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Saturday, November 16, 2013

Cuidado com as superstições.

                             
Cá em casa somos dados a algumas tradições e crendices, como já contei - mas felizmente só crendices úteis, em modo lá que as há, há. E muitas delas relacionam-se com encontrar objectos perdidos dentro de casa, porque não há coisa mais chata do que correr todas as divisões em busca de não sei quê que ainda agora aqui estava e agora anda perdido não se sabe onde. Uma delas foi uma velha benzelhice brasileira que me ensinaram e que (coincidência?) funciona às mil maravilhas. 
 Pega-se num pedaço de pano comprido (um cinto, uma fita, qualquer coisa) e dão-se três nós, dizendo:

  "Amarro o rabo da macaca e enquanto não encontrar...(objecto perdido) não desamarro o rabo"

E deixa-se ali estar, até que o desaparecido em combate dê sinal de vida. Assim que isso aconteça, desamarra-se o "rabo da macaca". Simples, não é? 

Ora, no que concerne a crendices gosto sempre de lhes avaliar a origem, e de saber quem é o santo (ou entidade, ou ser mágico) envolvido. Mas já pesquisei e não sei mesmo quem é a macaca mágica. O que sei é que não é bom deixar promessas por pagar, seja a quem for, muito menos a alminhas com poderes.

Pois bem, de há uns tempos para cá comecei a notar que me faltava isto e aquilo: umas das minhas botas preferidas. Livros. Cosméticos.  Uma carteira Balenciaga que estava para arranjar mas que eu tenho a certeza de não ter tirado de casa. Umas calças Kenzo que queria MESMO usar este Inverno. Mau, Maria. Algo de estranho se passa. 

Nem de propósito, fui dar com um "rabo" amarrado há meses, com nós cegos. Para ali ficou esquecido e foi um sarilho para o desatar. Acho que a macaca se vingou, e logo nas minhas coisas preferidas. Já se sabe que os macacos não são seres de confiança e pelo sim pelo não, agora que está tudo solto, vou esperar que apareça o que está escondido. Às vezes gostava mesmo de ser uma pessoa como as outras, sem grande imaginação nem crença alguma em nada. 
 Podem experimentar este pequeno "bruxedo" se vos der jeito, mas não se vão esquecer de desatar os nós depois de terem o serviço feito e  dizer que a culpa é minha. Não me responsabilizo, fica escrito...

Inspiração: O Padrinho, Dolce & Gabbana e temas relacionados

                              
Ando muito tentada a começar um pinterest, que não tenho. Acho interessante compilar num sítio só todos os assuntos de que gostamos. E se eu tivesse (ou quando tiver) tal coisa, Mario Puzo, autor de O Padrinho, estará certamente por lá. Não só era, pelo sangue, um italiano do Sul, como tinha uma ligeira paixão pelos Borgia: e eu subscrevo uma e outra. Afinal, nada é mais importante do que a família. E depois, por todas as razões, o imaginário siciliano é poderoso: a omertà, o sentido de clã e... o visual das mulheres sicilianas, em particular das viúvas, que em 1988 lançou definitivamente Dolce & Gabbana para a  ribalta, sendo Domenico Dolce um siciliano de gema; as imagens (abaixo) ainda parecem tão impressionantes como há mais de 20 anos atrás. Esta blusa podia morar no meu armário para o resto da vida, que eu não me maçava nada.
 A Casa tem-se mantido fiel à sua inspiração original - e também isso a torna numa das minhas preferidas, porque em todos os campos, aprecio a coerência, o intemporal, as coisas com significado e que são uma inesgotável fonte de ideias.


                          


                                       

                                       



                               

Friday, November 15, 2013

Estou consigo, Gwyneth: a perfeição é precisa. E a classe também.

                                     

Neste mundo barraqueiro de Mileys, Kardashians, Jersey Shores e Secret Stories, a "perfeição" é um defeito. Se Grace Kelly fosse viva, não ia ter decerto o apoio do público. A pobre Gwyneth Paltrow, que no mesmo ano conseguiu a proeza de ser eleita uma das pessoas mais bonitas do mundo e simultaneamente, uma das celebridades mais odiadas, que o diga. 

