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Saturday, February 9, 2013

Happy B-Day, Carmen Miranda!

                       
A "pequena notável" de Marco de Canaveses, a brasileira mais portuguesa de sempre, ícone de moda, estrela de Hollywood e grande coleccionadora de sapatos incríveis, faria hoje 104 anos. Continua a inspirar criadores, artistas e músicos por toda a parte, e tenho pena que a sua imagem não seja mais promovida na pátria que a viu nascer. Ninguém é profeta na sua terra, mas não esqueçamos que a menina de "South American Way" e " O que é que a baiana tem?" é muito nossa. Happy Birthday, Carmencita.




As tendências Primavera-Verão foram pensadas para mim, é? Que fofinhos.

  Obrigadinha, senhores designers. Eu bem disse há dias que ando poderosa, a atrair as coisas de que falo (ainda estou a aprender a controlar os super poderes, por isso não esperem milagres tão cedo). Ou isso ou alguém leu os meus pensamentos e se dedicou a ir buscar as influências de que mais gosto para as tendências de Primavera Verão. Pelo andar da carruagem vou divertir-me como gente grande, ai vou. 

                                             abecedario con todas las tendencias de moda de primavera verano 2013: j de juego de tronos
Rodarte foi uma das casas a propor peças inspiradas em Game of Thrones. Tudo o que é medieval - ou inspirado - é lindo, digo eu...

                         abecedario con todas las tendencias de moda de primavera verano 2013: k de kimono
                          abecedario con todas las tendencias de moda de primavera verano 2013: o de oriente
Kimonos, acompanhados de plataformas altíssimas, são o must have da estação segundo Pucci e Haider Ackermann. Já Prada...goes geisha.  O brocado continua. Obi belts, tailleurs a recordar os sensuais decotes nipónicos, negro profundo, florais e encarnados evocam as maiko, as tayu e todo um mundo "de flores e salgueiros" e ligações apaixonadas.  Are you big in Japan?

                         abecedario con todas las tendencias de moda de primavera verano 2013: l de lady
Casas como Botega Venetta, Carven e Nina Ricci defendem a continuação do look ladylike, com saias, casaquinhos e linhas hiper femininas. What´s not to love, Sissi?

                                    abecedario con todas las tendencias de moda de primavera verano 2013: r de recato
Recato, modéstia, linhas depuradas e severas: o estilo espartano sugerido por Gucci  e Valentino é puro, repousante, eficaz. Ideal para acessorizar ou para os dias em que uma mulher quer brilhar por si própria.

                                   abecedario con todas las tendencias de moda de primavera verano 2013: w de witch rock
Witch rock: inspirada nas musas femininas do rock & roll, a tendência sugerida por Hedi Slimane para Yves Saint Laurent alia o gótico ao poder da mulher. Perfeito.


A minha cunhada dixit, ou a Lei de Murphy dos computadores


                             
"Eu devo ter atirado muito calhau à cruz noutra reencarnação!", lamenta-se ela, com este original estribilho que usa muitas vezes, depois de o computador lhe ter morrido de morte matada e definitiva nas vésperas da entrega da tese. E digo eu, ainda estou para conhecer um computador que não tenha um badagaio dos grandes sempre que há vésperas de qualquer coisa inadiável. Um dia antes de entregar o relatório de estágio, o meu pifou engolindo-me metade do trabalho. Valeu-me o meu melhor amigo que ficou a pé toda a santa noite para me acudir, má memória. Diabos levem as engenhocas.

Friday, February 8, 2013

Loggia: Coimbra vive

Imagem: C. Jorge Monteiro

É sempre agradável ver um lugar ao qual temos uma ligação afectiva devolvido à magnificência que merece. O Museu Machado de Castro foi palco de alguns dos melhores momentos da minha infância, e muito responsável pelo meu amor pela História. À tão aguardada reabertura, em Dezembro passado, seguiu-se a inauguração de um espaço muito especial: o restaurante-esplanada Loggia, que promete tornar-se um dos pontos mais interessantes da cidade, conjugando a beleza do passado - menu romano, uma vista espantosa sobre a zona histórica e o Rio Mondego - com um ambiente tranquilo  e acolhedor. Fechei, portanto, o mês de Janeiro entre amigos e caras familiares, com muita gente bonita no cocktail de apresentação. Quem tem adiado a sua visita a Coimbra  (ou quiser eventualmente encontrar-se para dois dedos de conversa ao som de música ao vivo) aqui tem uma excelente desculpa para passar por cá. Deixo-vos alguns instantes da noite:

                           
                            
Imagem: C. Jorge Monteiro

Imagem: C. Jorge Monteiro

Ainda Anne Boleyn: french chic



Sobre a célebre elegância sem esforço das parisienses já se têm escrito vários tratados de moda. Conselhos como comer bem, beber e amar bem, andar ao ar livre, estar sempre apresentável, não descuidar a lingerie e a roupa de dormir "não vá haver uma catástrofe e uma pessoa ser salva pelos bombeiros em tristes figuras", saber usar os princípios da coquetterie e escolher peças de qualidade são verdades intemporais passadas de mãe para filha. Desse tema, bem como do chic italiano, trataremos um dia destes. Hoje
 importa-me realçar, no seguimento do post de ontem, que o encanto francês não é um fenómeno recente. Não começou sequer com Marie Antoinette ou vá, Madame de Pompadour. Como foi dito ontem, um dos factores de atracção da Rainha Anne Boleyn era o seu sentido de estilo apuradíssimo, que fez um efeito de causar aneurismas na corte de Henrique VIII. E onde aprendeu ela essa graça, esse requinte simples, que fez escola e punha os homens de cabeça à roda? Na corte francesa, claro. Imaginem-se a viver rodeados de english roses rechonchudinhas de  faces rosadas e cabelos claros que se vestiam assim...
                                 
