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Saturday, September 7, 2013

Mas porque é que certas pessoas são língua de trapos?

              

Tão língua de trapos, mas tão língua de trapos, que acabam por arranjar sarilhos para elas próprias. Não ganham nada com isso a não ser o prazer pérfido e doentio de armar confusão. Até conheço quem já tenha apanhado sovas valentes por causa disso, sem no entanto perder a mania de contar mexericos, de ouvir um conto e acrescentar não sei quantos pontos...e o pior é que nem sequer fazem fofocas com certo estilo, vulgo Ligações Perigosas ou Gossip Girl - que é comadrice bem vestida e com a luz estudada. Não, é mesmo cordilhice foleira. Seria de esperar que no século XXI, com tanto para as pessoas se entreterem, o vício de  mexericar estivesse extinto. Mas parece-me que em algumas criaturas o hábito é tão natural como outra necessidade qualquer...arranjam intrigas assim como uma macieira dá maçãs. E o que é que se faz às árvores que dão maçãs bichosas? Sulfato, pois. Ou coisa que o valha. Agricultura não é o meu forte.

Profissão: vampiro.

                                      
Embora a febre de Crepúsculo e suas imitações tenha tirado muita graça ao género, sempre tive uma grande queda para o universo dos vampiros e, se me tivesse sido dada tal oportunidade de carreira, teria sinceramente pensado nisso.
 Desliguem agora da realidade por uns instantes e vamos assumir que os vampiros existem, está bem? É que sou menina para isso e para muito mais: numa altura em que tive o azar de trabalhar às ordens de um indivíduo assaz desagradável, deliciava-me muitas vezes a sonhar que eu era vampira, logo podia
 atacá-lo  num momento de fúria justificada, arrumando de uma só cajadada o mau ambiente na redacção e o dilema "o que é que me apetece para o almoço?"...mas divago.

É que vejamos: os vampiros são bonitos, eternamente bonitos, e tudo o que fale ao meu sentido estético está bem para mim. Até podem ser feios por dentro, mas o mundo está tão cheio de gente feia por dentro e por fora que se ao menos o exterior for bonito, já se salva alguma coisa. 

Depois têm um estupendo sentido de estilo, apurado de séculos, com uns toques vintage ou retro aqui e ali, e uma elegância fenomenal, daquela que vai rareando. Fora o Crepúsculo, com vampirinhos imberbes de ténis, nunca vi um vampiro mal enjorcado ou malcriado. (E mesmo para Crepúsculo, foram buscar a minha querida Carolina Herrera para fazer o deslumbrante vestido da noiva enjoada). Os vampiros nunca são grosseiros, a não ser talvez os de 30 Days of Night que eram feios que se fartavam e tinham uns maus modos terríveis à mesa - mas isso são modernices, tal como os vampiros que brilham ao sol, coisa mais amaricada. Vampiros verdadeiros, como Bela Lugosi, Christopher Lee, Lestat, as meninas dos fimles da Hammer, ou vá, alguns de True Blood, possuem uma acentuada sensualidade e um sentido de humor algo cínico, à moda de Oscar Wilde. São snobes no bom sentido. Não há vampiros reles, nem pequeno burgueses, nem suburbanos, nem subservientes: a certeza da sua imortalidade, se lhes dá uma certa amargura - porque já viram todas as torpezas do ser humano e nada os surpreende - confere-lhes muito, muito mundo e uma segurança imbatível. Alguma vez ouviram falar de um vampiro stressado? Com a auto estima em baixo? Preocupado em pagar as contas? Claro que não, os vampiros são como os cavalheiros de antigamente, não se ralam com coisas tão vulgares como o dinheiro. Séculos de vida dão para caçar tesouros, para morder umas pessoas desonestas e ficar-lhes com a fortuna porque ladrão que rouba ladrão tem 100 anos de perdão, para fazer grandes negócios, sabe-se lá. Por isso vivem sempre em grande estilo. E também não engordam, tal como não envelhecem. Não se ralam com absolutamente coisa nenhuma, não lhes falta nada, estão-se nas tintas para quase toda a gente, não acatam ordens, nunca fazem fretes apesar de às vezes terem aquele ar entediado de quem já viu o mesmo filme muitas vezes. Não têm de se preocupar com o certo e o errado (são almas penadas, mesmo) nem  sorrir a gente aborrecida. Aliás, se alguém os maçar muito, podem fazer dessa pessoa o lanche, e problema resolvido. São uns hedonistas de marca maior, porque é preciso entreter a eternidade o melhor possível. E a própria questão da "solidão vampiresca" só existe nos filmes: estou certa de que a maior parte das pessoas das minhas relações não ficaria muito chateada de se juntar ao clã: a vida está cada vez mais difícil, quem se negaria a ser vampiro quanto mais não fosse, para fugir à febre do politicamente correcto? 


