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Tuesday, August 13, 2013

Voltem, escolas de charme e "Formação Feminina"

                        
A tradição das encantadoras "finishing schools" ou "charm schools" na Suiça está praticamente extinta e para não desaparecer de todo, precisou de se adaptar aos tempos. Se antigamente (graças à localização central, estabilidade e beleza do país) as famílias distintas da Europa confiavam as suas filhas a estes estabelecimentos para acabar de "polir" a sua educação - daí o nome -  o que lhes permitia brilhar em sociedade e as preparava para o papel de esposas perfeitas, hoje boa parte das receitas dos institutos sobreviventes advém de novos públicos (alunas árabes, chinesas ou da América do Sul) idades e formatos (cursos de protocolo para profissionais das Relações Públicas, por exemplo). Mudanças de cenário, como a "libertação" da Mulher e o consequente acesso generalizado do público feminino à educação regular - faculdades, etc - acabaram por tornar démodé a ideia de "escolas de graça senhoril". 
 Por cá, os pais que por qualquer motivo não confiavam as filhas como internas em escolas estrangeiras encontravam alternativa nos bons colégios de religiosas, no acompanhamento de "mademoiselles" disciplinadoras, em cursos específicos oferecidos por alguns estabelecimentos ou no próprio seio do lar, onde mães ou tias atentas se encarregavam da tarefa. É errado pensar que a educação da mulher não era coisa levada a sério em tempos idos: era-o, e bastante, mas com um currículo específico que (se não deveria ser o único) dava bastante jeito hoje, como complemento. Os rapazes, por sua vez, eram preparados em escolas como o Colégio Militar, o que nos diz algo da "democracia" existente apesar da clara separação de papéis.
                         
Não vamos mais longe: a minha querida avó, vendo que tinha uma filha com o péssimo hábito de ser maria-rapaz (influência dos livros "Dos Cinco") não foi de modas e fez marchar a filha para um curso desses, para grande desgosto daquela. Não houve birras que a demovessem. Sinais dos tempos, eu hoje guardo os livros desse curso como um tesouro e tiro daí bastantes ideias úteis. Mas alguma coisa ficou: quando chegou a minha vez, foram tomadas medidas...embora menos rígidas. No meu caso, essa preparação foi feita pela família, com a ajuda de bons professores de quem já falei, mas não me importaria nada de ter estudado disciplinas dessas na escola, em vez de muitas "cadeiras" que eram mais do mesmo...afinal, como se concebe que num Curso Superior de Relações Públicas as alunas (dos rapazes já nem falo) se licenciem sem uma mínima noção de protocolo, por exemplo? Essa parte é completamente deixada ao background de cada um...o que a meu ver, não vem trazer "igualdade" alguma.
Compreendo que as aulas de bordado fossem detestáveis (para mim, que me impaciento com lavores) mas será de esperar que a Educação se limite a currículos científicos? Que não prepare o espírito, o saber-estar, a postura, a civilidade? E isto, para raparigas e rapazes...
 Uma das minhas bisavós não recebeu educação formal no sentido moderno do termo. Não porque os pais não tivessem possibilidade (os filhos rapazes foram estudar) mas porque achavam que uma menina não podia "meter ideias na cabeça": enviaram-na para uma modista francesa (o que lhe viria a dar um jeitão durante a II Guerra) que era, simultaneamente, uma escola de saber estar feminino. Aprendia não só pelo currículo, mas pelo exemplo. Podia não ter grande "cultura" mas foi sempre uma senhora. Outra das minhas bisavós  educou-se em casa, com "mestras" - e foi igualmente uma senhora mesmo nas circunstâncias mais árduas. Hoje, o que temos? 
 Meninas com um currículo académico razoável, mas que não fazem a mínima ideia de como andar, vestir, falar ou dirigir-se às pessoas. Raparigas que vão para a faculdade em certos e determinados preparos. Dizem palavrões, falam aos gritos, atropelam professores à porta das salas. Pessoas que receberam instrução (e a aproveitam ou não conforme querem e podem) mas não educação. Não sabem pôr uma mesa, ter uma conversa, receber adequadamente uma pessoa que visite, por exemplo, a empresa onde trabalham. E isso é mau porque o treino formal nesses aspectos não só é importante para ocasiões de maior exigência como corrige defeitos de carácter, como a timidez ou atrevimento excessivo. Se não nos habituamos a reparar nos detalhes, deixamos gradualmente de prestar atenção ao essencial - coisas tão óbvias como dizer " obrigada", "dá licença", "faça favor" ou dar a passagem a senhoras ou pessoas mais velhas. Temos um povo mais instruído, mas não necessariamente bem educado: um povo de serigaitas e brutamontes, muitas vezes. O "tocar piano e falar francês" pode não ser tudo na vida. Ser "prendada" pode estar fora de moda. Mas instrução não é, de todo, educação; e sem educação não há instrução que dê frutos. 






2 comments:

A Guia Turística said...

Gostei imenso deste texto!
Existiram em Portugal estas escolas, como na Suíça?
Apesar de ser uma coisa que caiu em esquecimento, fiquei muito surpreendida quando no programa da Louise Roe (na MTV) ela levou a concorrente a uma das mais prestigiadas escolas de etiqueta e protocolo na Suiça para que aprendesse a andar, a sentar à mesa, entre outras coisas.
Tenho uma amiga a licenciar-se em Gestão Hoteleira na Austrália e, em todos os anos do curso, há uma cadeira de protocolo. Sobretudo para lidarem com as diferenças culturais e saberem como se comportar em diferentes situações e perante culturas tão distintas.
Beijinho

Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Guia! Não estou certa quanto a "charm schools" especializadas em Portugal, pelo menos de renome. Posso estar enganada, todavia...Sei que havia senhoras de boas famílias que se dedicavam a "educar meninas" ou abrir colégios quando os meios lhes faltavam...era uma ocupação "respeitável". Quanto ao resto, como o texto diz, os colégios ou pessoal contratado faziam a tarefa. É bom que ao menos esses institutos não desapareçam, adaptados às necessidades do mercado. Claro que há boas formações, mesmo superiores, em protocolo. Mas é lamentável que não venham incluídas nos cursos gerais, em vez de "cadeiras de palha, palha e mais palha". Beijinho.

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