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Saturday, January 4, 2014

Anna de Cleves: antes só...

Anna de Cleves, a quarta mulher de Henrique VIII, passou à História como a esposa feia, a "égua da Flandres" que foi rejeitada pelo monarca caprichoso. Os historiadores - e os seus contemporâneos - porém, concordam que a dama tinha, no mínimo, a reputação de rivalizar com as beldades elegíveis do seu tempo. Os retratos mostram-nos um rosto plácido (o nariz algo "batatudo" era a única falha que se lhe apontava)  uma cintura estreita e uma figura curvilínea. Se pusermos de parte os mitos, uma grande timidez, diferenças culturais e falta de química entre o casal parecem ter estado mais na origem do divórcio do que qualquer outra coisa.
 Mas no meio das suas desditas, Anna de Cleves (a segunda esposa de Henry a sofrer o estigma do divórcio) foi entre as seis rainhas, a mais feliz de todas...e tudo graças a um grande bom senso.
 O noivado, negociado à distância, realizou-se por razões políticas e religiosas: morta a sua Rainha preferida, Jane Seymor, em consequência do parto do seu único filho varão, Henry VIII achou-se na obrigação de casar com uma noiva de simpatias protestantes. Thomas Cromwell, Conde de Essex e principal ministro do Rei, incentivou-o a firmar a aliança com a Princesa alemã - e perderia a cabeça pela má escolha.

 No dia de Ano Novo de 1540, Anna chegou finalmente a Inglaterra. Um eterno romântico, Henrique - que já tinha chegado à meia idade e perdera a sua bela figura, mas continuava a ver-se como o jovem deslumbrante dos seus 20 anos - decidiu seguir a tradição cavalheiresca de surpreender a noiva. Afinal, tinha-se apaixonado à distância pelo seu retrato e com a imaginação romanesca que o caracterizava, calculou que ela o reconheceria imediatamente, que seria amor à primeira vista e iam viver felizes para sempre.
 Mas Anna nada sabia das tradições inglesas, além de ser tremendamente ingénua em questões amorosas. Ao ver um grupo de homens a aproximar-se e um grandalhão mascarado agarrá-la e beijá-la à força, desatou aos gritos... como convinha, afinal, a uma rapariga sensata do seu meio. A surpresa foi um desastre. Ferido no seu ego gigantesco, Henrique não perdoou a afronta; declarou logo "não gosto dela!".

Para piorar, Anna mal falava inglês, Henrique não falava alemão. Henrique apreciava as mulheres com sentido de estilo, que vestiam à francesa...e Anna usava os vestidos sóbrios como balandraus que eram moda na sua terra. Também não sabia música, nem sabia flirtar.

 A noite de núpcias foi igualmente um fracasso. Para começar, o Rei era teimoso e se tinha metido na cabeça não gostar da noiva, dificilmente daria o dito por não dito. Depois, já não tinha o vigor de outros tempos e a má disposição - associada a uma úlcera malcheirosa numa perna - não ajudava. Foi-se queixar, em termos muito desagradáveis, aos seus médicos. A julgar pela descrição, podemos imaginar que Anna, alta e voluptuosa, não faria o seu tipo: ele era conhecido por preferir as raparigas pequenas e esguias, como Anne Boleyn. Ele próprio não seria um Apolo, por essa altura, e a ignorância e inocência da noiva - que disse às suas damas julgar que um beijo de boa noite seria o suficiente para dar um herdeiro à Coroa - dificilmente contribuíam para que a união fosse um sucesso. Por esta altura, Henry já estaria interessado (como de costume) numa das damas de honor da Rainha, Catherine Howard.

 Ao fim de seis meses, Henry anulou o casamento - e Anna, aterrorizada pela fama do marido, não se opôs...o que, tendo em conta o carácter de um Rei que sabia ser generoso quando não o contrariavam, foi a melhor decisão possível. 

