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Saturday, May 4, 2013

Refilice do dia - ou invejar quem está com "os copos"

                                   
A cidade está em festa (Queima das Fitas, pois) e embora como boa Conimbricense tenha tolerância para com a alegria estudantil - afinal, é só uma vez por ano - desta feita estou assaz impaciente, e com vontade de ser como o "Chato"  para dizer a esta malta ide mas é trabalhar. Está certo que já de lá venho, e que a urbe está a fervilhar de actividade (hoje deu aos cidadãos para andarem numa corrida cobertos de tinta ao som do Gangnam Style, haja boa disposição para o fazerem com este calor) mas não há paciência para o trânsito cortado, para a música aos berros e para tanta festa, quando - e detesto ser desmancha prazeres ou associar-me a protestos, mas factos são factos - boa parte desta rapaziada vai para o olho da rua no final do curso. Atenção: não digo que daqui a bocado não vire o disco e me dê para ir com eles. Há que lhes admirar a felicidade inconsciente e a disposição para beber como uns piratas. Talvez um bocadinho de ar e vento na cabeça em vez de ideias não me fizesse mal nenhum, por uma vez. Assim como assim, já se sabe que é noite de S. João por aqui, e não há descanso para ninguém...

Da mentalidade de vítima, e do abismo

Photo: Truth Beckons

Se olhares para o abismo, o abismo olhará para ti. Verdade - mas nem sempre se escolhe estar na posição de contemplar o abismo. Muitas vezes, as pessoas que são obrigadas a olhar para ele estavam tranquilas no seu canto, a desejar a Paz no Mundo (ou vá lá, sem incomodar ninguém) e deparam-se com indivíduos ou situações que deliberadamente, lhes viram a existência do avesso. Nas problemáticas da violência doméstica ou de género e do bullying, debate-se há anos até que ponto certas pessoas, por serem mais frágeis emocionalmente, serão propensas ao papel de vítima. Sendo certo que uma dada atitude vulnerável facilita a vida a agressores (que com instintos predatórios, dificilmente enfrentam alguém do seu tamanho, ou com força mental para não se deixar manipular) também é verdade que nem o mais forte dos indivíduos, ou a mulher dotada de maior personalidade, estão livres de encontrar alguém que os faça sentir indefesos. Pessoas assim são manipuladoras natas, capazes de farejar a fraqueza mais escondida, e de jogar com isso em seu benefício- ou simplesmente no intuito de magoar. 
 Quando assim sucede, é forçoso olhar para o abismo - porque não se pode combater a escuridão (leia-se, enfrentar a maldade ou a agressividade) sem jogar um pouco com as mesmas armas ou no mínimo, recorrer a uma certa firmeza. E é nessa altura em que se acede ao mal necessário (o bem sempre que possível, o mal sempre que for preciso, para grandes males grandes remédios, ou combater fogo com fogo, etc) que se corre o risco de deixar o lado negro levar a melhor sobre nós. De ao lutar contra um monstro, deixar que o monstro que vive em cada um de nós tome posse e acabe por nos transformar, por deixar marca, em vez de agir só em caso de emergência. De, como diz a citação, ao combater o monstro, tornarmo-nos nós próprios no seu semelhante. Mas então, como agir? Vamos fugir dos "monstros" o resto da vida? Porque é sabido - podemos esconder-nos, mas vamos voltar a encontrá-lo mais adiante, com outro nome e outra cara, pronto para nos devorar. É aí que reside esse equilíbrio frágil: colocar o monstro que despertámos cá no íntimo, ou o abismo interior, ao nosso serviço, em vez de nos deixarmos dominar por ele. Abyssus abyssum invocat - mas se o recearmos, seremos presas fáceis o resto da vida. O poder interior nunca é branco nem negro. É como a electricidade, as facas e o fogo: neutro.

Friday, May 3, 2013

Tua pegada digital te condena!