Além de que não faltam vampiros bem apessoados, como o Ray Stevenson aí nas imagens, homem mais interessante à face da Terra...

 Os meus problemas seriam com a falta de sol (assim como assim não apanho muito; creio que no quesito palidez estou aprovada para vampira, mas gosto de ver a luz do dia e...como é que eu ia fazer para ir às lojas, por exemplo? Os centros comerciais são algo limitados e apinhados) e a falta de variedade da ementa. Já ouvi falar de vampiros que podem saborear outras coisas além de bife tártaro- mas não tenho a certeza. Uma eternidade sem peixe, marisco, bons vinhos, chocolate, gelados e tudo isso é capaz de não ser muito agradável.
  Aliás, ontem vi um filme em que uma pessoa tinha a opção de ser meio vampiro. Com os poderes todos mas possibilidade de andar por aí à luz do sol, ir à praia e de complementar a dieta com outras coisas. 

Ora, isso convinha-me imenso. Não sei onde posso entregar o curriculum, mas vou andar atenta.





Friday, September 6, 2013

O primeiro barrete nunca se esquece.

                               
Embora não me considere consumista por aí além, sempre tive uma certa curiosidade por marcas e novidades (ainda hoje tenho, e olhando para trás era inevitável que a minha vida passasse pelo marketing). Era eu muito pequena, tão pequena que já nem me lembro que idade tinha, e o anúncio do Presto passava na televisão. Vi os Glutões (os bonequinhos que devoravam nódoas) a saltar da embalagem e, achando que aquilo era mesmo assim ou que, no mínimo, devia trazer um brinde de glutões de peluche ou borracha (já não me recordo qual era a hipótese mais plausível) fiquei em pulgas para tentar em casa aquele truque tão giro. Já imaginava a cara da família quando visse os bonecos a esvoaçar pela lavandaria...
 Como tinha vergonha de dizer directamente à mãe que trouxesse o almejado detergente para casa (uma vez que eu não lavava a roupa, ela desconfiaria imediatamente que havia marosca ou pior, ia perceber a minha ingenuidade) engendrei uma autêntica campanha de apologia ao Presto - eu tinha imenso jeito para decorar os slogans. Ai, que este detergente tem bio não sei quê, e blá blá blá. Não me lembro dos argumentos mas devem ter sido convincentes porque o Presto lá veio. Depois precisei de arranjar uma desculpa esfarrapada para abrir a embalagem - e a senhora mãe cada vez mais desconfiada. 
 Quando finalmente consegui, foi grande a minha desilusão ao perceber que não saltavam Glutões do pacote. Mas pior foi quando perceberam o porquê de tanta insistência: então não sabes que os Glutões não existem?
 Pois, não sabia, ou estava com a ténue esperança no brinde. Foi aí que aprendi que quando uma coisa parece demasiado boa, gira, divertida ou qualquer outra coisa para ser verdade, geralmente é. Nunca mais chateei ninguém para comprar aquela marca (mesmo que ainda hoje existisse havia de a boicotar só pela publicidade enganosa) e passei a embirrar vivamente com Glutões. A tirar as ilusões a uma pessoa! Não se faz. 
Mas ao menos ganhei uma bela metáfora para os glutões da vida real, que não vêm em pacotes, nem são às cores, nem aparecem na TV. Quando algo soa muito bom para ser verdade...já se sabe. O pior é a esperança no brinde, que às vezes engana mesmo gente crescida...

As relações Isaura-Leôncio.


