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Saturday, September 28, 2013

O estilo perfeito de Gina Lollobrigida‏

                                       

Ah, as sereias da cinecittà: Claudia Cardinale. A minha preferida, Sophia Loren. Isto sem desfazer em Gina Lollobrigida: há um lugar muito especial no meu coração para La Lollo, com uma beleza mais clássica, mais understated talvez. Não é segredo para quem passa por aqui a influência que o estilo/imaginário italiano têm para mim, e é impossível pensar, por exemplo, em Dolce & Gabbanna sem que estas senhoras que deram corpo e expressão artística a nível mundial ao estilo romano/siciliano nos venham à mente. 
 O preto, as rendas, as blusas de camponesa, os sheath dresses a modelar curvas perfeitas, os pormenores delicados, tudo são detalhes que fazem parte da forma italiana de fazer as coisas, de perceber e interpretar a beleza. Nas telas dos nossos dias Monica Bellucci, Penelope Cruz e Eva Mendes são dignas sucessoras: não só no tipo, mas na impecável forma como se apresentam, repetindo uma receita que nunca falhou.
 Há dias encontrei este delicioso artigo de moda do Milwaukee Sentinel, 1964, sobre o fascínio americano com o guarda roupa e dicas de styling de Gina Lollobrigida, e achei-o demasiado bom para o guardar só para mim. Gosto sempre de ter a visão da época, os pormenores, as descrições de quem viu de perto:

"A rapariga pequena, de cabelo escuro, caminha por um corredor nas Waldorf Towers usando um vestido subido sem mangas, um colar turquesa e sapatos Chanel: é Gina Lollobrigida (...) quando se olha de perto, o elegante vestidinho de lã é, por acaso, um Dior; o colar é uma antiguidade de 3000 anos, feita com peças de porcelana persas e fenícias. O seu penteado médio longo com ligeira franja é meticuloso; a maquilhagem é impecável, com cada pestana cuidadosamente escovada; o seu verniz senhoril é claro e ligeiramente transparente; usa um grande anel de diamantes em forma de coração: mas mesmo assim ela parece tranquila, sincera e completamente organizada.
 E na verdade, é: quando veio para Hollywood, trouxe consigo 36 malas de roupa. Em Nova Iorque por uns dias a caminho de Roma, conseguiu compilar o conteúdo dos 36 sacos numa única mala. Tem consigo um bocadinho de tudo o que gosta, alguns fatos Chanel, vestidos Dior e uns quantos extras que foi comprando em lojas".

"Alguém que espere que a bagagem de Gina Lollobrigida esteja cheia de vestidos vertiginosamente decotados e rendas pretas ficaria chocado: `as mulheres são mais sexy quando não mostram tudo´diz ela.  Lollobrigida é uma rapariga Chanel. Nem sabe contar quantos fatos Chanel tem, possivelmente 20 ou 30. Naturalmente, é a própria Chanel que a ajuda a escolhe-los e que os faz em tecidos e cores que não sejam iguais aos de toda a gente. Gina traz três consigo: um encarnado vivo, um amarelo e um tweed cor de trigo com detalhes rosa: `tenho tantos, mas acabo sempre por trazer os meus preferidos`. A maior parte dos seus vestidos de festa são Dior: `gosto de Dior: tão rico e simples`."

O artigo conta ainda, entre outros pequenos quês que vale a pena ler, como a estrela lavava e secava o próprio cabelo, ou fazia a própria maquilhagem, por não ter "tempo para salões" - como era, aliás, comum nesse tempo tanto entre "artistas" como senhoras de boa sociedade. Completamente, my kind of girl!
O que me fascina em Lollo (como em Marilyn, Loren, Bardot...) é a disciplina espartana do seu estilo: linhas simples, tecidos ricos, fitting perfeito, bons materiais que tornavam o compor de um look um ritual de três minutos. É fácil e rápido vestir bem, estar sempre composta, quando se conhece a fórmula que resulta. Também adoro o pormenor de usar antiguidades no meio de muita roupa luxuosa e /ou impecavelmente nova. As jóias devem ser únicas e se forem velhas como os montes, com significado, tanto melhor. E poucas. É sempre mais dramático usar um único apontamento realmente bonito.
 É claro que Eva Mendes depende das Rachels Zoes deste mundo para conseguir um efeito vagamente semelhante. Não é nenhum desprimor, mas...Céus, Lollo tinha a própria Coco a ensinar-lhe os truques. Uma lenda a vestir outra. Há coisas que já não voltam.


Em defesa da Beleza neste mundo.



                      


People say sometimes that Beauty is only superficial. That may be so. But at least it is not so superficial as Thought is. To me, Beauty is the wonder of wonders. It is only shallow people who do not judge by appearances.


It is better to be beautiful than to be good. But... it is better to be good than to be ugly.
 
                                                                Oscar Wilde

Não há nada pior do que um casal lindo, lindo, lindo de morrer e apaixonado, que deixa estragar tudo por um motivo feio. Já há tão pouca beleza no mundo, porque é que as coisas feias têm de invadir, conspurcar e estragar tudo?
Até há um padroeiro para as pessoas feias - São Drogo

Quem será então o santo padroeiro das pessoas, dos casais, das coisas bonitas? Ou as coisas bonitas, sendo tão frágeis, tão efémeras e tão raras, não merecem protecção? Protecção contra o que é feio, sórdido, impuro e imperfeito, contra os ataques de quem, não possuindo beleza, procura destruir toda aquela que encontra, como o sapo que abafou o pirilampo...só porque o pirilampo brilhava. 


