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Saturday, June 29, 2013

Os sapatos tal como os homens, Parte II



Como vos disse, ando preocupada com a actualização da minha colecção de sandálias: tenho corrido as lojas, vasculhado a internet, mas o problema "montes de modelos lindos para sair, nada de jeito para o dia a dia" tornou-se global. Podia estar horas a dissecar isto, mas para não vos maçar limito-me à primeira lição de moral que tiro do assunto: fico muito aborrecida quando não posso confiar nos meus sapatos, com a mesma sensação desagradável que tenho quando sinto que não posso confiar em pessoas chegadas. Por mais bonitos que os sapatinhos sejam, se pela manhã sinto a ameaça, ainda que vaga, de pés doridos ao longo do dia, começo a olhá-los de lado. E isso ainda se tolera no calçado de sair ( apesar dos meus cuidados e esquisitices na escolha do mesmo) que é de uso breve e ocasional, mas jamais nos pares que nos acompanham ao longo de jornadas de trabalho, de passeios, de encontros e desencontros, de reuniões, de compromissos e compras, nos momentos agradáveis ou menos bons. Com as pessoas sucede o mesmo: aos conhecidos em quem não confiamos damos o desconto, porque lidamos pouco com eles; mas não poder confiar num amigo, num familiar, num colega com quem temos de trabalhar diariamente ou pior ainda, na cara metade, é realmente mau. 
 E porque as sandálias fiáveis, tal como as pessoas de confiança, são coisa rara, hoje voltei para casa com apenas um par das ditas, mas três pares de scarpins, dois altos e uns para o quotidiano. Creio que o que disse aqui e aqui é mesmo verdade: altos ou mais baixos, quando bem escolhidos, os scarpins ou mesmo os stilettos podem ser tão ou mais confortáveis do que os pumps compensados que se tornaram o pão nosso de cada dia. Ou antes, é preciso variar entre os dois, para que os pés não sejam sempre "massacrados" nas mesmas zonas. Ainda bem que as tendências permitem usar ambos. 
 Mas ao fim de um Sábado em que umas inocentes sandálias com plataforma de cortiça me deram cabo dos pés, creio que estou pronta para acrescentar mais uma uma moral da história ao complexo paralelismo homens -sapatos ou se preferirem, relações- sapatos: se um sapato nos magoa a sério, não devemos permitir que o faça outra vez. E com os homens devia ser o mesmo. A bem da sanidade dos pés e do espaço no closet para coisas novas. Cansada de dar segundas e terceiras oportunidades a calçado que me cansa e faz doer, tenho feito o exercício de  me libertar dos pares que se portaram mal e me deixaram más recordações. Sem adiar por uma questão de posse, sem as desculpas "foi do calor", "o chão era instável", "eu é que não soube caminhar neles", "tento outro dia para me habituar". Um bom sapato adapta-se a nós ao fim de um tempo razoável. Pode ter os seus quês, mas as coisas encaixam-se espontaneamente e sem dores de maior. 
Há sofrimentos escusados, evitáveis, imperdoáveis.
  Mas o ser humano (e as mulheres são realmente boas nisso) tem a tendência para desculpar a primeira, a segunda, a terceira asneira, de atirar o sapato para o fundo da estante à espera que um dia, não se sabe quando, tudo se recomponha por encanto, e isso raramente funciona (ontem lembrei-me de estrear uns sapatos fabulosos que estavam na caixa com etiqueta e tudo há dois anos: correu às mil maravilhas mas lá está, foi um amor adiado).  E se com o calçado é difícil dar o grito do Ipiranga, o que não será quando se trata de relacionamentos? Talvez devêssemos começar a desculpar menos. Ou a aperceber-nos, mais cedo, de quando um sapato não é boa rês. E quem diz o sapato, diz o resto.




Friday, June 28, 2013

Ter classe no infortúnio, isso sim é obra.

                                           
  • -  They will laugh at you. And in that hat.
  • -  I will not hide myself away any longer. I may be poor. I am the Princess Vera Artalinovna Belinskya.
  • Vanessa Redgrave como Princesa Vera Belinskya, em "The White Countess"

