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Saturday, July 13, 2013

As coisas que eu ouço: o que a avó diria se me visse nas últimas semanas.

                              
Uma das minhas avós achava que o lugar de uma senhora era sobretudo dentro de casa. Ou esperem - ambas diziam o mesmo, embora não cumprissem lá muito. Mas uma delas era mais veemente na afirmação. Então, quando me via, e à senhora minha mãe, a passear mais, fosse às compras, com amigos ou a tratar de demasiados assuntos - na sua opinião, deixando a gestão doméstica para mais tarde - invariavelmente tinha um dos seus chistes: é só rua, rua, rua! Só na rua é que estão bem! Reparo assaz injusto, diga-se em abono da verdade, pois embora tenhamos as nossas fases somos todos bastante caseiros, quase bicho do mato. Costumo dizer que saímos ao meu bisavô, que alterou as portas da casa, virando-as para o interior da quinta para não ser obrigado a socializar...
 Mas volta e meia lá calha um período menos introspectivo: ou porque está bom tempo, ou porque o trabalho ou deveres sociais obrigam a deslocações e se aproveita a viagem, ou porque há um convite a que não se pode faltar, ou um sítio fantástico onde fazer boas compras. E pronto, lá ando eu numa vida mais agitada. Palavra que consigo mesmo ouvir a avozinha a dar-me sermão. É só rua, rua, rua!  - em minha defesa, convidam-me e não posso ofender. E também tenho direito à caturrice, certo? Of course.

Gigi dixit: Deus trabalha de maneiras misteriosas, e gosta de Moda.



       

Tive imensa pena que as implacáveis audiências ditassem o fim de GCB - Good Christian Bitches, ou em português Giras, Cuscas e Beatas. Gosto dos texanos, os diálogos tinham pérolas como a de cima e o styling era (apesar dos exageros típicos da sociedade local) realmente bem conseguido. 
   Bom, eu não duvido nadinha que o Diabo vista Prada - afinal, começou por ser um anjo, e tornou-se num Men of Wealth and Taste - mas acredito firmemente que Deus  não lhe fica atrás. Os Deuses amam as coisas bonitas; afinal, são eles que inspiram o Homem a criá-las. Quem vier dizer que uma blusa Vivienne Westwood, por exemplo, não tem inspiração divina,só pode andar muito fora da Graça. Não sou nenhum árbitro da fé, atenção, mas é a minha fé a falar. Os Deuses não só vestem Prada se quiserem, como falam connosco através de coincidências; e estas podem muito bem ser Dior,Chanel , Jimmy Choo ou mesmo um trapinho mais acessível mas igualmente elegante. E a prova disso é que invariavelmente, quando estou aborrecida ou chateada, agarro-me à fé que nos salva, pego-me com Deus como dizia a minha avozinha (citando, que não quero chamar o nome do Senhor em vão) penso em alguma coisa boa e invariavelmente, algo de verdadeiramente fabuloso aparece. Muitas vezes em sequência, aos magotes. E às vezes, numa caixinha muito bonita. Praise the Lord!

Os Deuses também calçam Miu Miu. 
                               

Momento bâton perfeito....e a psicanálise do gloss traumático.