 Henry propôs-lhe então que ficasse a viver em Inglaterra como sua súbdita e sua " boa irmã" com precedência sobre todas as mulheres do Reino, exceptuando as suas filhas e a mulher com quem viesse a casar. Ofereceu-lhe uma renda impressionante, vestidos, jóias e duas residências magníficas mantidas à custa da Fazenda Real. E Anna, mulher de boa natureza e dotada da arte de saber viver, aceitou contente, embora decerto ferida na sua vaidade - seria melhor ficar naquela que já considerava a sua casa do que voltar para a austera Cleves e sujeitar-se à autoridade do irmão, a um novo casamento político e a mais reviravoltas, sem poder sobre o próprio destino.

Era uma pena deixar de ser Rainha - mas conservava um alto estatuto e independência, coisa rara nas mulheres do seu tempo. Não só escapou ilesa a um casamento suicida como conseguiu o feito de ter excelentes relações com a sua substituta, a nova (e breve) Rainha, e foi uma boa influência nas duas princesas, Mary e Elizabeth, que gostavam muito dela. À medida que aprendia inglês e se adaptava à sua condição de membro da Família Real, a sua vivacidade natural veio à superfície, e ela e o Rei cimentaram uma grande amizade. 

Curiosamente, Anna não voltou a casar, embora as razões não sejam claras, já que o acordo não a impedia oficialmente de o fazer. Talvez a experiência tivesse sido traumatizante. Talvez não quisesse dar um passo para trás, já que mal ou bem, tinha sido casada com o Rei de Inglaterra. Sabe-se que a dada altura, após a queda de Catherine Howard, poderá ter alimentado esperanças de que o Rei a tomasse de volta, mas pessoalmente duvido. 

 Após escapar a um matrimónio relâmpago com o Rei Barba Azul, creio que Anna preferiu uma vida discreta, sendo dona do próprio nariz. A sorte grande só sai uma vez, e poderia sofrer a sina de uma segunda edição. Antes só do que mal acompanhada, lá diz o povo.










Dúvida existencial do dia, ou eu embirro com...bonés

New Era
Jeremy Scott


Há coisas nos meus gostos que não percebo: estão ligadas a associações de ideias no subconsciente, com certeza. Só assim se explica que eu, que adoro chapéus (apesar de não os usar com a frequência de que gostaria) embirre tanto com bonés. Hoje vi o chapelinho acima na Vogue - recomendado para meninas cool - e pimba, fui invadida por uma série de sensações desagradáveis. 
 A sério - a minha colecção não é muito grande mas inclui chapéus de aba, fedoras, barretes de tricot, ushankas que cheguem para atravessar a Rússia em grande estilo, chapéus estilo anos 20, panamás, sombreros e outros, para não falar dos famigerados capuzes.
 Mas bonés, baseball caps, não são mesmo a minha chávena de chá. Excluindo um cor de rosa de que gostei muito há uns anos, não sou mesmo capaz de usá-los. E há mulheres que conseguem escapar-se a usar um com óptimo ar, mas são raras (sei lá, as modelos nos anúncios Ralph Lauren ou Tommy Hilfiger, ver abaixo). Um bocadinho de maquilhagem a mais e zás, passa-se de bon chic, bon genre a Rita Ora em menos de um fósforo. E as meninas que os usam para esconder um cabelo menos recomendável, a.k.a menos limpo? Don´t get me started, que este é um blog asseadinho.


 Pode ser o melhor boné do mundo, mas associo-o imediatamente a subúrbios duvidosos, às meninas da Zona qualquer coisa com coxa grossa, argolas de meio metro e rabo de cavalo agarradinho à cabeça, a um aspecto de ghetto, em suma. Quando muito, é coisa para se usar num desafio de baseball (ou de futebol, mas lá está: dar bom ar a qualquer coisa que tenha a ver com futebol é um tremendo desafio). 
 Em todo o caso, é o tipo de acessório a reservar para situações desportivas e/ou muito descontraídas, com o aspecto mais clean do mundo, por favor.

Ressalvo, no entanto,  que isto é uma mania minha  - às tantas os bonés têm vantagens fabulosas que me estão a escapar. Mas nunca fiando.





                           

Maravilhoso, fantástico, esplêndido.

                                           

"Quando havia passeios projectados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéu, olhando por dentro da vidraça com um tédio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:
- Ai, minha senhora! É um temporal desfeito! É a cântaros; está para todo o dia! Olha o ferro!"