  • Talvez por ter tido (feliz ou infelizmente) alguns exemplos na família, poucas coisas me despertam tanto respeito e admiração como as pessoas que se nota terem conhecido melhores dias. Ou seja, aqueles entes cada vez mais raros que foram educados com certos confortos e privilégios mas a quem a ruína, a guerra ou a pouca sorte atingiu - e que mantêm, não obstante, uma classe à prova de bala. Nota-se na forma como se expressam, como se movem, no seu porte, na bela apresentação ainda que as roupas estejam gastas ou fora de moda, na solidariedade e elegância que manifestam para com os mais desfavorecidos. Não há nada como uma trágica história de rags to riches para pôr à prova as raízes de cada um. Porque o dinheiro pode comprar bons colégios, bons cirurgiões plásticos, roupas caras (não necessariamente boas) mas há coisas que não estão à venda, nascem com cada um e vão sendo reforçadas todos os dias, de pequenino. É preciso muito auto-domínio  muita disciplina, muita consciência do seu verdadeiro lugar neste mundo para não fazer depender a forma de estar das circunstâncias externas. É fácil dar-se grandes ares quando se vive rodeado de coisas bonitas (tudo ajuda) e quanto mais recente o luxo e o esplendor, mais fácil é cair na arrogância ou em propósitos ridículos - vê-se muito  em quem "sobe na vida" repentinamente a mania de maltratar quem está abaixo, exemplo já amplamente discutido aqui. O contrário é que é uma prova de fogo: ter sido habituado a um dado padrão de vida e/ou a um certo estatuto, para depois se ver privado disso tudo, muitas vezes reduzido (a) a uma posição humilde ou a uma situação humilhante (quantas grandes personagens se viram forçadas a servir quem não era digno de lhes engraxar as botas?) e não cair na ganância, na avidez grosseira, na boçalidade, na maldade ou na baixeza abjecta é realmente admirável. A serenidade, a alegria mesmo perante os cenários mais negros, a altivez sem pedantismo, a capacidade de partilha com quem sofre ainda mais do que nós, a dignidade, ser demasiado educado para fugir ou para se queixar e o orgulho nativo são características raras - mas quem as tem, dificilmente as perde. Na felicidade, é fácil ser bom. É nos momentos de provação ou de conflito que a grandeza é testada. Após a Revolução Russa, que conseguiu aniquilar (ou pelo menos, dispersar) toda a aristocracia daquele enorme país, os seus representantes fixaram-se um pouco por toda a parte. Muitos jamais conseguiram recuperar o seu antigo modo de vida. E apesar do terror, da perda de tudo o que possuíam, muitos houve que - a trabalhar como taxistas, criadas e modistas - davam-se por felizes por terem conservado a vida e terem trabalho. Encaravam a infelicidade com um sorriso no rosto. Alguns disseram mesmo compreender que toda aquela violência os atingira por terem sido eles, ou os seus antepassados, a oprimir os servos em primeiro lugar. A resignação, o perdão, são próprios de quem sabe que Deus dá e Deus tira...conceito que não é fácil de assimilar. Sou pela honra e pela reparação, mas a magnanimidade é maior ainda.
                                            .
    File:Madame Royale5.jpgRecordo-me de dois livros infantis que apreciei particularmente. A um deles perdi-lhe o rasto, mas lembro-me que falava de um pequeno fidalgo arruinado que, apesar da sua grande necessidade, recusava aceitar dinheiro a um ricaço para o ajudar a fazer já não sei o quê. " Não sou ainda tão pobre que não possa prestar um favor", respondeu ele. Nunca me esqueci desta frase. O outro, A Princesinha, de Frances Burnett, é um dos meus livros favoritos e gira precisamente em torno desse tema. Diz Sarah, a infeliz protagonista " Maria Antonieta sempre me pareceu muito mais rainha na desgraça do que quando vivia feliz e alegre no meio da sua corte". E falando em Maria Antonieta, o que dizer do discurso da sua filha, Marie-Thérese Charlotte, quando soube do atroz destino da família?
    Marie-Thérèse-Charlotte est la plus malheureuse personne du monde. (...) Ô mon père, veillez sur moi du haut du Ciel. Ô mon Dieu, pardonnez à ceux qui ont fait souffrir mes parents!
    ("Marie-Thérèse Charlotte é a pessoa mais infeliz deste mundo. Ó Pai do Céu, vela por mim! Oh meu Deus, perdoa àqueles que fizeram os meus pais sofrer!")
    Com grande pena minha, estas obras edificantes são cada vez menos transmitidas às crianças...




Dois produtos de que tenho mesmo que vos falar...

                 


...e não recebo nada por isso, juro, nem em géneros, o que é uma chatice. Mas bons produtos não têm a mesma graça se não forem partilhados com as amigas e para que serve a blogosfera senão para passar informação útil?
 Do BB Cream da Sleek já vos falei no Facebook, mas aproveito para o voltar a recomendar às meninas com pele de porcelana. É talvez o tom mais claro que já encontrei no nosso país (existe em dois tons pálidos, Fair e light, que podem ver aqui. Optei pelo Fair, como seria de esperar) e a textura, sem se fundir completamente nem ser ligeiramente "empoada" como o da L´Oreal, é óptima. Não será melhor, nem pior, só diferente. Tal como este, dura o dia todo e dá instantaneamente um ar cuidado e "dispendioso" à pele, sem precisar de mais maquilhagem. Basta uma quantidade muito pequena para um efeito impecável e tem a vantagem da protecção solar, o que é sempre um bónus para quem, como eu, lhe basta uma aragem mais quente para ganhar sardas. Em resumo, estou muitíssimo fã. 
 Depois, por vezes acontece-me comprar um produto, experimentar, deixá-lo para ali e só lhe reconhecer as vantagens não sei quanto tempo depois. É o caso do pó solto fix & matte, da Essence. fiquei seduzida pela cor, salvo seja, e pelo efeito `filme´ finalizador. É muito mais fino e leve do que um pó normal. Deixei-o um pouco de lado porque, como outros produtos do género, precisa de ser espalhado com cautela extra: por vezes não se vê, mas basta tirarem um retrato para se notar o efeito "farinha na cara" que se vê, por vezes, em alguns apanhados na passadeira encarnada. Mas há dias lembrei-me de voltar a tentar, com mais cuidado para evitar o "efeito paparazzi" e...oh, coisa maravilhosa. A pele fica perfeita, aveludada e fresca, sem resquício de brilho ao longo de todo o dia ( o que com o calor que tem estado, não é fácil). Basta ser cuidadosa na aplicação, para praticamente não precisar de retoques durante horas a fio.
A melhor parte é que enquanto procurava a imagem para vos mostrar, 
deparei-me com a versão compacta aqui. Agora é que vou correr as lojas todas à procura. Não sei se já repararam mas é dificílimo encontrar pó compacto branco no nosso país. Durante anos fui fiel ao Pale Moonlight, da Shiseido. Depois, como muitas coisas boas, foi descontinuado (corrijam-se se estou errada) e a não ser em marcas britânicas ou de maquilhagem para televisão, nunca mais encontrei nada parecido. Aleluia, que aos poucos os fabricantes de cosméticos se vão lembrando que nem toda a gente nos países latinos é, ou quer ser, morena. 