                                  rosie-huntington-whiteley-lipstick
Como é que se dá vida a um look minimalista para um evento black tie sem cair em aparatos desnecessários? Eu conheço umas quatro maneiras: uma jóia realmente fabulosa, uma clutch fantástica, uns sapatos de morrer ou, se estivermos inspiradas mas preguiçosas, com um detalhe de maquilhagem que desvie a atenção de tudo o resto. Foi o que a nossa english rose Rosie Huntington Whiteley fez, e o resultado é esplendoroso. Quase que me dá vontade de ser lourinha, rosadinha, para poder tentar a mesma coisa. Ou tentar a mesma coisa sabendo que esta cor não faz exactamente parte da palette adequada para mim, que isto às vezes é preciso mandar as regras às urtigas.  O encarnado-alaranjado e o melancia vieram juntar-se à minha habitual paleta de escarlates e nudes de vários tons e estão para ficar. Mas fuchsia não será a primeira ideia para ruivas pálidas com a cara salpicada de sardas. Há demasiados tons de cobre e dourado para que um rosa tão evidente funcione. Demasiado edgy, eu acho. Assim de repente, porém, recordo-me de um gloss que tive nesta cor e que me ficava a matar. Foi roubado junto com a clutch, o telemóvel novo e uma sombra amarelo e laranja que nunca mais encontrei nada aparecido *trauma* enquanto eu e a minha prima dançávamos todas animadas. Acabámos a noite a mandar parar a carrinha da PSP e a contar o drama a um grupo de agentes com paciência de santo e armados até aos dentes. Moral da história: nunca deixes a tua clutch sozinha, elas são pequenas por algum motivo. De qualquer modo, se não tiver coragem para experimentar o rosa-camélia nos lábios, posso sempre voltar-me para algo que é adequado e está de regresso: as sombras douradas. Em efeito smokey eye, mas sem "smokey". É mais um shiny eye muito, muito ligeiro. Vejam como fica bonito com as sardas...e não podia ser mais apropriado para o Verão.

                               olivia-munn-eyeshadow-shimmer-close






It girls: Pola Negri, Rainha do Drama e Princesa sem trono.

                                            
Foi a primeira actriz europeia a fazer sucesso em Hollywood, abrindo portas para estrelas como Greta Garbo e Marlene Dietrich. Hitler era fã dela, a pontos de fazer vista grossa a uma alegada ascendência judaica da vamp de cabelos de azeviche, para que ela pudesse trabalhar na Alemanha. Rudolfo Valentino foi o amor da sua vida. Com Charlie Chaplin, viveu uma relação tempestuosa, que acabou com alfinetadas públicas de parte a parte. 
       Pola Negri - nascida, na Polónia, Barbara Apolonia Chalupiec - foi a verdadeira Rainha do Drama, encarnando melhor que ninguém os papéis da femme fatale e da tragedienne. Bailarina, cantora e artista de vaudeville, algumas das tendências que lançou  - como o verniz de unhas encarnado, novidade naquele tempo - são indispensáveis para as mulheres do século XXI. A sua infância foi difícil, um verdadeiro conto de fadas ao melhor estilo Pele de Burro: diz-se que a mãe era de sangue real, pertencendo a uma nobre família polaca que perdera as terras, os títulos e a fortuna. O pai era um humilde emigrante eslovaco, preso pelas autoridades russas por actividades revolucionárias. A vida da beldade começou, assim, em condições de extrema pobreza: para sobreviverem a mãe, Eleonora, teve de se empregar como cozinheira. A sorte começou a mudar quando Apolonia ingressou na Academia Imperial de Ballet de Varsóvia. Mas apesar do seu talento, a Fortuna vibrou-lhe outro rude golpe: a tuberculose atirou-a para um sanatório, impedindo-a de continuar a dançar. Uma vez curada, voltou-se para a Arte Dramática, na mesma Academia. Por altura da I Guerra Mundial, era considerada uma das actrizes mais populares do país. 
File:Pola Mdivani wedding 6.jpg Em 1919, tornou-se a Condessa Apolonia Dąmbska-Chałupiec ao casar com o Conde Eugeniusz Dąmbski - mas o matrimónio duraria pouco. Seguiu-se a Alemanha, um punhado de amantes e romances de cordel. Hollywood, que respondia à concorrência da indústria cinematográfica europeia convidando actores e realizadores locais para os EUA, não tardou: em 1921 foi contratada, com enorme alarido publicitário, pela Paramount. Em breve, Pola Negri (Pola, petit-nom de Apolonia e Negri, em homenagem a uma poetisa italiana que admirava) tornava-se uma das maiores estrelas do cinema mudo, e senhora de uma fortuna impressionante. Com Rudolfo Valentino encontrou o verdadeiro amor  -  mas o Grande Amante morria-lhe nos braços um ano depois. O enterro foi um verdadeiro circo mediático, com Pola a desmaiar várias vezes durante a cerimónia e a fazer uma verdadeira tournée com o caixão, para que os milhares de fãs histéricos pudessem despedir-se do seu ídolo. Joana, a louca, não faria melhor. Mas o público não lhe perdoaria o dramalhão: nove meses depois, o desgosto parecia esquecido e a actriz casava com o Príncipe Georgiano Serge Midvani. Pola contava retirar-se para o seu château e viver como esposa e mãe, mas o marido desbaratou-lhe a maior parte da fortuna. Divorciaram-se, sem filhos, em 1931. No final da carreira, deliciou a imprensa ao aparecer com uma chita pela trela, numa conferência em Londres. Mas o seu fim foi discreto: depois de muitas aventuras,  decidiu-se por uma simplicidade elegante: morreu aos 90 anos, rodeada de ou três empregados fiéis. Já chegava de tanto drama.



