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Saturday, August 3, 2013

Eu embirro com...puzzles. E com pessoas-puzzle.

                                           
É frequente ler-se por aí que os nativos do signo Virgem, sendo dados à organização e ao perfeccionismo (coisa que sou mesmo, com a particularidade de, por golpe de vista, conseguir dar atenção ao detalhe em tempo recorde porque não tenho paciência  para torrar minutos com picuinhices) apreciam puzzles. Esse lugar comum "és organizado, logo és chato" irrita-me porque nunca gostei nada de tal passatempo. 
    Passo a explicar: puzzles e charadas fascinam-me desde que haja algo a ganhar com isso, estilo Indiana Jones, se decifrar o enigma o tesouro é seu. Em pequena, 
encantava-me o xadrez (como tudo o que envolve estratégia...não me fiz marketeer por nada!) mas o puzzle sempre me pareceu um hobbie de quem não tem qualquer imaginação. Tanto trabalho, tanto quebra cabeças para uma coisa que já se sabe que resultado vai dar. Em suma, cansar os neurónios para nada. Bem podiam dizer-me que era didáctico (eu embirro com coisas didácticas, palavra que sempre me soou a tentarem ensinar-me à socapa coisas que não estava minimamente interessada em saber) ou pior, que exercitava a mente: nunca achei graça a "paciências".
   A paciência não é, aliás, o meu forte; sou capaz de ter paciência de Job, sim senhor... se, lá está, tiver alguma vantagem nisso. Mas precisei de a treinar e sempre a vi como um mal necessário. E veja-se, a vida já nos dá tanta ocasião para exercitar a paciência de chinês (saber esperar é uma virtude, etc) que não há necessidade alguma de me torturar com jogos de tabuleiro (ou de chão, em alguns casos) mortalmente maçadores e que ainda por cima, desarrumam. Há lá coisa mais foleira do que peças de puzzle perdidas atrás dos móveis  ou coladas à sola dos sapatos?
 A única coisa associada a puzzles que me agrada é a expressão anglo- saxónica "you puzzle me". Os nossos velhos aliados têm maneiras simples e encantadoras de se exprimir. 
    Mas creio que é escusado dizer que quem me deixa "puzzled" não me encanta. 
 Pessoas-puzzle não me seduzem nada. Claro que o mistério é sempre um atractivo, mas quando há segredos a mais, mentiras a torto e a direito, enigmas gratuitos ou prolongados, contradições absurdas e atitudes que não fazem sentido nenhum a minha desconfiança dispara, fico convencida que estou perante um indivíduo que na melhor das hipóteses não joga com o baralho todo e perco rapidamente o interesse. Afinal, pessoas puzzle são exactamente como os puzzles de mesa: chatas. Fazem-nos perder tempo, provocam stress, queimam-nos os neurónios para não ganhar nada e antes de começar o jogo, já se sabe qual é o resultado final. Só é pena não virem identificadas numa caixa; poupavam-se horas e raciocínios preciosos e atiravam-se as pessoas-puzzle para o caixote dos brinquedos antigos a doar a instituições. Ou se calhar não: pessoas-puzzle ninguém merece, muito menos os mais desfavorecidos que já têm problemas de sobra. Directamente para o caixote do lixo, isso é que era de valor.


Eu cá não sou de wishlists, mas...

     




Dolce & Gabanna, 1990s
                   

Por estes dias tenho-me deparado com meia dúzia de coisas que, não sendo o cúmulo da novidade (e quem já me conhece um pouco, de passar por aqui, sabe que prefiro o tried-and-true à extravagância) podiam muito bem completar a minha colecção. Há quem perca a cabeça pelas últimas tendências; eu só me tento realmente perante bons básicos. Excelentes. Por mais recursos que tivesse, dificilmente me veriam com o último statement shoe ou it bag, a não ser que fosse um design intemporal, eterno, que me durasse uma vida. Digo eu, e diz quem sabe como se comentou por aqui há dias, que os investimentos maiores devem ser feitos nas coisas que duram, que podem ser passadas às netas.  

Para as novidades giras, mas passageiras, é que se inventou a fast fashion (e a bem de um orçamento equilibrado e de um aspecto que pareça dispendioso, convém saber escolher artigos de qualidade mesmo nas cadeias acessíveis, vide aqui). No quesito básicos bons e baratinhos, a compra acessível a não perder é sempre a t-shirt 90% a 100% de algodão, com ou sem mangas. Nestes saldos perdi-me na Stradivarius, loja em que raramente entro actualmente, porque se lembraram de fazer t-shirts de bailarina. Estas que Audrey Hepburn e Brigitte Bardot imortalizaram e que favorecem, sem excepção, todas as mulheres. Convém ter muitas, porque raramente aparecem. Ainda há, por isso corram antes que eu lá volte. Existem em várias cores mas recomenda-se o preto, branco e azul escuro:

                                            T-shirt básica


Mas se falarmos de compras que têm de ser muito pensadas, e feitas ao logo do tempo, dos sheath dresses e tailleurs Dolce & Gabbanna podia vir um de cada cor (e no caso dos vestidos, um de cada material, com manga e sem, para o dia e para a noite...). Poucas casas fazem vestidos lápis como Dolce & Gabanna, a não ser talvez Vivienne Westwood. E há a inspiração siciliana que colocam em tudo o que fazem, o que para mim conta duplamente.  Mas se falamos de cinturinhas vincadas, uma rapariga nunca pode dizer não a mais uma saia Christian Dior. (Um vestido New Look, vintage é claro,  da mesma casa faria as minhas alegrias, mas não está nos planos para os próximos tempos...). E quanto à peça que me faz perder mais a cabeça entre todas as tentações à face da terra -a calça cigarrette de bom corte e bem forrada -  essa convém que seja Chanel, por muito boas versões mais acessíveis que vão surgindo. Mea culpa, deixei escapar um estupendo par recentemente, com aquele corte fabuloso que já não se faz. Lá chegaremos.
Dolce & Gabbanna e os seus Sheath Dresses
Christian Dior, 1950s

   
A tia Audrey, rainha das slim pants
Dress 1940s Timeless Vixen Vintage
Oscar de la Renta, 1960s
                                                                                                  

Friday, August 2, 2013

E chegar a casa a estas lindas horas...