                     A criada Juliana em "O Primo Basílio", Eça de Queiroz


Olha o ferro, realmente. Se há coisa que me arrelia é haver planos feitos há mais de um mês para os meus escassos dias livres e ter de os cancelar - ou adiar, o que vai dar detestavelmente ao mesmo - por causa desta chuva que Deus a dá. É que enquanto eu estive atafulhada de tarefas e sem poder dar um passo para lado nenhum, o sol brilhou da forma mais tentadora, a fazer pouco de mim. E com a tempestade que caiu esta madrugada, há que dar graças por estar tudo no lugar (é que tenho uma clarabóia perto do quarto que faz um som encantador quando a chuva é mansa, mas quando a tempestade é das grandes parece o fim do mundo). Fico chateada, com certeza que fico chateada. Não é que eu não lide com as contrariedades, que remédio, mas não me apetecia. Deve ser praga de alguma Juliana, com certeza. Que ferro!

Friday, January 3, 2014

Praga de Ano Novo: alfinetar os políticos e lembrar o Abril

                                       


Mais as piadinhas sobre política que acabam no batido e velho "são todos uns ladrões", os avisos de agitação social e os guias "como sobreviver a 2014" com os melhores lugares para emigrar e as tendências internacionais, que mais parecem almanaques de astrologia. Tudo visto, tudo amargurado, tudo uma maçada.

 E este ano, com o 25 do 4 a fazer 40 anos, já me arrepio com os lamentos ao Abril que nunca se realizou. Eu até acredito nas boas intenções de algumas pessoas que debitam gracinhas sobre o estado da Nação. Nem todos o fazem por falta do que fazer, por falta do que dizer, ou para parecerem muito informados ("antenados", como dizem no país irmão das pessoas que têm o detestável hábito de andar sempre a par de tudo) mas tenham paciência. É claro que dada a natureza do meu trabalho, não posso andar neste mundo sem saber o que se passa. Mas tudo isso é muito relativo e at the end of the day, é preciso continuar e não dar crédito a essas coisas porque as maiores fortunas foram feitas em tempo de crise ou em tempo de guerra por quem não deu ouvidos e continuou a fazer dinheiro dançando conforme a música. Arrepelar-se por cada passo que o Governo (este, ou outro que venha) dá nunca trouxe nada a ninguém. As velhas graçolas do primeiro ministro mentiroso, ou ó Sr. Primeiro Ministro corte já os pulsos, não podiam ser mais estafadas nem mais maçadoras.


 E os fanáticos da utopia de Abril vivem tanto no passado como quem conta com as glórias dos avoengos e com pergaminhos inúteis para viver - é mofo também, mofo mais recente, mofo menos glamouroso decerto, mas mofo.
 Pessoalmente, não tenho tempo para me ralar com o divertimento que "Abril" deve ter sido (para alguns). Nem com o caos em que o país se encontra (a História prova que Portugal sempre foi desarranjado, mas sempre continuou on and on como o coração da Celine Dion, Credo). 

Porque sou uma pessoa ocupada, graças a Deus (e conto as minhas bênçãos, em vez de reclamar). Porque tenho de trabalhar e o lustre dos antepassados sustenta tanto alguém como as conquistas dos cravos murchos. Porque o Primeiro Ministro saltar de um prédio é uma coisa muito feia de se dizer e em última análise, não serve de nada a ninguém. A sério, não têm coisas mais construtivas para fazer? É que tanta amargura, tanta inveja, tanta informação inútil, tanta desconfiança e tanto dramalhão cansam as almas. 
 Dá-me vontade de os mandar trabalhar, dentro do possível. Quanto mais não seja a cavar umas batatas no quintal - é tão acessível a toda a gente como partilhar imagens de cravos e caricaturas de políticos e ao menos, as batatas fritam-se. Ou faz-se puré de batata. Porque a lógica da batata é rigorosamente a mesma.

As palavras detestáveis.

