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Thursday, January 23, 2014

Morreram-me uns quantos neurónios. Juro. Pobres pequenos.



Por aqui e pelos jornais tem-se falado bastante na infantilização (estupidificação?) das crianças. Fenómeno irritante, desnecessário e paradoxal numa altura em que se espera que os pequenos sejam ases da informática e falem não sei quantas línguas antes de largar a chucha. Endeusam-se os homens de amanhã, fazem-se deles pequenos ditadores e por outro lado, tratam-nos como se fossem apoucadinhos de todo. Entendo isto? Não entendo e se tivesse menores a cargo, havia de ser bonito, só vos digo.

 Pois bem, uma pessoa próxima ligada à bela arte da Educação teve a brilhante ideia de me descrever uma pérola de "livro", obra prima recomendada para os infelizes do Primeiro Ano pelo Plano Nacional de Leitura. E não quero citar nomes mas o conto, pretensioso e bacoco, envolve - que imaginação, que rasgo, que génio - uma menina que vai...comer a sopa. Brilhante, o que as crianças precisam para estimular a criatividade é de mais um livro a dizer que a sopa é muito boa ou mais uma história chata. Mas não, ainda fica pior. 

A sopa está quente como tudo e a menina grita - GRITA, senhores - mãaaaaaaaaaaaaaaaae, a sopa está quente.

Ok, começo por onde? Não se grita à mesa, especialmente quando a mãe está ao lado,às voltas com o fogão. Se calhar ficava mais civilizado jantar-se na casa de jantar, passe o pleonasmo, mas quando se está com pressa vale tudo. Mais do que tudo, com a mãe não se grita, ou isso está fora de moda?
 Mas a resposta da senhora, prova provada de que o fruto nunca cai longe da árvore, é magistral:

"Sopra-lhe!!!!"

Por esta altura comecei a ver tudo a andar à roda, e a faltarem-me palavras para explicar tudo o que está errado com um livro desses. Fazer o quê à sopa? "Assoprar-lhe???". Sim, já agora podiam escrever também "assopra-lhe". Já agora. Flashback para a minha pessoa com três anos e os pais e as freirinhas lá no infantário a dizerem NÃO-SE-SOPRA-A-SOPA-NUNCA.

Depois - ó prodígio da musa - eis que aparece um hipopótamo no cenário pseudo urbano de apartamento com kitchnette, momento de total non sense, e tenta soprar a sopa mas ela não arrefece. Segue-se um desfile de bicharada vinda não se sabe de onde, a soprar, a soprar, e ninguém é capaz porque - aqui já começo a supor com os últimos neurónios que me restam- a sopa será de nabos e como dizem os transmontanos, caldo de nabos vai pelo rio abaixo três dias e ainda vai escaldar o diabo.

 Entretanto não aguentei mais, e tive de vir relatar isto para tirar tanto horror do meu sistema.São crianças assim que vão crescer a achar-se muito inteligentes, a tirar um curso superior da treta porque o Estado assim entende, e a citar Paulo Coelho, Oysho e pornochanchadas destas no Facebook. Admiram-se? Eu cá não.


3 comments:

Sérgio S said...

Este tipo de "polémicas" é muito comum, tal como as opiniões dos artigos que aparece aqui referenciado de um jornal muito conhecido da nossa praça. E basicamente vão todos no mesmo sentido, que se resume a uma declaração de superioridade dos autores em que segundo eles educar é fácil, os outros é que são básico e não percebem nada daquilo ao contrário dos próprios que são especialistas em educar os filhos (dos outros). E antigamente é que era bom e o mundo está perdido. Penso que desde a Grécia antiga que cada geração pensa que a deles é que era boa e a seguinte está perdida. Julgo eu que se assim fosse, provavelmente já teríamos regredido novamente até ao macaco...
Eu, obviamente por experiencia própria não vejo a coisa dessa forma. Acontece que hoje em dia existe muitíssimo mais oferta de tudo que no passado. Há coisa de 20 anos faziam-se uns 2 ou 3 desenhos animados feitos por ano. Hoje fazem-se 200 ou 300. Livros a mesma coisa. Claro que no meio da molhada encontras de tudo. No meio disto não sou pessimista, afinal se souberes escolher também vais ver que existe muito melhor "material" em muito maior quantidade do que aquele que existia antigamente e muito mais acessível. Claro que se o foco for dizer mal também é mais fácil encontrar maus livros ou maus filmes.

Imperatriz Sissi said...

É claro que continua a haver boas obras para crianças. Há um livrinho giríssimo, o "Cuquedo", por exemplo. Mas este...é mau em todos os sentidos. Mau todos os dias! Se um filho meu chegasse a casa a soprar a sopa por causa de um livro, tínhamos chatice pela certa.

Ulisses L said...

Há cerca de vinte anos atrás tive um encontro imediato com a industria da música e fiquei assombrado!
Basicamente, comecei a ter contacto com uma pequena editora independente, que gravava e editava tudo, por um preço, claro!
Vi filhas de papás que não cantavam a ponta-de-um-corno a gravarem CD's como prenda de aniversário e a cantarem desafinadamente grandes sucessos de four non blondes, por exemplo, vi pessoal com 50 anos a realizar o sonho de uma vida e a gravarem um CD...
...claro que, nesta equação nunca entrava a qualidade! Para o dono da editora, a quem não interessava sequer se o CD vendia ou não, porque levava 300 contos para gravar um CD com 10 músicas, o lucro estava garantido à partida, portanto, se o CD vendesse, isso seria apenas uma espécie de bonus!
A qualidade era irrelevante!
este tipo de pensamento, a longo prazo, levou ao estado actual da música Portuguesa. Não há critérios editoriais. Quem paga edita, quem não tem dinheiro pode ser o gajo mais talentoso do mundo, compôr obras primas daquelas capazes de nos tocar e elevar a alma...
...mas nunca será ouvido!
O mesmo se passa com os livros, hoje em dia!
E, se antigamente era prestigiante ser um autor...
...hoje em dia vale o que vale!
Por isso é que, a não ser nas ocasiões em que isso é absolutamente relavante (quando dou um concerto ou vou a algum evento literário), nem menciono o facto de ser músico e escritor. Na cara de muitas pessoas começa-se cada vez mais a ver um óbvio "Olha, mais um...!"
A avaliar pelo que escreveste, este levro deve ser de "Olha, mais um...!"

:)

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