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Tuesday, August 6, 2013

Segredos da Elegância, segundo Colette Cotti

Burberry, 1960s

"Uma pessoa pode tornar-se rica, mas tem de nascer elegante"

Beau Brummell


Já vos contei que tenho um fraquinho por antigos manuais de beleza, boas maneiras e elegância. Certamente é preciso filtrar alguma informação datada mas não só têm imensa graça, pitoresco até, e deliciosas fotografias vintage, como realçam alguns aspectos básicos do saber-estar que as novas (e escassas) versões descuram. E se os compêndios forem franceses, melhor ainda: há que ter em conta o lendário je-ne-sais-quois das parisienses e não só, esse tão invejado chic sem esforço sobre o qual já se escreveram inúmeros tratados.
 Sem querer maçar-vos com um post muito longo, não resisti a transcrever algumas citações que acho preciosas, e que não podiam ir mais ao encontro da minha forma de pensar. Porque ao contrário do que possa julgar-se à primeira vista  nestes tempos de materialismo desenfreado, a elegância está muito mais ligada ao auto domínio, à atenção, disciplina, discrição, indiferença e graça do que ao "luxo" ou mesmo à beleza, sempre conceitos subjectivos e mutáveis. 

"O dândi do século XIX ostentava uma suprema elegância, tanto nas maneiras como na apresentação. «O dandismo não é um gosto imoderado pela toilette e pela elegância material. Estas coisas não passam, para o perfeito dândi, de um símbolo da superioridade aristocrática do seu espírito» dizia Baudelaire. Que procurava o dândi? Antes de mais, opor-se ao espírito burguês, à noção do proveito material".

A elegância independe de aspectos materiais, superficiais, que vão e vêm. Uns sapatos Prada são bonitos, são elegantes e todas gostamos deles...mas são também acessíveis à mais trapalhona e desagradável das mulheres, desde que dotada de meios. Quem é elegante serve-se desses artifícios  mas não se prende a eles, não deixa que eles se sirvam de si, tendo presente que "do mundo nada se leva". O materialismo foi e será (ainda que nesta época de valores diluídos) um conceito burguês, associado ao alpinismo social e às ideias estreitas.

"É impossível que uma mulher invejosa e cúpida, que um homem trivial ou vulgar tenham uma real elegância no seu comportamento; o inimigo da elegância é o espírito pequeno, mesquinho, o interesse pessoal".

"É curioso pensar que a elegância (...) nos faz pensar no passado. Esta palavra evoca o garbo (...) porque ter garbo não é simplesmente ter classe, mas também não dar demasiado apreço à sua vida, a si mesmo. Dar a vida pela honra". 

 Mesmo num fato coçado, ou de camisa amarrotada, um cavalheiro é sempre um cavalheiro. E uma senhora elegante não precisa de espavento, antes pelo contrário, para se fazer notar. Tão pouco a elegância se desvanece com o tempo, como certas belezas, embora exija cuidados. 

"Não há graça possível sem uma bela silhueta. Se for demasiado gorda nunca poderá ser elegante, mesmo usando o mais belo vestido. Evidentemente há vários tipos de mulheres e os manequins diáfanos que apresentam a moda nas revistas não são o ideal a desejar para todas. É absurdo estereotipar-se e conformar-se com a moda actual  O que é necessário é manter-se na melhor forma de si mesma.(...) Como se conserva esse peso? Querendo-o. Querer ser esbelta é consegui-lo. Não se esqueça que engordará se se desleixar e que emagrecerá se o quiser...".


O sentido de honra  temperado com a indulgência para com os outros é um dos aspectos mais espinhosos da elegância de espírito. A mundanidade, o porte, a tranquilidade blasé, a gentileza para com toda a gente, uma certa altivez que não agride a que se mistura o genuíno desejo de não incomodar, de se colocar em último, constituem a fórmula delicada da elegância.


"Saibamos adaptar-nos, pôr-nos ao nível dos que nos falam, nos recebem. Respeitemos as formas de viver dos outros(...) . A elegância de espírito ajuda a comportar-se 
decentemente e com nobreza, a graça ajuda a comportar-se esteticamente, para seu prazer e dos outros. Que é realmente a graça? É uma espécie de encanto, de adorno, que está ligado ao à vontade."

"Se gostar acima de tudo da beleza, da harmonia e da discrição: se fugir da vulgaridade, se souber conservar indulgência, bom senso e humor, a elegância reinará em todo o seu lar".

"O século XVIII, elegante como foi, põe em primeiro lugar o espírito, um espírito que  exige grande domínio, posse de si mesmo, respeito pelos outros, que faz com que as pessoas não se tenham em conta, se pretendam leves, para nunca serem pesadas aos outros. A tolerância, o sentido de humor, a indulgência, assim como o sentido de honra são grandes motivos da elegância porque exigem uma justa noção da pouca importância que representam a nossa pessoa e as nossas dificuldades em face da morte. E onde nos conduz a essa reflexão? A um respeito pela vida, (...) pela pessoa humana, à preocupação pelos outros, à generosidade, ao desinteresse, ao desprezo pelo que é baixo e vulgar...".

 É um exercício diário, uma disciplina constante, com fontes tão diversificadas como as referências de cada um, o berço, a educação em casa e porque não, a formação religiosa. Os ensinamentos Católicos são uma excelente escola de saber estar para quem está atento, por exemplo. 
 O que importa é ter presente que ou o refinamento vem de dentro, ou não há arrebiques que valham. E vigiar-se diariamente, com humildade e poder de observação, até que os reflexos se tornem automáticos. Afinal,

" Não há elegância no comportamento e no vestuário sem elegância de espírito".











                                       
                       

1 comment:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Gostei muito! Partilho desse espírito ainda que por vezes diga uns palavrões a mais. Enfim, defeitos de fabrico lol. No entanto, preciso de me tirar uns quilinhos para me considerar mais elegante.

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