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Wednesday, October 30, 2013

Parto natural...ou momento National Geographic?

            

Quando se trata de crianças ou temas relacionados, a sociedade perde o discernimento e parece incapaz de distinguir o bem do mal. Só assim se justifica o aplauso generalizado pela profunda "experiência de partilha e amor" que é uma mulher ter decidido divulgar  o vídeo em que dá à luz: nada de novo não fosse parto feito tal como veio ao mundo, num lugar público, num ribeiro e rodeada da família alargada, incluindo crianças pequenas.

Começo por explicar que um parto não me aflige minimamente - se precisar de acudir a um e não houver mais ninguém por perto faço-o sem pestanejar, rezando aos santos todos para que apareça alguém com mais conhecimentos do que eu. Tenho mesmo uma certa simpatia pelos nascimentos à moda antiga - desde que os homens não venham meter o nariz em assunto de mulheres (a responsabilidade até pode ser deles, mas acho que não há romance que sobreviva a uma cena dessas) e que haja consciência dos riscos.
 Uma antepassada minha sentiu as dores  quando guiava uma charrette e desembaraçou-se sozinha (veio a conduzir até casa, se querem saber) mas hoje não há necessidade de tais extremos.

 Confesso que o ambiente de um hospital, em circunstâncias tão embaraçosas, me dá calafrios. E é por isso mesmo que não consigo entender essa exposição - que palavra de honra, me pareceu mesmo um momento National Geographic, sem tirar nem pôr - nem a atitude New Age perante o que não pode ser mais que uma necessidade de attention whoring.

São opções de cada um, mas impor aos filhos uma tal exposição não me parece bem: lidar com o facto de ter assistido desnecessariamente ao parto da mãe é uma coisa que já não imagino- mas o que acontecerá se algum dos pequenos deixar de ser hippie e tiver de lidar com essas imagens a percorrer a web para o resto da vida? Como vão as filhas adolescentes gerir  o assunto na escola? (Porque nem todas as crianças hippies estudam em casa para sempre, certo?) Quando se trata de crianças, as opções não são só dos pais. Não há curiosidade "científica" , "poder feminino" nem ideias de "mulher sagrada" que branqueiem a brincadeira.
 Fico na minha: tal como a amamentação, o parto é sagrado e a coisa mais natural à face da terra, mas por isso mesmo é muito privado. E a dignidade da mulher devia estar acima de tudo, principalmente quando não é só a sua imagem que está a vender de uma forma muito pouco edificante. Somos primatas, certo - mas há limites. Do "comovente" ao "constragedor" não haverá uma fronteirazinha?


2 comments:

*C*inderela said...

Já vi um parto na água num video partilhado no facebook. Se eu já não tenho aquele instinto maternal, muito menos depois de ter visto o video. E concordo que eles não devem espreitar nesse momento, acaba com qualquer romance mesmo :P Felizmente eles ficam à cabeceira.
Quanto à amamentação, é um acto completamente natural mas a mama é nossa, se não se anda com elas à mostra noutras ocasiões, a amamentação não é excepção. Uma fraldinha a tapar não custa nada.

Bjokas.

Adeselna Davies said...

And there goes my biological clock! Escusavam de meter isto no YouTube O.o Estava lá assistência médica? E se acontecesse alguma coisa com o bébé ou a mãe? Por outro lado, a posição em que ela está, segundo me têm dito é mais confortável, do que as dos hospitais. A minha professora de alemão estava muito indignada porque achava que não tinha jeito nenhum estarmos deitadas quando o mais normal é estar em pé.

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