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Sunday, September 22, 2013

As mulheres perfeitas.

                    

Muito de vez em quando, ainda tenho a felicidade de tropeçar numa legítima representante da minha noção de mulher perfeita. Ou antes, da noção algo tradicional de mulher quase perfeita (vulgo senhora) que me foi incutida. 

 Fico contente quando encontro uma Guardiã da Tradição. A Guardiã da Tradição pode ser idosa ou novíssima, rica ou a viver em genteel poverty ( remediada, jamais) mas é essencialmente muito bem educada  e foi criada no bom hábito da graça e da disciplina, o que não retira uma vírgula à sua vivacidade natural. É preciso ser-se especial para beirar a perfeição sem ceder à amargura. 
  Mantêm o hábito, velho de séculos, de fazer filhoses de água. Algo que ficou do tempo em que conseguiam dirigir uma casa, pessoal e família, sem que se desse pela sua presença, fazendo andar a orquestra com um sinal discreto ou um erguer de sobrancelhas. Antigamente, conseguiam esse milagre - pratas sempre brilhantes, aposentos sempre impecáveis, e uma anfitriã bonita na sala como se tudo isso surgisse sem esforço - mesmo quando as fortunas colapsavam e tinham de o fazer praticamente sozinhas, sem gritos nem queixas. Caminham sempre direitas, com um porte impecável, ainda que lhes doam os pés. Jamais demonstram em público quando estão magoadas, cansadas ou tristes. Guardam as suas expansões, por maiores que sejam, para a intimidade, porque uma senhora é uma senhora em todas as ocasiões. São capazes de trabalhar um dia inteiro e parecer imaculadas à noite, um pouco pálidas talvez, em qualquer reunião mundana. 
Antigamente, dirigiam habilmente, por trás do pano, as carreiras dos maridos, a política através de palavras discretamente murmuradas, gerindo o mundo por intermédio dos homens. Hoje fazem o mesmo - somente, algumas gerem a própria carreira também, trabalho dobrado. 

O seu cabelo é sempre brilhante, o seu visual é sempre de qualidade, requintado e discreto, os seus filhos são amorosos, simples e corteses com toda a gente, sem que alguma vez alguém as tenha visto perder a cabeça. E quando perdem a cabeça, até nisso têm sangue frio: se esgotadas as vias diplomáticas são frias, cortantes, capazes de, sem soltar um grito, deixar em lágrimas a mais arrogante das criaturas. Também se mostram peritas em transformar inimigos em aliados, só com a doçura e encanto da sua pessoa. Mais do que beleza, possuem elegância, bom ar, graça. São razoavelmente cultas mas não o exibem, porque ninguém gosta de uma maria sabichona. Têm alguns dotes artísticos, mas exercem-nos com modéstia e jamais lhes passaria pela cabeça impô-los ao público a não ser que o mesmo lhes implore a partilha com o resto dos mortais. Corajosas se a ocasião o exigir, capazes de atravessar uma guerra, sem nunca perder a dignidade que as distingue na multidão.
 Não lavam a roupa suja em público; deixam aos homens e às pessoas mais velhas a ilusão da sua autoridade, da sua supremacia, porque gostam de ver toda a gente contente e sabem que é da felicidade alheia que se retira a harmonia e se levam as águas ao moinho certo. Na maioria dos casos, as suas palavras destinam-se a fazer os outros sentir-se melhor. Por muito bonita que seja uma Guardiã da Tradição, as outras mulheres não se sentem ameaçadas por ela: antes, ela fá-las sentir mais novas, ou mais bem vestidas, ou mais belas, porque consegue melhor que ninguém dar elogios sinceros, sorrir com os olhos e dizer o que as pessoas gostariam (ou precisam) de ouvir sem peçonha nem falsidade. Basta-lhes escolher um ponto que seja verdadeiro e realçá-lo: perto delas os homens sentem-se jovens outra vez, sem que haja, no entanto, coquetterie ou vulgaridade nas suas maneiras. 

 O seu boudoir é um santuário. Tudo o que as rodeia é requintado, limpo, simples, honesto. Falam a toda a gente com bondade e respeito - reservando especial meiguice para tudo o que é vulnerável. Não se ufanam da sua caridade, não aderem a causas com o fito de se exibir.
 Também não acreditam em psiquiatras, as depressões resolvem-se à boa moda antiga, entre mulheres, com copiosas sessões de choro e palmadinhas nas costas até que a mágoa saia de dentro do corpo, longas noites de descanso, umas visitas ao Confessor, alimentação reforçada - caldinhos, chocolates - e se puder ser, uns passeios a Roma ou uma temporada na praia, mas longe das multidões. Se não puderem evitar aparecer em público, ninguém sonhará que estão deprimidas. Mesmo a sua tristeza é tão suave que lhes dá uma aura de santas, de mater dolorosas, que é artística em si mesma.  Reagem à adversidade, à mudança indesejada, com a graciosidade que só pode ser possuída por quem sabe que neste mundo, tudo nos é emprestado. E por isso são serenas. E continuam belas, ou se não belas encantadoras, mau grado o  passar dos anos.
 Mulheres assim são tão difíceis de encontrar, hoje em dia, como um homem honesto.
E quando me cruzo com uma, tiro-lhe o meu chapéu. Ou tiraria, se fosse homem e os tempos, outros.


2 comments:

Whatsername said...

Gostei, concordo praticamente com tudo que disseste, acrescentaria, talvez no final, que uma verdadeira senhora consegue ser feminista qb, sabe usar calças quando é necessário, mas também sabe usar saias. Não desespera nem se humilha por um homem, consegue ser independente mas também consegue admitir que um homem na sua vida faz falta e, sobretudo, consegue distribuir as tarefas entre si e o seu companheiro sem maxismos nem feminismos.

Mariana said...

Mulheres perfeitas não existem e ainda bem, seria um verdadeiro martírio tentar ser uma. Viva a diversidade.

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