Thursday, June 27, 2013

Duas questões de costura que me tiram do sério:

                                    
1- Que praticamente TODAS as saias à face da terra precisem de  me ser ajustadas na cintura. Não vale a pena iludir-me, achar que a marca é boa, que a cintura é alta que chegue, que daquela vez o tamanhinho é tão pequenino que não precisa de adaptação nenhuma. E olhem que eu fujo do elastano como o diabo da cruz. Debalde: acabo desfraldada, e eu que tanto bato na tecla do aprumo. Não sei que vem a ser isto de fazerem tamanhos pequenos com cinturas tão largas. Tudo bem que as modelos de hoje têm uma figura arrapazada, mas não exagerem. E eu gosto de mandar ajustar a roupa à perfeição, mas não sou paga para passar a vida na costureira.

2- Pôr uma peça no cesto que vai para a costureira, com pedido de urgência - vulgo calças preferidas cuja bainha se prendeu no salto do sapato, gabardina que precisa de ser apertada, fatiota nova que requer modificação ou fecho de vestido que deu o berro. E uma certa pessoa, sem perguntar nada a ninguém, guardar o dito cesto na lavandaria/rouparia lá de casa, onde se vai juntar a muitas outras coisas que precisam de intervenção mas não são urgentes. Resumindo: acaba por esquecer e quando vamos a ver, andamos meses à procura das roupas que deviam estar prontas há séculos e em vez disso, estão muito bem dobradas e inutilizadas numa prateleira. Daqui tiram-se várias morais:

- Não deixes para amanhã, nem para a hora seguinte, a roupa que podes mandar à costureira hoje. Agarra as peças bem agarradas, sai de casa a correr e não as largues até a senhora prometer que as tem arranjadas no dia X. E depois vai lá buscá-las, rápido (não há nada mais deprimente do que esquecer roupa na "modista").

- Estou como os dandies: qualquer dia fica-me mais caro manter, adaptar e arranjar o guarda roupa do que ir às compras. Oh, Well. Há que impulsionar a economia...

- Se me sai a sorte grande, a primeira coisa que faço é seguir o exemplo de pessoas amigas que ainda têm a sorte de viver como se vivia antigamente, com uma senhora todo o dia em casa exclusivamente para fazer trabalhos de rouparia. Não só criava um posto de trabalho junto de uma patroa encantadora (não olhem para mim assim, sou mesmo!) como dava o investimento por bem empregado. 



As crónicas da Sissi não fazem greve

                                               
Eu também não acordei o Che Guevara dentro de mim e trabalhei até tarde (quem corre por gosto não cansa) mas como dizia o Sérgio Godinho, as razões de cada um são suas e de muitos mais. Em todo o caso, aqui fica a Crónica Activa para esta semana.

Sardinhas gourmet? Não há pachorra.

                                
Apesar de ser (salvo excepções que confirmam a regra) pouco dada a grandes comezainas, provo quase tudo e aprecio de tudo um pouco. De caça a cozinha de autor (desde que não tenha de esperar por mesa, que acho uma coisa ridícula, nem de adular chefs porque tudo tem limites e para o pretensiosismo tenho limites muito curtos) de comida étnica a fast food, tudo tem o seu ambiente, a sua ocasião e o seu lugar ou como costumo dizer, sou menina para caviar num dia e sardinha no outro. (O meu hábito de ter mais olhos que barriga é assunto para outros posts, e causou-me bastantes chatices durante a infância). Gosto particularmente de peixe e marisco e como tal, desde que afastem de mim o grelhador fumarento, não digo que não à tão portuguesa sardinha assada - especialmente nos arraiais, com broa e caldo verde. Mas em verdade vos digo que não tenho paciência para os connoiseurs de sardinha: aquelas pessoas para quem nenhuma sardinha está bem, como se houvesse muita ciência na coisa. Se está bem salgadinha (poupem-me às manias da saúde) fresca e estaladiça por fora para mim parece lindamente, mas não. Falta-lhe isto, ou aquilo, é magra, é seca, etc. Faz uma pessoa o sacrifício de aturar o pivete da sardinhada para depois ouvir queixas que não lembram a ninguém. Deviam juntar-se a uma confraria da sardinha ou coisa semelhante. Qualquer dia temos para aí pratos gourmet à base de sardinha com nomes incomprensíveis e  - o horror - uma redução não sei de quê. Ou às tantas já temos e eu não sei, arredada como ando das manias que estão na moda.

