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Thursday, August 15, 2013

Scarlett: a heroína perfeita.

Os ideais tradicionais retratavam, nos livros e nos filmes, a típica Donzela em Apuros, ou a Mulher Fatal: ora a "boazinha"  - a menina frágil, bonita, coquette ou singela mas sempre feminina, que dependia do braço masculino para tudo ( a Escrava Isaura é o exemplo que me vem à memória assim de repente) ora a mulher sedutora, perigosa, de mil ardis (como a Milady de Winter dos Três Mosqueteiros, por quem sempre tive alguma simpatia).  Ambas dependiam da sua beleza, vulnerabilidade e no fundo, da sua sexualidade para ser salvas ou triunfar - mesmo tendo miolos. 
 Os ideais pós feministas, que se têm imposto até nos filmes da Disney, ditam o contrário: a heroína é bonita (Jane Eyre terá sido uma das poucas protagonistas feiotas a ter sucesso) mas quase tão masculina como o rapaz que a acompanha na aventura,  que se vê e deseja para estar à altura da tarefa. Ela é uma artista marcial, uma estratega, uma mulher de negócios. Ser salva, nem pensar; obter o que deseja por meio da sedução, esqueçam - e diz muito dos tempos que atravessamos, e da mudança de mentalidades, que no meio disso tudo seja considerada a heroína e não uma "virago crudelíssima" como Caterina Sforza. 
 A meu ver, os dois extremos têm que se lhe diga. Poucas heroínas,  embora dando desconto ao facto de serem testemunhos do seu tempo, ou retratadas por homens, de um lado ou do outro são completas: ou dependem da sua beleza, ou da sua fragilidade, ou da sua força. 
 Muito poucas traduzem a complexidade feminina, que é feita de um pouco disso tudo. Mas Scarlett O´Hara (só por acaso, fruto da pena de uma mulher) consegue-o. Usa a sedução, o cérebro, a força. É tão resistente como um homem, suporta provações que deitariam abaixo muito cavalheiro, mas não deixa de admitir que precisa de um homem ao seu lado, ou de fazer o possível para encontrar um bom casamento como qualquer mulher do seu tempo e do seu meio. Equilibra o seu espírito independente com a educação patrícia que recebeu. Só é revolucionária na medida em que se atreve a ganhar dinheiro, coisa mal vista no seu círculo. É boa, má, doce, cruel, colérica, generosa, egoísta, honesta, manipuladora, calculista, impulsiva. Pode ser um anjo ou um demónio, conforme a necessidade do momento.  
 Claro que para "domar" uma mulher como ela, é necessário um homem igualmente forte, que a aceite tal como é, na sua caleidoscópica densidade. Não se entendem à primeira, nem à segunda, e o livro termina em aberto: afinal, são dois adversários de respeito. Mas para uma Scarlett ou Rhett, ou nada. Afinal, uma mulher assim sabe muito bem desembaraçar-se sozinha. Apenas tem consciência de que é muito mais agradável fazê-lo acompanhada do herói certo.
 Ou como ouvi a uma certa protagonista italiana de um filme, os homens estão para a vida de uma mulher como a almôndega para o spaghetti: sem almôndega, a pasta não deixa de ser pasta.


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