                          
A Escrava Isaura, de Bernardo Guimarães, conta-se entre os meus livros preferidos. As duas adaptações para televisão desenvolveram muito mais a história original,  já que o romance é pequeno e não só não tem extensão suficiente para o formato de novela, como deixa realmente a vontade de inserir mais diálogos, cenas e episódios, explorando o ambiente das fazendas (que sempre me fascinou) e as dinâmicas entre personagens. Confesso que  vi excertos de ambas, aqui e ali, mas ando com vontade de fazer um download e apreciar as tramas de fio a pavio. 
 As duas, claro, centram-se no enredo principal: a complexa relação Isaura/Leôncio...um dos meus casais preferidos, tanto em termos de literatura como de cultura pop.
 Supondo que haja quem não conheça a história, faço um resumo em duas linhas: Isaura é filha de um nobre miguelista português empobrecido, que por necessidade se torna feitor na fazenda do Comendador Almeida, e da linda escrava mulata Juliana. Apesar de ter recebido a mais esmerada educação, de parecer tão branca como as mais aristocráticas meninas da corte, de ser lindíssima e dotada de talento e espírito, não deixa no entanto de ser, legalmente, uma escrava como qualquer outra. 
 O filho do comendador, Leôncio, "belo como Luzbel" ou seja, dotado de beleza demoníaca e temperamento estouvado, desenvolve uma violenta paixão pela escrava. Mas Isaura, que é uma rapariga de brio, não quer ceder aos seus desejos porque, bem...tem sentido de dignidade e ainda por cima Leôncio é um homem casado. 
 Por sua vez, Leôncio acha - e a lei dá-lhe razão, sendo que aí reside a moral abolicionista do romance - que Isaura é propriedade sua, que tem todos os direitos e que pode fazer com ela o que bem entender. Mas como está deveras apaixonado e a superioridade de espírito de Isaura acaba por deixá-lo desarmado, não se atreve realmente a forçá-la. Tenta por isso, obrigá-la a ceder por meio de rogos, seduções, ameaças, tortura psicológica e mesmo - já que pode - através de castigos físicos. Chega até a pensar em divorciar-se para casar com ela. A pobre coitada acaba por fugir, e mesmo assim ele gasta toda a sua fortuna para persegui-la. Tudo com a desculpa do "amor". Leôncio afirma amar Isaura, mas não se importa minimamente com a sua felicidade nem respeita a sua delicadeza de sentimentos. A única coisa que conta, para ele, é a satisfação dos seus desejos, da sua vaidade, da sua autoridade. 
 Sempre achei que havia uma química imensa entre os dois (e não era só eu: 
contaram-me que quando a novela passou por cá, nos anos 70, o público torcia para que Isaura se entendesse com Leôncio, em vez de escolher o Príncipe Encantado, Álvaro) e que se Leôncio fosse menos obsessivo, ciumento e autoritário, menos doentio e mais compreensivo, talvez conseguisse o que desejava. Certas coisas não se conquistam pela força, e é isso que a heroína tenta muitas vezes fazê-lo entender: ainda que conseguisse fazê-la obedecer fisicamente, não teria autoridade sobre a sua alma. Esse o drama de Leôncio: quer Isaura de corpo, alma e vontade própria, algo que não se pode comandar de forma egoísta. E acaba por se destruir com isso (Isaura fica mesmo com o adorável Álvaro...uma pena!).

 Penso muitas vezes que há por aí muitas relações Isaura-Leôncio, que não faltam Leôncios por aí, mesmo com as mudanças na sociedade. Há muito quem confunda obsessão com amor, ou transforme a paixão numa obsessão perigosa, que destrói tudo o que toca. E já o tenho dito: isso resulta muito bem nos livros, mas na vida real...nem tanto.









Thursday, September 5, 2013

Ainda a redenção...e os que estão para além dela.

             

Por estes dias falou-se aqui em redenção. O que me leva a pensar que há pessoas que apesar das suas qualidades, de toda a boa vontade, estão para além dela. 
Não têm remédio. Tentar salvá-las, desejar que não se desperdicem,  é como segurar flocos de neve e esperar que não derretam. São pessoas que fazem tudo para sabotar o que desejam. Se amam alguém, fazem os possíveis para que essa pessoa as despreze. E depois choram porque são olhados com um horror e desdém o que é, aos seus olhos, injusto. Se querem emagrecer, fecham-se numa pastelaria a enfardar bolos até à indigestão. Se pensam em mudar de comportamento, não resistem ao apelo das vielas, esgotando o cálice até ao fim. Comprazem-se na desgraça, nos instintos mais baixos, na fossa. Têm um buraco negro no peito, um impulso que as arrasta para baixo e na queda, levam os outros consigo. Quando passam pela vida alheia, deixam uma sensação pesada como chumbo e uma tristeza infinita, que só a distância consegue esbater. São os intocáveis, os irremediáveis. E ai de quem se cruza com eles, ou cai no erro de se importar, de os absolver, de os redimir ou purificar: nenhum amor ou paciência é suficiente. O salvador acaba poluído, estragado. Nunca mais será o mesmo. 

