parecem sempre jornaleiros famélicos ou se forem para o forte, taberneiros. E elas , quando não são Ruth Marlenes da vida com um anel de curso e diploma de catequista, optam pelo tipo "parolinha culta e respeitável". Enchouriçadas nos seus vestidos de missa e penteados rígidos em cada ocasião que se lhes afigure minimamente "especial" , carregadas de base que parece glacé de um bolo, as suas feições algo grosseiras, os seus modos untuosos e subservientes, enteiriçadas em poses que não lhes saem naturalmente, fazem  o tipo "antiga criada de servir que se finge senhora" como se dizia antigamente.
Eles e elas vão fazendo vénias a este e àquele, marcando presença em cada "cerimónia oficial" da terrinha, mandando na Igreja, enfurecendo o pobre do prior de forma passivo agressiva. Forçam amizade com cada "figurão de fora" que visita a terra, fazendo-se sabujos e íntimos, ganhando território e autoridade com muito mel e muita peçonha, juntando-se a sucursais de "clubes internacionais de beneficência" se os houver, entrando em todas as conferências de caridade, dando muita importância a cada porcaria que se passa,  querendo passar por senhoras, cavalheiros, "doutores" e aturando tudo para serem tolerados em casa das pessoas minimamente respeitáveis que por lá haja. Aparecem no pasquim local, organizam soirèes para ofender as musas com péssima literatura, bordam, declamam, escrevem, mandam vir, intervêm,  fazem bolos e procuram passar, essencialmente, por muito boas pessoas. Mas a cupidez aldeã e o chico espertismo estão lá, em todo o seu esplendor e não conseguem passar por pessoas distintas assim que põem o pé fora da freguesia.

São, essencialmente, pessoas assim que fazem com que muita gente fuja da aldeia, ou da província. Mandasse eu neste país e arranjava uma província ultramarina qualquer para enclausurar os provincianos que estragam a província, e os provincianos que querendo ser urbanos, estragam a vida na "cidade". Só cá ficava gente genuína. Era certinho.

1 comment:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Como tu, não tenho paciência para os dois últimos géneros. Mesmo aqui no Porto há alguns, sotaque carregado e parolo lá de cima, que têm a mania que são os maiores porque moram na foz- zona chique da cidade. Enfim.

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