                             

Esta semana, por questões profissionais, ouvi frisar uma ideia interessante: a importância da qualidade da nossa pegada digital - nomeadamente, o que é colocado nas redes sociais. Não vou alongar-me sobre o óbvio (manter listas separadas de partilha e não publicar imagens em situações pouco próprias é uma questão de evidente bom senso). O que algumas pessoas não se apercebem é que, além das tags que se não houver cuidado, podem fazer retratos menos favorecedores perseguir-nos ad aeternum, com as novas "engenhocas" disponibilizadas por redes como o Facebook, qualquer estranho com vontade  de nos investigar (ou motivos razoáveis para isso, como uma candidatura a um cargo) consegue ter acesso aos nossos Likes, às imagens comentadas, etc. Sim, o like colocado àquela pequena com péssimo ar, ou à boca foleira, ou ao comentário ordinário de um amigo, tudo fica disponível para tutti quanti. É claro que isto é uma questão do perfil psicológico e do background ou hábitos de cada um, assim como das definições de privacidade que adoptamos, sendo certo que aquilo a que "achamos piada" numa rede social é um reflexo daquilo que somos na realidade. Não deixa de ser óbvio que a nossa presença no Facebook nunca se afasta muito dos nossos verdadeiros gostos e preferências. Se eu detesto futebol, dificilmente partilharei, "likarei" ou comentarei algo sobre o assunto. Abomino lamechices. logo nem morta gosto, partilho ou comento imagens pirosas de ursinhos com dizeres em "brazileiru", lagriminhas ou coisas a puxar ao sentimento.  O contraste só é realmente mau quando alguém pretende mostrar públicas virtudes, um aspecto muito responsável, erudito e respeitável, e depois denuncia o seu verdadeiro  eu pelos "gostos" ou por fotografias em actividades que não batem certo com a imagem que se pretende fazer passar. Queiramos ou não, as "redes" são espaços públicos e sociais, tal como uma discoteca, um bar, um teatro. Julgar que separamos totalmente  totalmente a nossa actividade virtual da nossa dimensão real é um erro crasso - e pode custar caro à nossa imagem. Como em tudo na vida, não basta ser sério, ou parecer sério. Há que sê-lo e parecê-lo. Dura lex, sed lex...

Lady Hamilton: peripécias de uma ruiva

                                  File:George Romney - Lady Hamilton as Circe.jpg
Musa de George Romney, amante do famoso Lord Nelson e - por obra de um ex apaixonado que lhe armou uma intriga e bem se arrependeu, tarde demais - mulher de Sir William Hamilton, Emma Hart (nascida Amy Lyon) é um exemplo de rapariga beneficiada pelos caprichos do destino...e pela estupidez masculina, para falar verdade. De berço humilde e órfã de pai, começou a trabalhar como criada aos doze anos e não recebeu educação formal.
File:George Romney - Lady Hamilton (as a Bacchante) 3.jpg Possuía, contudo, uma beleza deslumbrante e - como a História viria a confirmar - uma certa inteligência e encanto, acompanhadas de rara graciosidade natural que lhe permitiria, mais tarde, brilhar sem ofender na mais luzida sociedade. Aos quinze anos iniciou uma escandalosa carreira como bailarina e modelo. De amante em amante - se os citarmos todos, o post torna-se longo - conheceu o filho do Conde de Warwick, Charles Francis Greville. Apaixonado, ele apresentou-a ao seu amigo Romney, para que ele lhe tirasse o retrato. O pintor ficou instantaneamente obcecado: pintá-la-ia durante anos (como bacante, Cassandra, Circe, Medeia, Cleópatra...) tornando-a famosa por toda a Europa. Mais tarde, Warwick, com  um bom casamento em vista e reconhecendo que ter a célebre Emma a seu lado não lhe convinha, ofereceu-a (sem o seu conhecimento) ao tio, Sir Hamilton - reputado coleccionador de arte e outros belos objectos -  enviando-a para Nápoles. Quando a jovem soube da conspiração, ficou furiosa: durante meses, esperou que Greville a mandasse buscar, ou viesse reunir-se a ela em Itália. Por fim, conformou-se com a traição e, seduzida com as atenções de Hamilton - que à época, andava pelos sessenta anos - acabou por casar-se com ele. Greville, que esperava retomar a liaison depois de casado, ficou de rastos com a reviravolta. 
File:George Romney - Lady Hamilton (as a Bacchante).jpg  Anfitriã graciosa e dotada de talento para a música, o seu salão era muito frequentado: em Nápoles, Emma recebeu lições, aprendeu italiano e como mulher do Enviado Britânico, gozava mesmo da estima da Rainha Maria Carolina. Por tudo isto, acabaria  por ter certa influência política durante a Revolução Francesa.
 Mas foi o seu estranho affair com Lord Nelson que ficou para a história, já que o marido dava a sua bênção à união: os três chegaram a partilhar a mesma casa, para gáudio do público, sempre ávido dos escândalos das celebridades. 
Só a morte quebraria estes laços: quando primeiro o marido e depois o amante deixaram este mundo, Emma
 achou-se desamparada tanto emocionalmente (já que realmente amava Nelson) como financeiramente. Apesar da Fama que a tinha bafejado desde muito jovem, morreu na miséria, em Calais. Para a posteridade, ficou a sua vibrante beleza ruiva, a denunciar o fogo interior dos que esgotam os favores da Fortuna depressa demais...