                                    
Eu não sou muito de citações - que não sejam de monstros sagrados ou perto disso, pelo menos - mas tropecei nesta da cantora Taylor Swift que pelos vistos, não se limita a vestir bem, mas também gosta de filosofar alguma coisa. E lugar comum ou não lugar comum, o que ela diz é verdade.

 Há vários tipos de palavras detestáveis. Felizmente, tenho sido poupada a algumas: as palavras hipócritas de consolação, melífluas e melodramáticas, nunca chegaram até mim pois felizmente, costumo pôr-me a salvo das situações que as provocam. Mas quando vejo alguém a engoli-las esperançadamente, avidamente, apetece-me abanar quem as recebe e empurrar quem tem o descaramento de as dizer. Já chega o drama em si, poupem-se os folhetins e os discursos de telenovela.

 Depois há as palavras que são como as flechas atiradas: nada as pode apagar. Não importa se foram proferidas no auge da irritação, de cabeça perdida, sob a influência da dor ou do copo ou da loucura. Podemos adoçá-las, desmenti-las, provar por actos que não significaram nada. Mas não existe uma pílula do esquecimento, não há uma borracha poderosa que chegue para fazer desaparecer a terrível possibilidade que encerram, o inferno que revelam , a escuridão que deixam entrever. 

É muito difícil juntar os cacos que provocam - muitas vezes, estilhaços de uma torre que deu um trabalhão a erguer. Tal como está escrito acima, as palavras-granada conseguem ser ainda  piores que as palavras não ditas, essas coisas preciosas que podiam salvar muitas situações mas que ficam presas na garganta por medo, por vaidade ou por orgulho e que nos fazem deixar passar oportunidades, perder pessoas, ou no mínimo, ficar a pensar no que poderia ter sido diferente se as tivéssemos deixado escapar no momento certo.

 O que me leva às piores palavras de todas: "e se?" e "se ao menos..". São inevitáveis. Torturadores de consciências. Portadores do remorso, da esperança distorcida, de infinito cansaço, da culpa injusta. Normalmente não se pronunciam em voz alta, mas bailam na cabeça de cada um. E não servem de nada, não são produtivas, só servem para despedaçar corações e para voltar ao mesmo momento uma e outra vez. 

 Por muito impetuoso que se seja, por vezes é melhor mesmo contar até dez e ponderar o que se vai dizer - para falar sabiamente ou parar a tempo. Nos filmes dizem-se muito coisas do tipo "choose your next words carefully, for they can be your last". Na vida real as consequências podem não ser tão catastróficas, mas andam lá perto. Há palavras que são como uma maldição. Pessoas que sabem viver puxam delas como um samurai saca da espada e não a torto e a direito, como um bêbedo armado. Os pensamentos são coisas - mas é o verbo que dá a ordem, que desencadeia o caos ou o paraíso,  para o bem e para o mal. 






Goya te perdoe, Kim Kardashian

A odisseia de Kim Kardashian e Kanye West pelo mar de rosas da indústria de moda-gone-crazy continua, com os designers em modo insano a associar-se ao casal - tudo dito quanto à minha opinião sobre o assunto aqui
 E desta feita, o noivo mais barulhento de todos os tempos decidiu ostentar mais um bocadinho, puxar um bocadinho mais os limites à sua atitude "eu posso" e personalizar uma pobre Birkin Bag que não pediu para vir ao mundo (não consegui apurar se a Hermès se envolveu na operação desfigurar a carteira ou se se limitou a vendê-la sem saber o cruel destino que a esperava) com um bocadinho de...arte (?). 
 Eu que adoro pintura, que tive boas notas a História de Arte mas não sou nem quero ser crítica da matéria, formei cá um parecer sobre a carteira mas não quis dizer nada até perguntar a duas ou três pessoas que percebem mais do assunto do que eu e como concordámos todos, aqui vai: Moda e Arte andam juntas muitas vezes, ainda ontem se falou nisso aqui, mas este não me parece um desses casos. 
 É que isto se assemelha muito, mas muito, a um Goya contrafeito, de trazer por casa. Não vou elaborar se seria sacrilégio passear uma obra de Goya estampada numa Birkin (acho que não, mas teria de pensar) ou se seria sacrilégio Kim Kardashian trazer uma obra de Goya estampada numa Birkin, que isso é um cenário um bocadinho exagerado para a minha imaginação. E se a moda pega, nem falemos nas imitações que já me arrepio.
 Mas uma coisa é certa, se é para fazer algo, bom ou mau, mais vale optar pelo original.
E se Don Francisco de Goya por cá andasse actualmente, não lhe faltariam Desastres para pintar, mas não o estou a ver assim todo trend setter, por muito interessante que isso fosse. Just thinking.