A cereja em cima do bolo foi uma polémica com a revista Vanity Fair que eu ainda não entendi bem, mas que lhe tem trazido muitas maçadas e  - long story short - a actriz foi aconselhada a "ganhar peso, para um papel estilo Bridget Jones" ou a ter outro filho (ela que sofreu recentemente um aborto espontâneo) para reconquistar o coração dos fãs, num puro movimento ad captandum vulgus - agradar à populaça, nem mais.

 É que a multidão, o público dos nossos dias, perdoará vídeos de sexo caseiros, perdoará contorcionismos sem roupa a meninas que mal atingiram a maioridade, perdoará as figuras mais degradantes - mas Deus nos livre que alguém seja elegante, e magra, e loura, e (pelos padrões americanos) bem nascida, sempre impecável, com uma carreira de sucesso e uma família de capa de revista. É que não se atura. Todas as vulnerabilidades se aceitam, se desculpam e dão audiências, mas a reserva, a classe, o garbo, o porte, a beleza principesca e o ar de quem não parte um prato irritam demasiado a bandalhice de cada um.

 É muito complicado, nos tempos que correm, a audiência pandilha e reles identificar-se com alguém tão elegante como Gwyneth Paltrow, simplesmente porque a elegância não é, nesta desgraçada época, coisa a que esteja na moda aspirar. 

 No seu lugar, mandava-os categoricamente e do alto dos meus saltos altos, lamber sabão, que uma senhora não diz asneiras. Nada de engordar para papéis patetas de mulher frustrada, atiradiça, trapalhona e com quem "todas as mulheres se podem identificar" (tretas: sempre achei a Bridget Jones uma desavergonhada, bêbeda e desleixada). Nada de ter filhos só para puxar à lágrima. Ela por acaso precisa disso? Uma senhora casada com filhos e mais que fazer, ainda por cima. Era mudar-se para a Europa de vez e mandar à tábua a carreira e o resto. Ela não tem necessidade de competir com as popuzudas da vida. Nem de se rebaixar a isso. E o público conhecedor tão pouco.

Pessoas que me confrangem: wake up and smel the coffee!


Há indivíduos que sofrem de uma espécie de anorexia mental invertida. Gente assim tem o condão de - consoante os estragos que causa ou não- 
despertar-me um misto de pena e insuportável vergonha alheia ou provocar na minha pessoa sentimentos muito pouco cristãos. Passo a caracterizar o espécime: quem sofre de anorexia nervosa vê ao espelho uma imagem balofa quando na realidade está num estado de fraqueza extremo, não é?

 Pois as pessoas que padecem de anorexia mental invertida têm uma percepção totalmente deformada de si mesmas, mas só para o que lhes dá jeito. São incapazes de ter noção das próprias fraquezas, de pôr a mão na consciência e de poupar os outros às suas figuras de urso. Em caso extremo - já que a imagem distorcida costuma vir acompanhada de ambições a condizer com a ideia falsa que estas pessoas têm de si mesmas, e logo, o resultado é frustração sobre frustração - esta "doença" descamba em comportamentos desagradáveis, agressivos ou perigosos. 

Ou seja, como não conseguem a bem aquilo a que se acham com todo o direito, vai de fazer batota, arranjar intrigas, usurpar o que não lhes pertence... enfim, aquelas coisas que acontecem em thrillers onde há sempre uma maluquinha que se finge de santa e acaba por se revelar uma stalker com sede de sangue, estilo Jovem procura companheira ou A mão que embala o berço.

 E se julgam que estou a brincar, olhem à vossa volta. Exemplos não faltam:

- As pessoas que não sabem cantar um dó, mas que não só querem ser famosas (para isso vai-se à Casa dos Segredos, reservada a uma categoria diferente de gente doida) como fazem questão de ser CANTORAS.  Exigem atormentar os ouvidos de quem está em todas as festas e tentam concursos de televisão, acabando por ser alvo de chacota. E quando lhes dizem de forma mais ou menos piedosa que não dão uma para a caixa, enfurecem-se, dizem que ainda vão vê-los a ganhar um Grammy, e por aí fora...