Thursday, May 2, 2013

Mulheres, está descoberta a pólvora: quando eles têm mau gosto

                                 
Por vezes é útil dar uma espreitadela às revistas deles, para perceber como pensam. E como ainda vai havendo cronistas do sexo masculino dispostos a reflectir nas fraquezas da sua espécie, vale a pena ler este artigo para compreender a preferência de algum bicho homem pelas trashy girls - aquelas pequenas, coitadas, que não se podem (ou não deviam) levar a lado nenhum, nem apresentar aos pais, e que têm o ar mais baratuxo possível (brushing lambido, fatiotas de stripper, you name it)  a despeito de pregarem aos quatro ventos que admiram "raparigas com classe".
 Ao que parece a problemática está relacionada com questões de educação e de gosto (coisas que costumam caminhar juntas) mas também com issues de auto estima.  Fica à vossa consideração/debate/reflexão, que eu já tirei as minhas conclusões...

Wednesday, May 1, 2013

Há coisas inevitáveis na existência

             


Uma delas é que ninguém está livre de ter um momento parolo na vida. Esses momentos têm o condão de só se revelar como tal depois do mal feito, e aí uma pessoa vê que ficou mesmo mal no retrato, que pisou a tábua, que escorregou, enfim, que não esteve bem. E quando um momento parolo sucede e não se pode remeter para o baú da adolescência (que para a generalidade das pessoas, é o território por excelência dessas "fases" ou incidentes) o melhor mesmo é encarar o facto, e proceder como se deve perante qualquer gaffe: olhar para o lado e fingir que não foi nada. Já passou, já passou, já passou.

Persona non grata: lista de intocáveis em elaboração

                                                  
Em várias culturas, os antigos manuais/regras de comportamento recomendavam listas de pessoas a evitar. "Intocáveis" que só atraiam problemas e a quem não convinha dar o mínimo de confiança. Por vezes as razões para isso eram assaz disparatadas (um velho livro muito conhecido recomenda fugir das "mulheres demasiado brancas ou demasiado pretas", vá-se lá saber porquê) mas a ideia geral era evitar sarilhos futuros. De modo que - sendo que os critérios de cada um só dizem respeito a cada um - vou elaborar a minha própria lista, fixá-la no frigorífico com um ímane espalhafatoso para garantir que a leio todas as manhãs enquanto a minha mente está fresca e impressionável e se eu (por tolice, excesso de bondade ou ingenuidade) quebrar a minha jura, são livres de me atirar ovos. Aqui fica um rascunho:

- Pessoas que são amigas de toda a gente, e que não vêem mal nenhum dar-se com gente de moral/ar/background duvidoso ou pelo menos, com quem não se aprende nada.

- Gente que adiciona todo o bicho careta nas redes sociais.

- Gente que fala com 20 bichos caretas ao mesmo tempo nas redes sociais, e mantém 20 janelas de chat abertas ao mesmo tempo.

- Pessoas que, ainda que remotamente, manifestem hábitos/gostos aburguesados, reles ou apimbalhados. Já detalhei esses hábitos recentemente e a bem de não me arrepiar, não me repito.

- Seres do sexo masculino que usam calças brancas de linho na rua, à padeiro, e se fazem acompanhar por pessoas vestidas de lycra. Pode parecer estúpido mas dá tanto azar, tanto azar, que não fazem ideia. E se tiverem poupas com gel, nem bom dia nem boa tarde.

- Gente que tem a mania que os pobrezinhos/humildes (eles próprios incluídos) são santos e os outros o bicho papão, mas que faz tudo para ficar no lugar daqueles que critica. O arrivismo é uma doença.

- Gente que não vê os limites das relações profissionais, e se aproxima demasiado, e é inconveniente nos comentários/abordagens que faz.

- Pessoas que entram nos sítios sem serem convidadas, que se fazem de convidadas, etc...

- Gente que se dedica a vendas esquisitas. Dentro da legalidade, mas esquisitas. E chama a isso "ocupação".