Thursday, January 2, 2014

Vivienne Westwood e o Ballet de Viena



Entre peças de arquivo e desenhos exclusivos para a ocasião, Vivienne Westwood compôs o figurino para o Vienna State Ballet, exibido durante uma valsa (que mais?) do Concerto de Ano Novo da Orquestra Filarmónica de Viena. A criadora não é estranha aos meandros da dança clássica - no ano passado foi responsável por vestir o National English Ballet - e penso que não podia haver casamento mais feliz. O traço da Rainha do Punk, evocativo dos contos de fadas e de épocas mais glamourosas, pede salões e valsas, polkas e romances trágicos, cenários magníficos, heroínas romanescas, corações despedaçados sob o espartilho e duelos ao luar. 
Um bocadinho de magia de outros tempos na nossa aburguesada e cinzentona época -  que no entanto, tem primado pelo bom senso de ir buscar ao passado o que ele tem de melhor. Valha - nos isso.


                    .


Querem ver que é desta...

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                                                           Dolce & Gabbana Leopard print Wellington boots



..que eu saio com estas meninas à rua? Eu cá não morro de amores por galochas, but a girls gotta do what a girls gotta do. O tigresse está na berra, assim como assim. E aqui entre nós, o Céu que me desculpe mas já não aguento a chuva. Vai de saltar pocinhas, já que não há outro remédio.

Too much love will kill you, avisam os Deuses.

"Soul in Bondage", por Elihu Vedder (1892)

Os antigos gregos adoravam o amor, mas também o temiam como uma força assustadora e potencialmente fatal. A própria Afrodite/Vénus, Deusa Dourada (Khrysea) do Amor e da Beleza, possuía inúmeros títulos: a Divina (Urania) a Profana, ou do Povo (Pandemos) a que Prolonga a Juventude (Ambologera) a Estelar (Asteria) a Rainha (Basilis) a Brilhante (Afrodite Dia) a que dá Abundância (Doritis) a das Alturas (Akraia) a Mais Bela (Kallisti) a das Belas Formas (Morpho).


Na sua faceta bondosa, a Mãe do Desejo ( Pothon Mater)  era Misericordiosa (Eleemon) presidia à união dos apaixonados (Nymphia ou Gamelii) concedia Fertilidade (Kypris) e compreendia os amantes que sentem a feia necessidade de vigiar o ser amado (Kataskopia, a espia) sendo a melhor aliada (Symmakhia) de todos os que amam. 

Como amante de Ares, o Deus da Guerra, tornava-se ela própria uma divindade sangrenta da Batalha (Afrodite Areia) ou a Dotada de Armas (Enoplios ou Hoplismena) que concedia a vitória sobre o Inimigo (Nikephoros). 

Mas nem sempre a Deusa de cabelo acobreado (Komatheo) e amiga de rir (Philommeides) se limitava a abençoar a vitória, a intimidade e a trazer as coisas bonitas e leves da vida (roupas, festas, adornos e perfumes). Os seus filhos, Eros, a personificação do Amor - cujas flechas faziam sangrar os incautos - Pothos (a Paixão) e Himeros, o Desejo, eram mais temidos do que ela, por serem cruéis e caprichosos.

 Ela própria tinha um lado obscuro - Afrodite Melaenis ou Skotia - e era conhecida como a Enganadora ( Apatouros) Quando ofendida, ou perante o mau uso das suas dádivas, era a Matadora de Homens (Aandrophonos). A que precipitava os amantes no túmulo (Tymborykhos) e guardava os seus lugares de repouso (Epitymbidia).
  Os Deuses nem sempre abençoavam os maiores amores - por ciúme, ou para manter o  equilíbrio das coisas, puniam muitas vezes os casais que se amavam com demasiado ímpeto, castigando cruelmente o excesso com a separação, a má sina e destinos piores. 