“To love beauty is to see light.”

Vitor Hugo


Friday, September 27, 2013

Momento " a minha vida dava um filme". Casting aberto.

               

Como hoje é Sexta-feira e podemos soltar a criatividade, imaginemos que vos dava para escrever um livro ligeiramente autobiográfico - por vezes, a realidade ultrapassa a ficção e nem é preciso inventar muito, é cada peripécia que olhem lá. 
 Sorte indecente, um produtor luso descendente que passasse por cá numa visita à parentela antes de apanhar o avião de volta a Los Angeles folheava-o no aeroporto. Acontece que o livro, minúcias literárias à parte que eu não estou com paciência para julgar os dotes de escrita de cada um, era um page turner e o aborrecido viajante devorava o best seller num ápice durante o voo.
 Falto de ideias mas com investidores ansiosos por torrar dinheiro, achava que  aquela novela mexicana fazia um sucesso de bilheteira. E assim, do nada, a vossa vida dava um filme. Cheio de clichés, mas pronto, once again a realidade está por vezes pejada de lugares comuns, de arquétipos, de heróis e vilões que parecem mesmo, mesmo tirados a papel químico de um romance de cordel. E zás, depois era só glamourizar um pouco a coisa e escolher o elenco.  E tcharam...vocês, que conheciam melhor os protagonistas do que ninguém, até tinham uma palavra a dizer na escolha dos actores. 
Assim de repente, ocorre-me:

A heroína sofredora. Tudo lhe acontece, apesar de ser boa rapariga. Com um bocadinho de mau feitio, um grande guarda roupa e a pior pontaria do planeta. Desculpem lá, mas já que a protagonista vai sofrer o figurino tem de ser óptimo.
                                    

O mau rapaz. Com a mania que é dono do mundo, colérico, misterioso, má ideia. Péssima ideia. Mas com um figurino de cair para a banda e um décor do outro mundo.

                         


O rapaz ainda pior: se o mau rapaz mete medo, este aparece inicialmente como o angélico salvador para se revelar o pior vilão de todos. Obscuro, sinistro, sem escrúpulos, vingativo, com uma ambição desmedida...o verdadeiro antagonista.

                                                 
Os melhores amigos da protagonista: com bom coração, paciência de Job e muito comic relief, porque um filme não pode ser só drama.


                                      
                                          

A família: porque nenhuma tragicomédia romântica com muito humor negro fica completa sem assistência, e os momentos "bem te avisei".


                                           
E o vosso elenco, está escolhido?

Thursday, September 26, 2013

Maldade que me apetecia fazer: ataque ao antro das cápsulas de café.

                             

Chegar à Loja-do- Café- em- Cápsulas que tem pretensões a clube exclusivo e selecto - sabem, onde nos obrigam a tirar senhas para comprar...café. 

E nos tratam com uma deferência abjecta, untuosa e postiça (nem na Cartier, ou na Tiffany´s ou no restaurante mais exclusivo se vê tanto salamaleque...) para nos vender...café. E de onde não nos deixam sair sem antes nos fazerem uma lavagem cerebral sobre o novo sabor estrambólico que é exactamente igual aos outros, só tem um cheirinho de caramelo ou de outro pó perlimpimpim qualquer - CAFÉ, DIABO QUE VOS CARREGUE - mesmo que estejamos com pressa.

 Eu que nunca entro nesse antro pretensioso do mais pequeno burguês, mais classe média com aspirações ao chique que pode haver (como arranjo as cápsulas sem passar pelo suplício, só Deus sabe) se alguma vez o fizer, palavra de honra, é para me virar para o empregado de centro comercial ("empregado" o tanas: para bater tudo certo ia corrido mas era a "criado que vende café" que era um mimo) que nos lambe as botas com aquele ar infeliz entre o "andei eu a tirar um curso para isto" e o "aderi a uma seita" e 
bradar-lhe:

 "Mas afinal.... quem é que me avia?". A trocar os "vês"  pelos "bês" . E às tantas, com um palavrão a seguir. 

Assim mesmo, sem tirar nem pôr. Como os velhotes nas tabernasAh, que libertador. Ficava como nova. As coisas que eu fazia se não fosse uma senhora. Ou se fosse uma grande malcriadona.

Havia de ser um momento épico, mais ou menos assim:



As armadilhas da pureza‏

                                           
Com uma figura angelical, um porte senhoril  e uma escolha de papéis (de freira, de Joana D´Arc...) que a faziam parecer, aos olhos do público, como uma santa, a actriz Ingrid Bergman enfrentou a reprovação dos seus admiradores quando decidiu abandonar o marido para casar com Roselinni. A sua persona nas telas e as personagens que interpretara  tinham-lhe conferido uma aura seráfica, muito acima dos erros e do lado feio da vida - e ninguém lhe queria perdoar o `deslize´. "As pessoas declararam-me uma santa mas eu era só uma mulher, um ser humano" contaria ela mais tarde.

No caso de Ingrid, tratava-se de um fenómeno que ainda hoje se verifica mas que nos dias dourados de Hollywood (quando as actrizes não ganhavam óscares por ser "versáteis" ou engordarem para um papel) era muito mais comum: a colagem a papéis - tipo, a uma certa imagem pública que nem sempre fazia perfeito consenso com a vida privada. Ninguém se escandalizaria, por exemplo, com os disparates da tentadora Ava Gardner. Ter o rótulo de perfeição e não agir como, por exemplo, Grace Kelly, isso já era outra história.