Wednesday, June 26, 2013

O poder de "sit there and look pretty"


                                         
Desde que comecei a ter tamanho e miolo para ler as revistas femininas que apareciam lá por casa (com tudo o que elas têm de óptimo e de mau) que se repetia o mesmo choradinho: as mulheres (no trabalho, no amor, nos filmes de acção) querem sempre provar que são capazes de fazer mais do que ser donzelas em apuros ou, como as americanas gostam muito de se queixar, mostrar que são capazes de ir além do tradicional papel sit there and look pretty. Provar que são inteligentes, fortes, desinibidas, competentes. Mas por muito que tudo isso tenha a sua razão de ser, na época que atravessamos, com tantas conquistas feitas, penso que é tempo de reclamarmos a nossa feminilidade e pôr de parte alguns extremismos de carteirinha. Em verdade vos digo que nenhuma mulher que se maquilhe e use push-ups pode arvorar máximas das senhoras que queimavam soutiens sem cometer perjúrio. E convenhamos, há muita sabedoria nos ensinamentos das nossas bisavós: a modéstia, o recato, a coquetterie, saber ouvir (e dizer o que agradava ao ouvido) o uso sagaz da beleza (se bem que está provado que a beleza nem sempre é um bónus, principalmente no que aos relacionamentos diz respeito) e da expressividade, a graciosidade e as graças do espírito, eram formas inteligentes de usar a natureza a nosso favor, mesmo que isso significasse fingir-se menos inteligente do que se era na realidade. E nota bene que esses "truques" não estavam reservados a actrizes e cortesãs: meninas e senhoras de comportamento irrepreensível eram hábeis na arte de os manusear para levar o seu barco a bom porto. A promessa (ou ilusão) de um possível  flirt, desde que não passe disso mesmo, é bem aceite em toda a parte. Porque a inteligência, como a beleza, intimida. Por vezes, é mais astuto não demonstrar tudo o que se sabe. Diziam os antigos que Deus nos deu dois ouvidos e dois olhos, mas só uma boca - para observar e ouvir duas vezes, mas falar só uma. E no caso das mulheres (que os homens tanto adoram tachar de tagarelas) isso é duplamente verdade. Sempre ouvi dizer que é preferível passar por circunspecta do que por tola. A mulher misteriosa e feminina tem sempre poder, porque está mais próxima da sua essência. A serenidade pode passar por inocência, sedução, pudor, altivez. Tem todas as promessas. Gera curiosidade. E salva-nos de falar demais. Se a graça feminina desarma, o silêncio permite filtrar a informação útil, escutar e estudar o adversário, descobrir muito revelando pouco e ainda parecer interessada no interlocutor. As nossas avós sabiam que bem aplicado, parecer bonita e não falar muito não tinha nada a ver com um papel decorativo (then again, convém que uma mulher esteja decentemente vestida quando usar essa estratégia, senão não tenho argumentos para a defender).  Por isso, meninas do século XXI, reflictam: nos negócios, na carreira, no amor e no resto, há muito poder escondido nisso do sit there and look pretty. Da próxima vez que tentarem inventar algo de inteligente ou sedutor para dizer, pensem de novo. O silêncio pode ser o toque final.

E...a maldade Renascentista do Dia

"Vou rezar por ti. Rezar-te pelas barbas". 

"Sometimes goodness needs the help of a little 

badness".


Ouvido há pouco, em Os Bórgia - essa série sobre a qual ainda não tenho opinião formada, mas que me vai enchendo o olho quando a apanho, afinal se tem Borgia e Maquiavel não pode ser assim tão má. Não é uma frase histórica, que eu saiba (confesso a minha preguiça em confirmar) mas podia ter sido dita perfeitamente naquela época, quando as pessoas, por muito bem educadas ou religiosas que fossem, eram menos hipócritas, não se importando de devolver o bofetão depois de dar a outra face. Afinal a vida era, literalmente, dois dias, viver depressa, morrer cedo, ou passar a  vida  a dizer "hoje não" à Morte, uma verdadeira questão de "be bad or beware"...mas bons tempos, mesmo assim, em que não se deixava para amanhã a retaliação que se podia resolver hoje, não se engoliam tantos sapos, não existia o politicamente correcto e se vivia com estilo. Ou como eu digo sempre, nem tudo é preto e branco neste mundo, o Bem e o Mal são faces da mesma moeda, para maroto maroto e meio e (avó dixit) ser palerma e deixar-se pisar é uma ofensa a Deus Nosso Senhor. Afinal a vida sem um bocadinho de espírito, de garra, de astúcia, de joi de vivre e de mau feitio não tem graça nenhuma e não se vai - passe o pleonasmo- a lado nenhum. Claro que para fazer maldades justificadas  (ou servir de instrumento para o "mal necessário") com classe, não caindo na categoria de pessoa reles, é preciso ter honra, dignidade, sentido de justiça, subtileza e graça, etc. Mas isso é outra história.

Momento (pouco) Renascentista do Dia

                                      
Queixa-se a senhora minha mãe que eu há imenso tempo que não desenho, não escrevo um poema nem componho uma canção. E respondo-lhe eu que os meus deveres mal me deixam tempo para o Imperatrix, quanto mais vagar (adoro a velha expressão "não tenho vagar") para ócios Renascentistas...
 Ou como diz um cavalheiro que muito respeito, do mais bem que imaginar se possa, "muito custa a vida!". É que isto os tempos são outros, minha gente.

