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Sunday, February 9, 2014

O Império dos Lamechas


Por estes dias, o Facebook -  esse mal necessário da vida - decidiu comemorar o seu aniversário oferecendo aos utilizadores a possibilidade de criar automaticamente um duvidoso videozinho bom para passar em velórios de mau gosto. Não faltava mesmo a musiquinha de fazer chorar as pedras da calçada, enquanto mostrava imagens de, literalmente, a nossa vida a andar para trás. O mais giro foi ver que as postagens mais populares de algumas pessoas tinham erros ortográficos, no melhor modo "teu passado te condena". Eu que tenho pavor a efemérides achei aquilo sinistro todos os dias mas não resisti a espreitar o meu, para não dizerem que falo sem saber. Arrepiei-me toda no mau sentido e não o partilhei com ninguém - porque havia a opção de não divulgar a obra prima. Então, porque é que meio mundo se divertiu a passar adiante uma coisa tão pirosa?

Porque, meus amigos, vivemos num autêntico império da lamechice, do politicamente correcto, da lágrima fácil e nada melhor para o demonstrar do que partilhar coisinhas "comoventes" nas redes sociais, como já apontei por aqui.

Mas as redes sociais são um mero reflexo do fenómeno. O pavor de ofender, a necessidade imperiosa de agradar a toda a gente, de desculpar tudo, de provar "eu não sou superficial", "eu importo-me com os outros" de uma maneira que não dá trabalho nem requer envolvimento algum (afinal, fazer um clique não custa nada, diz que somos bonzinhos e alivia a consciência) atinge níveis paranóicos. De repente, com o mundo como está, não há preocupações mais sérias do que provar, ipso facto, que as modelos que vemos nas revistas são um produto de photoshop para que as raparigas "feias" se sintam menos mal, discutir ad nauseam o que é plus size e o que não é para não ofender as mulheres "gordas" nem chamar "rechonchuda" a quem calha só ter curvas, para não falar nas suspeitas de racismo a cada esquina e na quantidade de palavras que já não se podem dizer para não melindrar ninguém.



Faz-se isto tudo como se não bastasse, para sermos seres humanos decentes, tratar toda a gente com respeito: não, temos de ser paternalistas e condescendentes com quem é mais gordo, mais feio, mais bonito ("pobrezinha, devem ter-te obrigado a fazer plásticas") ou mais magro ("coitadinha, deves ser anoréctica!) do que nós. Ou, caso a outra pessoa tenha uma cor de pele diferente, falar com muito cuidado não vá ela ressentir-se, como se fosse algum bicho raro.

 E o público delira com estas coisas, acha muito inspirador:

- O vídeo da rapariga que foi chamada a mais feia do mundo e deu a volta por cima, que sucesso! Quantas pessoas não o partilharam, com comentários "isto mudou a minha vida?" ou "és a rapariga mais linda do mundo?". Se no meio de tanto elogio a moça foi pedida em casamento por quem  vê a sua beleza, fantástico. Mas acredito que a maioria esquecesse o assunto logo a seguir.

- Muito partilhado também foi o vídeo (com musiquinha triste) do artista que criou manequins de montra a partir de pessoas com deficiência física (é este o termo politicamente correcto? É que já não sei) para afirmar que ninguém é perfeito, e que a beleza é para todos. Não sei o que acham vocês, mas não será isso apontar a "diferença" de uma forma muito mais estigmatizante? Porque reparem: os manequins são apenas um standard, de roupa apertada com alfinetes. Não há manequins para pessoas mais baixas, com mais peito, com figura de ampulheta, de pêra, de trapézio- porque deveria haver para os outros? É óbvio que a moda é para todos, todos temos de vestir alguma coisa diariamente. A não ser que estejamos a falar de roupa adequada às necessidades específicas do problema de saúde em causa, será necessário esse freak show velado, como quem diz "olhem para eles'"?

- Uma rapariga lembrou-se de fazer uma petição à Disney para criar uma Princesa gordinha. Porque já há princesas de todas as "minorias" mas dessa ainda não, e  TODA A GENTE tem de estar representada, até num Conto de Fadas e ainda por cima em desenhos animados, que é suposto serem tudo menos realistas. Não sei se é boa ideia ou má ideia, mas a discussão que gerou levanta alguns pontos válidos.

- Mais recentemente, a Dove lançou OUTRA (mais uma, senhores!) campanha para "mulheres reais" - termo que tem o condão de me tirar do sério - para provar que as mulheres se acham mais feias do que são na realidade, como se todas fôssemos umas inseguras de primeira. E chora-se no vídeo, claro. E o video tem uma musiquinha comovente, claro.

A verdade é que os criadores desses conteúdos politicamente correctos estão tão obcecados pela beleza exterior - ou pela falta dela- como o mais paranóico dos editores de moda em busca da perfeição. Há tanta futilidade numa atitude como na outra - tudo são aparências - mas a busca pela perfeição tem a virtude de apesar de tudo ser mais honesta.

Há dias uma amiga minha, giríssima, disse-me: "continuo a achar-me bonita, mas quando tinha a tua idade achava-me mesmo a mulher mais linda do mundo".
 Apeteceu-me abraçá-la: alguém que é sincero, para variar.

2 comments:

Sandra Paiva said...

Nunca pensei nesse ponto de vista, mas agrada-me :)

Imperatriz Sissi said...

É daquelas coisas que vão acontecendo e só damos por isso quando temos o mural cheio de porcarias :D

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