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Saturday, January 11, 2014

Porque é que as mulheres aturam tanto? Eureka, acho que descobri.


Não é que um homem, do alto da sua boa vontade, de coração aberto, não possa 
apaixonar-se por alguém que lhe faça a vida num Inferno. Ou que coisas mais graves como a violência doméstica não tenham mulheres como agressoras e homens como vítimas. Mas perdi a conta às mulheres (e isto, só casos que conheço) que se mantêm ao lado de namorados ou maridos problemáticos - ou conservam relações disfuncionais em on/off, arriscando a sua saúde, a sua auto estima, a sua sanidade mental. Diminuindo-se para agradar, vivendo a 50%, transformadas numa sombra de si mesmas.

 Os planos feitos em comum (noivado, casa comprada, casamento, filhos, constrangimentos económicos) são a explicação mais pragmática. Depois, o velho quanto mais me bates, mais gosto de ti pode explicar muita coisa - o bad boy dominador, mesmo que seja o cobarde que geralmente é, pode passar à primeira vista pelo macho alfa protector e assertivo, pelo Knight in Shining Armour ao qual, por memória genética, a maioria almeja - e quando se dá pelo engodo, está-se demasiado envolvida para pensar racionalmente.

Mas há algo que só recentemente descobri, depois de ter visto algumas das mais fortes e independentes mulheres que conheço a passar por casos de violência psicológica e não só.  A ideia de que só raparigas ingénuas, com baixa autoconfiança ou vindas de meios desestruturados caem nesse conto não podia estar mais longe da verdade. Mas entre as mulheres fracas e as fortes a única diferença é a capacidade de escapar a tempo - normalmente quando estão quase, quase a tornar-se noutras pessoas (os sinais são bem claros: pisar ovos; um receio inconsciente de desagradar; morder a língua quando isso não é hábito; depressão, etc).

 E porque é que isto acontece? Primeiro, pela mania (também ela, digo eu, genética) de tentar salvar tudo, arranjar tudo. Um parceiro mentalmente instável que coitadinho, não tem culpa e é tão lindo, tão meigo, tão carinhoso quando está normal não pode ser mais comovente, mais romântico, mais apelativo .Espera-se sempre que da próxima vez, da próxima oportunidade, haja maneira de reparar os estragos. Que as palavras amargas e os gestos dolorosos sejam retirados, reparados. Que se agirem assim ou assado as coisas tomem outro rumo.  Poucas mulheres escapam ao complexo de heroína. Está-nos no sangue, nada a fazer. Ou como diziam as meninas casadoiras no tempo da minha avozinha, se estavam interessadas num rapaz com fama de malvado, "pode ser que comigo assim não seja!". Pois.

 Segundo, pela malfadada curiosidade feminina. Perante uma pessoa que se ama, mas que obviamente não está na plena posse das suas faculdades e com isso fere as pessoas de quem gosta (ou simplesmente, é um péssimo namorado ou marido) a mulher entra em modo Freud. Ou Sherlock Holmes. E vai de tentar resolver o puzzle, uma e outra vez. Mas porque será que ele faz isto? Que queria ele dizer? E da próxima vez digo-lhe isto ou aquilo e aqueloutro e ele vai ver, espera por essa, não perdes pela demora. Não, ele é mais maluquinho do que eu julgava. Porque é que não se abre comigo para que eu o possa ajudar? Porque é que não me deixa salvá-lo? E já se sabe, o novelo vai-se embrulhando. O "maluquinho", que à sua maneira lá sabe o que é bom para ele, vai tendo um bombo da festa para descarregar,  e nada de procurar ajuda. Cada vez é pior, cada vez dói mais, esgota e arrasa a relação e quem se encontra nesse infernozinho privado, porque não há resposta por mais que se procure. E quanto mais se tenta encontrar a lógica onde ela não existe, mais a areia movediça arrasta os intervenientes. A não ser, claro, com grandes doses de terapia, medicação e muita reza. Mas isso...


11 comments:

MedusaNegra said...

Este texto diz tudo. Experiência vivida e rompida. Virei costas. Estou de luto. De maluquinhos tem muito pouco, de cobardia e crueldade sim...de sobra.

Imperatriz Sissi said...

Medusa, percebo perfeitamente. Acredite, your words do ring a bell...beijinho.

Ana sousa said...

Tenho apenas 22 anos mas muito do que esta escrito no texto retrata a minha relaçao de ja 3 anos, nao e maluquinho nem me bate mas e um machista, nao posso usar qase nenhuma das minhas roupas, sais, maquilhagem, nao posso falar muito socialmente nem fazer ninguem sorrir, se me arranjo um pouco ja esta a desatinar, ja para nao falar nos ciumes obcessivos ! mas e exatamente como diz amo tanto que as vezes faco de conta que essas coisas nao me incomodam ! na verdade nem 50% sou feliz porque deixei de ser a pessoa que sempre fui para agradar a um rapaz que nem sei se me ama... sou uma jovem realizada profissionalmente e cheia de objectivos de vida mas começo achar que nunca irei ser feliz.

