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Wednesday, September 25, 2013

De cavalheiros e carroceiros

                               

Ouvi algures que o rugby é um desporto de carroceiros jogado por cavalheiros, e o futebol é (ou foi) um desporto de cavalheiros (actualmente) jogado por carroceiros. Sinais dos  tempos ou não, a verdade é que sempre achei graça ao rugby e ao futebol (football) nem por isso:  talvez por ser um jogo mais para carroceiro do que para cavalheiro desde que o conheço - sem ofensa a muita gente do melhorio que possa gostar de futebol; é por coisas destas que o mundo não "se tomba".
 Desporto à parte (pois como já devem ter percebido, esse não é exactamente o  meu departamento) por vezes noto que a diferença cavalheiro-carroceiro é mais subtil do que possa parecer à primeira vista. Antigamente, as coisas eram muito claras: um cavalheiro era-o por nascimento e educação;  a própria sociedade tratava de o envergonhar se não agisse como tal. Se o desafiavam para um duelo e ele por cobardia não aceitava, por exemplo, era obrigado a permitir que o rival lhe cuspisse no rosto onde quer que o encontrasse. Havia regras para tudo.
 Um cavalheiro era sempre considerado um cavalheiro, mesmo que se arruinasse ao jogo, tivesse o fato amarrotado ou fosse tão desleixado como certo Duque de Norfolk, senhor de si a ponto de fazer questão de trajar como bem lhe apetecia.

"Extraordinary, you could almost pass for a gentleman". 

 Hoje as coisas estão muito mais misturadas e acontecem, por exemplo, as "variantes" seguintes:
a) Carroceiros sem educação nenhuma que se fazem passar por cavalheiros
 ( estudos, cultura postiça, roupas melhorzinhas) mas mantêm os mesmos hábitos: *palavra muito feia* e vinho verde, maneiras ordinárias e honra nenhuma;

b) Cavalheiros com toda a obrigação, privilégios e fatiotas para o ser, que além de tudo fazem a questão de alardear ao mundo os grandes cavalheiros que são, mas que acham que o status e as roupas lhes bastam para manter o rótulo. As partes difíceis, as que realmente distinguem um cavalheiro de um homem vulgar, as atitudes superiores, essas...nem vê-las porque são uma canseira enorme e assim como assim, hoje já ninguém se lembra do que vem a ser um cavalheiro.

c) Os que confundem cavalheirismo com dandismo - duas coisas que nem sempre andam juntas e às vezes, chegam mesmo a estar em polos opostos.

d) Os cavalheiros com obrigação para o ser que não contentes em não agir como quem são, se misturam com os carroceiros da categoria a) e se for preciso, descem ao nível deles em cenas pouco cristãs e menos abonatórias.

Olhem que entre uns e outros, não sei o que é pior: se o ouro fino a pavimentar o chão, ou a lata polida a imitar prata. Uns não têm obrigação para mais, esforçam-se mas só fazem figuras tristes; os outros tiveram todos os privilégios, têm toda a obrigação e figuras tristes fazem.

Divertido, mas divertido mesmo, era testar-lhes a  coragem num jogo de rugby daqueles renhidos, estilo gladiadores com uma overdose de ginseng coreano. Aos encontrões, empurrões, safanões e chapadões uns aos outros, a ver se aprendiam. Como homens.           



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