...mas de férias at last, depois de um intenso dia de trabalho (lá diz o povo, quem corre por gosto...) que incluiu um excelente almoço e uma óptima notícia, com-Deus-o-diga-e-o que-é-ruim-não-ouça, lagarto-lagarto
 (Quando se fala em boas notícias convém usar esta fórmula das minhas antepassadas para esconjurar o mau olhado, que querem? Nunca se sabe.)
É para estar contente, pois é. Cansada que nem me seguro nas sandálias (trabalhar das 9 da manhã às 10 da noite com uns jeans vintage fabulosos de cintura subida tem os seus quês) com os neurónios desconjuntados, mas satisfeita. Tenho a agenda muito preenchida para os próximos dias e imensas coisas que quero fazer - incluindo a revolução suprema no meu armário, que isto o adágio as revoluções nunca estão feitas aplica-se, mais do que a nada, às revoluções privadas e porque não, aos pequenos prazeres. Às coisitas (as vitórias do dia a dia, as delicadas superficialidades, os minúsculos prazeres) que tornam a vida boa.

Thursday, August 1, 2013

Coimbra com bom gosto e...ideias geniais

                     
Isto não é só ter estatuto de Património da Humanidade: há que aplicar a Sabedoria a ideias úteis para o comum cidadão. Ou para pessoas com gostos exóticos (e chatos!) como os meus. Um grupo de investigadores meus conterrâneos que deve gostar tanto de tamarilhos como eu, e que tal como eu, deve estar cansado de não os encontrar em lado nenhum, teve a brilhante ideia de os...clonar
 Passo a explicar, porque como estou atrozmente cansada as minhas ideias podem não estar a fazer lá muito sentido: a tia C. tinha em casa uma linda árvore de tamarilhos, vulgo tomate brasileiro ou, como lhes chamávamos, maracujás encarnados. Como sempre fui dotada de uma grande imaginação, pensava que a Árvore do Bem e do Mal, lá no Éden, seria exactamente assim. Os pendentes escarlates nasciam ali aos cachos, maduros, deliciosos, e eu e as minhas primas gostávamos de nos sentar lá debaixo a brincar, ou à conversa, mordendo tamarilho atrás de tamarilho. Mesmo assim a árvore dava tantos, tantos, tantos que sobravam sacos deles para fazer compota (uma iguaria do outro mundo) ou para pôr numa taça com açúcar, e comer à colher. Não só o fruto tem um sabor único como está associado a algumas das melhores recordações da minha infância...
 O idílio acabou quando o meu tio, num acesso que não lembra ao mais pintado, cortou a árvore porque ela crescia muito e lhe tapava...um limoeiro. Um limoeiro, por amor da Santa! Nada contra os limões, mas limoeiros é o que mais havia por aquela terra fora. A partir daí, foi uma travessia no deserto. Só muito pontualmente os encontro, ora caríssimos (e parcos) ora nos jardins de pessoas que cometem o sacrilégio de nem sequer os apanhar, prova provada que dá Deus tamarilhos a quem não tem juízo. Há um ano corri tudo quanto era feira e loja da especialidade em busca de uma árvore-do-Paraíso para plantar. Não imaginam a canseira, os cordelinhos que tive de mexer, etc. E lá a arranjei, raquítica. Não vingou. Outro desgosto.
 Por isso, acho lindamente que estes senhores inteligentes e de gosto da minha cidade recorram a "um conjunto de plantas seleccionadas de tamarilho altamente promissoras para afirmar a produção e consumo deste fruto exótico em Portugal". Que "a partir de material vegetal proveniente de diferentes origens, designadamente da Madeira e dos Açores, onde há pequenas produções, os investigadores" tenham conseguido, benza Deus "desenvolver um método de clonagem por embriogénese somática" (processo que permite "multiplicar plantas seleccionadas") e que prometam " garantir uma produção rápida e resistente a pragas e intempéries, o que no caso do tamarilho assume grande importância, já que é uma fruteira muito sensível às geadas". Às geadas e a tudo, que o malvado do tamarilho é picuinhas que se farta. As melhores coisas são delicadas e sensíveis, já se sabe. Fico mesmo contente quando alguém decide dar-se ao trabalho de me fazer as vontadinhas. Coimbra é uma lição, pois é.


 

Aqueles vestidos que duram para sempre

Dress Oscar de la Renta, 1960s Timeless Vixen Vintage
Oscar de La Renta, 1960s

Um grande, grande designer acompanha a sua época mas tem a capacidade de a transcender. Se a atmosfera "make love, not war" e o exotismo não são alheios a este vestido, também é verdade que ele cairia lindamente hoje, e não limitado a looks hippie-chic. O bordado intemporal (um dia falaremos sobre o uso dos bordados orientais nos espectaculares trajes das elites europeias) é acompanhado de uma modelagem clássica e de um decote shoulderto shoulder que só pede um stiletto e uma clutch (ora do mais bem comportado,ora com um bocadinho de ousadia consoante os gostos) para brilhar num evento que exija um dress code desafiador da habilidade. Ou para quem tenha quilos de descontracção, umas sandálias rasas em tom precioso, para um passeio elegante. Certas coisas não envelhecem. Este é uma peça de museu, mas se encontrar um irmão desgarrado, juro que perderei a cabeça.
                                  