- As pessoas que têm a mania que sabem escrever. Pior - têm a mania que são POETAS. Enchem os murais dos facebooks da vida com os seus "escritos" à moda do Rancho Folclórico lá da terra (cujas rimas populares terão decerto mais profundidade) declamam "versos" cheios de lugares comuns - sobre o NADA, sobre a paixão, sobre a espuma do mar - e se estiverem numa de ser avant garde, acrescentam umas tiradas eróticas. Isto tudo acaba inevitavelmente em edições de autor ranhosas que os amigos são constrangidos a comprar.

- As pessoas feias, mas mesmo feias que dói, com a mania que são lindas. A umas dá-lhes para tentar ser modelos, levando sucessivamente com a porta na carantonha.
A outras, para usar fatiotas totalmente inapropriadas: olham-se ao espelho e  vêem a Adriana Lima, mas as pessoas na rua só conseguem ver uma gárgula de Notre Damme de mini-saia. A outras ainda dá-lhes para o auto elogio (que ninguém secunda) para citar canções parvas "You are beautiful, no matter what they say, words can´t bring you down" e para apanharem fixações por pessoas muito fora do seu alcance, movendo uma verdadeira marcação cerrada. Quando ouvem "não és o meu tipo" ainda ficam muito indignadas. E lá vão regar aos quatro ventos como é que uma pessoa tão bonita levou uma tampa.

- Os indivíduos incompetentes com a mania que são espertos: começam por rodar as escolas todas, os colégios privados todos (geralmente, com o beneplácito de paizinhos cegos)  porque a culpa é dos professores que não entendem a sua genialidade, dos colegas que são maus para eles, etc. Quando chega a altura de entrar no mercado de trabalho, é mais do mesmo: ora são despedidos a torto e a direito porque ninguém os consegue aturar, ora a frustração acumulada os torna tão passivo agressivos e esquisitos que deixam toda a gente desconfortável, e ninguém os contrata. Então viram-se contra aqueles que invejam: que este tem cunhas, que aquele tem um pai rico, etc, etc...

Indivíduos assim são um poço de ambições desmedidas, de vaidades sem motivo, de inveja negra...e uma fonte inesgotável ora de troça, ora de chatices. Sendo que tudo isso reside numa enormíssima falta de modéstia, e que estamos num País Católico onde a cultura vigente prega a humildade, só posso concluir que isto é muita falta de religião junta. Ou que almas destas são obra do Demo. Só pode. Às vezes, o diabo consegue ser ainda mais feio do que  pintam.



Thursday, November 14, 2013

Françoise Sagan dixit: o que os cavalheiros pensam do VESTIDO CERTO.

Diane Kruger com vestido Jonathan Saunders
                                       

“A dress makes no sense unless it inspires men 

to want to take it off you” 


          Françoise Sagan


Provocadoras como possam ser, há uma certa verdade nas palavras da escritora francesa: um bom vestido, como dizia Chanel, faz com que se repare na mulher. Enaltece as curvas na medida certa, disfarça qualquer pequena imperfeição. Idealmente, deve deixar quem o usa a sentir-se no céu e fazer sonhar quem o vê. Mas para isso, convém que o vestido seja...bom, vestido. Que haja tecido suficiente para hipoteticamente poder ser tirado. Um vestido-despido, que não deixa rigorosamente nada à imaginação, além de sujeitar a mulher que tem o mau gosto de o usar a comentários menos abonatórios por todas as razões, priva os cavalheiros da mais primitivas das ilusões. Se já nem smoke and mirrors restam, este mundo vai muito mal.

Wednesday, November 13, 2013

Joana Vasconcelos + Dior...mas pouco.