No que toca à redenção, já é trabalho que chegue procurar a nossa.

Eu não te acompanho mais.


                                



Eu não te acompanho mais:
Pára, deixa de bater.
Se não sabes onde vais,
Porque teimas em correr,
Eu não te acompanho mais.


Acho uma pena nunca ter visto, nos blogs de moda portugueses, algo sobre o estilo e a beleza muito particular da Tia Amália. Uma pena, já que foi uma das primeiras artistas nacionais a impôr uma certa star quality hollywoodesca, cá e lá fora: o bâton encarnado, o look film noir, os casacos de pele, os sheath dresses decotados, os grandes óculos de sol, o abuso de preto - tudo faz parte de um visual que fez escola.  Anyway, nos últimos dias, eu que tenho uma relação on/off com o fado (um bocadinho de Amália, Teresinha de Noronha, uns fados de Coimbra, outros castiços e gostar da voz de Camané são das poucas coisas que as fadistices da avó, que apreciava o género por ser triste, cá deixaram) tenho-me lembrado da última estrofe de Estranha Forma de Vida.
Digo muito que seguir o instinto (ou o coração, para quem prefere essa linguagem, mas eu tenho mais facilidade em identificar os palpites como vindo do instinto) é o melhor caminho para tomar boas decisões. Assim, de impulso, em contacto com o nosso eu interior que tem sempre as respostas todas. Já tenho mencionado que me arrependi das vezes em que mandei calar o instinto, ou o coração, para seguir a razão. Mas por vezes o coração faz asneiras - e se estiver magoado é o pior conselheiro de todos, devia era estar calado, não chatear e dedicar-se a ir fazer...olhem, não sei o que é que os corações fazem nas horas vagas, mas percebem a ideia.
 O coração conduz a muitos desastres, e depois do mal feito ainda persiste em justificar as barbaridades. Eu não te acompanho mais, sacaninha, pára de arranjar sarilhos - era o que deveria dizer-se.

Wednesday, September 4, 2013

Erros meus, má fortuna, amor ardente....


                                             

...qual de nós mais frequente?*

*Luís de Camões/Sérgio Godinho.

Quem foi bela, sempre será.

                            Clockwise from top left: Linda Evangelista, Kate Moss, Stephanie Seymour, Daria Werbowy, Amber Valetta and Naomi Cambpell styled by Karl Templer for Interview

A não ser, obviamente, que (o Diabo seja cego) tenha algum problema de saúde ou seja completamente desleixada. Já as desengraçadas, bem...devem aproveitar a primeira juventude e tratar de ser muito, muito boas pessoas depois disso. Claro que as top models dos anos 80/90 não têm essa preocupação, mas são ainda assim uma inspiração excelente para todas as mulheres que receiam mudar demasiado com o passar dos anos. Após uma fase mais discreta, regressaram tomando de assalto campanhas, passerelles, editoriais e capas, mostrando às novatas e it girls normaizinhas do momento como é que as verdadeiras profissionais trabalham. Lendárias. Poderosas. A devolver o sonho e a beleza à era do photoshop e das "girls next door que toda a gente idolatra não se percebe porquê".
 Tranquilizai-vos: a beleza, quando mimada, não é efémera. Ide tratar de vós, ide. 


Helena Christensen in Issue 6 of FutureClaw
Helena Christensen, 44
                                 
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Bridget Hall, 35

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Kate Moss, 39Christy Turlington in the autumn 2013 Calvin Klein campaign

Christy Turlington, 44image
Elle McPerson, 49
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Kristen McMenamy, 49
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Linda Evangelista, 47

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Naomi Cambell, 42

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Cindy Crawford, 47

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Claudia Schiffer, 42
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Stella Tennant, 42

                                   

Os namorados não são nossos amigos.

