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Tuesday, March 18, 2014

Jornalistas que andam para aí, a deseducar o povo.


A nossa bela língua é muito subtil e por mais acordos ortográficos medonhos que lhe imponham na tentativa de a simplificar (ou diria eu, banalizar) permanece um idioma exigente. O Português bem escrito e bem falado é de um extremo requinte; não será o idioma mais musical (como o italiano) ou mais flexível (como o inglês) mas não se pode negar que é elegante - eu diria mesmo que há-de ser das coisas mais elegantes que temos enquanto povo - mas adiante.

 Isto para salientar que há pequenos quês na Língua Portuguesa que podem escapar até ao mais atento dos seus defensores (a estimada Teresa, no seu belíssimo blog, é exímia em descobrir essas carecas) logo, qualquer um está sujeito a argoladas; mas valham-me todos os santinhos, há os mínimos.

 E eu apontaria dois tipos de mínimos, salvo seja: um deles será reparar um bocadinho em como as palavras se escrevem e/ou se pronunciam para evitar os clássicos "fostes", o trocar o "fizesse" por "fize-se" e assim por diante, que eu costumo bloquear quando vejo coisas assim, logo tenho dificuldade em fazer listas negras destas.

 O segundo tipo reside no cuidado com a linguagem que se espera de quem faz do Português o seu ganha pão. Vejo disparates de cair para a banda cometidos por profissionais de vários sectores com obrigação para ter juízo (até professores universitários, para começo de conversa) mas ninguém leva a palma aos jornalistas ou antes, a certos jornalistas. Ora isto é grave, senhoras e senhores. Porque para muito boa gente se está no jornal, na TV ou nas notícias, é assim que se escreve - e "prontos, pá"! 

Só esta semana, dei com três asneiras do piorio.

1- Na vigília por D. José Policarpo uma repórter, com ar compungido, atira a seguinte pérola: "a Sé está à pinha!". Isto não será pecar por erro de português, mas por falta de noção das circunstâncias. Primeiro, "à pinha" é se calhar um termo um bocadinho informal para se usar em televisão, a não ser talvez na MTV ou coisa que se pareça; depois, se fosse num Rock in Rio ainda vá que não vá, mas num velório? E de uma figura da Igreja? Bem diz o povo que não há casamento sem choro nem enterro sem riso, mas o chazinho cai bem em toda a parte, eu acho...

2- Há instantes na SIC, a propósito da estrela de Kate Winslet no Passeio da Fama, a narradora da peça põe-se a gabar a tarde "estrelar" da actriz. Ó menina, eu toda a vida ouvi estelar, no dicionário vem estelar e que eu saiba, eu que não ando a par de novidades nem modernices,  "estrelar" é só o acto de estrelar ovos: se calhar era isso que devia estar a fazer numa tasquinha qualquer que prestava melhor serviço às pessoas, a mim incluída que adoro ovos estrelados e detesto ouvir tolices. Se sou eu que estou maluca, corrijam-me por caridade.

3 - Aqui não se trata de Jornalismo, mas de tradução e legendagem (outras duas fontes de coisas trágico-cómicas). Ontem, em The Walking Dead, fizeram-me notar (eu quase escapava ilesa, porque tenho o mui saudável hábito de não olhar para as legendas) que PIMBA, lá escreveram, todos repenicados, "deve DE ser". Esta é uma questão muito debatida, certo: e há quem defenda que não é erro não senhora, que até Camões escreveu deve de ser em vez de "deve ser". Mas eu que cresci com a velha regra "havia de ser" e "deve ser", acho feio, feio, feio e parolinho de todo. É como dizer "o comer" em vez de "a comida" ou "o almoço", ou "a mala" em vez de  "a carteira". Soa desagradável, soa grosseiro, não há mesmo necessidade.

 Volto a afirmar (e se por causa do meu realismo passar por snob, paciência; eu gosto de chamar as coisas pelos nomes) que o Ensino Superior empurrado a granel para tutti quanti, pouco selectivo, super acessível e inclusivo não colmata coisíssima nenhuma a falta de formação/educação/cultura que se devia trazer de casa. 
 Para evitar tais desconchavos bastaria que se fizesse, como em boas universidades americanas, uma entrevista aos candidatos: poupava-se dinheiro e tristes figuras, e não se sobrecarregava o mercado de mão de obra supostamente qualificada. Quem não soubesse alinhavar o português (e cometesse sacrilégios do género de aparecer em trajes menores e chinelas de enfiar no dedo) ia para casa tentar civilizar-se, ou 
inventava-se um curso preparatório de um ano ou dois para polir esses brutinhos e problema resolvido. Mas quê - isso ia demorar muito, e como é que se enchia a estatística de licenciados e mestres à bolonhesa para apresentar em Bruxelas?

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