As mulheres comuns não correm o risco de desiludir uma audiência tão grande, mas a reputação imbeliscável continua a ser um atributo - em certos meios e para certas pessoas, pelo menos. A velha máxima "vícios privados, públicas virtudes" é, para quem recebeu uma educação tradicional (e/ou necessita, social ou profissionalmente, de uma imagem irrepreensível) elevada a extrema virtude em público, mínimos vícios, se alguns, privados". À mulher de César não basta ser séria...e sejamos francos, quem foi educada de certa maneira e desenvolveu uma forma serena de estar não tem grande coisa a esconder, nem dificuldade em ser "séria" - o que quer que isso possa significar hoje em dia. 

Nos tempos atribulados que atravessamos uma mulher de valores um bocadinho mais arcaicos, que vista de forma elegante mas modesta, que seja discreta, saia pouco e namore menos ainda pode facilmente ganhar a exigente medalha de virtude.

 Deus defenda uma mulher de quem a idealiza  - ou do César que resolve, sem mais aquelas, idealizá-la.  É um daqueles casos típicos " pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira". Uma palavra fora do sítio, um acto menos pensado, uma pequena retaliação, o mínimo erro pode manchar a imagem pura, o ícone da santa. 

Das outras mulheres, não se espera grande coisa, podem enganar-se ou errar como toda a gente.

A uma santa não se perdoa nada. Porque uma santa  - mesmo que a única coisa que tenha feito para ganhar essa imagem seja ser discreta e igual a si própria - é constantemente submetida a provas, ao escrutínio. Os milagres e a perfeição causam sempre a incredulidade. Se nenhum Santo alcança esse estatuto sem passar pelo advogado do diabo, que farão as mulheres que têm a pouca sorte de se limitar parecê-lo?

E em última análise, por mais que a  própria "santa" seja sincera na forma como se apresenta, não quer ser  mantida em permanente julgamento. O público só conhece o que lhe mostram, e tem a opinião fácil - das pessoas íntimas espera-se outra compreensão e um bocadinho menos de idealismo. Deseja-se o velho "I take you just the way you are" porque quem ama aceita o belo e o feio, a santidade e a transgressão, o branco e o negro, a luz e as trevas. Se assim não for, não é amor, é vaidade.

A propósito de Isabel Marant para a H&M

                                       IM-HM-2
Convenhamos: eu não sou grande fã de Isabel Marant, não é mesmo a minha chávena de chá, apesar de lhe reconhecer uma certa habilidade com as proporções, principalmente a nível do calçado (não aderi aos ténis compensados, mas creio que ainda vamos ver criações interessantes no que se refere a sapatos-altos-que -parecem rasos...). 

Também não tenho grande paciência para disputar edições especiais da H&M, embora as peças que tenho (e que comprei nas calmas, com a loja quase vazia e sem andar à bofetada a ninguém, juro) estejam aí para as curvas. 

 Em última análise, recentemente os preços destas colecções aumentaram bastante e eu, que sou de extremos nestas coisas, acho que por um pouco mais é quase preferível investir numa peça legítima do designer em causa. Há que ser sincera e, por boa qualidade que até tenha, H&M é H&M:  das edições especiais, espera-se o mesmo da primeira; but it´s cheap! Very cheap, rezava o primeirinho e delicioso anúncio, remember? Um dos melhores de todos os tempos, acrescento, com Karl Lagerfeld a debitar a fabulosa máxima "if you are cheap, nothing helps":


 Uma peça H&M de 200 euros já não é bem "acessível", mas também não é uma peça de luxo; é uma coisa híbrida e a não ser que seja tão especial que se torne um artigo de culto, não acho que seja a compra mas inteligente.

Anyway, o que realmente importa aqui é o lookbook, que traz dois visuais a ter em conta. 

O da imagem acima, com o blazer oversized sobre calças skinny com aplicações + botas larguinhas, a  fazer a perna parecer extra elegante. E este, com a fabulosa filha de Jane Birkin: eis um dos poucos modelos de calças estampadas a que me atrevo. 


                        


Ora, eu pretendo reproduzir estes looks - mas com um blazer grande, masculino e tão cool que se não o usar agora não sei quando terei outra ocasião, de Gerald Darel, e com umas calças Kenzo nestes mesmos tons que comprei por carolice, sabendo que um dia me haviam de ser úteis (prova provada de que sou vidente nestas coisas!).
 Isto significa que a tentar-me pela edição H&M + Isabel Marant só se for pelas botas, isto dependendo, claro, do material de que forem feitas e do ar que tiverem vistas de perto. Fazem-me lembrar as botinhas que a mamma mia usava nos anos 80. 
Ela tinha-as em vários materiais e cores e lembro-me que faziam visuais über-cool  com saias, calças afuniladas, alongando as pernas até ao infinito. É um daqueles casos em que as memórias de infância contribuem para que eu queira muito uma coisa - mesmo que o seu estilo seja um bocadinho mais boémio do que o meu gosto habitual.

