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Monday, December 30, 2013

"O amor que se tem por um monstro é mais meritório..."

                                   
...dizia Maria Eduarda a Carlos da Maia.

Ontem, apetecendo-me o prazer cada vez mais raro de me estender perto da lareira com um livro na mão, tirei um volume velhote da estante (de uma colecção que por cá anda em casa, "Os Malditos", nem mais, que narra as biografias de pessoas simpáticas ou simplesmente controversas como Gilles de Rais, César Bórgia, Judas, Torquemada e o próprio Diabo). E passei um bocado a rever as aventuras e desventuras do Marquês de Sade, a.k.a o Divino Marquês
 Ora, da sua obra eu conheço pouco (ler, ler, só li Justine, ou os infortúnios da Virtude e é de facto uma boa obra...de terror) mas sempre tive alguma curiosidade pelo homem. 

Não há muito a dizer do seu percurso: uma sucessão de estroinices, de exageros e de deboches que hoje levantariam sobrancelhas mas naquele tempo (e com a ajuda de uma sogra que o odiava mortalmente) quase lhe custaram a vida e o levaram à prisão, ao exílio, à bancarrota e a internamentos sucessivos em manicómios. Um homem com uma imaginação febril, descompensado e com destreza de pluma (combinação fascinante) um rebelde com eternos problemas com a mãe (que pouco mais foi que uma estranha para ele) um enfant terrible que nunca cresceu realmente.

 A sua prosa era cativante, o seu nascimento - descendia da célebre Laura de Petrarca - fazia crer que tinha o mundo aos seus pés e era dotado de certo encanto. Mas algo nele não funcionava - no corpo, e por consequência na mente e na forma que escolhia  para expressar os seus impulsos.  E tudo isso tornava impossível viver com ele. 
File:Marquise de Sade.jpg                               


Até aí, nada de novo. A parte da história que eu não conhecia, e  que me prendeu a  atenção, foi a devoção da sua mulher, Renèe. 
 De nobreza recente, com pergaminhos comprados mas uma posição apreciável, a futura marquesa casou com Donatien de Sade por conveniência. Era jovem, era demasiado gentil e ingénua -  mas apaixonou-se completa, absoluta, sinceramente. Mesmo depois de incontáveis desgostos, de ser enganada, de ver o seu nome e o da família arrastado pela lama, de ser ameaçada com a mais completa ruína seguiu-o de cárcere em cárcere, de exílio em exílio. Foi contra a própria família para o defender. Arriscou-se várias vezes a viajar sozinha na tentativa de ver o marido algumas horas. A parentela condenava-lhe a cegueira, França lastimava-a, mas ela - com pouca recompensa - foi sempre leal, sempre apaixonada.
 Mesmo depois da inevitável separação, de mútuas e amargas acusações, continuou a apoiá-lo - e ao que parece, a amá-lo. 
 A voz de Renèe não chegou até nós e não podemos ler os seus sentimentos com precisão. Talvez acreditasse, como muitas mulheres do seu tempo, que o casamento era para sempre, mesmo quebrados todos os votos. Ou que o amor é incondicional, mesmo se não é devolvido na medida que se espera. 
 Ou talvez pensasse - e isto parece-me a hipótese mais provável - que o homem a quem se dedicara não era mau, apenas gravemente doente. Que havia um bom rapaz debaixo de todo aquele desvario. Provavelmente, como tantas pessoas perturbadas, Sade possuía uma intensidade que falta às mentes sãs, intensidade que aliada à paixão transforma um romance ou casamento banal num sentimento fatal e pungente, que não sara e contagia ou arrasta quem ama um louco para a mesma loucura. Mas disso não reza a história, e Sade não explicou. Porque era demasiado insano para compreender.

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