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Sunday, February 23, 2014

A Princesa arrependida: nos contos, como nas relações....


A minha leitura para este fim de semana (consumida em duas assentadas) foi uma curiosa antologia de contos compilada por um dos pais da Antropologia em Portugal, Consiglieri Pedroso.  

 A minha predilecção pelas versões cruas, originais (e rocambolescas)  dos folk tales já foi abordada por aqui: e há sempre variantes do mesmo conto, sendo a maior parte deles fortemente influenciada pela mitologia pagã e pela superstição.

É muito curioso ver como os mesmos contos eram relatados, com ligeiras diferenças, de país para país, e de versão para versão. A maior parte está mesmo organizada pelos folcloristas em tipologias

 São ordinariamente histórias  brutais, nada adequadas a crianças, pois ao maravilhoso popular juntam a reflexão da cruel realidade em que se vivia naquele tempo. Serviam para alertar quanto aos perigos da vida, para exorcizar medos e explicar fenómenos hoje analisados pela Psicologia, mas também para entreter os adultos ao final de um dia de trabalho - muitas vezes, de forma assustadora ou maliciosa.

 Ora, um dos meus géneros preferidos é o conto baseado no mito romano Cupido e Psique: A Bela e o Monstro é a adaptação mais famosa; mas existem inúmeras variantes (incluindo portuguesas) e a mais completa será Hans my Hedgehog, dos irmãos Grimm:


A história repete-se sempre: uma donzela, geralmente uma princesa, é raptada ou atraída a um castelo onde não lhe falta nada e é servida por vozes invisíveis. Durante a noite, um marido misterioso vem fazer-lhe companhia e ela acaba apaixonada por ele, receando ao mesmo tempo que ele seja um monstro horrível.
 Querendo quebrar-lhe o encanto, a princesa faz alguma coisa ( como por exemplo, acender a luz) que deita tudo a perder. O belo Príncipe (pois estava-se mesmo a ver que era um príncipe encantado) grita-lhe que ela estragou tudo, que por causa da sua curiosidade e impaciência lhe dobrou o encanto (ou seja, ele vai ficar mais tempo preso/ na forma de monstro/ouriço/bicho horrível) e que a não ser que ela faça uma série de sacrifícios impossíveis, não lhe voltará a pôr a vista em cima.


A nossa heroína fica desesperada e, como qualquer mulher apaixonada, decide fazer o que for preciso para que tudo volte ao seu lugar. Em muitas versões, o sacrifício consiste em andar em sapatos de ferro até os gastar - só nessa altura encontrará a solução. (Ainda estou para descobrir a relação entre contos de fadas e sapatos, mas isso é assunto para outro dia).
 E qual é a moral destas estórias? Que em cada homem há um lado animalesco que uma mulher pode domar quando ele está mais vulnerável ou seja, na intimidade? (Naquele tempo as mulheres não tinham mesmo outro remédio, mas continua a haver alguma verdade genética/tradicional na matéria). 

 Pessoalmente, sempre achei que a ideia de "calçar sapatos de ferro" e gastá-los com grande sofrimento pela pessoa de quem se gosta é algo que alguém, especialmente uma mulher, só deve fazer se errou da pior maneira, se fez uma asneira monumental tal como a Princesa. Se o Príncipe desapareceu por culpa dela, então é justo que ela, mulher ou não, vá atrás dele, expie o seu pecado e tente remediar o mal feito.

 Em qualquer outro caso, é ridículo calçá-los. Nunca percebi as pessoas que são ofendidas e têm tanto receio de perder tudo que pedem desculpas pelo que o outro fez, e ainda muito obrigada por cima.

Admiro as princesas que quando cometem um erro, são capazes de pôr esses sapatos feios e desconfortáveis  pelo tempo que for preciso, sofrer as passas do Algarve por amor, virar mundos e fundos. O amor verdadeiro não anda por aí aos pontapés;
 há que conservá-lo. Afinal, "quem estragou que arranje". 

 Mas quando uma pessoa - neste caso a princesa -  tem razão, então há que deixar
esfumar-se o palácio, dobrar-se o encanto, cair a casa - não se pode, a bem da dignidade, do amor próprio e da justiça, calçar sapatos de ferro, palmilhar milhas e lutar por um príncipe/monstro caprichoso e cabeçudo que não sabe lidar com o lado selvagem que existe em todos nós. Era só o que faltava. Qualquer rapariga que tenha lido a sua parte de Contos de Fadas sabe disso. Ou não?




2 comments:

Vadia said...

Parabéns pelo novo look do blog:) e continuo a adorar as tuas considerações. Esta Princesa está fantastica!

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada <3. Beijinho

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