Ana sousa said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Ana, eu não sou especialista na matéria (nem ousaria) mas pelo que tenho visto, a violência psicológica pode deixar marcas bem mais feias do que agressões mais óbvias.É muito fácil falar quando se está de fora e apontar o dedo a quem atura - afinal as mulheres de hoje são educadas para a auto estima, para serem confiantes, independentes etc... e soa estranho quando alguém tolera comportamentos que não estão de acordo com a personalidade de quem, sem saber como, se transforma numa vítima nas mãos de uma pessoa descompensada e dominadora (porque os "maluquinhos" tomam muitas formas). E o mais difícil não é sair dessa, é manter-se fora dessa e inteira por dentro. Cada dia é uma luta para não voltar atrás (seja correndo de volta para a toca do lobo, como a Ana descreve, seja resistindo às investidas do mesmo como vejo muitos Capuchinhos da vida fazer). Creio que o exercício mais complicado será para uma mulher dizer a si mesma "olá, sou a não sei quantos e estou apaixonada por um falhado/sádico/maluquinho". Porque essa é a verdade. O que lhe posso dizer é que ninguém merece isso - não há amor onde não há confiança nem segurança. Se não houver uma mudança de comportamento a fundo (e as pessoas só mudam se quiserem) nem a Ana, nem pessoa alguma, pode ser feliz ao lado de uma pessoa que trata a parceira assim. O problema não é seu, é dele. Boa sorte. Beijinho.

luisa osorio said...

Vá lá saber-se o porquê, a relação torna-se um vício que não conseguimos sair!!

luisa osorio said...

Temos que gostar primeiro de nós, nunca esquecer isso!!

Anabela Barreira said...

Nem a mulher "maravilha", nem o tempo mudam os covardes, psicopatas ou "monstros" a quem chamamos "amor"... Mas o crescimento emocional, após um desamor, intensifica-se de tal forma que nos devolve o sentimento de abertura mental. Renova-se a força, que nunca se pensaria ter e usar. Tal concentração de ilusões, humilhações, desgastes ressuscita a nossa essência. Ninguém duvide das suas capacidades, mesmo depois de tantos “cataclismos”! Resta-nos a conclusão que: o amor não pertence a ninguém, faz parte do nosso ser. Pode e deve ser partilhado, todavia jamais permita que alguém “assalte e se apodere” de um dos seus maiores patrimónios pessoais! Não será o tempo que o ajudará, porém a coragem da sua ação: hoje você vale muito mais!!! Está preparado(a) para “tudo” ou quase “tudo”, nunca duvide!!! Alegre-se e “mãos à obra”, o amor é você e sempre continuará em si!!!

Anabela Barreira said...

Mas o crescimento emocional, após um desamor, intensifica-se de tal forma que nos devolve o sentimento de abertura mental. Renova-se a força, que nunca se pensaria ter e usar. Tal concentração de ilusões, humilhações, desgastes ressuscita a nossa essência. Ninguém duvide das suas capacidades, mesmo depois de tantos “cataclismos”! Resta-nos a conclusão que: o amor não pertence a ninguém, faz parte do nosso ser. Pode e deve ser partilhado, todavia jamais permita que alguém “assalte e se apodere” de um dos seus maiores patrimónios pessoais! Não será o tempo que o ajudará, porém a coragem da sua ação: hoje você vale muito mais!!! Está preparado(a) para “tudo” ou quase “tudo”, nunca duvide!!! Alegre-se e “mãos à obra”, o amor é você e sempre continuará em si!!!

Ana Calheiros said...

Eu não podia deixar de fazer o meu comentário. Este texto retrata fielmente 22 anos do meu casamento. Há 4 anos atrás abri os olhos, mas o caminho para a libertação foi longo, a primeira etapa terminou na sexta feira passada (17-01) às 16h, na Conservatória, mas ainda não está tudo. De qualquer forma, acho que mais vale tarde que nunca e penso que ainda consegui agir antes de ficar maluquinha! Ou não! Eu era daquelas que achava que podia resolver tudo! E arranjava sempre desculpas para ele coitadinho! E tentava ser psicóloga! E não via que estava era a ser muito burra!
Até me dei ao prazer de enviar o texto para o meu ex, com a seguinte nota: "Se tivesse encontrado este artigo antes, não tinha gasto o meu latim contigo todos estes anos! Imprimia uma folha para colocar à tua cabeceira."
Se calhar estou mesmo maluquinha! Mas que fiquei satisfeita, ah isso fiquei.

Ana CVF

Maria Costa said...

Revejo-me em tudo o que li, 26 anos de casamento e 7 de namoro, tive a coragem de aos 45 anos dizer basta, não sei o que me manteve nisto, mas sei bem o que quero daqui para a frente

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