                                                     
Vamos por partes: não posso estar mais orgulhosa por ver uma artista portuguesa em destaque numa importante exposição parisiense - de mais a mais, uma exposição dedicada ao meu ai Jesus, Dior. You go, girl. Aplauso. A arte deve ser marcante, arrojada, elegante, espectacular - e o seu trabalho é isso tudo. Se andar lado a lado com a moda, tanto mais fabuloso para mim.
 Mas não posso deixar de notar dois detalhes (e como sempre, o Diabo está nos detalhes). 
 Joana Vasconcelos teve a rara distinção de produzir uma escultura para a lendária maison. Foi retratada ao lado de Natalie Portman, rosto da Casa. A actriz vestiu Dior, comme il faut. E Joana Vasconcelos, bem...teve o movimento (decerto bem intencionado e patriótico) de usar para o evento um vestido de Filipe Faísca. Ora, aqui temos uma quebrazinha de protocolo: primeiro, num acontecimento social organizado por dada griffe não sendo obrigatório, é simpático e coerente luzir qualquer coisinha da marca anfitriã. Não sei se a gaffe, se é que lhe podemos chamar isso, foi da artista (creio-a well bred o suficiente para não ignorar essa sensibilidade) se de algum patrocinador, se do generoso patriotismo de querer promover um designer português, se dos organizadores do evento, que não lembraram ou não ofereceram.  Segundo, há um lugar e uma ocasião para tudo, até para promover a moda portuguesa em Paris - e sou franca, não sei se Joana Vasconcelos e Filipe Faísca prestaram um grande serviço um ao outro com este vestido que  (bonito e de acordo com o estilo de Joana Vasconcelos, note-se) não é o mais favorecedor para a silhueta da escultora. 
 Em suma, arrisco dizer que um vestido Christian Dior teria sido muito mais adequado - além de seguir o que manda o figurino, não há nada como Dior para favorecer curvas e contracurvas de todos os tamanhos. Isso sim, era perfeito.


Dica de estilo inestimável, by Oscar de la Renta


'Walk like you have three men walking behind you.' 


         Oscar de la Renta dixit

Em todos os aspectos da vida é útil comportar-se como se estivéssemos a ser seguida (o)s por alguém que desejemos impressionar - ou pelo nosso pior inimigo. Sentir-se observado é meio caminho para evitar o desleixo. Devemos ser gentis com a nossa pessoa mas a relaxaria é inimiga do êxito, quanto mais da perfeição. Fingir a disposição de um milionário, encarar cada dia como importante (e vestir de acordo) porque não sabemos o que ele nos reserva, ter sempre um trunfo mental secreto para o que der e vier em suma, estar sempre preparada (o) eleva a confiança, exercita o brio e concede-nos o auto domínio necessário para, por sua vez, ter algum poder sobre a realidade à nossa volta. Bem bastam as coisas que não podemos mesmo controlar - deixar andar o resto fora dos eixos já é escolha nossa, e uma péssima escolha.

Tuesday, November 12, 2013

Quando a Moda imita a Arte


                                 
Não vou perder tempo a dissecar aqui se a Moda é Arte ou não: para mim, é. Arte que podemos usar. É a forma de expressão mais imediata que existe: comunica instantaneamente quem somos (ou, noutra óptica quem pretendemos ser, pelo menos naquele dia). Quem sustenta o contrário, talvez lhe falte experimentar (ou lhe falte a sensibilidade para compreender, mesmo usando) a perfeição de um Ferragamo, de um Christian Dior, de um Balenciaga, que se vê, sente, toca. E se falarmos de fotografia de moda, mais ténue a fronteira se torna: o culto da Beleza está sempre presente. 
                              
 O encanto delicado de Jessica Chastain já tem sido referido por aqui: a actriz de madeixas Ticiano é uma daquelas formosuras clássicas que teriam feito sucesso na Grécia Antiga, na Idade Média, no Renascimento ou no século XIX, tal como agora. Não é por acaso que a sua primeira capa/editorial na Vogue (retratos captados por Annie Leibovitz, e quem disser que Leibovitz não é uma artista não sabe de que terra é) foi inspirado na obra do pré rafaelita Sir Frederic Leighton, Flaming June. Oh, beauty, ever ancient and ever new - já dizia Santo Agostinho...
                                
