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Wednesday, April 30, 2014

D. Francisco Manuel de Melo dixit: conselhos aos casais...e às mulheres.


Estava eu a analisar alguns volumes que tinha trazido para casa, quando um que me pareceu familiar me saltou à vista. Tratava-se da Carta de Guia de Casados, do ilustre (e solteiro) fidalgo D. Francisco Manuel de Melo.

 Folheei, folheei e embora estivesse certa de conhecer a obra de nome e de não me ser estranha a biografia do autor, não atinava onde já teria lido ou ouvido aqueles conselhos que ligavam tão bem - deitando-lhes um grão de sal e dando desconto à época em que foi escrito, escusado será dizer - com certas coisas na minha maneira de pensar (sou careta, não me macem que eu aviso ali no cabeçalho que o Imperatrix é um blog é old fashioned) e mais do que isso, com coisas que a minha querida avó me martelou logo que tive entendimento (e como comecei a falar cedo, podem imaginar quando principiaram  tais recomendações...).


 A senhora minha mãe lá me fez luz, dizendo que o delicioso livrinho (manual de costumes mesmo perfeito para a minha colecção) costumava andar lá por casa quando ela era pequena, que ela o tinha lido e que a avó o lia também - se bem que, digo eu,  a avó bem podia, vivesse ela no século XVII, ter servido de modelo a D. Francisco, tão sensata era.

 Parafraseando o próprio, "aquele que pede bons conselhos já parece que deles não necessita". 

   Antes de prosseguir, ressalvo que a leitora dos nossos dias, imbuída de ideias de igualdade, tão instruída como qualquer homem (se bem que muito já foi dito, por aqui, quanto à superficialidade de certa educação formal...) e com a cabeça, por muito ponderada que seja, moldada por directrizes panfletárias distribuídas por certas publicações femininas para quem a mulher ideal é uma overachiever com as habilidades íntimas de uma cocotte, se zangará muito com o autor - se não souber interpretar o que diz com a necessária subtileza e o humor que é apanágio das pessoas de bem e de espírito.

 Tenho dito mil vezes que as mulheres sempre governaram, porque se sabiam governar e pôr quem governava a governar por elas...somente, se fazia tudo com jogo de cintura, suavidade e de forma menos evidente. Quem disser que Lívia, Catarina de Medici, Isabel a Católica, Iolanda de Aragão ou Isabel I ou II são exemplos de mulheres oprimidas, pode ir dar uma voltinha a uma certa parte. Uma mulher realmente inteligente não precisa de se armar em espertalhona, nem de mártir num mundo de homens porque não ganha nada com isso.

 Logo, quem não sabe ler nuances é melhor passar bem longe deste Guia de Casados para evitar aneurismas e chiliques.

Adiante, e vamos aos conselhos do nobre autor, que muito podem aproveitar a gente de bom senso.

                                                           Das mulheres belas...e da vaidade:

"De umas que se prezam de formosas, não para há que nos descuidemos. Que a mulher se conheça não é vício (...) devemos tanto conhecer o bem, se o há em nós, como o mal, quando o haja. Desejo que da formosura se use como  da nobreza; folgue cada um de a ter, mas não que a mostre".

Aqui se enterra o detestável adágio " o que é bonito é para se ver" sendo verdade que quem muito exibe muitas vezes pouca beleza tem...
A formosura não precisa de ser espaventosa para ser notada, e por muito grande que seja, a modéstia é um belo adorno...

Sobre a reputação:

"A honra da mulher comparo eu à conta do algarismo...tanto erra quem errou em um, como quem errou em mil..."

"A reputação é espelho cristalino; qualquer toque o quebra, qualquer bafo o empana. Elas, quando são muito seguras em seus procedimentos, se aventuram (...) a tratar com as que não o são. O vulgo, sempre cego, não sabe distinguir, ou não o quer, o bom do mau. Assim os maldizentes, indo acusar uma pessoa, não acertam logo; e por ventura infamam as que andam junto dela (...) uma só gota de tinta que caia em água claríssima basta e sobeja para a tornar turva; e para aclarar uma redoma de tinta, não basta uma pipa de água clara. Assim é a boa e a má fama".



 Sobre as mulheres mandonas e regateiras, que fazem do marido gato sapato:

 " (...) são as que menos cura têm, porque até da temperança do marido (...) tomam causa de se demasiarem; sendo já antigo que o soberbo se faz mais insolente à vista da humildade e o bravo se enfurece diante da mansidão..."


