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Wednesday, March 26, 2014

Alguém acuda aos norte-coreanos, pelas alminhas.




É que não há direito que um povo seja tão martirizado. Para começar, vivem num inferno comunista - e eu que em pequenina tinha a mania de deitar a mão a livros e revistas sobre a Guerra Fria e assuntos semelhantes ganhei uma fobia a isso que não imaginam; creio mesmo que não pode haver destino pior. Recordo-me de adormecer a chorar por ter lido a história de uma menina chinesa que tinha sido retirada aos pais, ambos professores, e que não lhes podia falar quando os via no campo, de enxada na mão de manhã à noite para serem "reeducados".

Lembro-me sempre dos Romanovs assassinados, dos palácios expropriados e vandalizados, do Dr. Zhivago com a sua linda casa invadida por revolucionários a dizer "olhem para isto! Cabiam aqui não sei quantas famílias!" (Credo- se me entrassem casa dentro e pusessem gente que eu não conhecia de lado nenhum a morar comigo, mais valia fuzilarem-me logo) do Mao que punia as pessoas por olharem de soslaio para o seu reflexo numa montra ou por gostarem de estar sozinhas (de novo, mais valia limparem-me imediatamente o sarampo) e que obrigava toda a gente a ser camponesa, ou a fingir que produzia um porco de 500 kg que na realidade era um porco de papelão mas toda a gente fingia que acreditava, etc, etc, etc.

Podem vir com os argumentos que quiserem: que em Cuba a educação é excelente (serve-lhes de muito) que na ex URSS as pessoas tinham férias grátis em ex-estâncias paradisíacas transformadas em colónias de recreio para o povo, tudo muito lindo: a verdade é que nunca se viu alguém a tentar saltar o muro de Berlim para passar para o lado Oriental, certo? Que me lembre não, e olhem que fui confirmar e tudo. I rest my case.

Além de ser impensável para mim uma ideologia que nivela tudo por baixo e que se baseia na invejinha pura e dura ("ódio de classe" diz tudo, e mais nada) sempre achei que noutra ditadura qualquer ainda se vai vivendo desde que uma pessoa não se envolva em política, mas numa ditadura comunista, nada a fazer: os sacanas intrometem-se em tudo. Todos têm de "ir com o povo", "fazer a revolução" (mas quando é que a revolução acaba? será como as obras de Santa Engrácia? E em última análise, quem é o povo e o que é exactamente a revolução?) dedicar-se a actividades colectivas com grande alegria (ou seja, nada de momentos de introversão nem instantes anti -sociais daqueles que eu aprecio tanto) nada de família, romance,  roupas bonitas, nada de liberdades individuais, nada de confortos nem de luxos nem livre pensamento ou espiritualidade. Com a excepção das paradas é a morte de tudo o que é bonito, e eu abomino coisas feias.

E na Coreia do Norte pior um bocadinho, já que todos têm de fingir que adoram um líder lindo como o sol, com cara de bolacha e mau como as cobras. 

 Ora, parece que a última invenção desse menino para torturar um pouco mais as pobres pessoas que não pediram para nascer ali foi decretar que todos os homens têm de usar o seu fabuloso e único penteado à Jersey Shore. Nada de revolucionário, passe o trocadilho: os infelizes só podem, actualmente, escolher entre uma vintena de penteados seleccionados pelo regime - cada um mais parolo que o outro, acrescente-se. Urge mandar uns stylists competentes àquelas pobres almas.


 Mas que o líder se queira impor como it boy, como ícone de estilo (quem não arranca elogios espontâneos gaba-se a si próprio, já se sabe) e obrigue todo um país a copiar os seus fashion faux pas, já é abuso. Trata-se aqui de obrigar inocentes a ter mau gosto - e isso é criminoso.

A grande dúvida é como é que os carecas vão conseguir esse efeito escova de arame, mas nada que não se resolva com uns capachinhos aprovados pelo glorioso Partido.

Tratando-se de notícias dessas paragens é tudo tão exótico, tão estrambólico que uma pessoa toma sempre as coisas com um grão de sal, mas maluco para isso é o menino Kim ele e para muito mais.

 Quando pessoas feias de meter medo não têm espelhos em casa, metem na cabeça que são lindas e arranjam quem lhes apare as manias, dá nisto.

4 comments:

Fashionista said...

ah ah quando li a notícia no jornal pensei no mesmo!

IM said...

Adorei este texto, é realmente muito triste esse senhor com cara de bolacha e mau como as cobras! Essa dos penteados ainda não sabia, mas é só perola atrás de perola! beijinhos

barcelence said...

"Numa outra ditadura ainda se vai vivendo desde que não se envolva em política"... de uns posts gosto mais, de outros, gosto menos, como este. Não é preciso canal História nem muita investigação para saber que qualquer ditadura é catapulta para o sofrimento: em Portugal, excelsa ditadura de direita com padrecos a apoiar, bastava um acusa pilatos para ir apanhar porrada para a Pide com férias no Tarrafal. Atenção, que podia muito bem acusar quem jamais se metia na política! É a benesse das ditaduras, o Inquisitório puro que acaba por servir interesses pessoais e mesquinhos. Na ditadura de direita, chamemos-lhe, mais emblemática, a da Alemanha Nazi, houve a quota de perseguições e mortes políticas e depois houve esse mar de judeus, ciganos, outras pessoas no local errado à hora errada, que não se queriam sequer envolver em política e ei-los a passar as passas do Algarve. Ditadura é o que é, sempre. Acaba por envolver mesmo quem não se quer envolver, e é sempre terrível.

Imperatriz Sissi said...

@Fashionista, great minds think alike :D
@IM, obrigada...este é o Monstro com Cara das Bolachas!
@Barcelence, não digo que viver noutra ditadura qualquer seja uma maravilha, ou que não haja riscos - e o caso da Alemanha Nazi é demasiado particular, assente em especificidades que ainda hoje os estudiosos se esforçam por entender- mas nenhuma é tão invasiva ou vai ao nível de detalhe de um regime comunista, em que TODA a gente é doutrinada e as coisinhas mais elementares, as mais pequenas liberdades individuais - como os tecidos e padrões "permitidos" ou o corte de cabelo são decididos pelo Governo. Noutro regime qualquer, resta pelo menos a liberdade interior, de passar tempo sozinho ou de olhar para o espelho de soslaio, sem ir passar umas férias obrigatórias no campo para ficar solidário com os gloriosos camponeses. Surreal.

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