Friday, July 12, 2013

Crónica Activa desta semana #30


                       

Podem lê-la aqui...e confesso que esta me deu especial gozo escrever. Até já, meninos e meninas.

Joseph Murphy dixit: elevando as frequências

"Great and noble thoughts upon which you habitually dwell become great acts." 

Não sei quanto a vocês, mas se eu deixar a minha mente vaguear demasiado tempo em situações que me indignam ou irritam, sinto imediatamente as minhas "frequências" a baixar, o meu pobre chakra do Plexo Solar a encolher-se, os músculos crispados e a atmosfera à minha volta a perder luminosidade. O resultado que se segue é que as coisas que não me deixam bem disposta se multiplicam, desdobram em detalhes e pormenores que não interessam ao Menino Jesus ou se prolongam ad nauseam- porcaria atrai porcaria, é sabido. E como tal, é impossível fazer alguma coisa de jeito. Sou adepta de reconhecer, em vez de sufocar, as coisas que me desagradam (e vociferar contra elas) mas depois deixá-las ir, soltá-las e pensar rapidamente em algo mais edificante, mais divertido, que me deixe relaxada e obrigue a mente a trabalhar numa direcção melhor. Não gosto de levar nada à risca, mas os pensamentos de qualidade (ou de categoria) são importantes. Convém que a qualidade seja o nosso padrão para tudo na vida: as roupas, as pessoas, os investimentos, os raciocínios, etc. É que não convém nadinha andar com a aura poluída por aí. Mesmo que não se acredite em auras, nem nunca se tenha visto nenhuma.

A lendária Penelope Tree



                             

           
"Penelope hath frightened stare
And nests of robins in her hair
'Twas Villeneuve caused Twig to be,
But only Vogue could make a Tree."


Numa edição inteiramente dedicada aos anos 60, a revista da Net-a-Porter teve a feliz ideia de publicar uma excelente entrevista com a icónica modelo Penelope Tree. A it girl dos anos 60, de quem John Lennon disse "hot hot hot, smart smart smart!" recorda o seu background privilegiado, os seus amores e o prematuro fim da carreira causado por um traumático problema de pele. Mais exótica do que tradicionalmente "bela" - chamavam-lhe a mistura entre Pipi das Meias Altas e uma figura egípcia - Penelope foi a resposta americana (criada em Manhattan, filha de Sir Ronald Tree e da socialite Marietta Peabody) a Twiggy. Cada uma à sua maneira, ajudaram a definir um novo padrão de beleza: a ninfa de grandes olhos espantados. Twiggy de um modo arrapazado, working class, girl-next-door, Penelope a pobre menina rica de sobrancelhas depiladas e maquilhagem "de panda". O seu visual provocava reacções extremas: fotógrafos como Richard Avedon consideravam-na perfeita, outros recusavam trabalhar com "essa aberração". De qualquer modo, a sua curta carreira modificou para sempre a indústria de Moda e marcou indelevelmente uma década. O seu estilo tão original,não-deste-mundo, continua a inspirar modelos, fotógrafos e it girls por todo o planeta. "Sempre me senti como um extraterrestre, por isso não havia problema em parecer-me com um" disse a própria. Lady Gaga...who?

Thursday, July 11, 2013

Moral da Disney

                                
Estar toda inspirada para escrever um post giro - vagamente informativo, acutilante, a reflectir sobre uma séria questão (ou chaga, se preferirem) dos hábitos cá do burgo. E depois vir a saber de uma novidade que se não nos desse volta ao estômago - daquelas voltas instantâneas que provocam náusea, tontura e enxaqueca - seria cómica. Ou ridícula.