...e aparecer a menina Anne com os seus toucados franceses, muito mais pequenos e graciosos, mangas longas e elegantes, corpetes justos q.b e decotes pronunciados, a realçar a sua beleza dramática. Assim, passem os preciosismos:
              
               
Reparem como estes formatos continuam presentes em muito do que usamos agora. Não esquecer também que Anne não escondia a sua magnífica cabeleira, ao contrário do que era moda na divertida, mas pesadona em termos de moda, corte inglesa. Quando foi coroada e ganhou o direito de montar a sua própria casa, foram estes os visuais impostos às açafatas e damas de companhia da nova Rainha consorte. O palácio sofreu uma verdadeira revolução de estilo. É claro que a senhora que se seguiu, Jane Seymour, acabou com a brincadeira num ápice mal se sentou no trono: baniu os bonnets franceses, os cabelos soltos e outras "extravagâncias" que o seu gosto modesto não tolerava. Mas enfim, se a "Good Queen Jane" é lembrada como a única das seis mulheres que conseguiu de algum modo domar o feroz Barba Azul, o seu estilo não ficou para a História. Anne Boleyn, por seu turno, continua a impressionar e inspirar. As it girls nunca morrem realmente.

Get the look: Dior, uma toilette expresso

Já tenho mencionado que considero as saias um óptimo investimento, nomeadamente quando se trata de brocados e estampados. São mais resistentes à mudança de tendências e possibilitam criar várias toilettes diferentes. Todas as mulheres deviam ter pelo menos uma saia lápis preta e uma saia luxuosa, de grande efeito, colorida e se possível, rodada no seu closet. Quanto mais clássico e feminino o modelo, melhor. Os saldos são uma ocasião excelente para comprar exemplares bonitos e que duram vários anos por preços módicos. A combinação Saia Especial + Camisa Branca é uma das minhas preferidas, como vos mostrei recentemente, mas combinar "A Saia" com um top de manga comprida preto e sapatos elegantes é outra opção infalível. De preferência, escolham um top com decote largo, de bailarina, e sapatos ou sandálias finos e elegantes, como os metálicos que vão estar muito na berra nos próximos tempos. E pronto, uma toilette em cinco minutos. 




Thursday, February 7, 2013

Anne Boleyn, crime: ter cabeça

                                                     
Para os padrões da sua época a segunda rainha de Henrique VIII, a mulher que virou Inglaterra do avesso, não era considerada uma beldade: pálida de pele, mas não do "branco puro" que estava na moda; esguia (quando o ideal era uma figura algo voluptuosa) e com um longo cabelo azeviche que lhe chegava abaixo das ancas, cortesia da sua avó irlandesa, tinha mais de feiticeira ou sedutora fatal do que a imagem da esposa ideal para um monarca. A sua maior beleza, segundo os contemporâneos mais ou menos simpatizantes, estava nos grandes olhos escuros, sedutores e expressivos. 

                                  
Quem não gostava dela exagerava este traço, chamando-lhe "prostituta de olhos esbugalhados" mas para os seus admiradores ela sabia realmente "usar os olhos com efeito". O famoso pescoço de cisne e a boca "um pouco grande, mas bonita" (algo que seria um factor positivo nos nossos dias) eram outros predicados que contribuíam para o seu poder de atracção. É natural que, chegada de França, onde foi educada como dama da Rainha Cláudia (senhora de notável instrução) e privou com a fascinante Diana de Poitiers, as suas toilettes graciosas (tão diferentes das pesadas fatiotas e toucados em voga na corte inglesa) o seu espírito e o talento para a música e a dança, aliados a uma beleza tão dramática, tão original, captassem as atenções. 
Mais do que formosura convencional ou o pedigree certo (por parte da mãe, Lady Elizabeth Howard, era neta do segundo Duque de Norfolk mas a família do pai, o notável diplomata Thomas Boleyn, tinha um background ligado ao comércio) Anne possuía uma educação sofisticada, um sentido de estilo infalível e um poderoso sex-appeal. Era carismática, divertida e boa companhia - qualidades essenciais para ter sucesso na corte de Henrique VIII. Demasiado sucesso. Se não há muito tempo os historiadores concordavam com a tese de Anne Boleyn como sedutora implacável, destruidora de lares e por fim, adúltera que teve o que merecia, a visão actual é bem mais benevolente. Alguns apontam-na mesmo como uma das maiores vítimas de assédio sexual da história. O grande amor da sua vida não terá sido o Rei, mas Henry Percy, filho do Conde de Northumberland. Na altura em que Anne entrou ao serviço da que se tornaria sua rival, a Rainha consorte Catarina de Aragão, os dois jovens estavam apaixonados e assinaram mesmo um pré contrato nupcial. Pensa-se que foi por influência do monarca, que já teria voltado os olhos para Anne, que o Cardeal Thomas Wolsey arranjou forma de desfazer a união. (O casal nunca lhe perdoaria e vingar-se-ia mais tarde). Em 1526, o Rei começou oficialmente a cortejar (ou perseguir, conforme a perspectiva) Anne. Por essa época, ainda com os predicados que lhe tinham valido a alcunha de " o mais belo príncipe de toda a Cristandade", Henrique era um homem determinado, obsessivo, caprichoso, pouco habituado a aceitar uma recusa. Anne defendia-se: não queria ser amante do soberano, como a sua irmã, a desmiolada Mary - usada e rapidamente posta de parte. Anne desejava manter uma reputação séria e fazer um bom casamento, de acordo com a sua posição. Por outro lado, ofender o monarca podia ter consequências desastrosas para si e para os seus. O Rei estava loucamente enamorado: detestava escrever cartas mas sobreviveram várias missivas de amor, elaboradas pelo seu punho, dirigidas à perturbante morena. Debalde: Anne manteve-se firme, recuando como podia; só se entregaria a um homem que fosse seu marido, e o Rei já era casado... 

