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Tuesday, January 28, 2014

Mesmo de fato, um macaco é sempre um macaco.


Quando eu era pequena havia em casa uma linda edição antiga das obras de D. Ana de Castro Osório - do tempo em que os bons livros para crianças ainda eram a norma e não a excepção. Eu e o meu irmão deliciávamo-nos com os contos tão bem narrados, mas o nosso favorito era a sua versão de O Macaco do Rabo Cortado (podem ler a pérola na íntegra aqui):

"Era uma vez um macaco, um bugio figurão como jamais houve igual.

Não se sabe por que boas ou más artes, aprendeu a falar e a fingir de homem. 

certo é que veio viver para terra de gente, e logo deu em macaquear o que é mais fácil e arranchou entre os janotas. Julgava-se uma beleza.

 Todos os dias ia ao barbeiro fazer a barba. Vestia-se a rigor; calçava luvas de pelica; punha chapéu alto, e andava por todas as lojas elegantes, a parolar com os donos e os frequentadores. 

Os garotos, quando o viam passar nas ruas, todo importante, faziam-lhe grande troça, atiravam-lhe pedras e diziam:

— Se não fosse o rabo, era bem lindo este macaco! Assim, que feio é! —Tantas vezes o macaco figurão ouviu aquelas palavras que se convenceu de que era na verdade uma formosura, e se tornaria sem par se conseguisse ver-se livre do seu comprido rabo. Já se vê que não tinha grande juízo, mas... nem só os macacos se deixam levar por mentidos elogios e julgam louvor o que é troça"


A verdade é que conheço muitos humanos que fazem as mesmas figuras: acham-se uns grandes cavalheiros (ou umas grandes damas, de resto...) só porque vestem um fato, ou tiram um curso, macaqueiram lugares comuns para atrair aplauso ou fazem pela vida e eventualmente, na tentativa de brilhar em sociedade, se põem, com grande brado, a defender causas sociais. Na maior parte das vezes o fato nem é grande coisa, nem de grande gosto ou grande tecido, mas basta uma gravata para lhes dar a ilusão de uma superioridade que lhes falta. Noutros casos a fatiota até pode ser italiana, mas lá reza o vetusto ditado " um vestido veneziano não faz uma mulher veneziana". 

Só que no fundo a macacada está lá, bem patente: vestem o fato, mas gostam mesmo é de umas boas calcinhas de fato de treino; escolhem uma mulher que se imponha nos salões, mas o que lhes aconchega a alma é uma camponesa brejeira, roliça e grosseirona, estilo Casa dos Segredos, que desperte a cobiça dos seguranças de discoteca; afirmam aos quatro ventos gostar de caviar, mas nada os faz tão felizes como tremoços e chouriço assado (nada contra, sou totalmente a favor do belo tremoço, o que me faz espécie é o postiço); defendem os pobres e oprimidos, são muito socialistas e queridinhos, mas só porque invejam quem tem mais do que eles; mostram-se muito cultos ,muito politicamente correctos mas à primeira irritação lá lhes estala o verniz e salta palavrão e baixaria de fazer corar um carroceiro.

 E como macacos que são, têm pouquíssimo miolo: mudam de ideias, de ideologia, de planos, quebram juras, conforme os elogios que recebem ou o que lhes dá mais jeito. Têm um ego tão exacerbado, mas tão frágil (os egos são sempre de vidro) que qualquer bajulação, mesmo que venha de um caixote do lixo ou de um bêbedo deitado no meio da rua, os deixa no céu.

  Claro que ainda há aqueles que são piores: os que não tendo obrigação para macacadas se comportam como tal, deitando a perder os seus dotes naturais por conviver com primatas não sapiens- é que é muito fácil tornar-se desmiolado, dependente do elogio, um verdadeiro estarola. E quando é assim, não há camisa de seda nem agasalho de caxemira tecida na Escócia que disfarce o mal feito, nem a cauda retorcida. Ou mesmo que se corte a cauda...bem.

*Cada vez mais me parece que isto da condição humana não é um dado adquirido, mas algo que é preciso fazer por manter...*






3 comments:

Sandra Paiva said...

Não diria melhor. Parabéns por este texto.

Olinda Melo said...

Condição humana, uma condição inata? Qual quê!
Há que aprender a adquiri-la e procurar mantê-la, como é referido, e bem,
na citação.

IS, os seus textos são uma delícia. Descontroem a nossa prosápia e trazem à tona
as nossas fraquezas.

Bj

Olinda

Imperatriz Sissi said...

@Sandra, muito obrigada!
@Olinda, é sempre um prazer vê-la por aqui. Faço o que posso...muito me honra o seu elogio. Beijnho.

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