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Sunday, October 20, 2013

Rhett Butler dixit: might trick me once...

                               

"Terei o consolo extremamente poderoso de não ser idiota uma segunda vez.
      Isso ajuda muito a apagar a humilhação da primeira". 
                                    
                                               in Scarlett, de Alexandra Ripley

Como diz o nosso sábio povo, à primeira qualquer um cai, à segunda só cai quem quer. A gíria "parvo és tu que já cá vieste três vezes"  é - falando à moda de Hermes Trimegisto - verdade, sem mentira e muito verdadeira.
 Até o ser mais perspicaz pode ser enganado uma vez, principalmente se a agudeza de espírito andar acompanhada de boas intenções. Quem não faz o mal e não pensa o mal, pode ser incapaz ver o mal.  A vergonha cai sobre quem praticou o engodo, não sobre quem acreditou de boa fé.

 No entanto, é sabido que quem faz uma faz um cento. A fera que ataca uma vez não se torna boazinha e integra assim como assim, e o ser humano é um bichinho de hábitos que tende a actuar por padrões. Old habits die hard.

 Embora o perdão, a compreensão e a misericórdia sejam  deveres de todos, embora toda  a gente tenha direito a uma segunda oportunidade, é sabido que os maus hábitos de uma vida muito dificilmente se perdem. E que o vício de mentir ou de persistir no erro  costuma perdurar - ou mesmo que não perdure, dá-se a história do rapazinho que gritava "Lobo!". Nunca se saberá o que é verdade e o que é mentira.

  Crer uma segunda vez é um investimento de alto risco, porque a confiança é o recurso mais valioso que se pode possuir. Dá-se o velho estribilho - a confiança quebrada é como um espelho partido: pode colar-se, mas a rachadura fica sempre lá
 Quem queira fazer essa aposta arriscada só tem um remédio: não aceitar passar uma conveniente borracha, varrer os cacos para debaixo do tapete e agir como se nada se tivesse passado. 

Porque quem é honesto e quer sinceramente reparar uma asneira, não descansará enquanto tudo não estiver debatido, sarado e esclarecido. Enquanto não se removerem todos os espinhos para se plantar novamente, mesmo que isso implique  opções fracturantes. É como na Igreja: nenhum pecador está sinceramente arrependido, nem espera absolvição se não estiver disposto à confissão e penitência. Só aí fica com a ficha limpa. Não se pode servir a dois senhores.

Se a atitude não for essa, está-se a fazer pouco do Prior; nem é preciso ser bruxo para perceber que tudo continuará na mesma. Que a boa vontade é da boca para fora: não passa de conveniência, falta de respeito e egoísmo. Quem age assim troça veladamente da pessoa que ofendeu - pede desculpa porque lhe dá jeito mas está-se perfeitamente nas tintas para os danos que causou. Não está disposto a mudar uma vírgula ou a prescindir da mais pequena coisa por respeito ao outro.
 Nesses casos, é só uma questão de tempo até o filme se repetir, eventualmente com outros figurantes mas o mesmo elenco, o mesmo enredo e a mesma música.
  
E mais vale ficar com o consolo de não ter sido idiota uma segunda vez. Ou uma terceira, uma quarta, uma quinta. A idiotice, tal como os maus hábitos, tende a tornar-se crónica ao fim de algum tempo de exposição.

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