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Monday, February 3, 2014

A única verdade no "Lobo de Wall Street"


Recentemente convenceram-me a ver este filme que eu contava ignorar de propósito, independentemente do realizador  e de estar nomeado para o Oscar . Senão, reparem: tem tudo o que eu desprezo. É um filme sobre yuppies, raça com que eu embirro com todas as minhas forças: o yuppie, não tendo mais nada a não ser ganância e dois neurónios, vive para o dinheiro  e para o sucesso, para ostentar todos os modismos, tudo o que é suposto ser chic, tudo o que é novo, trendy, caro e luxuoso. 

Vive agarradinho aos bens materiais - ao contrário do dandy ou do bom snob (não falemos hoje dos maus snobs) que prima pelo bom gosto, pelo comportamento algo excêntrico, mas de gentleman, um pouco fútil talvez mas dotado sensibilidade artística e que é, em essência, desprendido - tão arrogante e senhor de si que é capaz de deitar fogo a todas as suas fatiotas, se acordar com o pé esquerdo. 

O dandy usa as coisas - o yuppie é usado por elas.

 O dandy é bem nascido e bem educado - o yuppie é um parolo de fato, um caixeiro que por acaso passou pela faculdade e tem um grande talento para subir na vida e descer à mesma velocidade (easy comes, easy goes), armar-se em cosmopolita (deslumbrado "que só ele" - ah, "que só ele" não podia ser uma expressão mais yuppie, aviso-vos) comer sushi e - na era do Instagram - postar o prato de sushi, ao lado de um saco da Prada para inglês ver. Avancemos.

 O protagonista, baseado num passarão que existe mesmo, um pantomineiro do piorzinho, é o protótipo do self made man malvado com tudo o que isso tem de mau: ambição desmedida, gostos vulgares, comportamentos ordinários, honra nenhuma e ética zero. Tem a agressividade de um buldogue e a retórica de um pregador da Igreja Universal, mas a sua "equipa" composta por ex traficantes, ex vendedores de Herba qualquer coisa e ex vendedores de colchões ortopédicos delira com tudo o que ele diz e fica tão motivada que consegue sacar dinheiro a meio mundo. A partir daí é o conto clássico do self made man malvado: mulheres ordinárias, prostitutas e vinho verde, notas de banco literalmente atiradas ao caixote do lixo, orgias, doenças venéreas, tantos comprimidos, cocaína e pirulitos que eu já tinha a cabeça a andar à roda e não era nada comigo, aviões despenhados, um iate naufragado, muitos palavrões e até um chimpanzé de patins.

No meio daquilo tudo, só houve uma frase com que concordei em parte: 

“There is no nobility in poverty. I’ve been rich, and I’ve been poor and I choose rich every time. At least as a rich man, when I have to face my problems, I show up in the back of a limo wearing a $2000 suit and $40,000 gold watch".

Digo "em parte" porque só entro numa limusina (Deus me livre de tal piroseira) com muitos rogos ou muitas ameaças  e porque se não há nobreza na pobreza, na riqueza também não há. 

A nobreza, qualquer uma, seja a de carácter ou de natureza mais tangível, ou se tem ou não se tem. E muitas famílias decentes se arruinaram por não querer enriquecer à custa de comportamentos que iam contra os seus valores - por muita miséria que isso significasse. Atitudes de outros tempos, difíceis de entender na época do "eu tenho, eu quero, eu compro". Quando alguém não se vende nem compromete os seus valores para "subir na vida" há nobreza na pobreza, sim. Na riqueza em si mesma, não. Não há fortuna no mundo que possa dourar um fundo grosseiro.

Mas ser rico - ou estar lindamente, pelo menos -  é bem mais agradável, seria hipocrisia negá-lo. É muito mais fácil enfrentar os problemas do dia a dia, ou as pessoas desagradáveis, com uma toilette de boa qualidade, uns sapatos proibitivos, uma maquilhagem perfeita, todo um luxo belo e discreto, que dá conforto e distrai. Quando Ana Bolena foi para o cadafalso, fez questão de morrer vestida como uma Rainha -de encarnado, cor dos mártires, e arminho. Ou como dizia a minha avozinha, "por muito desgostosa que esteja, uma senhora nunca sai à rua mal arranjada". 

2 comments:

Sérgio S said...

Vi o filme este fim de semana e achei aborrecidissimo. Demasiado longo para a história que se podia contar em metade do tempo. Depois pensava que ia ver um filme que mostrava o mundo de esquemas onde se cria dinheiro a partir do nada, mas afinal era apenas um filme tipo de festas de adolescentes. No final ficamos a saber que o que não falta é gente disposta a aprender a arte de vender a banha da cobra, independentemente de tudo o resto.

Imperatriz Sissi said...

Eu não desgostei, Sérgio, mas fez-me um bocado de impressão tanta decadência. Há pessoas que não sabem mesmo viver. Não é o dinheiro que tem culpa, coitado do dinheiro que é neutro. Mas quem nasceu para lagartixa nunca chega a jacaré...

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