 Claro que embora o assunto em si seja irrelevante, as implicações sociais da coisa dão que pensar. E lá se vão as ideias para o post anterior. A tontura faz-nos reflectir em muitos aspectos e temos de falar com outras pessoas para pôr o assunto em perspectiva, para chegar obviamente à mesma conclusão: que nunca é bom descer dos saltos, ou conceder em acompanhar com pessoas menos...bom, como hei-de pôr isto?  Refinadas, esperando moldá-las (por mais que elas digam que querem) porque irremediavelmente, inevitavelmente, na primeira oportunidade voltarão aos mesmos hábitos e às companhias com que realmente se sentem à vontade... e quem fica mal visto foi quem concedeu ser visto, passem os  muitos pleonasmos que a enxaqueca é desculpa para tudo, em tal companhia. Moral da estorieta: nunca permitir a entrada a alguém sem dar verdadeira atenção às almas de quem se rodeia. Porque mesmo que uma hiena queira vestir uma pele nobre e passar por outro bicharoco, não conseguirá mudar o visual ao resto do clã. É muita hiena feia, malcheirosa   e tinhosa (não estou a caluniar o bicho: é sabido que elas nunca cuidam da pelagem) junta às gargalhadas, a coçar-se para que se consiga disfarçar. E obviamente, é preciso uma hiena para acompanhar com as outras. Nenhum animal decente consentiria em dar-se com elas, muito menos em público. Logo, se um suposto leão pensa que é naturalíssimo e aceitável aparecer com hienas; se acha que quem considera as hienas um animalejo imundo é que está errado e cheio de peneiras...haja desconfiança. E pés para fugir depressa. Porque é preciso ser reles para desculpar ou apreciar o que é reles - lembram-se do Rei Leão, ou do Scar, que gostava das hienas e era pior do que elas? Pois. Moral da Disney, que é sempre coisa escrita na pedra...

                         











  

O Diabo em figura de gato



O meu irmão diz que o gato- o meu cuti cuti, ai JesusApple of my eye Farinelli - é o demónio. Que está endemoninhado, possuído pelo tinhoso, que é o Diabo em figura de gato fofinho e peludo. Tudo porque o gato Chiquinho, único macho não esterilizado lá de casa, começou por embirrar com ele. Não só não brincava com ele, como o atacava de cada vez que se cruzavam, por medo ou por orgulho felino. Se tropeçavam um no outro, zás. Uma vez deixou-lhe o nariz a sangrar. Como D. Farinelli acredita em odiar e esperar, decidiu vingar-se do desprezo e das pantufadas. E a situação inverteu-se: agora temos o menino Chiquinho aterrorizado e corrido de casa, que nem se atreve a entrar. E o meu pobre irmão, quando tentava protegê-lo, levando-o ao colo, foi perseguido também por um Farinelli furibundo, que se lhe agarrou às pernas e não largava por mais insultos e safanões que levasse. Ele já achava que o meu querido gato era mimado e mau. Agora convenceu-se de que precisamos de chamar um exorcista cá a casa. Bonito.

Wednesday, July 10, 2013

Aquela mulher

                              

                "Beauty can be deadly when well used"