  


                       

O braço de ferro (You Win Again)

                                                  
We gotta level before we go
And tear this love apart
There's no fight you can't fight
This battle of love with me
You win again
So little time
We do nothing but compete

(Bee Gees, You win Again)

Ter duas avós fãs de Bee Gees deu nisto:  ouvia-se bastante lá em casa a música dos três irmãos da Ilha de Man. Em particular, sempre gostei muito de You Win Again, que retrata tão fielmente os jogos de poder nas relações amorosas.


 Os braços de ferro fazem parte do jogo de sedução. A provocação,  o powerplay, a conspiração amigável (ou nem sempre...) entre apaixonados, o "play hard to get" são essenciais no início e estarão sempre presentes na dinâmica de um relacionamento se ele estiver vivo e de boa saúde, tanto nos aspectos práticos ("amuo a ver se ela não me pede que faça coisas chatas") como nos mais íntimos ("portou-se mal, por isso vou fingir que ele não está aqui"). Mas é preciso ver quando demasiado powerplay  deita tudo a perder. Entre pessoas que gostam de facto uma da outra, é necessário haver confiança e sinceridade. Acima de tudo, é preciso entrega: arriscar expor os sentimentos sem armas secretas no bolso, sem planos de contingência, sabendo que o outro arrisca o mesmo e que ambos terão de prescindir de algumas coisas - de um bocadinho de orgulho. De namoriscar por aí. Da aura de frieza e invulnerabilidade. 
 O jogo de poder existe sempre, é preciso que exista: mas tentar subjugar o outro em nome de um orgulho fátuo e infantil, com o raciocínio " se eu ganhar a parada, fico por cima e posso continuar a fazer tudo o que me apetecer" é um erro grave. Se existe uma grande necessidade de domínio, ou de ganhar território para agir como bem dá na gana, tentando ter o melhor dos dois mundos, levantam-se questões de responsabilidade, maturidade e respeito. 
 Na hora de competir um com o outro, basta fazer o exercício de pesar o que é mais importante, qual é a prioridade: a birra, a supremacia ou estar com a cara metade. E se a relação for daquelas raras, que fazem vibrar as cordas interiores, o valor do poder torna-se relativo. O poder absoluto é um lugar solitário: um trono que só estamos dispostos a partilhar  quando a paixão toma tudo o resto de assalto. Para tudo na vida, é preciso um bocadinho de rendição. Não importa quem tem razão, não importa o brio individual, homem, mulher , importa o todo.

Monday, November 11, 2013

O high low fashion está em decadência? I think not.



Dizem este e este artigo  que as marcas de moda mid range estão a roubar espaço tanto às cadeias high end ou fast fashion ( Zara, H&M, Primark, etc) como às casas de high fashion (Prada, Fendi...). O foco dos consumidores está a mudar e as pessoas preferem investir um pouco mais numa peça supostamente de melhor qualidade (e mais exclusiva) em vez de gastar com maior frequência nas constantes novidades da Zara - ou, no outro extremo, comprar mais quantidade ao invés de canalizar milhares de euros para artigos de luxo.
 To each its own: pessoalmente, sou pelo high-low fashion, com um guarda roupa que é uma mistura de roupas/calçado de designer, vintage e alguns básicos comprados nas Zaras da vida. A constante novidade apresentada pelas cadeias de fast fashion não me seduz, nem acho que abusar dela seja um bom investimento - até porque entre edições especiais e outras invenções, as marcas "acessíveis" já apresentam preços a competir com as concorrentes mid range, se não mais. 
 No entanto, sabendo procurar é mais vantajoso ficar nos extremos: acessível ou luxo. 

Por um lado, as casas de fast fashion têm várias linhas, e em algumas trabalham com materiais de qualidade como seda ou pele. Por outro, para gastar dezenas de euros num vestido ou num casaco de gama média que não é tão diferente de um produto Zara como isso (Karen Millen, a extinta Tintoretto, Hugo Boss ou Adolpho Dominguez, estas já no entry level naquilo que a "luxo" diz respeito, são das poucas que me ocorrem com diferencial e apelo suficiente para justificar investir numa etiqueta que não é carne nem peixe). 