Wednesday, September 25, 2013

De cavalheiros e carroceiros

                               

Ouvi algures que o rugby é um desporto de carroceiros jogado por cavalheiros, e o futebol é (ou foi) um desporto de cavalheiros (actualmente) jogado por carroceiros. Sinais dos  tempos ou não, a verdade é que sempre achei graça ao rugby e ao futebol (football) nem por isso:  talvez por ser um jogo mais para carroceiro do que para cavalheiro desde que o conheço - sem ofensa a muita gente do melhorio que possa gostar de futebol; é por coisas destas que o mundo não "se tomba".
 Desporto à parte (pois como já devem ter percebido, esse não é exactamente o  meu departamento) por vezes noto que a diferença cavalheiro-carroceiro é mais subtil do que possa parecer à primeira vista. Antigamente, as coisas eram muito claras: um cavalheiro era-o por nascimento e educação;  a própria sociedade tratava de o envergonhar se não agisse como tal. Se o desafiavam para um duelo e ele por cobardia não aceitava, por exemplo, era obrigado a permitir que o rival lhe cuspisse no rosto onde quer que o encontrasse. Havia regras para tudo.
 Um cavalheiro era sempre considerado um cavalheiro, mesmo que se arruinasse ao jogo, tivesse o fato amarrotado ou fosse tão desleixado como certo Duque de Norfolk, senhor de si a ponto de fazer questão de trajar como bem lhe apetecia.

"Extraordinary, you could almost pass for a gentleman". 

 Hoje as coisas estão muito mais misturadas e acontecem, por exemplo, as "variantes" seguintes:
a) Carroceiros sem educação nenhuma que se fazem passar por cavalheiros
 ( estudos, cultura postiça, roupas melhorzinhas) mas mantêm os mesmos hábitos: *palavra muito feia* e vinho verde, maneiras ordinárias e honra nenhuma;

b) Cavalheiros com toda a obrigação, privilégios e fatiotas para o ser, que além de tudo fazem a questão de alardear ao mundo os grandes cavalheiros que são, mas que acham que o status e as roupas lhes bastam para manter o rótulo. As partes difíceis, as que realmente distinguem um cavalheiro de um homem vulgar, as atitudes superiores, essas...nem vê-las porque são uma canseira enorme e assim como assim, hoje já ninguém se lembra do que vem a ser um cavalheiro.

c) Os que confundem cavalheirismo com dandismo - duas coisas que nem sempre andam juntas e às vezes, chegam mesmo a estar em polos opostos.

d) Os cavalheiros com obrigação para o ser que não contentes em não agir como quem são, se misturam com os carroceiros da categoria a) e se for preciso, descem ao nível deles em cenas pouco cristãs e menos abonatórias.

Olhem que entre uns e outros, não sei o que é pior: se o ouro fino a pavimentar o chão, ou a lata polida a imitar prata. Uns não têm obrigação para mais, esforçam-se mas só fazem figuras tristes; os outros tiveram todos os privilégios, têm toda a obrigação e figuras tristes fazem.

Divertido, mas divertido mesmo, era testar-lhes a  coragem num jogo de rugby daqueles renhidos, estilo gladiadores com uma overdose de ginseng coreano. Aos encontrões, empurrões, safanões e chapadões uns aos outros, a ver se aprendiam. Como homens.           



Emmys sem alfaiate‏

                                              
                                                          Lena Dunham (Prada)

Tenho dito várias vezes que a nível de passadeira encarnada, há muito que só olho com atenção para Cannes, Veneza e pouco mais. Apesar de esta edição dos Emmys ser indiscutivelmente uma das mais inspiradas dos últimos anos (se tiver paciência, farei uma resenha dos outfits mais interessantes) continuou a ver-se alguma falta de originalidade, vulgo vestidos-para-dama-de-honor, e acima de tudo, pouco cuidado com os retoques básicos de costura. E já se sabe, o Diabo está nos detalhes.
                                           claire
Não sei se os americanos estarão a  perder o jeito, se as coisas começaram a  ser feitas às pressas, mas...passa pela cabeça de alguém levar um vestido tal como saiu da loja para um tapete pejado de fotógrafos?
 Contam-se pelos dedos as vezes que eu, ilustre anónima que não corro o risco de acabar na imprensa e nos blogs de moda, uso um vestido de prêt-a-porter sem que a costureira o veja primeiro - não importa se custou muito ou pouco. Se o vou vestir, principalmente para uma ocasião especial, é para fazer o devido efeito, não para flutuar por ali desconfortavelmente, a aumentar o que não deve, a destapar ali ou a fazer desaparecer zonas que  dava jeito realçar.
Não percebo como é que estas meninas tão famosas, tão comentadas, arriscam parecer uns saquitos de batatas. Custava alguma coisa mandar adaptar a fatiota? Por mais bonito e de melhor qualidade que seja um vestido, se não foi feito de propósito para quem  o usa, vai precisar de pequenos jeitos para funcionar na perfeição.
Tanto personal shopper, tanto personal stylist pago a  a peso de ouro (alguns, pelos vistos, de gosto discutível) e no fim preocupam-se mais com o estilo do que com o fitting...melhor fariam se passassem pela modiste da esquina antes de aparecer! É como digo sempre: nada contribui tanto para a auto estima de alguém como um bom alfaiate!
Tenho para mim que alguns stylists  são como certos chefs: pagos regiamente só porque dão um nome tão estranho às coisas que toda a gente finge que  acredita que aquilo é tudo lindo só para não passar por ignorante, sem saber muito bem que serviço tão especial é que está, afinal, a comprar.
 Estou mesmo a  imaginá-los a ir num pulo ao showroom, buscar o primeiro vestido que encontram e a  dizer ao cliente que foi uma canseira escolher a toilette certa. E elas lá se convencem, porque afinal, ninguém duvidaria de um personal stylist mais famoso do que a estrela que está  vestir.
 Bons tempos em que os próprios couturiers faziam as vezes de personal stylists e personal shoppers, vulgo Givenchy + Audrey Hepburn...