- Gente que aplaude ruidosamente, só para mostrar apoio a quem lhe convém, por mais maçadora que a apresentação seja.

- Pessoas ansiosas por agradar.

- Pessoas que são "regadores": ouvem de um lado, entornam para o outro.

- As vítimas da vida, que se queixam de tudo e a toda a gente, e a culpa é sempre dos outros. E fazem isto nas tais 20 janelas de chat abertas ao mesmo tempo numa rede social qualquer. E falam ao telefone. E dizem "estou a trabalhaaaaaar!" enquanto elaboram planos infalíveis para chatear gente decente.

- Macacos de imitação, do estilo "tens um blog, por isso também vou fazer um só para mostrar que sou melhor que tu". Depois alimentá-lo é que são elas, que os blogs são como os tamagochis...

- Mulheres da luta, é escusado dizer...mas mais do que isso, pessoas que digam um "bom dia" que seja a um ser desse género. 

 Vou pensar melhor, porque ainda devo ter itens a acrescentar. E a vossa lista de "intocáveis", existe?













E porque hoje é Beltane, não se diz "May, be good to me" mas quase

                                           


Já se explicou aqui o significado deste Sabbath, e aqui um pouco do seu espírito, logo não me vou alongar. Mas há sempre algo de especial e marcante que me acontece na noite da primeira união oficial entre o Deus e a Deusa. E desta vez, do ano passado para cá, parece que a Roda realmente girou. Vou sentar-me um pouco a tentar meditar nisso tudo, apesar de o dia ser mágico, vibrante e de festa. Sabem aquela sensação de "isto ainda mal começou" que nos assalta de vez em quando? Pois. Um feliz Beltane, um feliz Maio e para os mais cumpridores, um Mês de Maria abençoado. Hail the Gods, todos eles...

A batalha das Pingodoçópilas

                                   

...aquele momento fabuloso em que me apercebo de que preciso urgentemente de uma coisa que só vendem no Pingo Doce, é 1º de Maio, as promoções perigosas voltaram e a única maneira de arriscar enfrentar uma multidão enraivecida do tamanho do exército persa é avançar assim, de escudo, como se vê na imagem. A levar o povo à frente, aos tombos e aos encontrões,  e com um elmo não só para proteger a minha cabeça que me faz muita falta, mas para não ser vista nem filmada no meio do circo. Acho que passo, e aguento a urgência até amanhã...

Tuesday, April 30, 2013

De uma mulher perder a calma...

...e pôr-se a rezar para evitar uma insensatez. Senhor, obrigada por manteres a minha Temperança perante duas opções de visual tão...perfeitas. (Roubado da tentação do Capeta).


Doce - porque uma rapariga precisa de ver la vie en rose de vez em quando.


Burberry


Oscar de la Renta 

Oscar de La Renta



Agressivo e Sensual - para os momentos de bad girl.



Alexander McQueen 
Alexander McQueen


Dolce & Gabbana Raffia-effect embroidered tulle dress



                                                                   Dolce & Gabbana


                         


Be italian: chi vuol giusta vendetta, in Dio la metta



"Il sentimento della vendetta è così grato"

Giacomo Leopardi


Regressado o meu caro mano da terra dos avoengos, com um rosário comprado no Vaticano em lojas de souvenirs que tanto vendem Santos Católicos como Divindades pagãs da Mãe Roma (paraíso!) diz ele que lhe apetece lá viver - projecto que já me assaltou a fantasia mais do que uma vez. Na pátria dos Césares, dos divinos Augustos (coincidência ou não, tudo nomes que têm corrido gerações nesta família) de Dante, dos Medici e de Maquiavel, claro. E há muita coisa italiana que dizem, corre nas veias: a sensibilidade artística, o ferver em pouca água para dali a pouco estar tudo na paz dos anjos, o carácter vivo e vigoroso, o sentido estético, um certo amor pela vida, sentidos apurados...e um sentido de justiça que não se apazigua varrendo as ofensas para debaixo do tapete, acompanhado de paciência, muita paciência que, passe o pleonasmo, Roma e Pavia não se fizeram num dia. Isso de perdoar é tudo muito lindo quando há arrependimento; quando não há não se trata de perdão, mas de cobardia. Diz-se por lá,

Aquele que não se pode vingar é fraco, o que não quer é desprezível.

Povo mais brando e moderado com as palavras, os portugueses traduzem isto por 

Quem não se sente, não é filho de boa gente.