                      ..
 Tanta resistência obrigou Henrique a decidir-se, e o resto é história: após sete anos de namoro e uma cisão com o Papa, casou com Anne em 1533, quando esta já desesperava de ter lançado à rua os melhores anos da sua vida. Mas como acontece tantas vezes, o desejado troféu perdeu a graça depois de obtido. Anos de espera, de sustos, de angústias, tinham desgastado a paixão que os unia. Acima de tudo, as qualidades que pareciam irresistíveis numa amante - espírito, ideias, língua afiada, resposta pronta, sensualidade, personalidade - revelavam-se incómodas numa esposa. Mais do que a incapacidade de gerar um filho varão, este terá sido o principal motivo para a queda da rainha consorte: o rei rapidamente se saciou dela, e Anne não lhe tolerava os destemperos como Catarina de Aragão tinha feito. Como sua mulher exigia explicações, não admitia infidelidades, interferia em decisões políticas. Henrique era conhecido pela sua generosidade, quando "levado por bem" mas abominava ser contrariado. O leito conjugal tornou-se um inferno e bastaram meia dúzia de intrigas para fazer o resto. Como bom infiel, acusou-a do mesmo. O homem que a pusera num trono tornou-se o seu carrasco.
Quanto a Henry Percy, casou com Lady Mary Talbot, mas ao que tudo indica, continuou  apaixonado por  Anne até ao fim: no seu julgamento, teve de ser levado em braços - desmaiou, por não suportar ver a mulher que amava ser condenada.







Modo do dia: Non, Je Ne Regrette Rien


Sienna Miller

A ironia dos Deuses nunca deixa de me surpreender. Felizmente, as suas lições algo sardónicas costumam vir acompanhadas de dádivas. E eu não gosto de as recusar, não vá cair algum castigo por ingratidão das núvens, que de aborrecimentos já basta. É notável como de um momento para o outro as nossas perspectivas e prioridades podem mudar completamente, mesmo para quem se considera a pessoa de ideias mais firmes (ou a criatura mais casmurra) à face da Terra. 

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien.
Ni le bien qu'on m'a fait,
ni le mal, tout ça m'est bien égal.


Os planetas alinham-se para fazer coincidir o momento em que o já muito citado saco de paciência tem o seu canto do cisne com o espaço criado para a mudança, uma certa revolução interior, um salto cósmico da nossa alma e circunstâncias realmente extraordinárias. Digo-o muitas vezes: sou como a Rainha de Copas, acontecem-me sempre três coisas impossíveis antes do pequeno-almoço. Não é que algo me espante - com o que tenho visto, isso seria contraditório - o que estranho é a minha reacção e a capacidade de me adaptar (eu, granítica) a acontecimentos tão inesperados. 
Despedi-me de muitas coisas, queimei pontes, mandei tudo para o espaço, dei o peito às balas esperando enfrentar o mundo à minha maneira. 

Avec mes souvenirs,
j'ai allumé le feu.
Mes chagrins mes plaisirs,
je n'ai plus besoin d'eux.

Non, rien de rien,
non, je ne regrette rien,
C'est payé, balayé, oublié,
je me fous du passé.

E o Universo moveu-se, ou moveu alguma coisa cá por dentro. É que de um momento para o outro, coisas em que tive tanto empenho não me importam nada. Nem o bem, nem o mal, nem o que estava pendente, nem os temidos "e ses?", nem ajustes, nem remorsos, nem dúvidas . 
Estou-me nas tintas para o passado. Não sei bem o que está adiante, mas quero a alegria da descoberta. E por uma vez, não franzir o sobrolho aos ventos de mudança. Isto de se ser circunspecto, sorumbático, inabalável, também cansa.
                               


   

Wednesday, February 6, 2013

Sissi responde: para os meninos magros com "corpo em V"

                                                  
No seguimento dos posts sobre os tipos de corpo masculinos, pergunta um respeitável cavalheiro: 

"Pois, é que eu sou magricelas, logo não tenho NADA desenvolvido...
Tenho é ombros largos, tipo o Jim Carrey de antigamente (quando ele ainda era magricelas mesmo, agora está mais normal).
Como tenho os ombros mais sobressaídos que o resto sou capaz de seguir os teus conselhos do "V".
Eu tenho ainda outra cena que é ter o pescoço comprido, logo deveria usar golas altas, certo?
E já agora podes explicar porque é que este tipo de corpo não deve usar jeans escuros?"