Tuesday, September 24, 2013

Tio Boccaccio ensina: o castigo do ciumento

                                   

Já vos contei que o Decameron é um dos meus livros preferidos;  encontro sempre algo de novo nos seus contos. É surpreendente como o seu humor e peripécias se mantêm tão actuais. Um dos temas que versa é a guerra dos sexos - com os homens a fazer o piorio do alto da sua (então vigente e oficial) supremacia e as mulheres, com recurso ao ardil e à esperteza, 
a dar-lhes o troco, que isto quando se trata de fazer maldades, tanta habilidade têm os homens como as mulheres...
 Há dias, estava entretida a reler a obra de Boccaccio e ri-me bastante sozinha com um dos (muitos) contos que versam sobre a temática - e as consequências - do ciume doentio. 
 Resumindo a estória, que vale a pena ler na íntegra, havia em Florença um comerciante riquíssimo de nome Arriguccio. Querendo, como tantos do seu género,  ascender socialmente, tratou de casar com uma jovem e bonita fidalga chamada Dona Sismonda. Não foi um casamento lá muito bem arranjado -  quer pelas diferenças de meio e educação, quer pelos ciúmes tremendos que o mercador começou a demonstrar. Cansada de tantas injustiças, Dona Sismonda pensou num esquema: fez o marido crer que o estava realmente a enganar, de modo a que ele ficasse o mais furioso possível e a espiasse ainda mais. 
 Numa noite em que o acicatou mais do que o costume, sabendo que ele voltaria a casa furioso, capaz de cometer violências, subornou uma criada para ficar no seu lugar, na cama e às escuras, e assim apanhar em  vez dela a tareia que se adivinhava. 
 E em boa hora o fez: o bruto, com os ciúmes e os copos, deu uma sova de meter medo à pobre criada (com a fúria e sem luz, nem deu pelo engodo) e não contente com isso, cortou-lhe os cabelos. Depois, fazendo muito escândalo, dizendo-se desonrado, foi a casa da sogra, chamar os cunhados para levarem de volta a ruim mulher que lhe tinham dado por esposa.

 A mulher, mal ele virou costas, acudiu à infeliz empregada, pagou-a bem paga pela tareia, foi-se vestir muito bem e ficou à espera.
 Entretanto, ao ver o genro aos gritos à porta, berrando que abrissem e que tinha espancado a mulher adúltera até a deixar toda moída, a mãe de Dona Sismonda ficou muito aflita e seguiu os filhos pela rua fora, em camisa, rogando-lhes que não acreditassem numa história tão mal contada.
 Qual não foi o espanto de todos quando, ao chegar a casa do mercador, viram Dona Sismonda muito composta, a costurar como se nada fosse e sem marca alguma da cena que o marido descrevera com tanto entusiasmo.
 Passou-se então esta conversa (sic): 

«"Eu não sei o que tenho de contar-vos, nem do que se há-de queixar de mim Arriguccio". Vendo-a assim, Arriguccio olhava para ela como que apalermado, lembrando-se de lhe ter dado, porventura, mil golpes no rosto,  de a ter arranhado, e de lhe ter feito todos os males do mundo. E agora via-a como se nada disso tivesse acontecido. Em suma, contaram-lhe os irmãos o que Arriguccio lhes dissera. A Dama voltou-se para Arriguccio: "Ai de mim, marido meu! Que é que estou a ouvir? Porque me fazes passar, para tua grande vergonha, por mulher ruim, que não o sou, e te apresentas a ti como um homem malvado e cruel, que não és? E quando é que esta noite estiveste em casa? Já não dizendo, quando é que estiveste comigo? Ou quando me bateste? Por mim, não me lembro de nada." Arriguccio pôs-se a bradar.

" Como, ruim mulher? Não fomos juntos para a cama? Não voltei para lá eu, depois de ter perseguido o teu amante? Não te dei eu muita pancada, e não te cortei os cabelos?"
 Respondeu a dama: não foi nesta casa que te deitaste (...) tu nunca me bateste, todos os que aqui estão presentes, reparai se eu tenho alguma marca de pancada! 
 Nem te aconselharia a um tal atrevimento de me pores as mãos em cima; pela cruz de Cristo, partia-te a cara. Também que eu sentisse, não me cortaste os cabelos; só se o fizeste sem eu reparar...(...)" e tirou os véus da cabeça e mostrou que não os tinha cortados, mas íntegros. "Estou certa do que lhe aconteceu: este virtuoso homem, a quem em má hora me entregastes por esposa (...) poucas são as noites em que não anda a embriagar-se pelas tabernas e a meter-se ora com uma, ora com outra, mulheres de má vida; tenho a certeza de que ele foi deitar-se com uma das suas mulheres perdidas,  fazendo-lhe depois todas as valentias de que ele fala e como ainda não tinha voltado bem a si, pensou ter-me feito a mim todas aquelas coisas: olhem para ele - ainda está meio bêbado!".

 Com o que viam e ouviam, os irmãos e a mãe de Dona Sismonda começaram a bradar contra Arriguccio. 


Ao ouvir tais palavras, a mãe dela começou a fazer barulho e a dizer: "pela Cruz de Cristo, minha filha! Até deviam matar esse cão nojento e ignorante, pois ele não mereceu possuir uma menina criada como tu foste. Lindo! Só bastava que ele te tivesse recolhido da lama! Mau ano tenha ele a partir de agora, se tens de estar dependente da porcaria das palavras de um reles mercador de bosta de burro, desses que vieram do campo, oriundos de bandoleiros, vestidos de campónios (...) mal se apanham com três soldos, querem as filhas dos fidalgos, mulheres de sociedade (...). Bem gostava que os meus filhos tivessem seguido os meus conselhos. Podiam ter-te arrumado em casa dos Condes Guidi por um naco de pão, mas preferiram entregar-te a esta bela jóia. Ouvistes como o vosso bom cunhado trata a vossa irmã, aquele reles mercador de dez reis furados? Se eu estivesse no vosso lugar (...)à fé de Deus, dar-lhe-ia uma sova tão grande que lhe servisse de remédio (...) e não ficaria contente enquanto não o mandasse para fora deste mundo! Castigai-o Senhor, a este desgraçado bêbado que não tem vergonha!".