                        
Encontrei este texto que me deu que pensar: embora eu concorde que a amizade (ou antes, cumplicidade) seja um ingrediente importante num relacionamento, nunca acreditei muito no molde " amiguinhos que se tornam namorados" ou vice versa.
    Primeiro, porque me soa sempre (pode até não ser verdade, as pessoas apaixonam-se das maneiras mais estranhas, mas é o que me parece) a dois solitários que para ali andavam e decidiram juntar os trapinhos à falta de melhor. E se há coisa sem graça são relacionamentos que aconteceram porque estava à mão, calhou e deu jeito, vulgo relações nhê. Não que um amor pensado, sensato, não possa resultar como qualquer outro, mas não tem a mesma piada. Depois, porque me parece uma patranha: amigos, amigos mesmo, amigos desinteressados, tipo primos, não se sentem atraídos uns pelos outros. Numa relação realmente apaixonada, daquelas que marcam e valem a pena (e eu não concebo outras) a conversa "começámos por ser amigos" não é mais do que um eufemismo para "sentimo-nos atraídos um pelo outro e passámos um tempo a conhecer-nos antes de namorar". Podemos não crer no amor à primeira vista, mas ou bem que se acha graça a alguém logo de início, ou ora histórias: estou para conhecer alguém que diga " achei-o feio que nem trovões, dava-me volta ao estômago, mas depois apaixonei-me". Há atracções confusas, mas não abusem.
   Da mesma forma, não acredito que duas pessoas que tenham estado muito apaixonadas possam ficar amigas assim como assim, de um momento para o outro, após a ruptura. Se são capazes dessa frieza, desse sentido prático...o amor não foi grande.
 Por muito unido que um casal seja, por mais companheirismo que haja,  por mais que se tenha a sorte de ter um noivo ou marido que acompanhe às compras, que ature os caprichos femininos, ou uma namorada que não se importe de ir com o mais que tudo ao futebol e às concentrações de automóveis, amigos são amigos, amantes são amantes. E isso vale para o bem ou para o mal.
 E não sei o que pensam disso os cavalheiros, mas nós, mulheres, temos por vezes de aceitar que, não sendo nossos amigos, os homens fazem coisas parvas que os amigos - quanto mais as amigas - jamais fariam. Ou porque são realmente idiotas, daqueles que não vale a pena conservar, ou porque...enfim, são homens, e não estando no papel de amigos, de compinchas, acham normal/têm o direito...ou se acham no direito de:

 - Não ter paciência para tricas do dia a dia: queiramos ou não, o encanto de uma relação amorosa está num certo mistério. Há conversas para ter com amigas e conversas para ter com o mais que tudo. A vida não é justa.

-  Não tomar o partido da namorada contra, por exemplo, amigas/ex namoradas/colegas/ admiradoras que têm atitudes de pouco respeito para com esta, desvalorizando a brincadeira como "coisas de mulheres" ou até achando graça por certa vaidadezinha masculina, misturada com insensibilidade crónica (experimentem fazer-lhes o mesmo e verão...). Dos amigos espera-se lealdade cega:  dos namorados, nem sempre. Pessoalmente, considero esta gracinha (ou ofensa)  um bilhete só de ida para a terra dos patins, mas há mulheres que aturam...

- Nem sempre tomar a defesa da namorada/mulher/noiva. Uma amiga verdadeira corta relações com quem for preciso por nós...um namorado pode tentar pôr água na fervura, achar que é exagero, ou mesmo dizer " isso é lá contigo". Irritante, não é?

- Não achar graça nenhuma a ver a mulher que o fascina tanto de, por exemplo, rolos na cabeça. Repito o que disse acima: há certas intimidades que se guardam para as amigas, e nem todas as manobras de boudoir têm encanto para quem vê. As relações dão trabalho, e manter um certo glamour é só uma das tarefas. Deixá-los acreditar que é tudo obra do Senhor, pois claro...


Tuesday, September 3, 2013

Falemos de casacos.

                               

Não sou a maior adepta de verde-tropa (quando se trata da inspiração militar, prefiro os uniformes de gala) mas esta parka Prabal Gurung tem tudo para me agradar: a cinturinha, o capuchinho, a gola de pêlo, as proporções perfeitas. Se ao menos eu não tivesse mais sobretudos, casaquinhos e casacões do que o meu charriot consegue aguentar!
Felizmente, as tendências mantiveram-se sensivelmente iguais do Inverno passado para este - ora porque os formatos clássicos voltaram às lojas, ora porque surgiram tantas novidades (ou revivalismos) que as consumidoras não conseguiram experimentar todos os modelos no ano passado. Assim, haverá oportunidade tanto de usar o que temos em matéria de big coats, perfectos,  trench coats, etc, como de reforçar a colecção.

