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Tuesday, August 20, 2013

"The boy that you loved is the man that you fear".

                   

Numa fase em que tinha o hábito de escrever em cadernos,  e de desenvolver, por exercício,  contos "aos retalhos" (alguns dos quais não completava, limitando-me a  desenrolar certos cenários e diálogos) criei uma história de amor horrivelmente romanesca. Os contornos falham-me, mas envolvia uma mulher linda apaixonada por um homem poderoso que sofria de dupla personalidade (sempre tive uma certa fixação por enredos Dr. Jekyll/Mr. Hyde). Como a ligação entre os dois durava há muitos anos e ela conhecia o homem bom que ele era capaz de ser - ou antes, o homem que ele fora - mantinha-se ao seu lado, testemunhando horrorizada e em silêncio as atrocidades que o amado ia cometendo...quando as maldades não sobravam para ela (não, não era uma história bonitinha). À espera de melhores dias. Ou por um estranho instinto de protecção, de preservação, de arranjar o que está estragado, que todas as mulheres têm em maior ou menor grau.

 Quanto mais sua personalidade se fragmentava e a relação se tornava perigosa, mais a obsessão entre os dois crescia. Volto a lembrar que isto era mais um conto de terror que outra coisa, que (achava eu)  ao contrário do que acontece na vida real, os vilões nas histórias podem continuar giros, apenas assustadores o suficiente para se tornarem interessantes mas nada mais do que isso. A relação entre as personagens era absolutamente destrutiva, mantendo-se  porque a crueldade dele "só" (reparem no "só", como se fosse pouco) se manifestava em relação a ela numa possessividade descontrolada.
 Nunca fiz por dirigir a heroína da história, nem tinha mão nos disparates que ela fazia, ou um sentido moral. Dava por mim a pensar como é que uma mulher sofisticada poderia ser tão estúpida, deixar-se escravizar daquela forma por alguém que claramente não estava em si, mas deixava a ficção correr por puro entretenimento: não havia naqueles flashes saídos da minha imaginação qualquer sentido moralizador. Divertia-me a inventar desgraças, sem preocupações de estilo, explorando as sórdidas emoções das personagens e tendo um certo prazer maléfico em 
levá-las ao limite, fazê-las agir de forma contrária a todo o bom senso.
 A vida, no entanto, é capaz de ser mais elaborada do que a ficção. E tal como na ficção, por vezes o rapaz malvado continua a ser sedutor, por mais que se assista à desintegração da sua mente, da sua personalidade. Por muito que o rapaz doce que se conheceu, que tratava bem a cara metade, passe a tratá-la mal.  Perdi a conta às mulheres que vi assistir à transformação do rapaz que tinham amado no homem que passaram a temer. Não necessariamente por actos extremos ou violentos (os lados negros têm muitas nuances) mas ordinariamente por uma completa degradação do carácter. E seria bom se a racionalidade de uma mulher, a sua educação, o seu orgulho ou a sua auto estima levassem a melhor nesta batalha, desligassem automaticamente os sentimentos acumulados. Nem sempre é assim: anda que haja um afastamento físico, prático, total, a mulher que tenta consertar tudo não pode fugir ao que se passa dentro dela. Assistir à ruína de perto ou contemplá-la a uma distância segura determinam apenas a sua sensatez. 
 Depois há os casos que têm remédio: nem sempre a descida aos Infernos é irreparável. Ou sou eu, que como nunca dei conclusão ao conto ainda acredito em finais felizes. O romantismo às vezes estraga tudo, além de fazer má literatura.

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