Tuesday, June 25, 2013

We must never be apart

                         
Não é romantismo: é visto e comprovado, basta estar atento às nossas histórias e às dos que nos rodeiam. Certos amores são inevitáveis, eternos ou antes, permanentes. Resistem aos golpes da vida, aos ataques alheios, ao perdão sucessivo (coisa mais desgastante) e à falta dele, às magoas inevitáveis, à separação física e ao rompimento, por mais longo que este seja; mantêm-se vivos, latentes, por mais caras novas que venham, por mais sentimentos novos que nasçam sem que se esgotem ou se consumam apesar do desgaste. São como boomerangs, não vale a pena tentar afastá-los. E mesmo que as circunstâncias transformem as chamas em brasas, sabe-se, como se sabe que o sol nasce no Oriente, que se regressa sempre.  We must never be apart, why should we?  

My eyes!!!

                            
Sabão crá crá, Sabão crá crá, nos olhos pela manhã é do melhor que há, ou então tenho uma espuma no canto do olho,  tenho uma espuma no canto do olho, e arde que se farta. Eis uma daquelas situações que nos transportam imediatamente para a primeira infância, quando a vaidade ainda não existia e o champô até podia ser uma grande porcaria desde que cumprisse a promessa " não arde nos olhos". É no que dá andar às corridas. Sou uma pessoa que prefere prescindir daqueles derradeiros minutos de sono, levantar cedo para fazer a toilette e tomar o pequeno almoço nas calmas, até porque quem usa lentes de contacto não pode dar-se ao luxo de fazer as coisas a despachar: é preciso esperar que os olhos estejam bem acordados para as colocar. Pois, mas nem sempre cumprimos os propósitos. E hoje um pouco mais de pressa, um movimento desastrado, e zás: toda a manhã com o olho direito numa lástima, que parece o outro do Senhor dos Anéis, com a diferença de não ver aquilo que deve, quanto mais o que se passa ao longe.

Monday, June 24, 2013

Os terrores do Verão estão a chegar. Fujam para as barricadas.

                                  
Eu adoro o Verão. A brisa perfumada, as roupas leves, o cheiro a óleo de coco e a sal, as longas noites ao ar livre e o estereótipo todo. Se não gostasse tanto de casacos, arriscaria dizer que a silly season é a minha estação preferida. Mas como todas as coisas boas na vida, o Verão tem o seu lado B, e não é bonito. As filas para a praia ou as crianças a atirar-nos areia para cima não me incomodam: aprendi a ir à praia em contra relógio, só em determinados sítios e a determinadas horas para evitar a populaça malcriada (os incomodados que se mudem, é um facto da vida e eu nunca gostei de remar contra a corrente). Praias muito desertas são algo  melancólicas, mas confusão não se suporta e tornei-me bastante boa a encontrar o meio termo, depois de uma infância em que se andava andava e andava pelas dunas até achar sítios onde a pandilha de música aos berros e grandes almoçaradas não chateasse as almas. Practice makes perfect. Não ter tantas férias como gostaria, paciência, first things first,  hoje em dia haja dinheiro que Verão é quando o homem quiser e é da maneira que evito as multidões. Quanto aos escaldões que não me posso dar ao luxo de apanhar, é só não cair na bela ilusão de que consigo bronzear-me como a maioria das pessoas. Se for uma rapariga sensata estou imune e com sorte, ainda agarro um ligeiríssimo dourado. Não, o que me chateia é mesmo perceber que daqui a dias, vamos ver o espectáculo dos calções mínimos a  mostrar pernas-presunto, vestidos ainda mais mínimos a revelar quantas redondezas e crateras há, lycras no meio do calor a denunciar banhas de três andares, braços de lavadeira à mostra e outros terrores que pessoas com pouca noção de elegância insistem em enfiar pelos olhos dos outros.
 Digo e repito que não tenho nada contra as pessoas gordinhas ou fora de forma. Cada um é como é e a moda é para todos. Mas não entendo como se sentem confortáveis usando precisamente o que as aperta e desfeia mais. Há tantas opções, para todos os tamanhos e feitios, que não percebo a paixão pelas roupas baratas feitas a pensar em pesos pluma - e que em boa verdade, até em pessoas magras têm um mau ar de todo o tamanho. Pessoa observadora sofre.
 Pior do que isso, só a actualização da frota de sandálias para o quotidiano (para sair não faltam opções adequados a todas as bolsas e gostos) que é sempre um aborrecimento para quem tem pés sensíveis. Poucas coisas se estragam tão depressa e precisam de tanto cuidado na escolha.  Sei perfeitamente que quando um "famoso" afirma na imprensa que o que gosta menos no corpo é os pés diz isso para não repararem noutros defeitos que tenha; mas eu, que não sou famosa, chateio-me horrivelmente com os meus, que embirram com a grande maioria dos formatos. Não há assim tanto por onde escolher: as plataformas ou são altas demais (magoando a planta do pé) ou em forma de pata-choca; os saltos, finos ou grossos, são invariavelmente demasiado altos ou demasiado instáveis; ou então, temos as boas e velhas flats. Por muito bom que seja o orçamento, encontrar cunhas ou saltos médios para o dia a dia, macias, leves, confortáveis e elegantes, é um desafio que põe à prova o personal shopper mais habilidoso. E eu já sei que vou ter de lançar mãos (e pés) à busca, se não quiser passar o Verão a queixar-me.
 De resto, venha a Silly Season. Enquanto só tiver estas duas coisas insignificantes a aborrecer-me, benza Deus, dou-me por muitíssimo feliz.