Mais tarde, Santo Agostinho prevenia os casais contra o amor demasiado violento e intenso, mesmo no seio do Matrimónio - para que não se afastassem demasiado do Amor que se deve a Deus.

 Mudam-se os tempos e as Fés, mas o exagero é sempre condenado, porque afinal, são essas emoções avassaladoras que aproximam os humanos do Céu. E - para quem acredita, ou tem grande imaginação -  haverá coisas que os Deuses reservam só para si. Talvez porque aquilo que é Divino não pode permanecer muito tempo na Terra. Vive nos livros, na Arte e nos escritos sagrados, mas não entre os Homens.


 


Wednesday, January 1, 2014

O 1º dia de um novo ano...

                  

...é sempre modorrento - excepção feita aos sortudos (ou maluquinhos de serviço) que tenham planeado algo extraordinariamente divertido num lugar excepcional, e ainda sintam pedalada para festejar depois de tanta correria. Para alguns é de ressaca, para outros de preguiça, as ruas ficam desertas porque graças aos céus as lojas ainda são mantidas por seres humanos que precisam de descanso, quando eu era pequena era o dia de visitar familiares na vila dos vetustos antepassados e levar os brinquedos novos para brincar com os primos. Noutras ocasiões, ia-se à neve visitar amigos lá para a Beira Alta, sendo quase certo que não havia neve para ninguém porque era um Deus nos acuda com tanta gente a 
acotovelar-se para escorregar monte abaixo em trenós improvisados e lá em casa nunca gostámos muito de confusões. Não sei se é uma página em branco num livro de 365 dias. Não gosto da responsabilidade. Será mais um vaso vazio para se colocar coisas lá dentro, e eu não gosto muito de surpresas mas desta feita também não estou para planear. Às tantas o ano começou zen e eu não dei por nada - deixá-lo, ou como dia a avó, amanhã Deus dará.

Tuesday, December 31, 2013

E, antes de abrir o champagne...

                     
...que a Fortuna vos acompanhe e os Deuses sorriam às pessoas fofas e respeitáveis que por aqui passam. Que sejam brindados com um 2014 afortunado, feliz e, como dizia o outro, chic a valer.

Baudelaire dixit: a única vantagem do mau gosto

                      

Ou, numa tradução mais livre, "o aspecto sedutor do mau gosto é o prazer que sentimos 
ao desprezá-lo"  - em escarnecer dele impiedosamente dele, acrescentaria eu. Já que somos obrigados a partilhar o planeta com coisas/pessoas/hábitos menos agradáveis à vista, menos polidos ou francamente aborrecidos, ao menos que não sejamos condescendentes com isso, mas que coloquemos a boçalidade, a grosseria e o trash no devido lugar: o da discreta troça. 

(E com isto aqui fica o último dixit do Ano, não vão dizer que o IS fica fofinho e politicamente correcto por contágio, era só o que me faltava.)

Lembrei-me da frase que define este ano. Finalmente.

                                              

E agora chega, que eu embirro com lamechices e efemérides. Tenho algo  fantástico à minha espera para estrear esta noite (no que concerne a modas e elegâncias, 2013 foi realmente generoso) para atrair a Boa Sorte  e o resto não interessa. Esta é só mais uma noite que antecede um ano novo em folha, a estrear. Recomendo as mezinhas do costume para mandar embora os resquícios das coisas menos boas, porque ritual é ritual e as tradições não se discutem, cumprem-se. After all, tomorrow is another day.

Monday, December 30, 2013

"O amor que se tem por um monstro é mais meritório..."

                                   
...dizia Maria Eduarda a Carlos da Maia.