Mas vejamos os principais modelos (e aqueles em que convém investir...ou nem tanto).





O belo casaco rosa: já falei dele aqui. Para quem gosta, e não se importa de o ter guardado no armário para as ocasiões.


stella mccartney fall 2013 ready-to-wear photos
O Big Coat oval: apareceu no ano passado, é divertido de usar, mas pouco democrático. A quem tem medo de arriscar o investimento, recomenda-se um assalto ao armário da avó.

                     

Clássico: assertoado ou a direito, abaixo do joelho ou mais curto...se está a precisar de casacos que não passam de moda, como este Burberry, a temporada que se aproxima vai ser rica em boas ofertas.


Canadianas: nunca são demais, aparecem pouco nas lojas e em suma, se houver muitas este ano esta é capaz de ser uma das poucas compras que farei. Isso e ...

...trench coats, como este Phillip Lim. Ou porque estão na lavandaria, ou porque os mandei arranjar, ou porque me dá jeito mais um de outra cor,  não lhes resisto. Mas atenção: encontrar a gabardina perfeita, ou o trench coat de lã ideal,  dá trabalho. Espero vivamente que este ano não faltem opções.


Parkas: luxuosas como esta ou com um aspecto prático e desempoeirado, dão sempre jeito para passeios no campo ou dias de preguiça, em que nos apetece estar quentinhas sem fazer grande toilette.


Blazer:  veio para ficar e neste Inverno as versões masculinas coroam a tendência da androginia chic, como quem diz "assaltei o armário do namorado". Com um bom par de stilettos, um ligeiro decote e bâton encarnado, faz um efeito belíssimo.


Bikers, perfectos, bomber e varsity jackets: em couro ou nos mais variados tecidos,  os eternos blusões acompanham tanto o styling mais tradicional (nunca esquecer a combinação vencedora calças skinny pretas + blusão de cabedal + camisa branca + scarpins) como as ideias mais inesperadas. Não me atreveria a usá-los sobre um vestido romântico de gala, como tenho visto, mas com um vestido preto espartilhado, aconselho vivamente.

Fátima é para o outro lado!


                                  
Está certo que eu não sou o cúmulo da ingenuidade (acredito que o Homem é como é, não como gostaríamos que fosse) mas tento ver o melhor das pessoas. Dar uma segunda oportunidade, porque todos erramos. Ter paciência e perdoar para que também eu seja perdoada, etc. 
 Mas será que isso me dá ar de pastorinha de Fátima, de quem atura tudo, desculpa tudo, espera por quem não prometeu de vir, como diz o povo, sem garantias, compensações nem nada, ou faz vista grossa a calamidades?

 Terei cara de Jacinta ou de Irmã Lúcia, para acharem que eu desculpo as asneiras para fazerem o piorio logo a seguir e ainda ficarem muito admirados se eu me indigno com isso? Em modo "deixa lá isso", "que exigente, eu que me esforço tanto e tu só reclamas, não dás valor a nada", "já te pedi desculpa por deitar fogo à cozinha, que mais queres, ó paranóica?" enquanto incendeiam deliberadamente a casa toda. Ou pior ainda, "eu tenho o direito de te arreliar até ao desespero PORQUE POSSO e a tua obrigação é sofrer tudo de cara alegre e sorriso sereno". 

  Não, minha gente: ficai sabendo que o caminho para Fátima por acaso nem passa lá à porta, que as minhas aspirações à santidade são remotas se isso implicar ser visionária, mística ou mártir e enfim, cada qual é para o que nasce (embora comece a recear que com os nervos ainda me apareça alguma coisa que se confunda com um estigma e pimba, caem-me aqui peregrinos ao engano que me vou ver aflita para enxotar) e que a única vez que fiz de Nossa Senhora foi quando a avó fez a promessa de me vestir de Virgem de Fátima na procissão para pagar já não sei que promessa com vestido branco, véu, coroa, rosário e tudo. Fiquei toda contente (e janotíssima, porque tinha uns cabelos pela cintura que casavam lindamente com o figurino e não me faltavam sequer umas sandálias à nazarena) mas depressa me arrependi da proeza porque estava um calor de quarenta graus à sombra como fez hoje; tudo seja por amor de Deus e pelos meus pecados, mas dificilmente repito a graça. Não, não sei onde andam os retratos desse dia. Não, não vou partilhá-los aqui mesmo que dê com eles lá no fundo do baú. Se vestida normalmente já abusam, imaginem com atavios de Santa. Credo, Santo Nome.