Ou seja, apenas os malandros não se ressentem das malandrices que lhes fazem. Dão o desconto, porque são useiros e vezeiros em artimanhas semelhantes. Só uma pessoa íntegra é capaz de sentir, com justiça, uma ofensa - ainda que ache em si a capacidade de perdoar. Voltemos a Itália, onde tudo - a paixão, a pintura, a roupa, o vinho, a comida - é feito com arte. Arte não se faz de um dia para o outro. A justiça e a retaliação tão pouco pois para eles, "vendetta com 100 anos ainda tem dentes de leite" , "quem tem paciência procura vingança: espera pelo tempo e lugar certos, pois ela nunca é tomada à pressa". Caterina de Medici resumia-o no lema que usou toda a vida, "odiar e esperar". Porque a reparação é uma demanda arriscada, que requer imaginação e eventualmente, a ajuda divina - seja para buscar inspiração, seja para deixar a justiça inteiramente na mão dos Deuses, que não tardam nem falham. Além de ser uma arte de precisão, que não pode ter meios termos: os homens devem ser adulados ou destruídos pois podem vingar-se das ofensas leves, mas não das graves; a acção de justiça, de troco, a existir deve ser tal que não se tema a vingança (ou "re-vingança") mesquinha. Maquiavel dixit, e quem sou eu para contrariar O Príncipe...




Quem te tocou, Anck-Sunamun?

                                

Já comentei algures que A Múmia é um dos meus filmes de aventuras preferidos. Vi-o centos de vezes e sempre com agrado, mas há uma cena que nunca deixa de me causar alguma impressão.
Anck-Sunamun é a favorita (e futura mulher) do Faraó. Ninguém mais pode tocá-la. E para garantir isto mesmo Sua Majestade, num gesto obsessivo, exige que a pobre coitada se passeie com o corpo dourado a tinta. Se a tinta aparecer esborratada...é sinal que alguém se aproximou da amada do Senhor do Alto e Baixo Egipto, e podem imaginar o fim da infeliz.
 Tudo isto pode parecer desfasado da realidade, e até doentiamente romântico, mas sempre tive pena de Anck-Sunamun. É muito triste quando a palavra de uma mulher vale tanto, aos ouvidos de um homem, como o rumorejar do vento. Tenho a certeza (e isto sou eu a colocar-me no lugar das personagens, exercício que faço às vezes) que Anck-Sunamun jurou uma vez, mil vezes, ao Faraó que o amava, e a nenhum outro, de todo o coração, sendo verdade.  E que por imponderáveis, insanas razões - não sou digno de ti, és tão bonita, quantos faraós conheceste  antes de mim? gostas de outro!- ele, que não lhe devolvia a mesma fidelidade (e se calhar, nem era lá muito selectivo nas escolhas) se dava ao luxo de duvidar dela. "Quem te tocou, Anck-Sunamun?" perguntou ele, e perguntou, e perguntou, tentando sempre apanhá-la em falso. "Quem te tocou, Anck-Sunamun?" era o rosário de todos os dias. "Esta estória está mal contada, Anck-Sunamun. Tu já não me amas, Anck-Sunamun. Tu amas-me demasiado, Anck-Sunamun, logo só podes estar a tramar alguma. És pouco apaixonada; ou antes, és apaixonada demais, e isso só pode querer dizer que não és fiel; amas-me a mim, e a seguir a outro; como era o outro faraó, Anck-Sunamun? Mais rico, mais forte, mais poderoso?  Quem te tocou, Anck-Sunamun? Quem mais?",  Anck-Sunamun não me é fiel , choramingava ele para as suas cem concubinas. 

                                     Quem te tocou, Anck-Sunamun?

"O meu corpo já não é o teu templo" foram as últimas palavras dela, e o resto é uma história de múmias que não conta agora...

A mulher do Faraó não é como a mulher de César; não lhe basta ser séria e parecer séria...