Ao escolher  roupa para nós, meninos e meninas, devemos ter em atenção dois factores: o nosso tipo de corpo, para que as proporções ajudem a equilibrar a figura, e o volume, massa muscular, altura... que variam. Há pessoas baixas ou altas, magras, gordas, elegantes ou musculadas dentro de todos os tipos (masculinos e femininos). Considerando esse aspecto podemos jogar com outros truques, ou neste caso: usar a roupa adequada para o corpo em V e para rapazes magros.
O corpo em V , ou Triângulo Invertido masculino, tende a ter as pernas magras em relação ao tronco, pelo que os jeans (ou outras calças) de tons claros equilibram a figura, dando a ilusão de pernas mais fortes, ao passo que os denims escuros emagrecem visualmente. Este conselho é válido para quem apresenta um contraste grande entre o tronco e as pernas, ou para quem se queixa de "pernas de alicate". É preciso notar que estas são linhas de orientação e há corpos em V mais  acentuados do que outros. As calças podem ser a direito (nem muito largas, nem afuniladas, a não ser que se goste do visual "Emo") algo folgadas ou com pinças. O tecido das mesmas- especialmente para os Triângulos Invertidos magros - deve ser consistente ou mais espesso. Pernas e glúteos magros podem usar (sem exageros) as "fantasias" que geralmente não são recomendáveis para outras figuras, pois "engordam": bolsos, costuras laterais, botões nos bolsos traseiros, etc. 
Para dissimular um pescoço demasiado longo e/ou fino, há que evitar os pullovers em "V" (que alongam) os coletes e as lapelas largas, bem como as temíveis camisolas decotadas para homem (pessoalmente acho que essas são para evitar de todo, mas num pescoço longo são mesmo má ideia). Para quem é demasiado gordo ou magro, cabelos muito curtos ou demasiado compridos não são aconselháveis: é melhor optar por penteados soltos ou mais longos (pelo queixo, ou médio) que emolduram o rosto e realçam os contornos. Quanto mais "alto" for o cabelo, mais comprido vai parecer o pescoço. 
Golas altas - justas, ou ligeiramente fofas e descaídas - são uma boa opção. Lenços ou cachecóis sobre camisas (não demasiado abertas) ou camisolas ajudam sempre, e permitem dar algum volume a essa zona sem "encorpar" demasiado o tronco. 
Uma combinação fácil para o dia-a-dia seria uma camisola de gola alta escura, de espessura média, um casaco a direito de tecido espesso e ligeiramente justo (sem ombreiras e usado aberto) cachecol claro ou de cores vivas e calças chino ou jeans clássicos, num tom mais claro do que o resto do conjunto. 

Brilhante comentário da semana: meninas, retenham esta máxima

                 

A propósito do texto de ontem, a nossa estimada Rosa Cueca teve um rasgo cintilante. 

"O homem ideal é como o par de sapatos certo: 

quando é de qualidade, podemos fazer quilómetros

 nele e dura-nos uma vida!" 


É caso para dizer, como é que eu não pensei nisto antes? Bravo!

Behind blue eyes


Não estando entre as bandas que mais ouvi ao longo da vida ou que conheço melhor, tenho um fraquinho pelos The Who. Tommy é um dos filmes da minha vida: os meus pais, que o tinham adorado nos tempos de namoro, trouxeram-no para casa e em menos de nada eu, o meu irmão e primos estávamos viciados (lá em casa acreditava-se que na música, como noutras coisas, de pequenino se torce o pepino...). Estranhamente, talvez por adorar o ambiente épico de Tommy nunca me apeguei a outros trabalhos - bem mais crus - da banda de Keith Moon, Pete Townshend e Roger Daltrey. Mas adoro-os pelo génio, pela imaginação, por rasgos. Behind Blue Eyes (que muita gente só conhecerá na versão dos Limp Bizkit) é um deles: uma canção de grande simplicidade, com uma letra inesquecível. 
 Mostrar-se impassível quando algo dói lá por dentro é um desafio necessário em sociedade. Todos temos um lado negro, mágoas, segredos; o auto domínio férreo de certas emoções é condição sine qua non para bem viver (em certas circunstâncias ou circuitos, pelo menos). A arte de nunca aparentar mais que leve enfado, de ter graça, espírito, suavidade, serenidade é vital, mas cansativa. E convém que não seja preciso utilizá-la muitas vezes. Há quem viva behind blue eyes durante demasiado tempo - camuflando desejos de vingança, pendências, sonhos despedaçados, amores amargos por trás de uma aparência graciosa e blasé .  Esse não pode ser um estado permanente. Há que entrar em contacto com a realidade, pôr os pés na terra, aproximar-se das emoções genuínas que não necessitam de disfarces. Os artifícios, como a maquilhagem, têm de ser usados com moderação.
No one knows what it's like
To be the bad man
To be the sad man
Behind blue eyes
And no one knows
What it's like to be hated
To be fated to telling only lies

But my dreams they aren't as empty
As my conscience seems to be
I have hours, only lonely
My love is vengeance
That's never free

No one knows what its like
To feel these feelings
Like i do, and i blame you!
No one bites back as hard
On their anger
None of my pain and woe
Can show through

No one knows what its like
To be mistreated, to be defeated
Behind blue eyes
No one knows how to say
That they're sorry and don't worry
I'm not telling lies


Bombeiros Voluntários de Vagos e o Gangnam Style

Ok, se calhar isto não é muito melhor. E no entanto...(Calendário dos Bombeiros de Nova Iorque)
Ninguém defende mais do que eu que uma farda deve ser dignificada. Mas como filha e neta de homens que honraram o seu uniforme (não de bombeiros, mas do Exército e Força Aérea) sei que há momentos em que os homens (e mulheres) que o vestem precisam de brincar. O ambiente "de caserna" proporciona isso. Recordo-me de certa Festa de Natal do Exército que foi um verdadeiro espectáculo, com danças e veículos de guerra em palco, uma produção de deixar a um canto muitos shows profissionais por este país fora. Os oficiais divertiram-se. Quem assistiu adorou. A dignidade não saiu, de modo algum, beliscada. Os grandes artistas do passado cantaram para animar a moral das tropas: Joe DiMaggio não achou graça nenhuma à reacção entusiasta dos militares perante a actuação de Marilyn Monroe na Coreia. De tudo se compõe a farda. No caso dos Bombeiros Voluntários de Vagos, o vídeo tornou-se viral - houve quem achasse o máximo, houve quem pregasse contra, que mancha a imagem nobre do Bombeiro, etc. Mas é preciso recordar que por trás dos heróis que tão poucos apoios recebem para o trabalho de nos proteger a todos há seres humanos. É preciso que o público veja o outro lado das instituições. Que veja os rostos sob os capacetes. O vídeo tem graça no seu contexto e não é tão diferente de criar calendários para alegrar a cozinha das senhoras (ver acima) para angariar fundos muito necessários (o bom gosto dos mesmos já é outra história). Já basta arriscarem a vida todos os anos, não me digam agora que não podem fazer uma brincadeira que não prejudica ninguém. E depois a embirrenta sou eu...Sempre há gente muito maldisposta, com mil diabos.