Ontem, apetecendo-me o prazer cada vez mais raro de me estender perto da lareira com um livro na mão, tirei um volume velhote da estante (de uma colecção que por cá anda em casa, "Os Malditos", nem mais, que narra as biografias de pessoas simpáticas ou simplesmente controversas como Gilles de Rais, César Bórgia, Judas, Torquemada e o próprio Diabo). E passei um bocado a rever as aventuras e desventuras do Marquês de Sade, a.k.a o Divino Marquês
 Ora, da sua obra eu conheço pouco (ler, ler, só li Justine, ou os infortúnios da Virtude e é de facto uma boa obra...de terror) mas sempre tive alguma curiosidade pelo homem. 

Não há muito a dizer do seu percurso: uma sucessão de estroinices, de exageros e de deboches que hoje levantariam sobrancelhas mas naquele tempo (e com a ajuda de uma sogra que o odiava mortalmente) quase lhe custaram a vida e o levaram à prisão, ao exílio, à bancarrota e a internamentos sucessivos em manicómios. Um homem com uma imaginação febril, descompensado e com destreza de pluma (combinação fascinante) um rebelde com eternos problemas com a mãe (que pouco mais foi que uma estranha para ele) um enfant terrible que nunca cresceu realmente.

 A sua prosa era cativante, o seu nascimento - descendia da célebre Laura de Petrarca - fazia crer que tinha o mundo aos seus pés e era dotado de certo encanto. Mas algo nele não funcionava - no corpo, e por consequência na mente e na forma que escolhia  para expressar os seus impulsos.  E tudo isso tornava impossível viver com ele. 
File:Marquise de Sade.jpg                               


Até aí, nada de novo. A parte da história que eu não conhecia, e  que me prendeu a  atenção, foi a devoção da sua mulher, Renèe. 
 De nobreza recente, com pergaminhos comprados mas uma posição apreciável, a futura marquesa casou com Donatien de Sade por conveniência. Era jovem, era demasiado gentil e ingénua -  mas apaixonou-se completa, absoluta, sinceramente. Mesmo depois de incontáveis desgostos, de ser enganada, de ver o seu nome e o da família arrastado pela lama, de ser ameaçada com a mais completa ruína seguiu-o de cárcere em cárcere, de exílio em exílio. Foi contra a própria família para o defender. Arriscou-se várias vezes a viajar sozinha na tentativa de ver o marido algumas horas. A parentela condenava-lhe a cegueira, França lastimava-a, mas ela - com pouca recompensa - foi sempre leal, sempre apaixonada.
 Mesmo depois da inevitável separação, de mútuas e amargas acusações, continuou a apoiá-lo - e ao que parece, a amá-lo. 
 A voz de Renèe não chegou até nós e não podemos ler os seus sentimentos com precisão. Talvez acreditasse, como muitas mulheres do seu tempo, que o casamento era para sempre, mesmo quebrados todos os votos. Ou que o amor é incondicional, mesmo se não é devolvido na medida que se espera. 
 Ou talvez pensasse - e isto parece-me a hipótese mais provável - que o homem a quem se dedicara não era mau, apenas gravemente doente. Que havia um bom rapaz debaixo de todo aquele desvario. Provavelmente, como tantas pessoas perturbadas, Sade possuía uma intensidade que falta às mentes sãs, intensidade que aliada à paixão transforma um romance ou casamento banal num sentimento fatal e pungente, que não sara e contagia ou arrasta quem ama um louco para a mesma loucura. Mas disso não reza a história, e Sade não explicou. Porque era demasiado insano para compreender.

Momento mantra do dia

              
Há dias, a fazer zapping, vi um filme-de-comer-pipocas em que a queen bitch lá do sítio, quando estava fora de si, recitava as suas "palavras calmantes": Prada, Chanel, Gucci, Armani, e por aí fora.
 Como sou uma pessoa espiritual mas abomino tretas New Age e psicologia barata como a peste e não estou para desperdiçar jaculatórias ou exercícios realmente sérios num simples episódio de stress quotidiano, acho que vou experimentar o truque. É que se não me salvar agora, não sei o que me pode acudir. Não é que eu seja uma material girl nem nada disso - sou mais de vão-se os anéis, fiquem os dedos e de um desprendimento proporcional à alegria que as coisas bonitas me provocam-  mas  preciso MESMO de transportar a minha mente para um lugar feliz e pensar em coisas que não me aborrecem para manter os neurónios a funcionar. E Pradas e Guccis and the like são perfeitamente inofensivos, não se viram contra nós, não maçam ninguém, a não ser provavelmente quem espatifa o cartão de crédito além das suas possibilidades. Vamos lá a ver se encontro o meu Centro e organizo os chakras e tudo isso. Sem chegar ao Nirvana, que é uma ideia abominavelmente hippy para o meu gosto e eu preciso de me CON-CEN-TRAR.