Na vida de um homem, há sempre aquela mulher. A que eclipsa todas as outras, que traça uma linha entre o antes e o depois. Ele pode amá-la para sempre e o final ser de conto; 
deixá-la perdida nas páginas da sua História; ou, num vai e vem kármico, reencontrá-la uma e outra vez. Pode mesmo odiá-la, castigá-la, querer feri-la em paga das dores que ela lhe causou. Debalde - é a si mesmo que magoa mais. As paixões que são um veneno no sangue não são um exclusivo masculino ( antes, a sua raridade torna-as especiais para ambos os sexos) mas as mulheres tendem a um sofrimento condensado. Uma vez choradas todas as lágrimas, dificilmente vêem no amor seguinte o rosto do primeiro. Não é que (como na imagem ao lado) os homens que uma mulher ama tenham o mesmo valor de um vestido. Talvez para algumas - mas seres humanos maus há-os em ambos os sexos. O que acontece é que uma mulher vê o homem amado como o vestido preferido. Tenta por todos os meios  tratá-lo com delicadeza, estimá-lo, conservá-lo. Se já não servir, tentará assim mesmo arranjá-lo para que sirva. Talvez procure até emagrecer só para voltar a caber nele, nem que tenham passado vinte anos. Mas quando vê que isso é impossível, passa ao vestido seguinte. Com resignada pena. A nossa dor é mais suave porque somos seres habituados, pela genética e pelo hábito de séculos,  a sofrer, a esperar e a suportar os alicerces em silêncio. A posse, a pertença, não é tão urgente nem tão desesperada como é para eles. O caso deles é outro. Aquela mulher é como o cometa Halley, mas quando finalmente aparece vira-lhes o mundo do avesso. Mancha tudo o que se segue. Contamina. Destrói tudo o que toca. E é o rosto dela que aparece no de cada mulher com quem se cruzam, de noite e de dia, consciente ou durante o sono,  tornando tudo o resto insuportável. Tornando aquela mulher a matéria de que as lendas são feitas. Mas tenho para mim que por muito romântico que isso seja, por muito arrebatador que seja ser aquela mulher para alguém, é preferível que o homem em causa saiba o que fazer com isso. E muitas vezes, quando uma mulher amada se tornou aquela mulher, isso é mau sinal: que se amou mal, ou demasiado. Que o sofrimento se prolongou até tornar a relação inatingível e por isso, idealizada. Porque os romances mais belos são quase sempre trágicos. Bons para os livros. Entretenimento.








Regrets, I had a few...


...pois se vivermos bem, os arrependimentos nunca são muitos. Mas são esses poucos arrependimentos que  nos fazem encolher por dentro. Aquele pressentimento que devíamos ter ouvido, o aviso que podia ter sido dado, o telefonema que nunca havia de ter sido atendido; o "sim" que custou caro, o encontro que devíamos ter cancelado, o 2+2 que podíamos ter juntado mais cedo, o gesto que nunca devia ter sido feito, as palavras que podíamos ter evitado, os assentimentos, os consentimentos. Como todas as emoções negativas, não vale a pena lutar contra elas, forçar, ou fingir que não estão lá: a única forma de nos livrarmos deles é reconhecer que existem, deixá-los manifestar-se e libertá-los como um balão de ar quente. Porque por muito incómodos que sejam, os arrependimentos são apenas fantasmas do passado: não podem magoar-nos a não ser que os alimentemos...ou que se continue a fugir deles para sempre, em permanente negação. Fizemos o melhor que pudemos e sabíamos na altura. "Na altura, pareceu boa ideia". Depois viu-se que não foi assim. Há que dizer com os nossos botões "já passou, já passou" como quem consola uma criança que esfolou um joelho. E ter a certeza que ao menos, daí para a frente, sabemos exactamente como NÃO proceder. É uma orientação, e uma orientação para o futuro é meio caminho andado.

Ulyana Sergeenko, Imperatriz para imperatrizes do século XXI.


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Quer-me parecer que com esta senhora, a arte regressou à indústria de moda. Faz falta o sonho. Faz falta um conceito, associado à fantasia e à alfaiataria perfeita. Já a tinha mencionado porque apesar de eu ter certa resistência a novos designers, o seu trabalho me conquistou de imediato: eis uma mulher que desenha para mulheres, com aspecto e formas de mulheres, que faz roupa para si para si mesma (nada como uma mulher para verdadeiramente compreender outra) e que vai buscar a inspiração às épocas e cenários que celebram a verdadeira feminilidade: o século XIX, a Belle Époque, a Idade Média, os anos 1950. Sem nenhuma ordem especial, aqui ficam alguns exemplos (e todos deste ano) que confirmam a ideia: é muito raro que quase tudo o que uma criadora faz seja de perder a cabeça. Mas Ulyana consegue-o. Colecções de perder a transmontana - fatais, como certas mulheres.
 
