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Wednesday, January 29, 2014

Antes perdão que permissão.



                       "Men learn how to apply the rubric 

      `It's easier to get forgiveness than to get permission´.‏"


Havia uma mulher que tinha sido criada para ser uma high -achiever. Desde pequena 
tinham-lhe encorajado os talentos, os dons do espírito. Não só a tinha mimado, proporcionando-lhe esmerada educação - recorrendo à sabia combinação de férrea disciplina, responsável auto-gestão, calorosa modéstia e  temperado elogio- como lhe tinham dito sempre que era bonita, e brilhante, e não devia esconder a sua luz interior nem calar as suas opiniões. De um lado a tradição, os hábitos de uma perfeita senhora à moda do antigamente, do outro a crença "esta rapariga consegue fazer tudo!", a independência. 

 E a rapariga-de-quem-se-esperava-muito,de quem os professores diziam, de olhos em alvo,  "you´re going places!" um livro na mão e outro em cima da cabeça, uma revista de moda no pé e o ballet e o piano e o francês, começou a alcançar coisas por si própria- seria a high achiever perfeita não fosse a mania de se prender só ao que lhe apetecia, de dizer o que lhe passava pela cabeça, de fazer, imbuída de um certo conhecimento do mundo e de um desprezo pelas convenções, só o que lhe parecia bem.

  Quando já tinha conseguido sozinha um número considerável de coisas, acumulado os diplomas, os troféus e um armário bastante impressionante, apaixonou-se. Não pelo aventureiro que normalmente entra nestas histórias para estragar tudo, mas pelo homem poderoso e perfeito, que tinha a vida perfeita e precisava da consorte perfeita. E cansada de alcançar coisas, de conseguir coisas para si mesma, a rapariga pensou que era bom 
deixar-se guiar para variar, ter onde reclinar a cabeça, entregar-se à protecção de outrem, ser o apoio, a Deusa de bastidores. Ele era como uma propriedade encantada, imensa, em que basta rodar a chave e encontrar a mesa posta, a rotina organizada, e tomar o lugar para que os acontecimentos se desenrolem. Possuía todas as certezas e a intensidade que a fazia prender-se. E essas certezas, juradas com absoluta confiança, não podiam encontrar resistência.

 Com o hábito velho que trazia no código genético transmitido pelas suas avós,ela  tinha tanta facilidade em atrair as atenções sobre si mesma como em aparentar o brilho discreto de uma pérola, que encanta sem ofuscar. Estava feliz por deixar-lhe o protagonismo a ele, por ser a mulher que acompanha fulano de tal, a senhora não sei quantos, a mulher de.

Via, com um sarcasmo habilmente disfarçado, as mesuras, a bajulação, as vénias, os intermináveis fretes de que o cercavam - e ela, que lhe conhecia as fraquezas, os momentos negros, os medos, pensava como é ridículo e óbvio o ser humano, que à vista do ouro ou do poder cai de joelhos, sem pudor. Mas via também - com desagrado - como ele que era brilhante, e forte, e possuía todas as certezas na vida - se sujeitava, sem queixas, ao beija mão, e tolerava por horas intermináveis, deliciado com uma importância que nada devia ter de novo, as pessoas que ridicularizava pelas costas e que podia muito bem despedir ao cabo de breves minutos.

Percebeu ainda, muito cedo, que como sempre ouvira dizer dos homens que são poderosos ou desejam sê-lo, ele achava mais fácil obter o seu perdão do que a sua permissão- e que as juras e certezas absolutas apagavam todas as ofensas, todas as mágoas, todas as afrontas.

    Esta mulher tinha uma amiga que era como uma irmã. Partilhavam tudo. Tinham o mesmo perfil e percurso, a mesma educação, a mesma beleza polida e delicada. Mas a amiga tinha ido por um caminho ligeiramente diferente:apaixonara-se por um homem- que -queria- ser poderoso. Supostamente um rebelde com causas, o self made man que não olhava a meios para atingir os fins- também ele era belo, e forte, e possuía todas as certezas (em relação a ela, pelo menos). Acima de tudo, ele era igualmente crente na máxima de ser melhor pedir perdão do que permissão.

E também ela fazia o papel de Deusa de bastidores: não para o ajudar a manter, mas muito convenientemente, para o ajudar a subir. Muitas vezes os dois casais cruzavam-se nas mesmas festas - mas o consorte da segunda amiga estava entre aqueles que bajulavam, que aplaudiam ruidosamente mas sem vontade, que aclamavam o homem da primeira e os outros homens como ele. E ela pensava como era possível o homem que ela admirava, que a fazia perder a força nas pernas com um olhar apenas, tornar-se tão pequeno.

A diferença entre os dois conhecidos era só uma: no primeiro tudo era natural, garantido, e no segundo tudo era calculado, medido, planeado com um objectivo.

 A primeira mulher estava num lugar que supostamente compensava tudo, até uma prisão dourada; a segunda tinha de lidar com o despeito e a desconfiança do cavalheiro a quem entregara a sua sorte, com o seu orgulho constantemente ferido, com as suas acusações de snobismo e de superioridade que lhe davam muito jeito para os seus propósitos, mas o magoavam nos momentos em que o seu papel de chefe supremo do lar devia levar a melhor. Ela corava, empalidecia, e não dizia nada com medo de uma cena. E do outro lado da sala, a amiga fazia o mesmo e lançava-lhe um olhar de compreensão.

 Em comum, os dois acreditavam que controlavam tudo. E que no que respeitava às suas belas e brilhantes mulheres, que controlavam literalmente tudo, que era mais fácil obter desculpas sinceras depois do mal feito. Com permissão alcança-se muito pouco neste mundo- muito pouco daquilo que vale a pena, pelo menos.





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