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Thursday, February 13, 2014

O complexo "Alma Boa de Szechwan"

Com alguma pena e por razões que não vêm agora ao caso, não sou exactamente uma aficionada de Teatro - adoro Shakespeare e Gil Vicente, e não resisto se estiver em cena uma adaptação de um dos meus livros preferidos ou uma peça intemporal como "As preciosas ridículas" mas pouco mais. 

Porém, A Alma Boa de Szechwan, de Bertolt Brecht, marcou-me bastante. Para quem não está recordado ou nunca viu (recomenda-se) a história passa-se na China e segue as desventuras de uma jovem de coração de ouro, Shen Te, que é a única pessoa bondosa naquela terra de miseráveis. Os deuses decidem recompensá-la pela sua caridade e dão-lhe os meios para abrir um pequeno negócio. 

 Mas a boa fortuna dura pouco porque os amigos, os vizinhos e o namorado malandro que arranja entretanto não tardam a abusar da excessiva gentileza da pobre coitada, que não sabe dizer "não" por muito prejudicada que fique. Indefesa perante tanto descaramento, Shen Te decide arranjar um alter ego - disfarça-se de homem, põe umas andas e faz-se passar por um primo grande  e carrancudo que aparece para a livrar de apuros: saldar dívidas, expulsar os aproveitadores e trabalhinhos do género.
Claro que isso movimenta o enredo, causando uma série de confusões e a certa altura, deixa a protagonista confusa perante a sua personalidade dividida, lançando à plateia a pergunta "pode uma pessoa boa ter sorte na vida com o mundo como está, se for sempre boazinha?".

 Ora a mim, que não sou exactamente uma "banana" ou uma "mosquinha" como a Shen Te, e que até me defendo bem, por vezes calhava-me bem um primo carrancudo que se atrevesse a dizer e a fazer certas coisas. Todas temos aqueles momentos Scarlett O´Hara, em que se pensa "se eu não fosse uma senhora, o que não dizia agora".

Acho que um primo desses, bastante mafioso, dava jeito a toda a gente. E queiramos ou não, às vezes é preciso puxar dele, embora não assumindo de forma tão óbvia outra identidade.

É que na maior parte das situações será complicado mudar de roupa, calçar uns sapatões e colar um bigode postiço em segundos para impor o devido respeito: o "primo" está dentro de nós, e temos de saber chamá-lo quando necessário, sem deixar que nos domine.

1 comment:

Ulisses L said...

...não preciso do primo!

Já tenho mau feitio que chegue... :)

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