 
 


Tuesday, July 9, 2013

Simples alegrias da vida: midnight margaritas


 
 
Ouvir que um dos nossos bares preferidos na cidade - com uma tradição de décadas, um sítio íntimo, à moda de outros tempos, com a decoração elegante que sempre teve, discreto num cantinho, daqueles que é preciso tocar à campainha para entrar e que serve os melhores cocktails, cervejas alemãs com sabores e umas margaritas como já não se fazem...continua aberto. Que aliás, nunca fechou, eu é que fiquei com essa ideia não sei por alma de quem. Não há nada como o dissipar de um rumor negativo para me deixar contente. E cada vez mais vai sendo difícil encontrar lugares agradáveis para estar: com tradição, com um nome que não muda a cada seis meses, sem pretensões e imune a modismos. E sossegadinho, sem fauna estranha. Ainda bem que as coisas boas se mantêm.  


Inés de la Fressange dixit: silêncio, que vai falar uma Senhora.


 
 
Sobre como o estilo é uma forma de ver a vida e desfrutar dela, in Hola!:
 
"Sou uma afortunada, porém também tenho a sorte de dar-me conta disso. As coisas dramáticas que sucedem na vida deviam ajudar-nos a relativizar, mas acima de tudo, a identificar-nos com os outros".
 
Se há coisa que me aborrece é ver pessoas que têm tudo para ser felizes e ainda assim, arranjam todas as desculpas para a depressão, para a auto destruição e para a lamúria . Aceitar graciosamente as bênçãos que a vida nos dá (e reparar nelas, por mais que se viva rodeada de coisas bonitas) não é só uma receita para a felicidade; é um sinal inequívoco de classe e serenidade interior. Claro que o sucesso tende a ter efeitos mais nefastos em quem não foi preparado para ele, ou em quem se centra em si próprio. Inès de La Fressange (modelo icónica, tão dotada de berço e raça como de elegância) não sofre desse mal. Sabe estar, como só uma Senhora pode. Reagiu à viuvez como só uma Senhora sabe. Consegue amadurecer sem envelhecer e sem se tornar uma caricatura de si mesma, porque o chic parisiense nunca caduca e quem está certo do seu lugar na vida não se deixa impressionar por coisas efémeras, nem pela inveja, nem pelo sucesso ou juventude alheios. Simplicidade no estilo (eterno e à prova de bala) joi de vivre e consciência de que tudo é emprestado neste Mundo logo, as alegrias, os prazeres da existência e a futilidade saudável são extras de fazer levantar as mãos para o céu parecem fórmulas comuns. Porém, é preciso know-how para as aplicar verdadeiramente. Proveito dela, que já nasceu ensinada. Exemplo para todas as outras - e para muitas cabeças tontas de todas as idades.

 


Monday, July 8, 2013

Ainda uma grande verdade do filme de ontem***

                
 
"A wolf may be more than
he seems. He may come in many disguises.The wolf that ate your sister was hairy on the outside.
But when she died she went straight to Heaven. The worst kind of wolves are hairy on the
inside and when they bite you, they drag you with them to Hell. "
 
 
 
 
*** (Que ganhei coragem para ver aqui, e é brilhante).


A Bazaar tirou-me as palavras: menos circo, por favor.

 
 
Há dias, dizia eu isto sobre o bem vindo regresso da sobriedade às plateias dos desfiles. Fiquei agradavelmente surpreendida ao ler este artigo de conteúdo muito semelhante na Harper´s Bazaar. Ainda bem que tão augusta publicação repara no mesmo que eu.   Sou toda por mais "corvos" e menos "pavões", por mais estilo/arte/elegância e menos circo. É bom saber que as pessoas discretas não são tão pouco numerosas como isso. Sempre me ensinaram não ser bonito fazer espectáculo de nós mesmos, e o máximo a que me atrevo é a um acessório por outro mais chamativo. Ou a leques, como o kaiser - pouco habituais por cá mas muito comuns em Itália e Espanha, onde ainda se cultivam regras de outros tempos e as senhoras não dispensam o abençoado "ar condicionado portátil".