Sunday, December 29, 2013

Momento "Vai-te embora, Ano Velho..."

             

E ele nada. Uma pessoa já queria estar em modo off, a convidar o malandro a sair (deixando cá as coisas boas que trouxe, mas com um saquinho do lixo para pôr fora aquilo que se dispensa) e ele insiste em demorar-se como uma visita chata que conversa vem, conversa vai, nunca mais nos larga a porta a insistir no mesmo. Queriam-se as tarefas fechadas, os assuntos arrumados, e não pensar em mais nada senão nos preparativos para lhe dizer adeuzinho em grande estilo. Mas 2013 parece que não quer desamparar a loja e ainda vou ter de chamar seguranças para o pôr na rua. Serão os anos como certos hóspedes? Vou ter de usar toda a minha diplomacia, e eu que a tenho guardada para situações de S.O.S porque não se pode ter tudo e não fui abençoada com quantidades massivas de tal coisa. Obrigadinha por tudo, mas já podia ir andando na Paz do Senhor, já. 

Ode aos capuzes

                                              
Não sei se tem a ver com a minha paixão pelas roupas de outros tempos (não me importo nada de incorporar peças ou inspirações de várias épocas, nomeadamente a medieval, sec. XVIII e XIX no meu guarda roupa) se com a minha embirração com guarda chuvas (deixo-os em toda a parte e cansam-me o braço; só os uso em último caso) que é proporcional ao meu horror a molhar o cabelo, com a minha mania de passar despercebida sempre que me apetece ou com tudo isso junto, mas adoro capuzes e, mais do que isso, casacos encapuçados. Um verdadeiro Fado da Embuçada, é o que é.

 Não há nada mais prático do que um sobretudo (parka, de lã, de algodão, de pele, de cachemira, de fazenda, bordado,seja que casaco for) que simultaneamente é quente (ou no caso dos casacos de Primavera, protege contra o vento) e ao mesmo tempo  resguarda da chuva ou humidade repentina E AINDA nos permite esconder-nos em caso de necessidade. Pessoa chata à vista? Atira-se o carapuço por cima da cabeça, olha-se para o lado e problema resolvido, já não se tem de cumprimentar a peste. Como se não bastasse ainda acrescenta aquele charme extra, de donzela em apuros num jardim francês. Perfeito. 

 Sobretudos com carapuço são daquelas peças que passo a vida a procurar. Nunca tenho demasiados porque são difíceis de encontrar, por estranho que pareça. Das vulgares canadianas às gabardinas, passando por capas de ópera ou overcoats com uma gola gigante que se transforma em capuz, guardo-os como tesouros porque as marcas raramente os fazem. Já me disseram que muita gente - gente que obviamente não sabe viver -  os manda retirar "porque incomodam", daí a fraca oferta. Daí advém a chatice pior: os capuzes amovíveis que depois passam a vida a cair e a perder-se.

 "Incomodam"? Seriously? Deve haver muitas almas que gostam de molhar o cabelo ou não ter como evitar situações constrangedoras, almas que ainda não viram a luz. Só isso explica que não se tenham convertido à seita do carapuço.

 Como eu sou crente, podem estar certos que, fosse eu famosa - e já disse por aqui várias vezes que uma das poucas razões boas para se ser famosa é ter a oportunidade de criar uma super colecção cápsula para uma marca qualquer - as minhas criações haviam de incluir capas de ópera para sair, sobretudos, gabardinas e canadianas com fartura, tudo encapuçado para diferentes ocasiões. Mais do que uma colecção, seria um movimento (e mais útil do que o da Miley Cyrus, que ninguém percebe para que serve): hood yourselves!


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