E assim foi o homem ciumento e bruto confundido, taxado de bêbedo, envergonhado e castigado por fazer acusações injustas e infundadas.




Uma "Princesa de Hollywood" com valores‏.

                                     
Rita Hayworth é uma das minhas referências de estilo: o cabelo flamejante, uma joie de vivre tão intensa que parecia tocar o espectador, os intemporais vestidos,  a sensualidade sem esforço, vulgaridade nem photoshop - desafio qualquer "A-lister" dos nossos dias  a conseguir o mesmo efeito devastador - os "lábios mais bonitos da indústria" e a beleza intemporal, mistura do tipo céltico (mãe americana de origem anglo-irlandesa) com o mais puro sangue espanhol (o pai era dançarino de Flamenco, de Sevilha, nem mais!) formavam uma daquelas combinações que não se repetem.
 A imortal Gilda já foi referida muito ao de leve por aqui, mas fica prometido um post dedicado ao seu estilo. Afinal, ela não se tornou conhecida como "a rapariga mais bem vestida de Hollywood" por nada... 
Ora, apesar de ser tida como uma senhora de "discurso suave", católica devota (chorou copiosamente quando soube que o seu nome era escrito nas bombas lançadas pelos Aliados, durante a Segunda Guerra)  e bastante tímida, Rita Hayworth teve, como tantas divas das telas,  uma vida pessoal atribulada. 
 Nunca encontrou a estabilidade amorosa e a paz doméstica que tanto ambicionava. E ao que parece, não tinha mesmo sorte. Ficou famoso o seu lamento "o problema é que eles (os homens da sua vida) se deitam com «Gilda» mas acordam comigo.." .
 Dos seus cinco maridos, os dois que a terão amado mais (e pais das suas duas filhas) acabaram por desiludi-la profundamente: primeiro, o famoso Orson Welles, que acabou por esgotar a paciência da actriz com a sua megalomania. Depois, o Príncipe Aly Khan, que lhe destroçou o coração com traições sucessivas. 
 Por ele, a beldade abandonou a carreira no auge da fama, tornando-se, em 1949,  a primeira "Princesa de Hollywood". O casamento foi espectacular, "a boda mais extravagante que a Riviera já tinha visto": 500 convidados da Europa e dos EUA celebraram com uma quantidade impressionante de champagne e caviar, entre outras iguarias, e nadaram numa piscina perfumada com água de colónia. 
Pouco depois, Rita dava à luz a sua segunda filha, a Princesa Yasmin Aga Khan.
 Mas o idílio duraria pouco: Rita desejava uma vida privada, discreta, e o Príncipe era um verdadeiro playboy. A actriz, se inicialmente se deixara fascinar pelas luzes do jet set,  não conseguia adaptar-se ao estilo de vida excessivo  - e muito menos às infidelidades do marido. Apesar das tentativas de reconciliação, o casal acabou por se divorciar oficialmente em 1953.

 Rita levou consigo levou as filhas: a de Welles e a de Aga Khan. Apesar dos pedidos, súplicas, ameaças e chantagens do Príncipe, a ex-mulher negou entregar-lhe a filha. A actriz nunca fora capaz de renunciar à Fé Católica para se converter ao Islão, e apesar das instâncias  - e ofertas de somas fabulosas - para criar Yasmin como muçulmana, não abriu mão dos seus direitos de mãe, nem da sua fé. Não cedeu mesmo quando se viu perante graves dificuldades económicas, e privada da pensão de alimentos que lhe era devida após o divórcio.

"Nada me fará desistir de dar à Yasmin a oportunidade de viver na América, com os nossos hábitos e preciosa liberdade. Embora eu respeite a Fé Muçulmana, é o meu desejo que ela seja criada como Cristã e não há nada que se compare a esse direito sagrado. Vou proporcionar isso à minha filha, não importa o preço que tenha de pagar..." disse na altura, apesar de ter de esconder a pequena Princesa dos espiões do marido. O casal acabaria por retomar uma relação cordial, mas era demasiado tarde para Rita - as preocupações acabariam por lhe minar a beleza e a saúde. 

Há coisas que não se vendem, nem se compram: beleza, estilo, integridade, valores... 

Monday, September 23, 2013

Cupido Tresloucado, ou coisa que o valha.

                              

Frase apanhada nessa maravilha que é o Facebook: o meu Cupido deve ser traficante...só me traz droga! 

Pois tenho para mim que a Ordem dos Cupidos devia fazer alguma coisa, alguma auditoria interna, um controlozito de qualidade, uma devassa de alto a baixo (de Ordens não percebo nada e de Cupidos tão pouco) a bem da reputação da classe. 
 Quer-me parecer que a Ordem dos Cupidos se tornou como o ensino superior neste país: não há rigor, não há exigência, não há brio, qualquer palerma é admitido desde que pague as propinas.
 E com a crise que para aí vai, às tantas o Cupido Traficante não é a única variedade de Cupido intrujão. Tenho a impressão de que o Cupido que se abastece no Manicómio também é muito comum. Falta de profissionalismo que para aí vai, é o que é.