Arbiter elegantiarium: até o Vício exige estilo

                                     

Hoje reparei que uma personagem que sempre me fascinou ainda não tinha marcado presença aqui no Imperatrix. Falta grave: Gaius Petronius, o árbitro das elegâncias ( arbiter elegantiae ou arbiter elegantiarium, as you like it) da corte de Nero, e suposto autor do célebre - ou infame -  retrato dos vícios mais grosseiros, o Satyricon, merece a homenagem de todos aqueles que fazem por cultivar um bocadinho de gosto. Afinal, foi talvez um dos primeiros personal stylists a ficar para a História. Nascido numa família aristocrática e de meios, Petronius conjugava uma enorme sagacidade política (foi cônsul e senador, tendo desempenhado as suas funções brilhantemente) com um verdadeiro culto à beleza, ao prazer e ao luxo refinado. Extremamente inteligente, tanto mostrava grande vigor e capacidade como uma indulgência completa, uma entrega quase científica ao lado sensual da vida, sem nunca perder o domínio nem cair numa prodigalidade prejudicial. Os seus amigos mais próximos garantiam que Petronius não era vicioso, antes imitava e satirizava o vício com singular habilidade, divertindo-se com a influência nefasta que provocava nas cabeças tontas que procuravam imitá-lo. Encantador e eloquente, fazia questão de demonstrar uma total liberdade de discurso, com tiradas que desconcertavam os bajuladores ansiosos por agradar. Petronius tinha a rara capacidade de cair em graça sem bajular, ou de parecer que adulava sem nunca descer a tal. Apesar da língua afiada, ou talvez por causa dela, Nero não o dispensava - tinha-o como autoridade máxima sobre todas as questões de gosto, de estilo, de modas e elegâncias, de festas e prazeres. Tanto ascendente sobre o Imperador não podia deixar de lhe granjear inimigos. Uma intriga de Tigellinus, comandante da Guarda Pretoriana, ditou a sua sentença de morte. Blasé até ao fim, Petronius recusou perturbar-se por tão pouco: cumpriu o costume de se antecipar à execução, mas suicidou-se em grande estilo. Deu uma festa esplêndida e mandou que lhe abrissem as veias aos poucos, para manter o bom aspecto mesmo no caminho para o Outro Mundo. Bebeu-se, recitou-se poesia, e no seu testamento, em vez de elogiar o Imperador e os seus "eleitos" como era hábito, disse a Nero tudo o que pensava dele, expôs todas as suas culpas e deboches, usou-o como um trapo vil. Até para exercer o Vício é preciso alguma sobriedade. E acima de tudo, subtileza. A elegância (e a integridade, ainda que relativa...) cabem em toda a parte, até na corte de Nero...

Monday, April 29, 2013

Geniais snobismos (ou acessos de bom senso, conforme ...) da semana


Beau Brummel, um "pai" do dandismo
                                             
                "Because there´s snobbery  in every age"
                                  Wystan Hugh Auden


1 - Uma amiga (com acentuado sotaque do Norte) a outra:

                   "Oh meneina, mas tu não biste logo que ele era paroleinho?"

Tradução: mas a menina não viu logo que esse rapaz era parolinho? ( sobre um mariola que se fazia passar por muito bem e se revelou um grosseirão de primeira água).


2 - Um pai exasperado, a mandar vir por motivos idênticos:

" Não tem educação, não tem pedigree, não tem naaaaaadaaaaaaaaaaaaa!"


Enough said, e deixo ao vosso critério se é snobismo ou não...que essa coisa de snobismo é muito relativa e pessoal como as opiniões, e depende imenso das circunstâncias ou de quem se sente com razão para puxar de tais galões/análises/tamancas...


Tem uma pessoa zero entusiasmo em pensar em filhos...

                             

...porque - entre outras razões que não vêm agora ao caso-  só de imaginar as intermináveis consultas no pediatra fica toda arrepiada...e zás, os três gatos adoecem ao mesmo tempo. Uma porcaria de um vírus e ando a marchar para o dótor há uma semana. Com a preguiça que eu tenho de ir ao médico, isto só pode ser castigo pelo pecado de aturar as pessoas que eu aturo. Não vejo que outra falta possa ter desencadeado a ira divina.

There is something "off" about you




Parfois j'aimerais mourir
Tellement j'ai voulu croire
Parfois j'aimeris mourir
Pour ne plus rien savoir.

Manu ChaoJe Ne T'aime Plus


aqui vos falei de Maeglin, a personagem de Tolkien, e de certas pessoas que caracterizo como maeglinescas.

Maeglin era um príncipe, era valente, tinha capacidade de liderança e uma bela figura. Mas apesar disso tudo havia algo nele que repelia as pessoas, que provocava desconforto e desconfiança. Algo que ninguém sabia precisar o que era - e que infelizmente só se revelou tarde demais para todos os que o rodeavam. 