Monday, September 2, 2013

Da redenção

                                      


Respondeu o centurião: Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha casa. 
Mas dizei uma só palavra e meu servo será curado.

                                                                                 Mateus 8,8


Devoções cada um tem as suas. Em termos de mitologia ou do universo (salvo seja) Católico as que mais me atraem relacionam-se com a reparação, a sublimação (exemplo disso são as vias sacras, que em pequena me fascinavam) com  entidades guerreiras ( S. Jorge, S. Miguel, Santa Marta) obscuras ou  extremas - Hécate, N.S. Bonfim, Boa Morte, Santa Morte - porque apenas encarando de frente os medos, a escuridão, é possível sair vitorioso.  Em alguns caminhos espirituais, diz-se que só certas pessoas, em certas fases da vida, são capazes de trabalhar com esse tipo de energia tão...bem, assustadora. São imagens fortes, que falam ao inconsciente colectivo: conceitos como  Ars Moriendi, Memento Mori ou sepulcros Transi, em voga durante a Idade Média e revividas com certo entusiasmo nos dias ultra românticos do sec. XIX parecem, à nossa sensibilidade, mórbidas e sinistras: mas é preciso compreender o seu verdadeiro significado - é a consciência da nossa insignificância, da nossa fragilidade, que acorda a centelha divina, que dá beleza e intensidade à condição humana.

Sem uma morte simbólica, é impossível evoluir. Acho certa graça ao ver que "Carpe Diem" se tornou um lugar comum, mas esqueceu-se o resto da sentença: tempus fugit, memento mori, carpe diem! Vivemos uma época em que se foge da escuridão, mas sem ela o "carpe diem" torna-se vazio de significado.

 Como gritavam os guerreiros de antigamente, face à batalha... "hoje é um bom dia para morrer". Ou como diz a Bíblia, "o que temia me veio" - mais vale, então, não temer nada. De igual modo, por muito que se defenda a ideia de moldar o destino, há muito poder na sugestão de uma rendição completa ao poder mais alto, à orientação divina; na aceitação, que é muitas vezes o caminho mais curto para que o problema se resolva, pela estranha lei do esforço invertido; e, de braço dado com tudo isto, no arrependimento e redenção. Ocorreu-me esta semana, através de palavras muito inspiradas, que os nossos erros formam infinitos nós, estendendo-se num efeito borboleta que se prolonga meses a fio. E quando damos por isso, a confusão está instalada. Já não sabemos o que provocou tudo aquilo, mas (isto para quem acredita, claro) a crer na lógica da acção/reacção, de algum lado há-de ter vindo. Que fazer?

 Nessas alturas há que apelar mesmo à rendição (e se correr tudo bem, redenção) absoluta. Em modo "afasta de mim esse cálice, mas seja feita a Tua vontade". Esquecer a nossa vaidade, a nossa falsa ideia de poder e supremacia, e reconhecer que não sabemos para que lado nos virar, que as questões já não dependem de nós e que se calhar, só se calhar, nem somos muito dignos de ajuda, mas mesmo assim estamos dispostos a reconhecer que precisamos dela. Na obediência também há poder. Porque relaxamos e deixamos ir. 
Entregamo-nos. Nunca é tarde para procurar a absolvição, para mudar os hábitos que trazem problemas. Mas é preciso ter a consciência, o clic,  de que essa redenção é necessária. Parar de insistir no erro, estender o copo vazio para o recolher cheio.

Tatiana não é perfeita ... e faz muito bem.

          
Não sou a maior fã do estilo de Tatiana Santo Domingo - hippie chic não é um género que me agrade sem reservas (prefiro os visuais muito limpos e polidos, embora não rígidos) e se calhar o vestido (cortesia da sua amiga Margherita Missoni, nem mais) embora bonito e muitíssimo apropriado, comme il faut, não lhe ficava tão perfeito como isso. Não concordo que seja uma das raparigas mais bem vestidas do mundo; tal como imensa gente,  não a considero uma beleza; o seu background não me diz grande coisa e em boa verdade, quase nem reparo no casal nas minhas incursões ocasionais pelas escassas revistas do coração que possam ser lidas por senhoras. Eu nem acho piada a casamentos, for crying out loud!
Mas estes retratos são o máximo por isso mesmo, e acabo por simpatizar com Tatiana por isso mesmo: por vê-la cumpridora do percurso que a família endinheirada esperava dela, mas livre; livre, mas sem cair em exageros de certas socialites decadentes; hippie, ma non troppo, com juízo. E sobretudo, bastante terra-a-terra, com um ar entre o discreto, cumpridor, adequado e o nonchalant. Ela não é perfeita - mas é isso que lhe dá imensa graça. Posso não morrer pelo estilo de Tatiana, mas adoro a sua singeleza. Porque a singeleza, a modéstia, tal como a serenidade, cabem em toda a parte. Se dúvidas há, veja-se a cerimónia muito privada, com meia dúzia de convidados: perfeita para não entrar em pânico. O único tipo de cerimónia que remotamente aprecio, portanto.