O castigo medieval para mexericos...‏

                                           
...ou um deles (já que nesses tempos as pessoas eram particularmente criativas) era O Freio da Repreensão, uma máscara de humilhação que impedia a pessoa de abrir a boca ou mexer a língua para dizer disparates. Era particularmente usado em mulheres que perturbavam a ordem pública por serem "intriguistas e virulentas" mas acredito que homens cordilheiros e de língua afiada também fossem bons candidatos.  Tornou-se especialmente popular mais tarde, por volta de 1500,  e terá sido usada em casas de correcção até ao início do século XIX. Reparem no guizo em cima: servia para chamar a atenção quando o condenado passava. Provavelmente, haveria um pregão para anunciar "esta pessoa é uma mexeriqueira horrível, não confiem nela" ou coisa parecida. 

File:Scoldengravingalpha.jpg Sendo o hábito de intrigar destrutivo e perigoso, especialmente quando visa pessoas inocentes, esta era uma forma rápida e eficaz de denunciar os elementos perturbadores da sociedade. Paradoxalmente, na era do Facebook em que todos estão ligados e basta mandar uma mensagem mal intencionada para que os rumores se espalhem, é mais difícil expor um bisbilhoteiro. Eu, que sou uma rapariga tradicional e com horror ao politicamente correcto, não sei se não votaria pelo regresso de um castigo semelhante.


Mas mais importante do que não contar mexericos, é não dar ouvidos a mexericos. Afinal, são precisos dois para dançar o tango. Pessoas maldosas que inventam histórias contra quem está quieto em sua casa são como a pobreza e as baratas:
 hão-de existir sempre. É só não lhes dar troco, deixar as suas palavras entrar por um ouvido e sair pelo outro, certo? Sempre acreditei nisso e nunca me dei mal com a  fórmula. As intrigas morrem por si se não encontrarem um receptor.

                                        

 Infelizmente, para cada mexeriqueiro há sempre alguém que adora ouvir mexericos e reagir de acordo, mesmo que se prejudique com isso e faça sofrer as pessoas que lhe são próximas graças à sua fraca cabeça. É o velho caso que se via muito antigamente, do marido ciumento a quem bastava ouvir uma mentirola na taberna para chegar a  casa e desancar a pobrezita da mulher...
Pessoas assim, influenciáveis, gostam da atenção que lhes é prestada pelos intriguistas; sentem-se importantes porque os outros se dão ao trabalho de lhes vir contar o resultado das suas "investigações" e mais depressa acreditam no mensageiro que não conhecem de lado nenhum do que na vítima que é apontada, mesmo que a  conheçam muito bem.
 Nada temam, na Idade Média e mais além também havia solução para quem emprenhava pelos ouvidos: umas valentes orelhas de burro, também chamadas Máscara dos Parvos

File:Brank - Kelvingrove Art Gallery and Museum.jpg


Mas porque é que será que os costumes úteis caem em desuso? Raio de tempo politicamente correcto em que vivemos.

Sunday, September 22, 2013

Coisa que nunca percebi: "bué da jovem"



Hoje ouvi por mero acaso, na rádio, um programa (Bruno Nogueira, creio) em que se satirizava o discurso ridículo dos formatos televisivos e radiofónicos  "para jovens". 
  Sabem, o estilo Morangos com Açúcar, em que são todos bué da jovens, bué da rebeldes, bué da malucos e bué da radicais. Nunca percebi, mesmo na adolescência, o big deal com o adolescente, esse divino ser que supostamente acha que nunca ninguém foi jovem (um pouco como as mulheres que ficam malucas quando dão à luz, como se nunca ninguém tivesse sido mãe) e que se rebela não se sabe contra quê, só porque sim; nem a histeria com as "crises da adolescência" e pior, os dramas da adolescência. 

Nos anos 90, foi um autêntico modismo:  os compêndios "Eduque o seu teenager sem o traumatizar!", "A culpa é dos pais, esses tiranos", "O adolescente, esse mistério", "Queremos pais bacanos" etc, etc, vendiam como pãezinhos quentes. Eu preparava-me para entrar nessa temida idade, e morria de medo que os meus pais fossem parvos o suficiente para aderir a esse horror tão pequeno burguês, substituto da boa e velha disciplina, da relação franca e normal que tínhamos tido até então. Não foram, felizmente. Tinha uma família sensata. Nunca se passou da vetusta máxima "se fizeres asneiras o mal é teu".

 A bem da verdade, acho que nunca tive uma "crise" de adolescência. Nem lhe senti os dramas específicos, embora tivesse dilemas como todo o mundo, velhos e novos.

   Era mais sensível, mais inexperiente, menos racional na forma como expressava as minhas emoções, mais distraída em relação ao meu semelhante? É provável, faz parte do amadurecimento. Mas fase parva, no verdadeiro sentido do termo, acho que não tive, ou antes, tive montes de "fases parvas" não necessariamente por ordem cronológica, biológica e obrigatória.

 Tão pouco senti alguma vez a necessidade de me "revoltar", "rebelar" ou ser "radical" contra um mundo do qual não tinha razão de queixa. 
 Acredito que convém mantermos toda a vida alguma rebeldia, algum inconformismo e originalidade. Não há nada pior do que ir com o rebanho. Mas até os rebeldes empedernidos, se tiverem juízo, acabam por amadurecer, polir, assentar, sob pena de se tornarem ridículos.
 Nunca compreendi a rebeldia per se. E o "ser radical" nunca me agradou. Já terei nascido crescida ou isso de ser "bué da jovem" é um mito, mera capitalização da "fase parva" que o povo, brusco mas sensato, afirma que "se tira com um pau de marmeleiro, ou com uma enxada na mão de manhã à noite"?