"Os Miseráveis" de bancada

                             
Reparei hoje que nos dias que correm, é abismal a semelhança entre a canção abaixo e o discurso lamentoso de muito boa gente nas redes sociais. Está certo que as coisas estão feias e que é impossível ficar indiferente à realidade e às notícias que falam de revolta no Brasil, por cá, um pouco por toda a parte. Que os tempos tristonhos que atravessamos convidam à reflexão e à tomada de consciência do nosso papel de cidadãos. Mas volto a dizer que não é só sentado ao facebook que se exerce cidadania alguma. E faz-me confusão ver pessoas - algumas bem intencionadas, mas muitíssimo chatas - a levar uma rede social tão a sério, a dizer todos os dias que Deus deita ao Mundo mais do mesmo até que a informação deixa de o ser, a poluir o mural alheio com queixinhas sobre os políticos, "luta" e o estado da nação. Já se ouviu, meus amigos. Nunca ouvi dizer que alguém recebesse alguma coisa por se dizer farto, saturado e desesperançado. Não vejo necessidade alguma de expor a própria desgraça, ou apontar a pouca graça do país, dia sim dia sim. É que uma pessoa até já sabe que fulano de tal, se publicar alguma coisa, e invariavelmente publica  desde que o sol nasça, há-de ser um nhe nhe nhe do mesmo género, luta para cá, revolta para lá, gatunos para acoli e vira o disco e toca o mesmo. Eu que sou uma mulher da comunicação, às vezes aborreço-me com o seu excesso nesta época em que qualquer um pode atirar uma posta de pescada - posta de pescada essa que é automaticamente recebida por centenas de almas. Creio que a informação precisa de ser filtrada, como muita coisa e muita gente na vida...vá que Os Miseráveis tinham muito mais razão de queixa (o mundo mesmo assim está bem melhor do que já foi...em alguns aspectos pelo menos) e queixam-se de forma mais melodiosa. A cantiga, essa é a mesma. Reparem na letra:




Looks que quero usar neste Verão


Ou porque fazem parte do meu guarda roupa cápsula e não os dispenso, ou porque tenho muitas peças assim a que preciso de dar uso, ou simplesmente porque me apetece.

Os stilettos


WALK TALL. SHOP NOW

Vieram para ficar, já se falou bastante neles por aqui e têm muitas possibilidades que quero explorar. 

Saia de pele + blusa ou camisa luxuosa

WARM-WEATHER LEATHER. GET THE LOOK

Um dos meus visuais preferidos. Já vos falei dele aqui. É simples, infalível, confortável, sexy e de uma elegância casual que cabe em muitas ocasiões. A testar também com a famigerada t-shirt de luxo que ainda não viu a rua. Para funcionar, há que apostar num styling polido e sapatos elegantes.

Os jumpsuits

Versión mono

Não parecem dar sinais de abrandamento, são uma peça que adoro e tenho alguns que ainda não vesti. Detesto ver roupa parada, estagna-me a  energia. E no exemplo acima, vêem o sapatinho ultra bicudo? Quem é que não tem uns assim guardados algures? Indoor shopping, claro.

Vestido preto longo para o dia

Esta ideia, directamente tirada dos anos 90 mas com um twist mais elegante, já tinha aparecido no Verão passado, e fui mesmo buscar os vestidos compridos para a pôr em prática. Bastam umas gladiadoras a acompanhar e já está. Depois passou-me, que a minha vida não é só inventar fatiotas. Manter o visual simples, com algumas peças statement (nada demasiado étnico a não ser as sandálias, portanto) e um cabelo impecável, mas solto, fazem o look funcionar sem parecer grunge ou pelo contrário, demasiado bonitinho. 


Go back to black. SHOP NOW


Apanhados encantadores

11.jpg

Sou uma rapariga de cabelos soltos ou semi presos; prefiro ver as madeixas a emoldurar o rosto. E apesar de ter jeito para cabelos, quando se trata de fazer tranças, totós e por aí fora a mim própria o caso muda de figura. Também não sou a  maior entusiasta do estilo de Doña Letizia, mas de vez em quando tem momentos muito inspirados e este foi um deles. Os penteados que lembram o estilo grego ou medieval, não sendo demasiado presos, encantam-me e bem...quando se tem um pescoço apresentável há que mostrá-lo. Practice makes perfect, ou então lá terei de me sentar pacientemente à espera que a cabeleireira me faça algo assim.