Tuesday, February 5, 2013

A coisa mais estúpida...

                       

...é sentir fome e não ter apetite. Ou ter preguiça de comer, Deus me perdoe. Até pode dar jeito, mas é estúpido. Sinto-me novamente a pastelona do infantário, com as Irmãs sentadas ao pé de mim em modo "não sais daqui enquanto não limpares o prato!" (má memória). Fome e vontade de comer não são decididamente a mesma coisa. Também vos acontece?

João da Ega dixit: deveres femininos



O brilhante, mas que falava muito da boca para fora, João da Ega, de quem se falou recentemente  
por cá, tem n´Os Maias a seguinte tirada: o primeiro dever de uma mulher é ser bela; o segundo é ser estúpida. Uma mulher só deve ter duas prendas: cozinhar bem e amar bem...
Também na Tragédia da Rua das Flores, o pintor Camilo Serrão escolhe uma mulher lindíssima, de rosto romano, delicada, escultural, mas simplória - ou como ele diz, uma fêmea.

"uma combinação da raça árabe e a raça céltica(…)  Uma simples fêmea , um belo pedaço de animal com um
corpo de estátua (...)"

Haveria que dizer acerca dos critérios de tais estetas. Penso que para tudo, mesmo as coisas mais básicas como cozinhar bem e amar bem, há que ter algum espírito. E para que a beleza brilhe, é preciso que haja algo mais a luzir lá por dentro. Por outro lado, uma das tácticas mais importantes ensinada às meninas casadoiras de outros tempos era precisamente dominar a arte de se fazer mais tonta do que na realidade se era. Há algo perversamente divertido em dominar a situação fingindo-se de novas. Uma mulher verdadeiramente inteligente usa o intelecto, não o alardeia quando não é necessário. O nosso poder vai para além disso.

Brilhante conclusão do dia: os sapatos, tal como os homens...


                      

Todas sabemos que os scarpins e stilettos menos arredondados voltaram para fazer companhia aos pumps altíssimos. E, nós, portuguesas a pisar diariamente a portuguesa calçada (ou antes, o empedrado horroroso) encolhemo-nos, antecipando já o bom e o bonito que vai ser. Pondo de parte a recomendação óbvia e já amplamente debatida por aqui de deixar os pares mais arrojados ou difíceis no lugar onde pertencem (ocasiões especiais, saídas, and so on) tudo é uma questão de encontrar o par certo. Lembrei-me disto há pouco, ao comentar um blog muito conhecido da nossa praça.
 Tenho alguns pares bicudos e altíssimos que não magoam nada;  suportam bem o tornozelo, são confortáveis,  maleáveis o suficiente para andar horas (se soubesse o que sei hoje, tinha trazido vários exemplares de cada). Sendo flexíveis permitem mesmo "dar a volta" aos temíveis paralelos. Depois há outros que basta calçar um bocadinho para magoarem horrivelmente. Experimentei no outro dia com um par de scarpins encarnados, nada de especial em termos de altura, e já estava a sofrer na loja. Não há uma receita infalível, mesmo esquecendo o factor preço, para que um pump, scarpin ou stiletto não magoe e funcione connosco. Tudo depende do molde, da estabilidade, da execução, do material e do formato do nosso pé. Encontrar o sapato certo pode ser tão complicado como encontrar a pessoa certa - é preciso procurar e testar o que resulta connosco. Quando o encontramos, dificilmente passamos sem ele: por mais novidades que apareçam nas lojas, por mais  opções que tenhamos no armário, voltamos sempre aos queridos sapatinhos que nos ficam a matar e não causam dores. Acompanham-nos em diferentes toilettes, em várias situações importantes, ficam ligados à nossa vida, ganham um valor afectivo e sabemos que não trairão a nossa confiança. Um sapato que não funcione, por mais bonito que seja, acaba por se manter na prateleira. Sabemos que é lindo, que custou a comprar, que gostamos muito dele - mas uso prático, ou felicidade que se possa obter na sua companhia, zero. Nenhuma mulher fica bem disposta ou confiante sabendo que tem um dia de sofrimento à sua frente. Assim são os relacionamentos com bad boys: bonitos à vista, mas não servem para nada. As coisas boas dão trabalho a encontrar. O que mais há por aí são más pessoas e maus sapatos.   Vale-nos que em caso de erro...a única coisa tão fácil de substituir como um mau sapato é mesmo um homem idiota.

Já cá não está quem embirrou

                            

Cuidado com a pena e a língua, Sissi. Por vezes parece que se mais depressa embirro com certas coisas, mais depressa elas vêm ter comigo. O que vale isso acontece-me com embirrações parciais ou moderadas, e vai-se a ver há muitas surpresas boas. Confesso, estou toda contente por causa de algo com que embirrei indecentemente há umas semanas. Mantenho a minha embirração - mas o que vem associado a isso é fantástico, maravilhoso, estupendo. Estou a ver que preciso de, numa estratégia de esforço invertido, começar a embirrar e a gozar com uma série de coisas, nomeadamente:

- Eu embirro com o Euromilhões;
- Eu embirro com a Chanel, a Prada, a Hermès, a Cartier, you name it
- Eu embirro com a felicidade;
- Eu embirro com moda;
- Eu embirro com o êxito;
- Eu embirro com casas de campo e casas de praia;
- Eu embirro com gente de categoria;
- Eu embirro com gente boa;
- Eu embirro com viagens (por acaso, embirro mesmo um bocadinho; viajar a toda a hora, ou com pouco tempo, stressa-me);
- Eu embirro com férias em praias de areia branca e água turquesa;
- Eu embirro com livros;
- Eu embirro com gatos persas, cavalos e cães da Serra;
- Eu embirro com bons negócios;
- Eu embirro com óptimos cargos.