 Na vida real, há indivíduos exactamente assim, que parecem carregar uma estranha maldição. À superfície são bem parecidos, encantadores, carismáticos e eficientes. E a certas almas mais sensíveis ou artísticas, com uma tendência romântica para o que é obscuro, danificado e precisa de ser salvo, parecem irresistíveis -até porque quando um Maeglin da vida se foca num alvo, faz essa pessoa sentir-se como a mais especial à face da terra. Para os Maeglins, não há - ou parece que não há - meios termos ou relações de evolução gradual, sãs, leves, racionais. Tudo é intenso, avassalador e hiperbólico. És o ser  mais belo à face da terra; morro se não te tiver; estou perdido por ti...são exemplos do seu discurso. Este soa estranho e não encontrará eco em qualquer pessoa, mesmo nas mais romanescas  ou vulneráveis- porque não é toda a gente que se deixa encantar por um maeglin.
 É preciso ter queda para eles.  E mesmo quem a tem percebe que provavelmente, perigosamente, se está a meter em sarilhos.
Para quem não sofre dessa queda, porém,  o efeito de desconfiança faz-se sentir mais acentuadamente, até com certa agressividade inexplicável. As pessoas que os conhecem relativamente bem, ou apenas superficialmente, sem que exista inimizade alguma, descrevem-nos muitas vezes como estranhosEsquisitos. Demasiado ousados, com modos e maneiras pouco usuais. Há algo nele que não bate certo. Algo de lobo ou de ave de rapina. As pessoas próximas do alvo, essas reparam rapidamente que alguma coisa está errada. Não olham à simpatia ou ao encanto - a estranheza, o medo, o desconforto ou mesmo a repugnância que causam, sem motivo lógico, sobrepõem-se a tudo. A quem não está sob a sua mira, o Maeglin desperta o instinto de sobrevivência, de conservação. Muitas vezes, é o olhar - ou a incapacidade de olhar os outros nos olhos - que faz disparar o alarme. Outras é algo de intangível: a ausência de ponderação, de limites, que traduz a ausência de alma, de traços de empatia e lógica humana.  Os mais espirituais podem tentar explicá-lo  como " uma aura negra" ou "uma vibração energética baixa".  
 Personagens destas são uma bomba relógio. A sua melancolia, insegurança e traumas interiores podem disparar violentamente a qualquer minuto, causando estragos irremediáveis. Tal como na ficção, o anti herói acaba inevitavelmente por se despenhar de uma muralha – mas só depois de ter traído e desmoronado uma cidade inteira. Felizmente às vezes, e só às vezes, a heroína escapa ilesa – mas isso é outra história.

Sunday, April 28, 2013

Dos ciúmes deles


O monstro de olhos verdes no masculino já foi abordado em detalhe aqui, mas quanto mais o testemunho, mais curioso o acho.
 Eu não conheço bem o ciúme das mulheres, a não ser pelo exemplo. Sei que as há doentias, por insegurança crónica, por traumas do passado, por razões que ultrapassam a minha modesta sabedoria. Delas não posso falar. E em boa verdade, não posso falar por quaisquer outras mulheres, porque só consigo avaliar o meu próprio ciúme e esse é tão tranquilo que só se manifesta perante uma ameaça clara e objectiva. Até que tal coisa se apresente, confio de olhos fechados. Não por ingenuidade, não por gentileza, mas porque creio que uma pessoa não se envolve num relacionamento no firme propósito de ter alguém de quem possa suspeitar, e comprazer-se nessa angústia. Quem ama, ama de livre vontade; o compromisso, se é uma "fortaleza" que nos obriga a fazer escolhas ("não quero estar com mais ninguém porque escolhi esta pessoa") é uma "muralha" com a ponte levadiça sempre aberta, e cada parceiro tem a sua chave no bolso. As "grades" servem apenas para proteger de agressões externas, mas a porta da liberdade está acessível a qualquer momento - mesmo que isso possa magoar o  outro.