Sunday, June 23, 2013

As coisas que eu ouço: momento National Geographic do fim-de-semana

                            
Num dos bons hotéis da Capital (não vou fazer publicidade, mas é onde servem uns biscoitos de manteiga e chocolate que haviam de ser proibidos de tão maravilhosos que são) que ainda vai sendo bem frequentado, uma pessoa vem ao terraço fazer um intervalo entre reuniões, sozinha com o pequeno luxo dos seus pensamentos. Eis que um yuppie da vida (espécie que eu julgava só existir nos filmes dos anos 80, mas o novo riquismo é uma praga...) se põe a passarinhar para a frente e para trás, a falar ao telemóvel, a tentar chamar a atenção sobre si mesmo como um pavão em período de acasalamento:


" ah sim, sim, eu vou de barco..." e por aí fora, a dar à minha pessoa (e a qualquer outro ser de saias que eventualmente viesse ao terraço) todo um relatório da sua fortuna pessoal. Há-de ter-me confundido com alguma correspondente da Forbes que passasse por Lisboa, com certeza. Muito gostam certos "cavalheiros", à falta de qualidades mais valiosas que os recomendem, de usar extensões de poder para provar que são machos alfa e de incomodar quem está no seu canto com essas danças cortejadoras. Tive uma vontadinha de lhe atirar  um "e eu com isso?" ou de lhe relatar por minha vez que que aprecio características menos...fruto do arrivismo (ou das vigarices) de cada um, que não fazem ideia. Certo é que muitas mulheres para quem tudo o que reluz é ouro alimentam este comportamento que, estivesse eu menos focada em questões sérias, acharia assaz cómico. Then again, nem todas as mulheres foram educadas da mesma maneira e à conta de algumas cabeças tontas, quem tem juízo é obrigada a ouvir coisas destas. Haja paciência - já não se pode estar em lado nenhum. Mas como sou uma pessoa sensata, retirei-me: o barco o leve, e as sereias o aturem...

Super Lua, solstício, fim de semana e do regresso à normalidade

                                           
"Love, light, and bountiful beauty. God and Goddess, bring them to me. On this Midsummer day, we thank you for everything you've done, and more. Bless all on every Litha. May the God and Goddess always be with ya!
(Oração neo pagã)

Hoje temos uma Super Lua, logo a seguir ao Solstício de Verão e em dia de S. João, ainda por cima, o que só pode querer dizer uma coisa: hoje espera-nos uma noite mágica. O Litha é sempre uma época de divertimento e para manter a alma leve, mas também de reflexão (a Roda do Ano girou e as recompensas chegam). 
Celebra-se o Sol, a abundância e o amor. E espera-se que as Fogueiras de S. João queimem todas as más vibrações. Hoje, como nos tempos pré cristãos, mantêm-se os velhos significados, com outro nome mas o mesmo espírito. Não deixa de ser curioso que os dias que passei fora me tenham servido para sacudir alguma poeira menos boa que se acumulou no início do ano. Para encerrar um ciclo de uma vez por todas e eliminar definitivamente algumas questões, bons ventos as levem. Fora com o velho, entre o novo! Por vezes é assim: basta um clic para resolver assuntos que andaram meses a tirar -nos o sossego. E neste caso o clic teve a ver com trabalho (observar pessoas bem sucedidas tem um efeito absolutamente contagioso) com um ambiente adequado (não há nada como um bocadinho de mimo e de luxo para mandar embora qualquer resquício de tristeza) e com uma boa dose de futilidade temporária. Não vou maçar-vos com detalhes, mas estou como nova. Por vezes há que ficar de molho nas coisas boas até encharcar. E foi mesmo isso que fiz. Welcome, Summer. E bem vinda de volta, Sissi do costume.

Fujam da rusticidade, salvo seja

                            
Antes de vos contar como tem sido o meu final de semana (e não me refiro ao weekend, já que andei quatro dias fora...bloody inconsiderate of me) tinha guardada esta pérola para partilhar convosco. Acho a maior das graças a manuais antigos de boas maneiras, e por estranho que pareça muitas ideias lá demonstradas estão (ou deviam estar) bastante actuais. Uma colega encontrou no sótão um certo Compêndio de Civilidade do Senhor Padre Maciel, que eu não tenho a honra de conhecer, datado de 1939 e destinado "às casas de educação" e teve a  feliz ideia de mo mostrar. Mas porque é que já não se dá isto nas escolas portuguesas, que andam cada vez menos civilizadas? Pois, andam cada vez menos civilizadas porque ninguém dá aos pequenos disciplinas de civilidade. Que cousa, digo eu que fui educada à moda de melhores tempos. Enjoy:

"O homem que despreza as regras da civilidade dá livre curso aos seus defeitos". 
     
Verdade, verdade. As regras estão cá para nos ajudar a moderar um bocadinho os nossos impulsos naturais; ajudam a esculpir a personalidade. Por exemplo, uma pessoa que seja naturalmente acanhada será forçada, se seguir as normas de boa sociedade, a corrigir essa falha de carácter; pelo contrário, quem tem demasiado à vontade (e o atrevimento é um defeito que importa corrigir de pequenino) será, ou devia ser, obrigado a temperar a ousadia excessiva. 

"Fujam da rusticidade e da falta de polidez nas palavras e nas acções, procedendo sempre com todos humana e afavelmente, mas sem afectação e sem baixeza nem quebra de dignidade".

Isto é ouro. A rusticidade é um defeito a moderar, mas quando deixa de ser genuína para ficar toldada pela afectação ... mais horrível e doentia se torna. Infelizmente, vejo incontáveis almas que só sabem proceder de três maneiras: com pretensiosismo e afectação (se sobem ou tentam "subir na vida") rebaixando os inferiores (se têm a sorte de pôr em prática o termo execrável de "subir na vida") ou precisamente com baixeza, quebra de dignidade e bajulação abjecta perante os superiores. E para mim, quem engraxa os que estão acima e amesquinha quem está abaixo, é imediatamente riscado da lista. Pa-vo-ro-so.