A moda reinventa-se: aberturas dos anos 80 e 90

uma thruman

Por vezes tenho um dom de apanhar tendências no ar, com meses (ou mais) de antecedência. Não sei se o processo é consciente, mas sinto-as avizinhar-se. Inspirações e formatos permitem aos olhos atentos ver a direcção em que as tendências se encaminham.  Em dois Verões seguidos, dois vestidos muito diferentes vieram parar ao meu armário. Um deles azul escuro com botões dourados, ao melhor estilo navy, com um decote nas costas formado por aberturas em cruz. O outro, um vestido de cocktail muito semelhante este de Uma Thurman, com aberturas entrançadas nas mangas e na saia. Algo que me recordo de ver nos vestidos de festa (ou mesmo em blazers) de senhoras amigas e familiares nos idos anos 80 e 90...mas que desapareceu desde então. A inegável elegância dos dois fez-me pensar que com um jeito, podia dar-lhes, respectivamente, uma aura chic e cool, uma vez que estamos em época de revivalismos, de misturas livres e que o meu adorado estilo ladylike se impôs definitivamente. Mas confesso que não esperava algo tão literal. Não é uma opção habitual para mim, mas estou definitivamente curiosa para ver o que farei com eles. E palpita-me que vamos ver bastantes peças destas por aí. Opiniões?

O homem dos vinte sorrisos

 
Sabem aqueles filmes que vemos na infância e nos assombram para o resto da vida? Esta semana, quando procurava outra coisa, deparei-me com um deles, cujo nome já nem recordava. E quando li a sinopse, fez-se luz e fui resgatar ao fundo da memória detalhes esquecidos - precisamente aqueles que me marcaram. Tratava-se de The Company of Wolves, que afinal não era um filme de terror como eu julguei estes anos todos e sim de um conjunto de fábulas algo freudianas sobre o simbolismo escondido no folclore dos contos de fadas - tema que adoro - um pouco na linha de uma das minhas séries preferidas de todos os tempos, The Storyteller. O que não o torna menos sinistro e por isso mesmo, menos interessante. Mas divago - vamos ao que nos trouxe aqui.
 Eu e a avó fazíamos serão, como era nosso costume às vezes, e como ela nunca foi mulher de se assustar com nada (ela própria era uma grande contadora de histórias e influenciou muito a minha paixão pelas ditas) deixou-me estar, toda empolgada porque o filme já andava a ser anunciado há alguns dias. Mas quando a mãe chegou e me viu toda entretida na cena mais horrorosa - nem mais nem menos do que uma transformação em lobisomem que me ficou na cabeça até hoje - achou que era demais e apesar dos meus protestos, mandou-me para a cama. De modo que só vi metade do enredo (estou a ganhar coragem para o rever, com medo não do lobisomem mas de que a memória não corresponda à realidade).
  Mas aquilo a que assisti ficou, precisamente porque toda a estória girava à volta de uma avó que relatava contos populares à neta. E o conselho que ela lhe dava, também as minhas avós me davam: "nunca confies num homem com sobrancelhas espessas e unidas". E se tiverem olhos fascinadores, pior um pouco. Está claro que as minhas avós e tias, apesar de contarem casos de lobisomens que corriam sete aldeias a arrastar correntes, não acreditavam propriamente neles. Mas é folclore, percebem? Tudo é alegórico nestas coisas. O Capuchinho não é mais do que todas as mulheres, uma data de conselhos desmancha prazeres para que não se confie em cavalheiros misteriosos, de beleza algo obscura e sorriso lupino. Para a avó, um homem de sobrancelhas espessas tinha algo de selvagem e incontrolável; sobrancelhas dessas prenunciavam sempre um carácter tempestuoso e ciumento. Péssimo material para namoros ou coisa mais séria, portanto. E eu achava graça a isso. Confesso que sobrancelhas expressivas, independentemente do seu formato, sem constituírem uma preferência são algo que me chama a atenção no rosto das pessoas, e nunca dei importância especial ao aviso, nem para um lado nem para o outro. E com a minha imaginação, um visual algo misterioso tem sempre o seu apelo. Mas as avós têm sempre razão. Não disponho de dados estatísticos mas a julgar pela amostra, atrevo-me a repetir o aviso. A vida ensinou-me a prestar atenção a essa característica particular. A isso, e a senhores que tenham vários sorrisos. Todos temos mais do que um (o sorriso tímido, o sardónico, o aberto e o neutro, por exemplo) mas ter cerca de vinte (um puro e inocente, outro malvado, outro sarcástico, outro triste, outro assustador e por aí fora) por mais intrigante que seja, por mais curiosidade que desperte, é muito mau sinal. Não digo que indique um lobisomem em potência, porque se ainda existissem já tínhamos dado por eles nesta era da informação em que tudo se sabe. Mas lá está, tudo é metafórico nestas coisas. E em algumas pessoas, a natureza selvagem, o lobo que vive dentro delas, está muitíssimo presente. Valha-me que gosto de usar capuchinhos: são excelentes acessórios de moda, caem bem com tudo, e dão um jeito enorme para esconder o rosto quando passa um lobo em potência, que não convém olhar nos olhos.