               

Vanitas vanitatum omnia vanitas‏.


Por aqui tem-se falado bastante da necessidade de Beleza. E de facto para o esteta, para quem é mundano, para quem procura fazer da vida uma arte ( e eu acredito que a nossa passagem pela terra deve revestir-se de toda a beleza possível, senão é uma sensaboria pegada)  a harmonia, o requinte, a pureza de formas e proporções, o conforto, o estilo, a qualidade, a (sempre relativa) perfeição física, as alegrias dos sentidos, têm um certo peso. Mas para um espírito elevado, todas essas coisas só têm valor na proporção da sua fragilidade. O espírito pequeno e aburguesado, desprovido de imaginação, agarra-se às coisas terrenas, materiais; é preciso algo mais para compreender que do mundo nada se leva, que os tesouros, as belas roupas e jóias, nada permanece connosco; que a beleza é preciosa por ser rara e frágil e que no fim, tem um alcance limitado. 

 Para uma mulher, ser bela (o que quer que isso signifique) receber os elogios dos seus admiradores, a adoração daqueles que a amaram, a aprovação do espelho, de artistas, de costureiros, de fotógrafos, ser adulada - tudo isso é bonito, é o que torna uma mulher, de certa forma, poderosa. Isso, e o engenho de que os homens tão temerosamente nos acusam. (Isto é um blog old fashioned, repito, dêem-me lá o desconto). A  mulher bela captada na época certa, no cenário certo, pelo pintor/fotógrafo/poeta/cronista/homem no poder certo, pode fazer a fama da sua beleza ecoar pelos séculos. Pensemos em Simonetta Vespucci, Agnès Sorel, Madame du Barry, Cleópatra.  Mas a verdade é que tudo isso só arranha a superfície. 
    Sabemos da beleza de Simonetta - amou, foi amada, morreu sem gozar a celebridade nem as paixões que inspirou. Mas nada sabemos dos seus desgostos, das suas lágrimas privadas,  ou se alguma vez a beleza foi uma maldição para ela: com a beleza, costuma vir o perigo, o ciúme, a tentação que é sempre temida. Desconhece-se se Botticelli, que todos sabiam estar apaixonado por ela, via em Simonetta mais do que a beleza, o ideal, se se ralava caso Simonetta estivesse triste. Ou se Giuliano de Medici, apontado como seu amante, encontrava em Simonetta alguma coisa mais do que o único corpo em Florença capaz de rivalizar com o seu. E o marido? Que pensaria da beldade com quem casara? Teria ciúmes? Será que fazia acusações que a obrigavam a chorar? No choro das mulheres bonitas há sempre alguma coisa de voluptuoso, que não é levado a sério; a percepção errada de que depressa se consolarão com outra coisa, de que tudo nelas é fácil, simples e transitório. 
 A beleza, como a Fortuna, abre umas portas e fecha outras. E muitas vezes cria uma fronteira que não permite aceder à alma. Quando assim é, quando a beleza e as suas consequências geram desconfiança, o coração fecha-se a  ela. Um homem ciumento e rancoroso é imune a todas as vantagens proporcionadas pela formosura: a sedução e a meiguice. A beleza torna-se, portanto, inútil para a mulher em causa;  e para que serve a Beleza se não é para ser amada, se não serve outro propósito que não suscitar admiração inicial e se em última análise, compromete a compreensão da inteligência, honestidade ou bondade de quem a possui? 
                                   Para nada. 

Vaidade, tudo vaidade e nada mais que vaidade. A História da Arte está cheia de beldades que choram - e até o seu sofrimento é decorativo. Ao menos, que pareça bonito. 

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