"A polidez, para ser perfeita, deve fazer-nos agradáveis a Deus sem que deixemos de o ser para com o próximo. A polidez do coração não é mais do que o esquecimento de nós próprios em proveito do próximo. Faz-nos benévolos para com os humildes, cordiais para com os iguais, respeitosos para com os superiores".

Muito boa gente faz por ter "modos" e esquece-se de que as boas maneiras, mais do que usar correctamente os talheres ou sentar-se bem, passam essencialmente por saber proceder em toda a parte (o que dá sempre jeito) mas sobretudo, por não incomodar os outros e pôr o próximo em primeiro lugar. Isto por um motivo simples: se todos pusessem o próximo em primeiro lugar, tentando não causar incómodos, cada um de nós estaria sempre em primeiro lugar nas prioridades alheias e tudo funcionava como um relógio. Simples, não é? Mas hoje, com o aligeirar dos bons costumes e o egoísmo que se instalou, é uma baralhada total e uma pessoa é infelizmente forçada a proceder um bocadinho mais...à bruta, se não quiser ser passada à frente em todas as filas, pisada nos transportes públicos, incomodada na rua, etc. Sinais dos tempos. Ainda assim, é sempre bonito dar o exemplo e lá porque todos agem mal, não vamos nós fazer o mesmo. Além disso, pensar menos em nós e mais nos outros confere serenidade e graciosidade, olhem a tia Audrey Hepburn, não se fiem em mim...

"A roupa, o riso e o andar do homem dão a conhecer o que ele é".
(Ecles.XIX, 27)

O Bom Livro, sem ser tomado à risca senão andávamos por aí à pedrada, é uma fonte de inspiração óptima para bem viver. E no caso acima, quem diz "homem" diz mulher. Goste-se ou não, ou programamos a nossa imagem pública ou os outros fá-lo-ão por nós. É muito difícil, por exemplo, parecer séria se se bamboleia  pela rua com bandage dresses ou calções que não tapam nada, por mais virtuosa que se seja; ou sofisticada quando tudo o que se veste tem o aspecto mais reles e mal acabado possível. Vivemos num mundo de paradigmas e a bota deve bater com a perdigota, nada a fazer. Pessoas bem educadas moderam o riso e o discurso: a minha cara avó sempre insistiu que uma menina não deve rir histericamente em público, à semelhança das hienas. E um cavalheiro tão pouco...

"É pois imodéstia e incivilidade torcer-se ou balançar-se, espreguiçar-se, fazer trejeitos, inteiriçar-se e fazer quaisquer outros movimentos descompostos. É também imodéstia e descortesia estar com os olhos pasmados, fazer muito estrondo a assoar-se, rir às gargalhadas, olhar para o lenço depois de assoar-se, bocejar com muita força, enrugar sem necessidade as sobrancelhas, etc".

Imodéstia e descortesia: dois adoráveis termos muito fora de moda. Acham antiquado? Pessoalmente não suporto ter gente a embasbacar para mim, como se quisesse furar-me com os olhos, principalmente quando o contacto visual não é recíproco (típico dos grosseirões portugueses, e não só de trolhas no alto dos andaimes...) ou ver gente a apontar outras pessoas na rua, um básico da educação que se vai perdendo. E o resto nem precisa de comentário...

"Trazer vestidos desproporcionados ao talhe do corpo, ou impróprios à idade e estado de cada um - é ridicularia; trazê-los desabotoados, soltos ou descaídos - é desalinho; trazê-los rotos, sujos ou com nódoas (...) é indecência. Quando se caminha é má educação levar os braços pendurados, movendo-os à maneira de pêndulos, próprio de caminheiros. É também muito reparado e sinal de má criação curvar as pernas, mudar-lhes a  posição continuamente, carregar mais sobre um pé do que sobre o outro, porque denota que estamos contrariados na presença da pessoa com quem falamos."

Ridicularia, desalinho e "muito reparado" eram termos em voga lá em casa, mas que ouço cada vez menos...e é uma pena, porque caracterizam lindamente muitos desleixos que por aí se vêem. Já se sabe, se não reparamos ou apontamos as coisas menos correctas elas tornam-se corriqueiras, até entrarem definitivamente em uso, e é um Deus nos acuda...
 Quanto às normas acima, os tempos que atravessamos permitem uma excepção: perante uma pessoa malcriada ou abusadora, que não percebe que está a incomodar impondo a sua presença num caso típico de má educação passiva, mexer-se de forma impaciente pode ser uma forma subtil e útil de preparar a saída e dar-lhe a entender que o seu comportamento não é desejado.

 Por fim, este livrinho é um achado tão grande que responde à velha questão "porque é que as mulheres vão sempre juntas à casa de banho?". Elementar: quando uma menina ou senhora necessitava de se retirar da mesa (para empoar o nariz ou coisa parecida) era de bom tom chamar uma amiga para a acompanhar; no caso das meninas muito novas, devia pedir à mãe ou a uma tia que o fizesse...assim não corria o risco de ser incomodada pelo caminho, ou surpreendida por algum louco num momento privado. E como é lógico, não seria próprio solicitar a um cavalheiro que a escoltasse numa situação tão...bom, íntima, logo teria de se fazer acompanhar de outra mulher. 

Estão a ver o que se aprende em livros bolorentos? What´s not to love?





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