Wednesday, July 31, 2013

"And they shall love me, and despair". Respeito por si, Ms. Blanchett. Todo.

                             
Cate Blanchett é sem sombra de dúvidas uma das mulheres do star system que mais admiro. Não é por acaso que interpreta tantas vezes personagens elegantes e aristocráticas: tem o porte perfeito, a pele imaculada, as maçãs do rosto altas, o ar racé e a silhueta incrível que não se podem prestar a outra coisa. A tudo isto adicione-se o rosto singular e o ar enigmático. Considero-a lindíssima, com o tipo de beleza misteriosa que cativa e dá vontade de olhar mais vezes. E como se não bastasse, foi abençoada com um gosto admirável. Nunca se vê Cate Blanchett desleixada, como tantas outras colegas. A promover "Blue Jasmine", o novo filme de Woody Allen - para o qual mexeu cordelinhos que só uma rainha dos elfos pode, sendo vestida por Karl Lagerfeld, Carolina Herrera e Fendi (entre outros favoritos meus) - a actriz deu verdadeiras lições de estilo: do vestido preto espartilhado Altuzzara (acima) ao blazer creme Stella McCartney + calças Chloe + sandálias Roger Vivier e carteira Tod´s à chegada ao aeroporto (abaixo, à esquerda) passando pelo vestido Alexander McQueen(dir.) e por um não-consegui-descobrir-de-quem-é mas-faz-totalmente - o -meu -género sheath dress bourdeaux, a sua pequena tournée foi uma festa para os olhos. Some women can´t do no wrong...

                
                                  

A invasão dos "Pobrezinhos" (ou de como este país perdeu mesmo o tino)

Resposta a Cristina Espírito Santo: Invasão Dos Pobrezinhos à Comporta

Quem não se sente não é filho de boa gente, é verdade. Mas reagir a uma tonteria com uma tonteria colectiva ainda maior não me parece de gente ajuizada.  Saltar de indignação a cada carapuça, que às vezes nem carapuça é, que seja atirada a esmo não tem nada a ver com honra. É um sinal de ressabiamento, de rancor fácil, de agressividade mesquinha. Está certo que as declarações de Cristina Espírito Santo não foram a coisa mais simpática que lhe podia ter ocorrido dizer. Não foi gracioso. Foi talvez deselegante. Era, para seu próprio bem, desnecessário. Tal como gerar polémicas que chamem a atenção para uma praia que se pretende sossegada, com ou sem a ajuda de mosquitos...
 "Brincar aos pobrezinhos" numa cottage, por oposição a um estilo de vida mais pomposo o resto do ano, é uma imagem meramente  ilustrativa, que (quer-me parecer) não se refere a ninguém. Mas vindo de quem vem ( não esqueçamos que o nosso país embirra com "ricos", numa perspectiva mui socialista e mui equalitária de ninguém ser mais do que ninguém, era o que faltava!) e numa altura em que a carapuça do "pobrezinho" assenta, ou cai bem que assente, a muita gente (ao contrário do que sucedia há uns anos, quando todos queriam armar em riquinhos ou melhor, burguesinhos, com os seus carros de leasing e os grandes casarões)  estava-se mesmo a ver no que ia dar. Já o disse várias vezes: a ostentação não cai bem em lado nenhum, e nesta altura muito menos.  Mas atenção aos exageros e ao ridículo. Porque quer-me parecer que neste país todos somos livres de dizer disparates, porque estamos em democracia ai Jesus a Liberdade, e a República e o 25 de Abril desde que se respeitem as sacrossantas alíneas abaixo:

- Quem diz disparates tem de vir "do nada". Por exemplo, se o Toni Carreira dissesse uma dessas invadia-se a praia em questão, mas para fazer um pacífico Mega Piquenique. Ou ser de Esquerda. Ou ser pobrezinho, remediadinho, parolinho, humilde. Nada cai tão bem à imprensa como dizer "EU ERA MUITO POBREZINHO".  A todos os outros, está vedado o direito de dizer tolices.

- Podem dizer-se todas as tonterias, cometer-se todas as vigarices, mas não se pode melindrar os preconceitos de classe de ninguém, logo carteiras Chanel, praias "exclusivas" ou mesmo bifes são assunto tabu. Tudo bem que eu própria prego que não se deve mencionar os próprios luxos, mas às vezes acontece. E desculpem, tão parvo é dizer " EU CRESCI MUITO POBREZINHO" como ainda há dias vi numa entrevista que me encheu de vergonha alheia, como "VAMOS BRINCAR AOS POBREZINHOS". Ou há moralidade ou falam todos, minha gente.

- Por fim, à conta de uma declaração tonta, que não visava ninguém, que vale o que vale, vai armar-se um circo que eu estou curiosa por ver como será, confesso. Quem é mais tolo: quem diz uma patetice no decurso de uma entrevista ou todo um povo que se revolta à conta disso?

- Enfim, as pessoas que enfiaram a carapuça vão fazer uma exibição do estereótipo do "pobrezinho" com garrafões e tudo. Qual é a utilidade de se sujeitarem a esse papelão, de enfiarem a carapuça, é que eu gostava de saber. Não nego que há um certo humor na situação. E se o povo não perde a vontade de brincar, mesmo que a brincadeira seja algo tosca, enfim; não se esqueçam é que mais uma vez estão a descarregar no primeiro bode expiatório que está à mão.

 - A senhora disse o que pensa. Eu mesma já disse que sou capaz de andar quilómetros e saltar dunas sem acessos pedonais para estar numa praia com pouca gente. Que espero que essas praias continuem inacessíveis e chatas de lá chegar, para não se estragarem. Nem todos gostam de Mega Piqueniques, Festas sunset das Rádios até às tantas no areal, e por aí, gostos são gostos. E tendo em conta como certos sítios são deixados depois de as "certas pessoas" darem com eles, então os mosquitos dão mesmo jeito.