Prefiro reservar as compras para algo que seja de facto especial, em que se veja realmente a diferença. Then again eu não posso falar por toda a gente, porque em todos os aspectos da vida sou um pouco "tudo ou nada, oito ou oitenta" e a noção de "caro", "barato" ou "bom investimento" dependem muito da sensibilidade e prioridades individuais. E vocês? Preferem viver no limite ou a aurea mediocritas no que concerne ao vosso armário?

Jane Austen dixit: juízo. E noção.

                    
Sendo a Rainha do bom senso, reafirmo que Jane Austen devia fazer parte obrigatória da educação de todas as raparigas, bonitas ou feias, ricas ou pobres. Se assim fosse, evitavam-se muitas figuras tristes, muitas cenas desnecessárias e muita vergonha alheia. Pois se é verdade que a autora disse, e muito bem "to love is to burn, to be on fire", também escreveu o seguinte - aspecto a ter em conta antes de mais nada:

“No young lady can be justified in falling in love before the gentleman's love is declared; it must be very improper that a young lady should dream of a gentleman before the gentleman is first known to have dreamt of her.” 

Em tradução livre, "nenhuma jovem tem desculpa para se apaixonar por um homem antes de ele lhe declarar o seu amor; é muito impróprio pôr-se a sonhar com um cavalheiro sem saber antes se o cavalheiro sonha com ela". Além da questão antropológica que já tenho mencionado por aqui (uma coisa é encorajar, dar um empurrãozinho e outra é inverter os papéis e tirar ao cavalheiro a função de caçador, correndo desesperada atrás dele e fazendo as investidas como uma tonta que nunca foi cortejada na vida) pede-se noção da realidade qualquer ser humano.
 Para começo de conversa, sempre me fizeram impressão as pessoas (homens ou mulheres) que apanham paixões assolapadas sem qualquer encorajamento, e sofrem por quem nunca olhou para elas duas vezes como se tivessem perdido uma relação a sério. Para nascer, o amor precisa de flirt, de sedução - se surge na cabeça de alguém sem que haja nada disso, se além de tudo cria uma obsessão unilateral, algo de errado se passa. Isso é normal na pré adolescência, quando as rapariguinhas se apaixonam por posters e choram por causa de ídolos que nunca viram. Em adultos, é patético e inaceitável. 
Depois, há que ter sentido dos factos: e vejo muitas mulheres com idade para ter juízo a oferecer-se (nem que seja por feijões) a quem nunca olhou na sua direcção, caindo mesmo no papelão de perseguidoras. Espelho, palmatória e Jane Austen fizeram falta a muitos pais e muitas filhas...mas quê, acha-se que é no ensino obrigatório e no ensino superior gratuito e aberto a qualquer desmiolada que se aprende tudo. Depois, é o que temos.


Sunday, November 10, 2013

A Ryanair tira a roupa às hospedeiras.


Sou-vos franca, não tenho muitas esquisitices mas companhias aéreas low cost são uma delas. Voar numa lata de sardinhas já é sacrifício que chegue - fazê-lo apertada, com pouquíssima bagagem e a aguentar o farnel alheio, só em caso de muita necessidade.
 Depois, dada a realidade do país conheço pessoas que já concorreram a empregos na Ryanair, e...de facto tudo é barato naquela empresa, desde os ordenados que nem chegam para mandar cantar um cego até à formação que sai do bolso dos candidatos. Não tenho nada contra uma boa pechincha, mas tudo o que me cheira a sovinice ultrapassa o razoável. E tudo o que me soe pouco ético tira-me do sério. Tirar couro e cabelo aos funcionários é decerto faltinha de ética. E o cúmulo da faltinha de ética será tirar a roupa do corpo às funcionárias, que é exactamente o que a Ryanair tem feito.
 Lançar um calendário com os empregado(a)s mais bonito (s) para angariar fundos para caridade ou o que seja não é novidade (vide os Bombeiros ou os Dieux du Stade) nem nada do outro mundo, mas limitar o acto às mulheres e fazê-lo com tanta vulgaridade pisa uma certa linha - a linha que separa uma ideia inofensiva de uma parada de revista para adultos.
 O calendário em causa só me chamou a atenção por haver uma portuguesa nestes preparos:

                         


Diz que escolheram a menina entre 400 colegas. Não faço ideia se a menina Inês ficou entusiasmada ou sofreu algum tipo de pressão para aparecer assim, mas não havia poses um bocadinho mais elegantes que as "modelos" pudessem adoptar? E um photoshopzito, um produtor de moda qualificado que não desse à iniciativa um ar tão...baratuxo? 
  Deve ter sido feito com a prata da casa, afinal é uma companhia low cost. A dignidade cabe em toda a parte, até nos calendários.

Eu sou uma pessoa do campo, eu sou uma pessoa muito simples...

                               
Ó para mim tão simples, no meio da Natureza que nunca maça nem é vulgar.
...e muito fácil de entender. Não gosto de pessoas que me aborreçam. E não gosto de gente vulgar, brejeira, ordinária e atrevida (porque tolero todos os defeitos menos a vulgaridade) muito menos de gente vulgar, brejeira, ordinária e atrevida que me aborreça. 

De resto, gosto de toda a gente.

Poder a sério.

            

Em todos os filmes/livros/séries sobre bruxas, vampiros ou coisa que se pareça há sempre uma personagem poderosa, a tender para o mauzinho (o velho lugar comum "o poder corrompe") e o contraponto: a bruxa boazinha, chamemos-lhe assim, que receia o próprio poder e não põe a render todo o seu potencial. O exemplo mais recente é em American Horror Story, de que já falei aqui
 Fiona, a bruxa Suprema, é uma bruxa em Chanel. Tem o poder todo e usa-o sem complexos; é brutalmente honesta consigo própria e com os outros, não tenta passar pelo que não é (embora não lhe falte o calculismo necessário); sem hipocrisias de espécie alguma, agarra aquilo que quer e porque pode, realiza as ambições inerentes a todo ser humano, bruxo ou não: beleza. Riqueza. Respeito. Não faço ideia da vida amorosa da personagem mas acredito que não lhe faltasse nada. Como já tem tudo, lança-se na busca pela eterna juventude. E pela imortalidade, por amor da santa. 
 Estar sempre em contacto com o seu Eu Absoluto tem, porém, consequências: é fácil perder a noção dos limites. Cair no comportamento de superstar, achar-se invencível. 
             
 A vitória ou derrocada de pessoas/personagens assim, abençoadas com o ímpeto de saber o que querem e agarrarem os seus desejos com ambas as mãos, depende única e exclusivamente do seu sentido de ética, da sua bússola moral e de saberem quando parar. Sem sabedoria, modéstia e misericórdia não há verdadeiro poder.  

É a ambição desmedida e a ausência de escrúpulo que corrompem, não o poder em si. Ou a riqueza, a beleza, o êxito.

 Na outra face da moeda, está o bruxo santinho, ou santo de pau carunchoso, ou algo perdido, que tem medo de si mesmo. E todos somos assim de vez em quando: ignoramos como somos fortes ou poderosos. É mais fácil habituar-se a ceder à tristeza ou à derrota, que são emoções mais acessíveis; ficar triste em vez de ficar furioso. Evitar agarrar o touro pelas hastes; remoer mágoas e engolir sapos. Agir e sentir passivamente. Em situações limite, a adrenalina dispara e aí sim, vai-se buscar todo o poder escondido, toda a força necessária para dar um piparote em tudo, agir sobre o mundo exterior, influenciar os acontecimentos,  traçar as regras e mudar radicalmente a situação. Eu sou pelos bruxos mauzinhos, porque neste mundo há que ser um pouco mauzinho: desde que não lhes falte a bússula. Porque senão perde-se o estilo: fica só a ambição, e não há nada mais patético que um ambicioso sem noção.

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