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Saturday, March 1, 2014

Mais vale um letreiro a dizer " a chuva só pára quando lhe der na real gana".


Não estou para escrever isto de uma forma bonita: afinal, mandei uma carta toda amável ao S. Pedro e foi tão inútil como um requerimento na secretaria mofenta de uma faculdade pública. Burocracia, burocracia, burocracia. 

 Fui educada para nunca maldizer o tempo, que é pecado. Mas IRRA, macacos me mordam, não será possível desligar as torneiras só por um bocadinho?

 Nunca cancelei tantos passeios, nunca me aborreci tanto com o que hei-de vestir, nunca dei tanto uso a galochas, Carnaval estou para ver como vai ser que isto nem os Caretos aguentam; se abre o sol como ontem, que esteve uma tarde gloriosa e a prometer um fim de semana remotamente decente zás, na manhã seguinte tratam logo de me desfazer as ilusões.

 Queria ir ao mercado comprar umas alfaces e não há mercado. Queria ir passear e é um perigo andar na estrada. Queria estrear umas botas de camurça que estão ali a luzir para mim e se tenho gosto nelas, é melhor nem tentar. Isto é deprimente, deprimente, deprimente.

E o que se vai fazer a tanta água? Que me lembre, a chuva do Dilúvio durou 40 dias. Por aqui, já chove sem parar há mais de dois meses. Isto não é chuva, é uma monção. De extensão mais do que Bíblica. Parece a Indochina, em versão fria. Nem Noé teria paciência.

Este feeling de "não me tragam mais" faz-me lembrar uma situação que passei há uns anos. Na altura caí na asneira de morar num prédio todo snob de que já vos faleihabitado maioritariamente por gente doida, e ...comodidade das comodidades, apesar de termos uma padaria do outro lado da rua os vizinhos passaram a receber o pão à porta todas as madrugadas.

 Achámos boa ideia e decidimos aceitar também os serviços da padeira, sem pensar que se os vizinhos eram quase todos loucos a padeira não seria muito melhor.

 Como éramos só três pessoas, e pessoas pouco consumidoras de farináceos, combinámos com a senhora receber o mínimo, uns cinco pães por dia.

Na primeira semana correu tudo bem. Depois foi a desgraça. A mulherzinha começou por deixar  oito pães por dia, e nós "deve ter-se enganado". Dali a pouco já eram doze. E nós já sem saber o que fazer a tanto pão junto, deixámos recado na porta com o dinheiro, a lembrar que o acordo não era esse. Foi o mesmo que nada. Tentámos ligar e ninguém atendeu. Pusemos mais bilhetes, e o mesmo: uma dúzia de pães ou mais, e a arca congeladora (que era das verticais, como convinha num apartamento) a abarrotar de papo-secos. Uma autêntica estratégia de guerrilha. Extorsão panificadora nunca vista. Em desespero, removemos o saco para o pão da porta - ela pôs lá outro. E aí eu comecei a ouvir a banda sonora do Psycho na minha cabeça, palavra. 


Perdi a conta aos bilhetes que deixámos, que para o fim já eram bastante agressivos, tipo "NÃO QUEREMOS PÃO!!!"...e o pão lá aparecia. Ficámos a pensar se a senhora não saberia ler, era simplesmente teimosa, ou uma psicopata fugida do manicómio. 

Acho que cheguei mesmo a acordar cedíssimo a ver se a apanhava para lhe dizer das boas, mas a padeira bêbeda (não sei se era, mas só podia) tinha artes de se escapulir.

Como as tentativas de cancelar o "serviço" foram inúteis o remédio, lamento dizê-lo,  foi parar de lhe deixar dinheiro. Mesmo assim não desistiu logo. 

É como esta chuva, tal e qual. O pior é que o mau tempo é grátis...





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