Só espero que no fim da "invasão" deixem a praia limpa. Mas não terão mesmo mais nada com que se ofender?

Tuesday, July 30, 2013

Estilo intemporal: a saia da Carolina. E as calças. E as blusas...e o resto.

                                          Carolina Herrera Clothes
Já por estes dias comentei como adoro tudo o que sai das mãos de Carolina Herrera, para não falar da própria senhora. Sobre o seu chic (é uma senhora, afinal, espécie em vias de extinção) já falei no referido post. Mas o seu estilo pessoal, que transmite a tudo o que faz, é digno de nota: pessoalmente prefiro  o clássico, o rigor no corte e uma estética clean a muita criatividade, que nem sempre é boa receita. E a Señora Herrera é mestre nisso: as camisas e blusas brancas que são a sua assinatura, os vestidos imaculados, os básicos perfeitos. Mais do que qualquer coisa, respeito as designers que ficam bem nas suas próprias criações, que dão o exemplo. Repare-se que estas peças não só são eternas em termos de jamais ficarem démodé, mas também porque duram uma vida. Mude-se o cabelo, o sapato, o styling e podem vestir-se aos 20, aos 30, aos 40 e por aí adiante. Claro que a isso ajuda (apesar da "democracia" destas roupas, que dificilmente desfavorecem alguém) que se mantenha uma figura fantástica como a de Carolina: mas isso é do departamento da genética, dos cuidados pessoais e de uma certa mística que não se pode comprar...

                          Carolina Herrera ClothesCarolina Herrera Clothes
                           Carolina Herrera Clothes  Carolina Herrera Clothes

Ode à impaciência, aos Calimeros e aos que ficaram presos no passado. Gente chata, em suma.

                                  

Deve ser do stress que antecede as férias, quando tudo decide acontecer ao mesmo tempo: ontem dei por mim, altas horas da noite, a pensar na agenda, com receio de deixar passar a correr os dias disponíveis sem fazer a devida honra às tarefas, compromissos, passeios, visitas e obrigações que me esperam. Tive de dizer a mim mesma para parar com o disparate, porque tinha de me levantar cedo - e era estúpido perder o sono por motivos tão corriqueiros. Depois, não sei se é de mim, que preciso de desligar o chip observador por uns tempos ou mandá-lo desafinar, pois está especialmente apurado...ou se todos os "tipos" que pedem uma caracterização cáustica decidiram atravessar-se no meu caminho: os Dâmasos Salcedes, os Uriah Heeps, os Conselheiros Acácios, os Mr. Collins e tantos outros retratos ridículos saídos direitinhos das páginas dos livros para a vida real sucedem-se e eu, que prefiro mil vezes falar bem do que mal, tenho sérias dificuldades em isolar o meu espírito crítico, o lado negro da minha pena, a impaciência para com o meu semelhante. Logo eu, que não gosto de gente amarga e rezingona, 
acho-me de tal maneira mordaz que, passe a arrogância da metáfora, Oscar Wilde me correria da sala a pontapés. Estou, em suma, a reparar em cada vez mais tipos de pessoas para quem não tenho tolerância. Ora tende lá paciência comigo, porque a vida não é justa e se também estais impacientes, parai de ler e até amanhã:

- Os que se fazem de pobrezinhos, ou adoram contar como eram pobrezinhos. E cantar louvores a como uma certa Revolução que já tem barbas a chegar ao chão lhes mudou a vida, e lamentar que essa revolução foi mal aproveitada, e todo esse discurso chalado.

Porque não há nada mais feio do que ser miserabilista. A pobreza não é vergonha mas também não é nenhum orgulho; e depois, a vida anda para a frente e não para trás. Pior ainda é quando alguém até não teve um começo tão mau como isso mas adora fazer de Calimero ou de Floribela, rebaixando-se a si mesmo e aos parentes que não têm culpa de ter um Calimero na família. Cada um tem o começo que Deus lhe deu e não há que escondê-lo; o self made man, se tem os seus defeitos, tem também as suas virtudes. Mas o mais curioso é que os self made men (e women, vá) bem sucedidos que conheço poderão ter os seus novos riquismos que não fazem o meu género, mas raramente falam em como eram tão pobrezinhos. Sabem porquê? Porque são pessoas ocupadas, com vidas preenchidas e que se fartam de trabalhar. Falta-lhes tempo para pensar no que já lá vai e para contar parvoíces de puxar à lágrima.

- Os taradinhos da utopia. Uns são esquerda de caviar que decidiram chatear o pai e a mãe, que arreliar a parentela é sempre giro mesmo que já se vá nos cinquenta e em posição de ter obrigações. Outros são mais sinceros lá à sua maneira mas não devem gostar de História, logo ninguém os avisou que as suas ideias já começavam a cheirar a esturro em meados de 1989, que até caiu um muro por causa disso, que hoje em dia ninguém sabe exactamente para que lado fica o proletariado porque para o bem e para o mal quase toda a gente trabalha, que o capitalismo não é para ser chamado a propósito de tudo e de nada, que a "luta de classes" não pode trazer nada de bom porque só o nome diz tudo - vai lá uma pessoa governar-se com base em ressentimentos e invejinhas -  e que as utopias são difíceis de pôr a funcionar. Falharam quase todas (e ainda bem...eram uns infernos de primeira água) pelo simples motivo de o ser humano estar programado como indivíduo, não para funcionar aos magotes. É impossível pôr toda a gente a pensar da mesma maneira, a querer exactamente as mesmas coisas. Mas pronto, eles lá continuam a cantar o Imagine (o paraíso de John Lennon dava um post) que eu cá fico na minha, prevenida com naftalina pelo sim, pelo não...