As mulheres perfeitas.

                    

Muito de vez em quando, ainda tenho a felicidade de tropeçar numa legítima representante da minha noção de mulher perfeita. Ou antes, da noção algo tradicional de mulher quase perfeita (vulgo senhora) que me foi incutida. 

 Fico contente quando encontro uma Guardiã da Tradição. A Guardiã da Tradição pode ser idosa ou novíssima, rica ou a viver em genteel poverty ( remediada, jamais) mas é essencialmente muito bem educada  e foi criada no bom hábito da graça e da disciplina, o que não retira uma vírgula à sua vivacidade natural. É preciso ser-se especial para beirar a perfeição sem ceder à amargura. 
  Mantêm o hábito, velho de séculos, de fazer filhoses de água. Algo que ficou do tempo em que conseguiam dirigir uma casa, pessoal e família, sem que se desse pela sua presença, fazendo andar a orquestra com um sinal discreto ou um erguer de sobrancelhas. Antigamente, conseguiam esse milagre - pratas sempre brilhantes, aposentos sempre impecáveis, e uma anfitriã bonita na sala como se tudo isso surgisse sem esforço - mesmo quando as fortunas colapsavam e tinham de o fazer praticamente sozinhas, sem gritos nem queixas. Caminham sempre direitas, com um porte impecável, ainda que lhes doam os pés. Jamais demonstram em público quando estão magoadas, cansadas ou tristes. Guardam as suas expansões, por maiores que sejam, para a intimidade, porque uma senhora é uma senhora em todas as ocasiões. São capazes de trabalhar um dia inteiro e parecer imaculadas à noite, um pouco pálidas talvez, em qualquer reunião mundana. 
Antigamente, dirigiam habilmente, por trás do pano, as carreiras dos maridos, a política através de palavras discretamente murmuradas, gerindo o mundo por intermédio dos homens. Hoje fazem o mesmo - somente, algumas gerem a própria carreira também, trabalho dobrado. 

O seu cabelo é sempre brilhante, o seu visual é sempre de qualidade, requintado e discreto, os seus filhos são amorosos, simples e corteses com toda a gente, sem que alguma vez alguém as tenha visto perder a cabeça. E quando perdem a cabeça, até nisso têm sangue frio: se esgotadas as vias diplomáticas são frias, cortantes, capazes de, sem soltar um grito, deixar em lágrimas a mais arrogante das criaturas. Também se mostram peritas em transformar inimigos em aliados, só com a doçura e encanto da sua pessoa. Mais do que beleza, possuem elegância, bom ar, graça. São razoavelmente cultas mas não o exibem, porque ninguém gosta de uma maria sabichona. Têm alguns dotes artísticos, mas exercem-nos com modéstia e jamais lhes passaria pela cabeça impô-los ao público a não ser que o mesmo lhes implore a partilha com o resto dos mortais. Corajosas se a ocasião o exigir, capazes de atravessar uma guerra, sem nunca perder a dignidade que as distingue na multidão.
 Não lavam a roupa suja em público; deixam aos homens e às pessoas mais velhas a ilusão da sua autoridade, da sua supremacia, porque gostam de ver toda a gente contente e sabem que é da felicidade alheia que se retira a harmonia e se levam as águas ao moinho certo. Na maioria dos casos, as suas palavras destinam-se a fazer os outros sentir-se melhor. Por muito bonita que seja uma Guardiã da Tradição, as outras mulheres não se sentem ameaçadas por ela: antes, ela fá-las sentir mais novas, ou mais bem vestidas, ou mais belas, porque consegue melhor que ninguém dar elogios sinceros, sorrir com os olhos e dizer o que as pessoas gostariam (ou precisam) de ouvir sem peçonha nem falsidade. Basta-lhes escolher um ponto que seja verdadeiro e realçá-lo: perto delas os homens sentem-se jovens outra vez, sem que haja, no entanto, coquetterie ou vulgaridade nas suas maneiras. 

 O seu boudoir é um santuário. Tudo o que as rodeia é requintado, limpo, simples, honesto. Falam a toda a gente com bondade e respeito - reservando especial meiguice para tudo o que é vulnerável. Não se ufanam da sua caridade, não aderem a causas com o fito de se exibir.
 Também não acreditam em psiquiatras, as depressões resolvem-se à boa moda antiga, entre mulheres, com copiosas sessões de choro e palmadinhas nas costas até que a mágoa saia de dentro do corpo, longas noites de descanso, umas visitas ao Confessor, alimentação reforçada - caldinhos, chocolates - e se puder ser, uns passeios a Roma ou uma temporada na praia, mas longe das multidões. Se não puderem evitar aparecer em público, ninguém sonhará que estão deprimidas. Mesmo a sua tristeza é tão suave que lhes dá uma aura de santas, de mater dolorosas, que é artística em si mesma.  Reagem à adversidade, à mudança indesejada, com a graciosidade que só pode ser possuída por quem sabe que neste mundo, tudo nos é emprestado. E por isso são serenas. E continuam belas, ou se não belas encantadoras, mau grado o  passar dos anos.
 Mulheres assim são tão difíceis de encontrar, hoje em dia, como um homem honesto.
E quando me cruzo com uma, tiro-lhe o meu chapéu. Ou tiraria, se fosse homem e os tempos, outros.


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