E mais algumas que não me ocorrem. Lá dizia o tio Maquiavel, a Fortuna é volúvel e para a conservar amiga é preciso tratá-la mal e sová-la!

Dos cinemas a fechar

                                 
É com certo sentimento de tristeza que ouço falar no encerramento de tantas salas de cinema. Não que vá ao cinema tantas vezes como antigamente - tal como outras pessoas não o faço, pelo que concluo que o fecho também seja culpa minha. Ou antes, um sinal dos tempos. Para reflectir sobre o problema, basta olhar para a nossa infância. Quem cresceu nos anos 80 ou 90 recorda decerto que a quantidade de divertimentos disponíveis era muito menor. Quem queria ver filmes novos, tinha forçosamente de ir ao cinema. Um filme demorava séculos a chegar ao vídeo...e mais alguns a ficar disponível. A antecipação e o impacto de cada novidade eram muito maiores. Os encargos das famílias com questões de entretenimento, por sua vez, eram menores: nada de despesas fixas com internet ou canais por cabo. Era outra magia, outro ambiente, outro tempo. E na realidade de hoje não podemos esperar que o cinema funcione nos mesmos moldes. Se a demanda não é a mesma, os preços não podem continuar a ser os de antigamente: uma família de quatro pessoas dificilmente estará disposta a desembolsar, com regularidade, cerca de 30 euros fora pipocas e o resto, para uma saída. Mesmo para quem tem meios, o cinema é, actualmente, uma opção entre muitas. Depois há a questão da oferta: cinema independente, europeu, oriental, de culto - enfim, tudo o que fuja ao mainstream - não tem lugar nas salas comerciais. Quis ver O Milagre Segundo Salomé. Veio para as salas de Coimbra? Não veio. Por fim, o ambiente já não é o que era: muitas salas, mas com pouco espaço; nada dos bonitos camarotes de antigamente; alguns dos melhores espaços (como o belíssimo Teatro Avenida, na minha cidade, que foi tristemente "remodelado" para dar lugar a um mamarracho, tendo sobrado apenas as salas de cinema à moda da outra senhora) encerraram, tornando-se salas fantasma. Não há um lounge onde se possa descontrair nos intervalos. Ou se fica sentado no lugar, ou se fica de pé à saída. E pondo de parte o politicamente correcto, esta é a realidade: nada de espaços para fumadores - quem quiser um cigarrette break para discutir o filme no intervalo tem de correr à esplanada do centro comercial (quando há) e voltar esbaforido antes do recomeço do filme. Perdeu-se o aspecto social da ida ao cinema. Perdeu-se o convívio entre as pessoas que frequentavam regularmente às mesmas salas. Em última análise, por mais prático que seja o modelo  algo claustrofóbico de shopping, fazem falta os bons, velhos e glamourosos edifícios de cinema com as suas fachadas trabalhadas, os cartazes e as luzes. Ao quererem massificar, tiraram-lhe a graça toda. É necessário criar novos formatos, novos preços e todo um revivalismo daquilo que dava sabor ao cinema em primeiro lugar. Assim, não tem piada.

Monday, February 4, 2013

Na Activa, hoje


Crónica made in Sissilândia, aqui.

Momento "ninguém merece!"




Chegar ao toucador, abrir as gavetas julgando que está tudo muito bem arrumado e deparar-se com não uma, mas duas embalagens não - tão-  baratas - como- isso de sérum para o cabelo mal fechadas, que espalharam alegremente o seu conteúdo pelo fundo e por todos os objectos que lá estão. É a sujeira, a canseira de desmanchar e limpar tudo, e ainda por cima o desperdício. Ou como diz a senhora mãe, estraga, estraga, que a ordem é rica e os frades são poucos

War is over, ou do stress pós traumático leve

                              
Ainda agora aqui chegado 
meu cavalo já cansado 

trago o peito enamorado 

e a armadura em desalinho 
minha espada eu embainho... ***

Já vos aconteceu passar por uma situação prolongada e negativa que vos obrigasse a manter os músculos permanentemente tensos, a um constante estado de alerta, a dormir com um olho aberto e outro fechado?
 Erguemos a cabeça e contemplamos o cerco: quando Alexandre, o Grande, tentou tomar Esparta, veio cheio de ameaças. Se não se renderem, raptamos as vossas mulheres, escravizamos os jovens, massacramos os velhos e arrasamos a cidade. Os Espartanos sorriram à basófia - um leve sorriso, um erguer imperceptível do canto dos lábios ante a bravata do grande conquistador. A resposta veio curta e célere: "se". Ora atrevam-se.
 Mas imagino que até eles se mantivessem de atalaia dias depois de o Macedónio ter virado as costas.
    estendei toalha de linho 

onde estenderei os dedos 
lede neles os enredos 
das conquistas, dos degredos 
assim eu contar pudera 
era uma vez um rapaz 
é vê-lo avançar 
entre a guerra e a paz