- As pessoas bem intencionadas, coitadas, que adoram "famosos". A televisão generalista, quanto a mim foi chão que já deu uvas, mas para estas pessoas quem teve os seus quinze minutos, nem que tenha sido há vinte anos é lindo, é famoso, é celebridade, nada a fazer. Em vão uma pessoa lhes diz que isso já lá vai, que os tempos são outros, que a "Fama" sem proveito é uma chatice. Debalde. É famoso, é lindo, "lembra-se de quando...?". E eu fico como a nossa querida Beatriz Costa: "ó minha senhora, não me fale no passado. Fale-me em flores a desabrochar, crianças a nascer...". 

Gente assim faz-se velha, e passa a peçonha da decrepitude a quem está.

É certo que saudosismos cada um tem os seus. Mas há cada saudosismo que faz favor. A ter nostalgia que seja de tempos de raça, de beleza, de tradição. De coisas giras, que nos dêem alegria para agarrar o futuro. Quem não tem passado, não tem futuro, mas o que lá vai não deve servir de desculpa para envenenar o presente e o resto...acho eu.






Uma curta história de amor (Long live McQueen!)

                              
Havia um cavalheiro distinto  que não permitia que a mulher que amava, se o acompanhava a alguma festa ou reunião mundana, usasse encarnado. Admirava-lhe o gosto, a graça, a beleza, tudo o que ela escolhia estava bem, desde que se mantivesse longe do escarlate, até dos rubis. A cor do pecado estava reservada ao bâton, e olhe lá. E ela, amiga de agradar, ia relegando os vestidos da cor proibida para o fundo do armário, reservando-os para os dias em que o mais que tudo não estava. Se ele sonhasse havia amuo pela certa; mas amuos são coisa pouca, nada que um beijo não cure, que palavras meigas não apazigúem, é só uma cor, e uma cor que mal tem? Vestido, blusa ou saia igual aos outros, nem mais revelador nem menos. Qual! Se não punha dúvidas quanto ao bom senso dela em escolher a medida exacta da bainha ou do decote - sabia que jamais se roçaria a vulgaridade mas há a milimétrica perfeição que separa a beleza do conflito, o sagrado do profano, o apresentar-se bem da tortura de ver os outros convidados de olhos em riste para os seus ombros nus - quanto à linguagem clara, explícita, que aquela cor falava aos seus preconceitos, isso era mais forte do que ele. Encarnado não é para mulheres sérias. Em vão ela insistia, em tom de nha, nha, nha que a Rainha, God Save the Queen,  usa encarnado - a Rainha é outra história, outra idade e outro posto, e com o mal dos outros posso eu bem.
 Mas um dia apareceu este vestido, e ela não aguentou mais. Se um era como um rei para ela, o outro era McQueen! E como Scarlett O´Hara acusada de adultério, apresentou-se com ele, toda glória e desafio, mulher escarlate. Já era tarde para mudar de roupa e toda a santa noite ele fez o seu papel, com o coração em ânsias e vontade de a trancar na arrecadação, de fazer um disparate. A seda cor de sangue fazia-lhe brilhar os olhos, a pele, o colo, o cabelo; o ciúme e a audácia do desafio (ele que não lhe pedia mais nada, com mil raios!) faziam-lhe ferver o sangue. Bebia e suava frio, e à saída houve cena. Que perante uma daquelas, mais uma daquelas, ele deixava de ser seu namorado, noivo, marido, que o título do senhor não nos diz respeito, e ela nunca mais lhe punha a vista em cima. Perdida por cem, perdida por mil; o prazer de ter usado o vestido já ninguém lho tirava. Lançou-lhe os braços ao pescoço e jurou que podia deixar à vontade de ser seu namorado, noivo, marido, que são afinal títulos potencialmente temporários, à mercê da vontade de Deus e dos homens; mas não deixaria de ser o seu amor, porque isso ou existe ou não existe, e não há birra que tire. Ele fez cara feia de novo, e conduziu até casa de rosto fechado, admitindo lá com os seus botões que o maldito vestido lhe ficava mesmo um espanto. E assim ganhou McQueen: quando uma mulher se apaixona não há nada que a detenha.

Monday, July 29, 2013

Jane Austen sabe tudo. E ensina as mulheres a fazerem-se respeitar.

             
A minha relação com Jane Austen é algo complexa: admiro-lhe o bom senso e a lógica, acho os seus livros encantadores e adoro os diálogos cheios de espírito, mas - pecado imperdoável para muita gente - creio que as suas obras resultam melhor no cinema. Isto apesar de em termos de moda o Período da Regência estar longe de ser o meu preferido (o corte Império e os penteados não são exactamente o meu cup of tea; se vivesse nessa época faria como algumas senhoras e acrescentaria umas "faixas romanas"  aos vestidos na zona da cintura) e de ser precisa muita sensibilidade, passe o trocadilho, do guionista, para que as falas não se percam na tradução para o screenplay
 Pode gostar-se de Jane Austen de várias maneiras - e poucas autoras continuam tão actuais, motivando spin offs, sequelas, blogs, sites e todo o tipo de merchandising alusivo ao seu ambiente e personagens. Um dos poucos "manuais de relações" a que achei graça foi precisamente o curioso Amor e Sedução segundo Jane Austen, porque afinal, a sensatez cabe em todas as épocas. E claro que quem aprecia estes enredos gosta de Elizabeth "Lizzie" Bennet, a protagonista de Orgulho e Preconceito: segura de si, observadora, com os pés bem assentes na terra e, independentemente do seu estatuto na vida, capaz de colocar as pessoas nos seus devidos lugares.

