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Monday, September 2, 2013

Vanitas vanitatum omnia vanitas‏.


Por aqui tem-se falado bastante da necessidade de Beleza. E de facto para o esteta, para quem é mundano, para quem procura fazer da vida uma arte ( e eu acredito que a nossa passagem pela terra deve revestir-se de toda a beleza possível, senão é uma sensaboria pegada)  a harmonia, o requinte, a pureza de formas e proporções, o conforto, o estilo, a qualidade, a (sempre relativa) perfeição física, as alegrias dos sentidos, têm um certo peso. Mas para um espírito elevado, todas essas coisas só têm valor na proporção da sua fragilidade. O espírito pequeno e aburguesado, desprovido de imaginação, agarra-se às coisas terrenas, materiais; é preciso algo mais para compreender que do mundo nada se leva, que os tesouros, as belas roupas e jóias, nada permanece connosco; que a beleza é preciosa por ser rara e frágil e que no fim, tem um alcance limitado. 

 Para uma mulher, ser bela (o que quer que isso signifique) receber os elogios dos seus admiradores, a adoração daqueles que a amaram, a aprovação do espelho, de artistas, de costureiros, de fotógrafos, ser adulada - tudo isso é bonito, é o que torna uma mulher, de certa forma, poderosa. Isso, e o engenho de que os homens tão temerosamente nos acusam. (Isto é um blog old fashioned, repito, dêem-me lá o desconto). A  mulher bela captada na época certa, no cenário certo, pelo pintor/fotógrafo/poeta/cronista/homem no poder certo, pode fazer a fama da sua beleza ecoar pelos séculos. Pensemos em Simonetta Vespucci, Agnès Sorel, Madame du Barry, Cleópatra.  Mas a verdade é que tudo isso só arranha a superfície. 
    Sabemos da beleza de Simonetta - amou, foi amada, morreu sem gozar a celebridade nem as paixões que inspirou. Mas nada sabemos dos seus desgostos, das suas lágrimas privadas,  ou se alguma vez a beleza foi uma maldição para ela: com a beleza, costuma vir o perigo, o ciúme, a tentação que é sempre temida. Desconhece-se se Botticelli, que todos sabiam estar apaixonado por ela, via em Simonetta mais do que a beleza, o ideal, se se ralava caso Simonetta estivesse triste. Ou se Giuliano de Medici, apontado como seu amante, encontrava em Simonetta alguma coisa mais do que o único corpo em Florença capaz de rivalizar com o seu. E o marido? Que pensaria da beldade com quem casara? Teria ciúmes? Será que fazia acusações que a obrigavam a chorar? No choro das mulheres bonitas há sempre alguma coisa de voluptuoso, que não é levado a sério; a percepção errada de que depressa se consolarão com outra coisa, de que tudo nelas é fácil, simples e transitório. 
 A beleza, como a Fortuna, abre umas portas e fecha outras. E muitas vezes cria uma fronteira que não permite aceder à alma. Quando assim é, quando a beleza e as suas consequências geram desconfiança, o coração fecha-se a  ela. Um homem ciumento e rancoroso é imune a todas as vantagens proporcionadas pela formosura: a sedução e a meiguice. A beleza torna-se, portanto, inútil para a mulher em causa;  e para que serve a Beleza se não é para ser amada, se não serve outro propósito que não suscitar admiração inicial e se em última análise, compromete a compreensão da inteligência, honestidade ou bondade de quem a possui? 
                                   Para nada. 

Vaidade, tudo vaidade e nada mais que vaidade. A História da Arte está cheia de beldades que choram - e até o seu sofrimento é decorativo. Ao menos, que pareça bonito. 

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