 O furor da batalha imposta é tal que esse estado se torna insensível, automático; uma pessoa nem se lembra de ter medo. É sempre assim quando se tem mais coragem que miolos, age-se como um gato pequeno atacado por um urso - que em vez de esconder e fugir, eriça-se, faz-se maior do que é e atira-se com unhas e dentes se não lhe deixarem alternativa. Quando o conflito termina finalmente, demoramos algum tempo a notar cicatrizes e as marcas da adrenalina; não percebemos como nos moeu o corpo e a alma; o alerta laranja fica connosco. 
despedido do recato 

vou de calma ao desacato 
vou do pardal à pantera 


Enfim está tudo bem, as tropas dispersam, mas as defesas continuam erguidas, não conseguimos desmantelar a fortaleza, o braço ergue-se, num reflexo condicionado, para segurar o escudo e flectimos as pernas como se ainda houvesse golpes para aparar. Damos o peito às balas, mas os canhões estão reduzidos a cinzas; e julgamo-nos a lutar à sombra, quando o céu já está limpo e as flechas não são senão entulho. Nenhum guerreiro descansa de repente.
       E de meandro em meandro 

vou-me circunavegando 
sob as estrelas buscando 
o outro lado da busca 
quase sempre o amor me ofusca 
de uma forma doce e brusca 
assim eu amar soubera...
Guerreiros são só pontos no horizonte 
a monte 
a monte 
anda o guerreiro sem parar 
a paz foi tudo o que ele foi buscar 


***Sérgio Godinho, Guerra e Paz
                                                   



A nobre arte de "não complicar a cadeira"

                        
Chego à conclusão de que venho de uma família de filósofos. Cada um à sua maneira, nesta casa todos têm máximas e reflexões que ao longo da vida, me têm valido um cavalo na guerra. O senhor meu pai, de quem já vos falei aqui e aqui, é autor de uma data delas. Duas das minhas preferidas são "eu só gosto de falar uma vez" (tento não a levar ao exagero mas de facto não há nada mais frustrante, extenuante e inútil do que dizer o mesmo, over and over, a quem não quer entender) e "não compliques a cadeira". Ambas têm a mesma motivação: MENOS. Reduzir o ruído à nossa volta e na nossa cabeça. Simplificar foi precisamente uma das minhas resoluções de Ano Novo. Quem foi educado para a subtileza, a discrição, a delicadeza (ouvir duas vezes, falar só uma) a ponderação e o raciocínio analítico, frio e lógico das situações (eu! eu! eu!) pode ter dificuldade, por mais que seja dotado de golpe de vista  e instinto apurado, em agir ou expressar-se de imediato. E com isso, gerar complicações ou questões confusas, que se arrastam ad aeternum, sem querer. Olhando para trás, a única coisa de que me arrependo é de não ter seguido o meu gut feeling mais vezes. De não ter dito, logo ali e sem rodeios, o que me incomodava, confundia ou magoava. De não ter dado ouvidos - e voz - aos diálogos na minha cabeça. De não me ter manifestado. De não ter agido de acordo com o que se passava lá por dentro. De não ter cortado certos males pela raiz, sem olhar atrás ou adiante. Das vezes em que pensei nas conveniências  e tive medo das consequências insignificantes que adviriam dos meus actos para enfrentar, graças a isso, coisas bem piores. E sabem que mais? A vida é demasiado preciosa. Calcular e reflectir é bom, pensar demasiado estraga tudo. Dois mais dois são quatro, se marreca como um pato e grasna como um pato provavelmente é um pato (isto vale para os maus pressentimentos, mas também para os bons)  a manchete resume a notícia, o tio Maquiavel que sabia praticamente tudo dizia que uma guerra só pode ser adiada com vantagem para o inimigo, e como é a guerra é muita coisa na existência -  não há necessidade de se perder em preciosismos que são um atraso de vida.

Sunday, February 3, 2013

Sobre o auto golo do Cristiano Ronaldo...

                
...eu, que ouvi a notícia de relance e não percebo nadinha de futebol, tenho apenas a dizer o que se lembrava aos generais romanos aquando de um triunfo: enquanto lhe colocavam a coroa de louros e o passeavam como um semideus, havia um cavalheiro encarregado de lhe ir repetindo ao ouvido:

 "Lembra-te de que és apenas um homem"

My Love songs: Oh to be in love


Oh to be in Love, como muitas canções de Kate Bush, acompanhou-me desde muito cedo, mas hoje, gostando tanto dela como antes, surpreende-me como uma jovem de 17 anos compôs uma letra assim, a resumir em meia dúzia de linhas o abandono do enamoramento. É como um meteoro que eclipsa tudo o resto - e o que se passou antes desvanece-se. De um instante para o outro, parece que nada mais importa. E uma pessoa lê sobre isso nos livros, vê-o nos filmes, mas esquece-se que entre tantas relações convencionais ou regulares, sem graça, sem paixão, só porque sim, o arrebatamento genuíno, capaz de provocar um que-se-dane geral,  ainda existe. 

As the light hits you, as you shift along the floor

I find it hard to place my face
Ow did I come to be here anyway?
It's terribly vague, what's gone before
All the colors look brighter now

Everything they say seems to sound new
Slipping into tomorrow too quick
Yesterday always too good to forget
Stop the swing of the pendulum
Let us through!
Oh to be in love

And never get out again
Oh to be in love
And never get out again
Oh to be in love
And never get out again






Eu embirro com...tangerinas chochas

Socorro! Bombardeamento de gomos chochos.
 É muito complicado viver numa casa onde toda a gente é viciada em citrinos. Gosto de toda a fruta, mas sou esquisita com laranjas, clementinas e tangerinas: primeiro, tenho preguiça de as comer, prefiro-as em sumo. Se comer laranjas, são cortadas à fatia e com casca. Se perder a casca, perde a graça. No máximo, junto-as à salada de fruta. Segundo, para que me agradem, têm de ter a dose exacta de acidez versus doçura. Prefiro as laranjas e tangerinas bem sumarentas, rijinhas e ligeiramente ácidas. Não gosto de meias tintas: e um citrino sem a  acidez característica desculpem lá, é um engodo.  Se tiverem a mais leve sugestão de chochice (porque não têm sumo suficiente, porque estão ligeiramente molengonas, ou maduras demais para o meu paladar ultra sensível) já não as quero, por mais que me digam que é tudo tolice, que são boas e docinhas e chochas coisa nenhuma. Imaginem então o que é escapulir-me diariamente de duas pessoas que acham que citrinos são remédio para tudo, a bombardear-me com gomos.

