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Friday, September 6, 2013

As relações Isaura-Leôncio.


                          
A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, conta-se entre os meus livros preferidos. As duas adaptações para televisão desenvolveram muito mais a história original,  já que o romance é pequeno e não só não tem extensão suficiente para o formato de novela, como deixa realmente a vontade de inserir mais diálogos, cenas e episódios, explorando o ambiente das fazendas (que sempre me fascinou) e as dinâmicas entre personagens. Confesso que  vi excertos de ambas, aqui e ali, mas ando com vontade de fazer um download e apreciar as tramas de fio a pavio. 
 As duas, claro, centram-se no enredo principal: a complexa relação Isaura/Leôncio...um dos meus casais preferidos, tanto em termos de literatura como de cultura pop.
 Supondo que haja quem não conheça a história, faço um resumo em duas linhas: Isaura é filha de um nobre miguelista português empobrecido, que por necessidade se torna feitor na fazenda do Comendador Almeida, e da linda escrava mulata Juliana. Apesar de ter recebido a mais esmerada educação, de parecer tão branca como as mais aristocráticas meninas da corte, de ser lindíssima e dotada de talento e espírito, não deixa no entanto de ser, legalmente, uma escrava como qualquer outra. 
 O filho do comendador, Leôncio, "belo como Luzbel" ou seja, dotado de beleza demoníaca e temperamento estouvado, desenvolve uma violenta paixão pela escrava. Mas Isaura, que é uma rapariga de brio, não quer ceder aos seus desejos porque, bem...tem sentido de dignidade e ainda por cima Leôncio é um homem casado. 
 Por sua vez, Leôncio acha - e a lei dá-lhe razão, sendo que aí reside a moral abolicionista do romance - que Isaura é propriedade sua, que tem todos os direitos e que pode fazer com ela o que bem entender. Mas como está deveras apaixonado e a superioridade de espírito de Isaura acaba por deixá-lo desarmado, não se atreve realmente a forçá-la. Tenta por isso, obrigá-la a ceder por meio de rogos, seduções, ameaças, tortura psicológica e mesmo - já que pode - através de castigos físicos. Chega até a pensar em divorciar-se para casar com ela. A pobre coitada acaba por fugir, e mesmo assim ele gasta toda a sua fortuna para persegui-la. Tudo com a desculpa do "amor". Leôncio afirma amar Isaura, mas não se importa minimamente com a sua felicidade nem respeita a sua delicadeza de sentimentos. A única coisa que conta, para ele, é a satisfação dos seus desejos, da sua vaidade, da sua autoridade. 
 Sempre achei que havia uma química imensa entre os dois (e não era só eu: 
contaram-me que quando a novela passou por cá, nos anos 70, o público torcia para que Isaura se entendesse com Leôncio, em vez de escolher o Príncipe Encantado, Álvaro) e que se Leôncio fosse menos obsessivo, ciumento e autoritário, menos doentio e mais compreensivo, talvez conseguisse o que desejava. Certas coisas não se conquistam pela força, e é isso que a heroína tenta muitas vezes fazê-lo entender: ainda que conseguisse fazê-la obedecer fisicamente, não teria autoridade sobre a sua alma. Esse o drama de Leôncio: quer Isaura de corpo, alma e vontade própria, algo que não se pode comandar de forma egoísta. E acaba por se destruir com isso (Isaura fica mesmo com o adorável Álvaro...uma pena!).

 Penso muitas vezes que há por aí muitas relações Isaura-Leôncio, que não faltam Leôncios por aí, mesmo com as mudanças na sociedade. Há muito quem confunda obsessão com amor, ou transforme a paixão numa obsessão perigosa, que destrói tudo o que toca. E já o tenho dito: isso resulta muito bem nos livros, mas na vida real...nem tanto.









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