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Saturday, March 8, 2014

E Deus criou a Mulher...


...depois inventaram o Dia da Mulher. As frases xaropentas para partilhar no Facebook para inglês ver (mesmo quando quem partilha é, na realidade, um marido/namorado da treta). 

Os concertos do Dia da Mulher - convidado especial, David Carreira - em discotecas de aldeia (juro que vi o cartaz hoje). E os jantarinhos com strippers brasileiros besuntados de óleo que são porteiros nas horas vagas, porque andar aos guinchos e ler romances light com laivos histéricos é o supra sumo do feminismo. 

Isso, ou no outro extremo, pregar contra a ditadura da beleza e da magreza e insistir que o macharedo é o inimigo. E as mulheres trabalham que se fartam. E casam com alguns cavalheiros que esperam que a mulher tenha um ordenado que pague luxos de classe média (porque a figura do Pater Familias era opressora) e ainda trate da casa como nos anos 50, quando havia Pater Familias e as senhoras não tinham mais nada em que ocupar o tempo.

 E as mulheres devoram revistas a explicar como conquistar um homem (esforça-te, infeliz! desunha-te! é que eles são atadinhos, tolhidinhos, coitadinhos) e as 100 acrobacias sensuais nunca vistas que vão fazer o desgraçado pedi-las em casamento no primeiro encontro, sem mesmo avaliar se ele dará um bom marido ou se é um Barba Azul que guarda as ex namoradas na arca congeladora do T3 . E depois queixam-se, de uma maneira moderna, muito Sei Lá, que o malandro nunca mais telefonou.

E as mulheres correm atrás deles como se houvesse racionamento. Nas horas vagas aprendem kizomba e dança do varão, porque Deus nos livre que uma mulher não saiba pendurar-se da cabeça para baixo; que homem é que casa com uma rapariga tão pouco prendada?

 Dizem-se muito feministas, muito desempoeiradas mas no segundo encontro, quando há segundo encontro (hurra! tragam os confetti!)  desdobram-se para lhes fazer um jantarinho à luz de velas e já estão a imaginar o Tomás, a Madalena e o Manel que vão ter olhos azuis como  o completo estranho que acabaram de trazer para casa depois de horas a tentar chamar-lhe a atenção no bar, enquanto ele olhava para o telemóvel e falava de gajas (sic) carros e futebol com os amigos, sem arredar pé. 

 Chamar-lhes geishas será pouco, porque as geishas eram pagas para cantar, dançar e fazer
 companhia - e fora preparar o chá, não mexiam um dedo em casa, nem apanhavam o metro ou filas de trânsito para se esfalfarem no escritório. Espertas, as preguiçosas das geishas, que não precisavam de andar meio despidas para dar nas vistas.

Depois, se finalmente invertem as Leis da Natureza desde que o Mundo é Mundo e arrastam um homem para a caverna- perdão, Quinta-das-couves-verdes, casamentos e baptizados, orçamentos grátis - cansadíssimas, esfalfadas de puxar pelos cabelos um marmanjo de 90 quilos a gritar que quer voltar para casa da mamã - e o obrigam a assentar com mil artes e manhas, vão todas contentes passear em público com um véu de tule cor de rosa e um símbolo de fertilidade de borracha super indecente na cabeça. Para um dia educar a futura Madalena no sentido de uma licenciatura, sim senhora, mas também de ler resmas de romances sensuais - e light, não vá a rapariga desencaminhar-se -  nas horas vagas, a ver se aprende. Assim, quando crescer  também usará uma coisa de borracha no alto da pinha, em público, e será felicitada por isso, acabando a festa com uma grande bebedeira e a mãe a impar de orgulho. Lindo.

Mas se o casório dá para o torto porque o rapaz se viu encurralado e não sabia em que Inferno se estava a meter, não há crise:  choram no ombro das amigas que as consolam com citações profundas do Pedro Chagas Freitas ou se o caso for mesmo preto, do Oysho ou do Paulo Coelho ( há que apelar para os milagres!) daquelas que dizem que se um homem não está interessado a persistência é a chave do sucesso - e a seguir, como é Dia da Mulher, vão todas festejar a libertação que as faz trabalhar o triplo e  em grupinhos, aos pulinhos no último sapatucho da Zara ver o Sei Lá

E como não podia deixar de ser, acabar a noite com uma grande bebedeira e uma maratona das 50 Shades of Grey ou pior ainda, da Anatomia de Grey, para gritarem da varanda que querem uma massagem dada por um homem bêbedo ou lá o que é (desculpem mas isto é demais para as minhas capacidades) mas que os homens são umas bestas que se aproveitam delas,  o inimigo, mas pronto, querem um homem na mesma para a massagem bêbeda - e os homens da vizinhança a chamar a polícia para mandar calar aquele bando de taradas, não necessariamente por esta ordem. Quando a Polícia chega, as malucas pensam que são os strippers vestidos de Polícia que tinham encomendado no auge da animação, ao som do Piri Piri Piradinha ou qualquer brejeirice assim.

 Minhas senhoras e minhas meninas: poupem-me.

Já eu, que não percebo nada disto? Celebrei o dia mais ou menos como celebro os outros se me apetecer,  comprando um vestido Ann Taylor que queria há imenso tempo, mais o Eugenia Grandet que estava na minha lista de livros a trazer para casa e é capaz de ser mais giro do que as 50 Faces. Também se sofre por amor e tudo, eu juro. E se calhar, Balzac escreveu  umas frases sobre as mulheres mais engraçadinhas e menos pretensiosas que também dão para partilhar no Facebook e não rebaixam quem as partilha a qualquer coisa pouco lisonjeira. Chatíssimo, diriam algumas mulheres. A essas, um bom dia. Às outras, que não precisam de efemérides, boa sorte.







1 comment:

Liane Carvalho said...

Fugir! Como o Diabo da cruz :) E pensar que já falta pouco para mais macaquices dessas e carnavais. Quem quiser que as ature ;)

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