Ai acham exagero? Tive uma vizinha assim, que alcunhei de Rainha do Sabá. Pobre marido e  pobres vizinhos, que a megera não deixava parar ninguém...olhem a solução que D. Francisco aconselha a quem tem a desgraça de casar com uma hárpia:

" Aconselharia a quem tal sucedesse que se apartasse o possível de viver nas cortes e grandes lugares. Quem grita no despovoado é menos ouvido; não se ficará sendo fábula do povo...".


 *Aplauso* Se calhar vou mandar esta ao meu antigo vizinho...


   Acerca das mulheres ciumentas, e como curar os ciúmes:

" (...) aquela que com razão se sente, não chamo eu ciosa [ciumenta]; a ciosa é aquela que sem causa se queixa; e estas são as trabalhosas. Porque emendar cada um as suas fraquezas (...) não é impossível; mas emendar as alheias (...) é impossível. 
 Contra as ciosas com razão, curando-se o marido da leviandade, fica a mulher curada do ciúme. Para desconfianças leves, que um discreto chamava sarna do amor, que faz doer e gostar juntamente, digo eu que como se satisfizeram as damas se satisfarão as esposas. Aquele amor desordenado mais furioso é, e mais veementes os seus ciúmes (como é do melhor vinho o melhor vinagre). Quem soube (...) desmentir os ciúmes de sua dama (...) por esse mesmo modo desminta os de sua mulher."

All you need is love, pois. E juizinho.


                                                    Sobre a discrição e a compostura

"Fale a mulher discreta o necessário, brando, a tempo, com tom que baste para ser ouvida da pessoa com quem fala, e não das outras (...). Uma das terríveis coisas que há na mulher é usar de meneios descompostos (...) nem todas podem ser airosas; mas graves, todas o podem ser (...) longe estou de persuadir à mulher que seja melancólica; alegre-se e ria-se em sua casa, à sua mesa (...)"

 Bem dizia a avó que é feio uma menina ou senhora sorrir com espalhafato e rir histericamente, à maneira das hienas...


 Dos romances light e outras palermices:

"Outras são mortas por livros de novelas (...) aqui é mais perigosa a afeição que o uso. Bem vejo que se lhes pode permitir esse desenfado; mas seja com a maior cautela àquelas que excessivamente se lhe entregarem, visto que podemos temer se ama neles antes a semelhança do pensamento que a variedade da lição..."

O excelente cavalheiro morria outra vez se visse os disparates que as mulheres andam a ler, e levantaria as mãos para o céu por se ter finado antes que certos autores que me dão urticária  viessem ao mundo para encher a cabeça do mulherio com Sei Lás e outros descalabros...se bem que quem gosta de ler e partilhar tais coisas não pode estar muito certa da sua virtude ou do seu intelecto para começar, eu acho.


Desafio as mais corajosas que ainda não leram a 
demorar-se um pouco sobre a obra -  não venham é dizer que não avisei e gritar que isto é um blog pouco feminista, que não me dão novidade nenhuma e eu não tenho paciência para mulheres atreitas a fanicos... 


4 comments:

Inês Sousa said...

Muita agradecida por mais uma sugestão de leitura, já encontrei a obra e vai ser a minha leitura nos próximos tempos. Eu diria que este blogue é feminista no melhor sentido do termo, i.é, não é de feminismos baratos vendidos a cordel, mas sim dos melhores exemplos do que uma mulher deve ser.

Imperatriz Sissi said...

De nada, Inês! Ainda bem que o livro foi fácil de encontrar. Acho-o uma pérola!
E obrigada pelo elogio :). Eu não gosto do termo "feminismo" porque o associo a muitas imagens negativas que descrevo às vezes por aqui, mas agradeço e concordo...se as mulheres souberem realmente usar o seu poder, não precisam do feminismo...

cec said...

Ler o que escreve é ouvir o que penso.
A única - e terrível - diferença é que me parece ter encontrado uma maneira de ser feliz neste mundo - e eu, por mais que tente, acabo sempre por me sentir violentada e mal amada.Dá-me nojo esta feira de vaidades ocas, percebe?

Imperatriz Sissi said...

Cec, compreendo perfeitamente. A fórmula que aplico é a da leveza e redução de ruído: perante princípios firmes as pessoas de moral elástica afastam-se. Mas não queríamos pessoas dessas por perto, não é? Logo é limpeza, não é ser mal amado ;) Beijinho

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