Sunday, July 7, 2013

Money to burn


 
Há uma pessoa cá em casa que tem umas filosofias muito engraçadas em relação ao dinheiro, principalmente quando vai ao multibanco. Por duas vezes fez um levantamento, trouxe o talão e deixou lá o dinheiro, para fazer a felicidade de quem veio a seguir. Noutra ocasião atirou-o com o talão para o caixote do lixo. E desta vez, rasgou uma das notas junto com o talão. Por acaso lembrou-se a tempo e agora tem de levar o ridículo puzzle ao banco. Como se costuma dizer nesta família "estraguem, estraguem, que a ordem é rica e os frades são poucos". A brincadeira até já motivou umas acusações de comunismo e anti capitalismo (o céu nos livre, era o dia em que arrumava a trouxa e ia viver para outra parte) à hora do almoço. Está certo que o apego ao dinheiro é demasiado pequeno burguês para o meu gosto, mas vivemos no mundo real e deitá-lo fora, rasgá-lo ou queimá-lo também não me agrada: pode ser libertador mas não é lá muito bom feng shui e além disso lembra-me os novos ricos da febre de volfrâmio nos anos 40, que acendiam os charutos com uma nota...Credo.
 
 

Christian Dior me, Machiavel me, Lauren Bacll me, etc - parte II: o calor infame



Desafio do dia: continuar, até à desejada conclusão, a organização do closet de Verão. Com este calor infame, que não há nada que o faça recuar. Trabalha-se um pouco até que o sol lá fora esteja menos agressivo para poder sair e dar uns mergulhos. Depois volta-se, rezando para que esteja fresco o suficiente (que piada) para mexer em têxteis.  Pára-se mais um pouco para entrar em água fria outra vez. Pensa-se que sem as coisas de Verão devidamente alinhadas é um sarilho fazer a fatiota nossa de cada dia, que há horários e agendas a cumprir, tudo para ganhar coragem. Depois quer-se vir postar no Imperatriz mas até estar sentada  escrever nos faz ferver o sangue como se a cadeira tivesse um fogareiro por baixo. Não se perdoa que o Verão tivesse andado a fazer de Inverno até Junho (foi a primeira vez na minha vida que usei botas em Junho!) para agora, de repente, quando uma pessoa precisa de ter tudo em ordem, fazer isto, aparecer com a força máxima. E ainda diziam que o Verão ia ser fresquinho e sem graça. Nunca desafiem o poder das estações: elas gostam de contrariar.
 O remédio é pensar nos resultados. Na alegria que vai ser ter os outfits preparadinhos, dress and go para trabalho, ocasiões sociais e lazer. Eu gosto de ter alegria e espalhar alegria por aí: para mim própria, pois poucas coisas são tão divertidas (esqueçamos as temperaturas) como o indoor shopping - e o outro, desde que com moderação;  para as lojas, que o tempo é de crise, e para a minha costureira que já está a esfregar as mãos de contente com as minhas peripécias de dandy de saias. Oh, well - se mais alguém anda em arrumações de Verão, só vos posso dizer ao ataque, meus bravos!...e partilhar algumas inspirações da semana.




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