                                    
Assim, defendo que se avise sempre, e  só uma vez - não o faças. Não permitas (porque nestas coisas de enganos há sempre o que procura, o que permite e o que alimenta) invasões, grandes ou pequenas, por palavras ou actos, intenções ou planos. Porque o simples alimentar de proximidades com pessoas munidas de segundas intenções não só abre a possibilidade de consequências graves, como encerra em si mesmo objectivos pouco definidos ou deslealdade. Quem ama não deixa desprotegido o objecto da sua afeição, do seu compromisso. Quem ama e tem essa certeza não necessita de atenções perniciosas.
 Só face a essa realidade o Monstro de Olhos Verdes me assalta. E quando fere, apesar da minha advertência inicial, e precisamente por causa dela, só a fuga ou a retaliação podem lavar, ou aliviar, a ferida. 
 Isto porque em geral - e apenas no que concerne à retaliação escapo um pouco à generalidade das mulheres, que preferem carpir em silêncio. O  ciúme feminino é intenso, mas breve. Uma vez cansada de sofrer pela situação, uma vez o problema sarado, a ameaça descartada, há uma tendência para perdoar, para desatar os nós do sofrimento. E é nisso que o nosso ciúme  difere do deles
                               
O ciúme masculino vem da posse e da imaginação. Uma vez implantado um cenário mental, seja qual for o motivo desse cenário, um homem ciumento não abre mão dele, por mais provas que tenha do inverso. Nem juras, nem palavras, nem actos lhe desfazem a ilusão. Cada conversa sobre o assunto, sobre o alegado rival, não aparece no sentido de esclarecer, mas de encontrar falhas ou brechas que comprovem a impressão inicial, ou a mentira/duplicidade da mulher. Seja por insegurança íntima (ver o outro como um "macho alfa" ou superior a si de alguma maneira) seja por inferiorização da mulher ("é uma tola, qualquer um a convence com duas lérias") o veneno está lá, ainda que a suposta ameaça esteja na China, em silêncio absoluto, incapaz de causar dano. O ciúme masculino procura provas onde elas não existem, se for necessário recorre a calúnias de estranhos para se alimentar, devassa o passado e transporta-o para o presente e o que é pior, dá ao ciumento excelentes desculpas para pecar por seu turno, vulgo "just in case...já que ela me engana de certeza, vou arranjar um Plano B. Ou dois". Mesmo quando o motivo do ciúme deles surgiu por sua única e exclusiva culpa (o velho cenário "saí com ele porque te afastaste", ou " porque me enganaste primeiro") isso é totalmente irrelevante. Se surgiu, óptimo, pensam eles masoquistamente:  mais provas da dura realidade. Se "enganou" é porque já tencionava fazê-lo, ou porque a duplicidade lhe está no sangue. É esse o raciocínio deles, fechado neles, totalmente alheio à justiça dos factos ou à dor que daí advenha. 

“So will I turn her virtue into pitch,
And out of her own goodness make the net
That shall enmesh them all. ” 

  ShakespeareOthello



     É, dizem eles, porque a situação já existia, porque andava a ser cuidadosamente planeada nas suas costas - os homens julgam-nos sempre mais ardilosas do que somos , com uma estratégia militar de fazer corar os romanos - é, afirmam eles, porque toda a paixão jurada era mentira ou meia verdade. O terror de serem enganados - não tanto por amor, mas por orgulho - é de tal ordem que contamina qualquer hipótese de esclarecimento. Mesmo quando a "ameaça" nunca esteve presente.

“O, beware, my lord, of jealousy;
It is the green-ey'd monster, which doth mock
The meat it feeds on. That cuckold lives in bliss,
Who, certain of his fate, loves not his wronger:
But O, what damnèd minutes tells he o'er
Who dotes, yet doubts, suspects, yet strongly loves!

ShakespeareOthello


 A suspeita basta-lhes, e essa suspeita é fatal. O retrato interior que tiram da mulher que amam, se estiver tingido (ainda que com tinta falsa) raramente perde as nódoas. Dificilmente uma mulher abre mão de uma relação de forma definitiva por culpa de uma suspeita sem provas, mas um homem é capaz, uma vez ferido, de infligir golpes sucessivos ao relacionamento, até o deitar por terra, de cortar as correntes ou de o desgastar até ao fio, à conta de uma simples ideia. Ainda que isso o magoe. Ainda que devaste o objecto das suas suspeitas. Dizem que as mulheres são emocionais e eles racionais - talvez por isso o ciúme delas seja desgastante e cruel, mas breve. O deles, nascendo no seio do método, do raciocínio, da posse, é infindável, e mata aos bocadinhos. Recordemos que Othello leva uma peça inteira a ouvir intrigas, e como prova para o desfecho, um lenço mentiroso lhe basta...se fosse Desdémona a ter ciúmes confrontaria Othello, chamava a suposta rival à tábua, deitava o palácio abaixo - mas dificilmente o drama seria uma tragédia. Os homens só complicam.

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