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Friday, February 7, 2014

Raios te partam casamento?


"Raios te partam casamento" era uma frase que uma das minhas avós usava muitas vezes não necessariamente acerca de casamentos, mas se algo cuidadosamente planeado dava para o torto. 
 Quando eu era pequena e pensava que o casamento era só a boda, imaginava um cataclismo a acontecer no meio de um casório, mandando pelos ares bolo, noivos e meninos das alianças (sempre tive esta mania de imaginar filmes a propósito de certas forças de expressão mais curiosas).

Apesar de divorciada, a escritora irlandesa (estudiosa de Shakespeare e do comportamento feminino) Anna Jameson devia ter uma perspectiva bastante...esperançosa acerca dos relacionamentos. A julgar pela citação acima seria uma mulher paciente, que não fazia justiça ao irish temper e dificilmente puxava de um "raios te parta". O que não deixa de ser estranho já que o seu próprio noivado foi rompido  e como o casamento acabou por acontecer mas correu mal, se calhar mais valia não se ter dado de todo.

Mrs. Jameson - que era, afinal, uma mulher do seu tempo, em que se reflectia mais abertamente sobre estas coisas - achava que a mulher faz o homem. Por isso, um homem que casasse com uma mulher vinda de um meio muito ordinário, acabaria invariavelmente por se degradar.

Mas na sua opinião, o mesmo não acontecia se uma menina educada se unisse a um homem que...bom, não fosse um cavalheiro e não tivesse sido criado da mesma maneira. Provavelmente não seria lá muito feliz, mas com sorte uma mulher refinada, elegante, com os seus hábitos de gosto e de luxo, os seus bons modos, os seus sólidos valores e o seu amor a tudo o que é belo e elevado podia - recorrendo a muita meiguice, à introdução subtil de outros costumes, à exposição permanente a certos padrões comportamentais e estéticos, ao arranjo sofisticado do lar - reformar o homem que escolhesse, mesmo que ele fosse um desbragado grosseirão.

Ora, eu não digo que isto não possa acontecer; ainda para mais hoje em dia, em que as distinções sociais estão assaz diluídas e qualquer pessoa, rica ou pobre, nascida numa família mais ou menos culta, tem a possibilidade de se instruir e reinventar. Além disso, o amor transforma. Se é verdadeiro, faz-nos querer ser a melhor versão de nós próprios - mais bem sucedidos, mais bondosos, mais polidos. E não há nada como uma boa influência (diz-me com quem andas...) especialmente uma influência tão próxima e poderosa como a cara- metade. 

Mas para que isso suceda, tem de haver outra coisa além do amor verdadeiro: um bom carácter. Há pessoas que mesmo vindas de um background bastante humilde possuem uma natural brandura, modéstia e capacidade de observar/ aprender que ninguém diria que não nasceram num palácio.

 Essas pérolas não abundam, porém.

 Infelizmente, nos casos a que tenho assistido, rara é a mulher que vai atrás da paixão, 
unindo-se por impulso a alguém de valores e hábitos muito diferentes dos seus, que é bem sucedida nesse relacionamento. Com muita pena minha, esses romances tão bonitos tendem a ter dois cenários possíveis:

a) Se a mulher é demasiado gentil ou se apaixona a pontos de ficar completamente parvinha, acaba por se moldar aos gostos, amizades e costumes do companheiro. Conheço não poucas raparigas super educadas que desistiram das suas ambições profissionais ou intelectuais e pior: passaram a encolher os ombros perante piadas inconvenientes, ditos ordinários em público, linguajar desagradável, comportamentos brejeiro,  flirts a despropósito, brutalidades e outras coisas inomináveis. A médio prazo desleixam-se, perdem a voz e ninguém adivinharia que não nasceram numa baiuca qualquer. Em vez de puxarem o marido para cima, são elas que se vulgarizam. Os filhos são educados assim, uns verdadeiros selvagens que no infantário já dizem palavrões  e pronto, só se estraga uma casa.

b) Se a mulher se mantém igual a si própria mas o homem é um bruto, por muito ambicioso que seja, por mais que se adorem e por mais carinhosa que ela se mostre  não vai encarar bem a forma de estar da companheira. Se ela - ai Jesus - lhe corrige os modos ou lhe tenta polir certos gostos ou subtilezas, ainda que discretamente, é porque o inferioriza. As relações de família e de amizade que ela tenha são constantemente achincalhadas. Porque fulano já nasceu com tudo feito, porque beltrano só tem manias, e sicrana tem nome mas é tudo aparências e está crivada de dívidas, etc. 

 Por muito trabalhadora que a mulher seja, nunca vai entender os seus complexos de inferioridade porque "sempre teve tudo!", acidente de nascença que - mesmo que falte à verdade -  para ele é imperdoável. Faz-lhe disparar todas as inseguranças, aquilo que os ingleses designam como "a chip on the shoulder".

 No fundo nenhum homem gosta de não ser o macho alfa aos olhos da mulher que escolheu, mas um malcriadão não suporta o mais insignificante reparo, nem compreende que qualquer relação tem sempre arestas a limar. Espera ser dono e senhor e ser aplaudido, mesmo que proceda mal. Não ouve, não partilha, não se acostumou a respeitar e a adaptar-se. Aprendeu em casa que as mulheres são vassouras, o que é muito pior que ser machista - conheço machistas que são cavalheiros para o bem e para o mal, mas um homem vulgar só é machista para o que lhe convém.

 Depois, como sempre o diabo está sempre nos detalhes: coisas simples como regras de etiqueta, a forma elegante de vestir ou falar  absorvem-se; se a pessoa tiver uma bonita presença e quiser aprender, caso arrumado. São as pequenas subtilezas que estragam tudo: coisas que para ela serão aberrantes, absolutamente inaceitáveis  (hábitos de consumo, amizades, raciocínios, companhias, questões de dignidade e de ética, comportamentos, padrões estéticos) para ele são a coisa mais normal do mundo. Pessoas assim sentem-se melhor na atmosfera em que cresceram do que naquela a que almejam pertencer, mesmo que não o confessem.

E ele, ainda que não faça por mal,  não vai entender porque é que ela fica tão magoada, tão chateada, porque é que é tão...rígida. Os avisos dela são entendidos como caprichos, snobismos, exigências. Coisas simples e óbvias como manter certas distâncias profissionais e sociais ou não achar piada, sei lá, às protagonistas da Casa dos Segredos são uma sentença de morte para ele. E no fim, das das uma: ou se dá, mais coisa menos coisa, o descrito na alínea a) e a mulher se anula e tolera tudo, ou o diabo dos detalhes causam o inferno em casa. E está tudo estragado.








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