                           
  Em pinceladas largas, para quem está esquecido, Elizabeth pertence a uma família moderadamente distinta que conheceu melhores dias. A sua tonta mãe vive ansiosa por casar as cinco filhas o melhor possível - e o receio da senhora é de certa forma justificado, pois  segundo certas leis inglesas daquele tempo, nenhuma das jovens poderia herdar a casa paterna, que passaria para um primo mais tonto ainda. Tal como as irmãs, Elizabeth não é considerada um bom partido; não dispõe de dote e aos olhos da sociedade só lhe resta depender da sorte ou aceitar o primeiro pretendente que lhe aparecer; recorde-se que na época o casamento era, para as raparigas do seu meio que não possuíam fortuna, uma das poucas formas de conseguir um certo grau de independência. 
   Ainda assim, Lizzie não se deixa intimidar por isso. Recusa categoricamente a proposta do primo insuportável, o bajulador Mr. Collins, e mesmo quando se apaixona pelo glamouroso Mr. Darcy (um partido a que supostamente não poderia aspirar) mantém as suas relações com ele sob um prisma lógico, que raia mesmo o Preconceito. A sua fortuna, a sua posição e o seu bom aspecto não deixam que Lizzie proceda como uma tola, procurando agradar ou mostrar-se diferente do que é. Embora cometa erros ao longo do romance, Lizzie mantém sempre a consciência dos factos, daquilo que é justo e do seu próprio valor - qualidades raras, mesmo nas mulheres dos nossos dias.
   O orgulho dele e as ideias pré concebidas dela quase ditam que vá cada um para seu lado, mas Mr. Darcy acaba por pôr a mão na consciência e perceber que é com Lizzie que quer passar o resto da vida. Faz-lhe então a declaração de amor mais trapalhona e insultuosa da história da literatura:

           
"Quero casar consigo, apesar de ser obviamente indigna de mim; fiz tudo para me afastar mas não sou capaz, blá blá blá..."...ora, obrigadinha. Ainda assim, conheço muitas meninas por aí que saltariam de contentes perante uma proposta tão mal feita, mas a Lizzie é uma rapariga de brio. Mais do que a paixão que sente por Mr. Darcy, mais do que escapar a um futuro sombrio e muito mais do que qualquer sentimento de ambição, importa-lhe a sua dignidade feminina. Não está disposta a aceitar um homem que se considera um presente dos céus. A palavras tão arrogantes (fora uma série de circunstâncias que não importa detalhar agora) responde-lhe nos termos seguintes:

                 
 Como falamos de um clássico, atrevo-me a estragar o final a quem não leu/viu, adiantando que mais tarde o casal vive feliz para sempre, mas em termos de gente honesta e ajuizada. 
  O mais curioso, e mais triste,  é que mesmo no nosso tempo, em igualdade de circunstâncias, vejo raparigas e mulheres dispostas a tolerar desfeitas semelhantes (e coisas muito piores) para manter a todo o custo um relacionamento que não traz nada de bom. Têm à sua disposição meios, educação, independência, e mesmo assim não estão interessadas em fazer-se respeitar nos aspectos mais elementares, apesar de todos os disparates "feministas" (ou pouco femininos) que lhes ensinam. Talvez Jane Austen devesse ser imposta às meninas portuguesas, e às outras, desde a primária. Às colheradas. 

Mostrar curvas com classe? Dior, Bazaar, Helena Christensen e Sofia Vergara exemplificam.

                                Sofia-Vergara-For-Harpers-Bazaar-August-2013
O regresso já debatido das curvas (mais importante, da figura de ampulheta) às passerelles e editoriais de moda parece estar mais do que confirmado. A figura tradicionalmente feminina - embora conveniente e requintadamente esbelta  - foi ganhando protagonismo aos poucos e impõe-se finalmente, após uma longa ausência (só moderadamente quebrada por silhuetas atléticas, mas pouco cintadas como a de Giselle Bundchen). As top models do passado (Helena, Claudia, Cindy) fazem um regresso esplendoroso do alto dos seus quarenta-que-empalidecem-de-inveja- as -de-vinte. As actrizes (Scarlett, Sofia) são a fonte de inspiração, antes das meninas esquálidas de quatorze anos em cima de saltos de metro e meio. Uma nova geração de modelos como Kate Upton, Lara Stone ou  Emily Ratajkowski (a ruiva bonita do controverso clip de "Blurred Lines") toma de assalto a indústria da moda, a cultura pop e os paradigmas do desejável para homens e mulheres, com toda uma panóplia de imagens arquetípicas: bustos de deusa, cabeleiras esvoaçantes, olhos garços, cinturas mínimas e uma sensualidade natural, viva, glamourosa que destrona finalmente a languidez forçada que vimos nos últimos anos. As curvas de 2013 nada têm a ver com a exaltação algo brutal das formas "rechonchudas" (Beyonce, Rihanna, Shakira) enfiadas em roupas de gosto duvidoso. Esse foi um início, mas um início algo trapalhão, para devolver às formas indubitavelmente femininas o desejado protagonismo. Agora é Vénus ressuscitada, a figura curvilínea e esguia da ninfa que regressa, como Brigitte Bardot, Raquel Welch, embrulhada numa aura chic, dispendiosa, cheia de graça. Sofia Vergara em Dior, para a Bazaar (e ninguém desenha para as curvas como Dior) e Helena Christensen para a Futureclaw demonstram melhor que ninguém, apesar dos rostos frescos, do glamour inocente aliado à inevitável maturidade, essa mistura de naturalidade e sofisticação. Lolitas arrapazadas e mulherões duvidosos, arredem-se: a dança agora é outra. Chegou a vez das mulheres. At last.

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                     Sofia-Vergara-Harpers-Bazaar-August-2013-Manolo Blahnik

Paula Bobone dixit: da necessidade imperiosa de protagonismo, de "ter mundo" ...e outros quês

                         

"(...) essas pessoas gostam de estar de tal maneira em evidência que «tanto lhes faz ser a noiva no casamento como o morto no enterro»".