Love story: Samael e Lillith

                                   
Lillith foi, segundo a mitologia judaica, a primeira mulher de Adão: criada do mesmo pó e do mesmo barro, para ser a companheira de pleno direito, e em pé de igualdade, com o homem. Era linda, inteligente, vibrante, cheia de amor à vida e paixão dos pés à cabeça. Tão intensa, tão interessante, que era inevitável lançar a desarmonia no Paraíso. Reza a tradição que os problemas conjugais com Adão começaram cedo: ele esperava uma mulher dócil, submissa, obediente. Não admitia réplica e na intimidade, queria fazer tudo à sua maneira. Lillith não concordou: porque devo ser dominada por ti? Por acaso não fui criada, do pó, como tua igual? - questionava elaAdão escandalizava-se com tanta ousadia, e apesar de todos os seus esforços e da força bruta, era incapaz de a submeter à sua vontade. A primeira história de amor da criação começava, assim, a arrefecer irremediavelmente...
As coisas estavam neste estado quando a beleza atrevida de Lillith chamou a atenção do poderoso Anjo Samael, o Veneno de Deus, um dos Sete perante o Trono. Foi uma atracção fulminante, incontrolável, e Lillith não tardou a ser seduzida por ele: Samael era belo, forte, possuía o conhecimento divino e amava-a na totalidade; com a sua doçura feminina, mas também com o seu lado negro e rebelde - era, em suma, em tudo diferente do brutamontes que lhe coubera por marido. Apaixonadíssimo, Samael prometeu-lhe que em troca do seu amor lhe transmitiria todos os conhecimentos mágicos, incluindo o Nome Secreto de Deus. Lillith aceitou a troca; e num dia em que não pôde suportar mais a tirania do marido, num dia em que se sentia mais agastada do que em todos os outros, enfim, num dia em que concluiu amar-se mais a si mesma do que a uma vida num aparente Paraíso, invocou o Nome Inefável que Samael lhe ensinara - e com isso voou dos braços dele, transpôs os portões do Eden e foi esconder-se, na companhia do amante, no Mar Vermelho. Adão deu pela sua falta e ficou desesperado: foi queixar-se ao Criador, em lágrimas, da fuga da mulher, sem reconhecer os motivos que a teriam levado a escapar. Deus teve pena de Adão e mandou três anjos no seu encalço, com a missão de a convencerem a regressar ao lar. Mas Lillith, ardilosa, usou as próprias leis divinas para fugir, mais uma vez, ao destino que lhe desejavam impor.  Fingindo-se pesarosa, argumentou com os Anjos: mas eu desonrei os meus votos conjugais...como posso regressar agora? Era verdade, tudo verdade. Vencidos, os mensageiros não tiveram outro remédio senão voltar com a resposta. Lillith ganhou assim a tão desejada independência e tornou-se a primeira Feiticeira da Humanidade. Fugiu à sua condição humana, reclamando o seu poder para se tornar uma Deusa, associada desde então à noite, à sensualidade e ao perigo. 
   Adão estava inconsolável e pediu ao Pai que lhe desse remédio. O Todo Poderoso considerou então que a bem da ordem das coisas, seria melhor criar uma Mulher realmente obediente, que fosse uma só com o Homem, carne da sua carne e completamente devotada, um ser com muita beleza mas pouca capacidade para pensar pela própria cabeça, que não constituísse uma ameaça e fosse capaz de ser vista, mas não ouvida. Esperou que Adão adormecesse e retirou-lhe uma costela: pela manhã, Eva estava ao seu lado. Uma coisinha bonita, tímida, fácil de manejar, que dava risadinhas e fazia que "sim" a tudo, uma cabecinha de vento graciosa que só falava para dizer o que Adão queria ouvir. O Primeiro Homem não cabia em si de contente: aquela sim, era uma esposa adequada. Nada de opiniões. Não havia nada que a indignasse, que lhe fizesse perder a paciência ou responder-lhe, mesmo quando não se portava bem. Eva estava por tudo. Foi um idílio. Nos confins do Mar Vermelho, rodeados de vasta prole, Lillith e Samael riam-se da ingenuidade de Adão. "Veremos, pois, se uma mulher tonta é a mulher ideal". Armaram-lhe um ardil: e perante falinhas mansas e bonitas promessas, ai que se eu te der o Fruto da Árvore do Bem e do Mal tu e o senhor teu marido serão como Deus, Eva caiu nos braços do Anjo-Demónio, tal como a sua antecessora - não em plena consciência porque lhe faltava o entendimento para isso, mas por ser fácil de enganar. Não contente com a infidelidade, comeu o fruto e ofereceu-o ao marido, que não desconfiava de coisa alguma ... com as consequências que todos conhecemos. (Em algumas versões da história, o traidor Caim é fruto dessa ligação extra conjugal). 
 Quando Deus Nosso Senhor se apercebeu que algo estava errado no Paraíso, e encontrou o casal vestido, com ar de culpa e rodeado de caroços e cascas do fruto proibido, ficou furioso: e perante as perguntas do Criador, que indagava quem fora o autor da brincadeira, Adão, muito pouco cavalheirescamente, apontou Eva: foi ela que me obrigou! Cansado de tantos desmandos, Deus ordenou ao Arcanjo Gabriel que os acompanhasse à saída.
Infelizmente, não chegou até nós se Adão alguma vez se arrependeu de não ter dado ouvidos à primeira esposa, ou se aprendeu à sua custa que uma mulher tola é mil vezes mais perigosa do que uma dotada de espírito e inteligência...





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