"Ter mundo tem uma conotação positiva que traduz um conhecimento vasto e uma capacidade de mobilidade nos vários círculos sociais, denotando em cada um deles um mesmo e diversificado savoir faire. Alguém que «tem mundo» não se deslumbra com aquilo que é naturalmente bom e belo, sabe reter uma crítica óbvia, que por isso não necessita ser expressa. Alguém que «tem mundo» é e vale pelo facto de ser e é reconhecido como tal sem precisar de o afirmar. Tal poder simbólico tem um valor durável, é de uma alta eficácia e por isso só se encontra nos melhores".

Quem tiver um bocadinho (não é preciso muito) de "mundo", sensibilidade e educação aliados a alguma atenção ao que o rodeia - qualidade que acarreta inevitáveis dores de cabeça, pois muitas vezes repara-se em aspectos e subtilezas que mais valia passarem-nos despercebidos - nota rapidamente  dois tipos de carácter desagradáveis, que muitas vezes caminham juntos.
    Falo das pessoas que adoram ouvir-se a si mesmas, intervir, chamar a atenção sobre si próprias, levar palmadinhas nas costas, que morrem por um poucochinho que seja de protagonismo, de atenção, e que mesmo que disfarcem a sua avidez de fama (nem que seja a fama lá na paróquia)  se descabelam por exibir os seus feitos, ter a palavra em todos os eventos, não deixar falar os outros ( a não ser o convidado de honra, porque lhes convém, e mesmo assim contrariados) fazer-se à fotografia, gabar-se de cada suspiro que dão. Todos já tivemos a infelicidade de cruzar caminho com criaturas destas: o colega chato que prolonga ad nauseam uma reunião que duraria meia hora se ele não insistisse em dissertar sobre coisa nenhuma, fazendo perder tempo a toda a gente; o pateta que adora debates gratuitos; o figurão lá da terrinha que tem de se envolver em tudo, e tem de aparecer no jornal, etc; a beata que já que não manda em mais nada, entende comandar a Igreja do bairro e aterrorizar os escuteiros, com ou sem beneplácito do pároco. São pessoas com um ego do tamanho do mundo, que precisam de massagens e elogios constantes - e já que ninguém lhes dá troco, nem os lisonjeia, tomam o assunto nas próprias mãos.
 Este defeito está muitas vezes associado à "falta de mundo": a uma mentalidade estreita, a uma vida pequenina - porque só quem nunca teve nada pode valorizar tanto coisas insignificantes, "vitórias" mesquinhas. 
     Consigo lidar com muita coisa no meu semelhante, mas a "falta de mundo" não é uma delas. Uma certa ingenuidade pode ter o seu encanto, mas deve vir acompanhada de modéstia e bondade. Ou bem que se é naïve, com uma genuína falta de afectação e artifício que compensa a ausência de requinte, ou bem que se é razoavelmente vivido, educado, sofisticado. Não se pode ter as duas coisas; quando assim é, o resultado é geralmente desastroso. Não há nada pior do que o ressabiado ambicioso que quer ascender socialmente ("subir na vida, como gosta de dizer) mas não sabe estar em lado nenhum. Ou antes, só se sente realmente à vontade no meio de onde deseja sair...
Qualquer convite, qualquer associação vantajosa o deslumbra; deixa-o nervoso, em ânsias; a menor hipótese de brilhar envaidece-o a pontos de o tornar intolerável. Perante um superior, só tem meia dúzia de reacções possíveis: o detestável temor reverencial, a bajulação, a inveja, a curiosidade indiscreta ou o salamaleque. Inevitavelmente comete gaffes, mas não tem a humildade para encaixar qualquer reparo - os traumas de classe vêem invariavelmente à tona, e lá se vai a abjecta vontade de agradar. Não sabe ter naturalidade em parte alguma; tudo o deslumbra, tudo o melindra, tudo o deixa em êxtase. É incapaz de sprezzatura, de subtileza, de discrição, de se misturar discretamente; quer tudo para ontem, acha que tudo lhe é devido. E não tendo "mundo", nem patine, possuindo só a avidez e uma atroz falta de noção que só o "mundo" dá, o engano dura muito pouco. Entre o "bom selvagem" e o "carroceiro com casaca de cavalheiro", entre a "Maria Cachucha" e a "varina feita viscondessa" venham sem dúvida os primeiros. 
  Não há paciência para o falso verniz.

Sunday, July 28, 2013

Bons conselhos de uma fashionista inteligente. MUITO inteligente, acrescente-se.

                               
                         
Ela é gira, loura, elegante e como muitas de nós, apaixonada por moda. Alexa Von Tobel (29 anos) desistiu da prestigiada Harvard Business School para criar o Learnvest: um site de planeamento financeiro pessoal que está a ajudar mulheres (e não só) em todo o mundo a tomar as rédeas do seu dinheiro. O seu trabalho como empreendedora e especialista em finanças pessoais tem sido elogiado em publicações como o New York Times, Wall Street Journal ou Vanity Fair, e Alexa aparece regularmente nas listas das mulheres mais poderosas: "Women to Watch" (Forbes) , "Women Changing the World" (Marie Claire) e "Most powerful women entrepeneurs" da Fortune, em 2012, entre outras.
   A sua motivação para investir em si mesma ("o melhor investimento que você alguma vez poderá fazer") veio do facto de acreditar que muitas mulheres não são educadas para pensar realmente sobre o seu dinheiro. Alexa inspirou-se nos seus próprios erros financeiros - iguais aos de tantas de nós - para criar um mecanismo que pudesse ensinar os outros a realmente gozar o que ganham, evitando o desperdício e construindo um plano para o futuro. 
  Atrevo-me a dizer que concordo com Alexa: muitas mulheres não são educadas para meditar a sério sobre o seu dinheiro. Principalmente quando, como eu, não vêem exactamente de uma família ligada ao comércio e crescem com uma certa reserva em discutir um tema tão...bom, vulgar. No entanto, por mais pruridos que haja os tempos são outros e é necessário tirar o máximo partido dos recursos de que dispomos. O instinto para os negócios, para o dinheiro, também se desenvolve. Não se trata de materialismo exacerbado, próprio de certos círculos, mas de uma gestão inteligente. Mais dinheiro e melhor gestão significam fazer coisas divertidas como viajar ou comprar roupas de griffe sem comprometer o orçamento; "investir" em vez de "gastar". Numa excelente entrevista ao interessantíssimo e muito recomendável  site Refinery 29, Alexa dá óptimos conselhos sobre a melhor forma de apostar em nós mesmas - e usufruir da moda, do ordenado e dos rendimentos. Alguns eu própria os aplico há anos e até já partilhei convosco por aqui (o que quer dizer que estou no bom caminho, how cool is that?) outros são experiência de quem chegou, viu e venceu, logo, vale a pena ler e pensar:

Sobre "como sentir-se poderosa".

Tenho um lema que uso diariamente: "get up, dress up, show up". (Levanta-te, veste-te bem, aparece). Ou seja, estar a horas, vestir-se para o papel e aparecer com um sorriso. Uma pessoa sente-se bem quando acorda a horas, usa qualquer coisa que a faça sentir lindamente e aparece com uma excelente atitude. Tento fazer isso todos os dias. 

Verdade: não há nada como a correria, o stress e a sensação de estar mal arranjada para espatifar a moral. Fazer isto exige disciplina, mas vale bem a pena!

Sobre investir em carteiras Celine, sapatos Vuitton e compras por impulso: 

Adoro moda, adoro finanças pessoais. Penso que não têm de ser inimigas. Tenho as carteiras Celine e Chanel, mas trata-se de fazer as compras que são bons investimentos. O meu conselho seria não fazer compras por impulso: sempre que acho que preciso de alguma coisa, vou  primeiro "às compras" no meu closet. Tiro as coisas que estão atrás e ponho-as à frente  para perceber exactamente o que tenho. Invisto em bons básicos como as bailarinas Chanel e pumps nude em vez de roxo berrante: é óbvio que não vou voltar a usar isso nos próximos 30 anos. Quero comprar coisas que ainda deseje usar daqui a cinco anos. Outro aspecto que considero é o custo de um artigo por ano. Para que um casaco encarnado vivo que custa 1000 dólares tenha um custo por ano de 50 cêntimos, eu teria de o usar duas mil vezes. Irei usar este casaco por décadas? Claro que não, porque é encarnado; então, fico-me pelo preto. As coisas em que gasto mais são intemporais e podem ser herdadas pela minha filha ou neta. Também recomendo comprar em sample sales.

Eu não diria melhor. Sample sales não são tão comuns por cá, mas conhecendo os canais certos valem muitíssimo a pena. E há outros meios para obter roupas que são um bom investimento por preços mais simpáticos. Exige-se estratégia e ponderação...

Sobre a vida:

Se está a considerar algo na sua vida - casar, começar uma empresa, deixar um emprego ou um namorado, coloque o filtro "quando tiver 90 anos, vou arrepender-me de não o ter feito?".


Ou seja, a Fortuna favorece os audazes, desprezar o planeamento é planear o fracasso, gerir as compras pessoais como qualquer outro investimento, e por aí fora. Melhor que uma fashionista, só uma fashionista inteligente. Venham dizer que as mulheres que pensam em moda são tolas, venham.




O terrível momento vergonha alheia

Nosso Senhor sentia vergonha alheia pelos fariseus. Hoje, provavelmente...sente por boa parte da humanidade.
                                 
A vergonha alheia é dos sentimentos mais confusos e constrangedores à face da terra. Senti-la exige um grande sentido da dignidade e do pudor, bastante sensibilidade, noção das conveniências e algum poder de observação.  Fui educada para ter o maior respeito pela dignidade de cada um, o que não me dá muito jeito: já dei por mim a corar só porque alguma figura pública estava a fazer, passe o pleonasmo, figuras tristes, num programa de televisão qualquer. Já me sucedeu ficar constrangida por dentro ao ver pessoas com quem antipatizo serem humilhadas (mesmo que o mereçam) ou 
humilharem-se a si próprias. Mas quando é alguém de quem gostamos a fazer figura de urso, o caso é ainda pior. Não sei como vocês reagem à situação, mas eu fico completamente encavacada. Capaz de me sumir pelo chão abaixo.    A ideia  de essa desonra poder eventualmente manchar-me por contágio (afinal, quando um membro da família ou amigo (a) chegado (a) faz figura de urso, a ursice pega-se, pelo menos aos olhos dos outros, pois diz-me com quem andas...) só muito mais tarde me atinge. Antes disso, face à vergonhaça, zás: fico com as faces a escaldar. Incapaz de articular palavra. Em modo eu nem quero ver, isto não está a acontecer, ó terra, engole-me já. Depois, já refeita do susto, nem seria eu se guardasse para mim o que me incomoda, pois acredito que engolir sapos é a causa de muita doença ruim que para aí anda. Uma vez que a pessoa me envergonhou, causando-me má disposição, a sua obrigação é ser castigada ouvindo das boas; e não menos importante, creio que não estaria a ser boa amiga se a deixasse andar por aí a ser ridicularizada sem o benefício de um aviso. É óbvio que lhe dou um respeitoso sermão. Ou lição de moral. De maneira que a missa cantada não seja *demasiado* constrangedora para quem ouve, que de constrangimentos já basta. Mas o que me custa fazer isto? Era muitíssimo escusado, não era? Creio bem que o chá de noção havia de ser vendido nas farmácias, ou distribuído à população por uma questão de saúde pública.

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