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Friday, April 18, 2014

Hoje não se fala de coisas alegres.



Não se fazem graças, nem risotas, nem barulho. É um dia de contenção, de reflexão, para  um bocadinho de sacrifício nestes tempos de ego e de hedonismo, dia de olhar para dentro.
  O único dia do ano em que a minha piedosa avó, que adorava ouvir-me cantar (e que era ela própria tão alegre) me recomendava que estivesse caladinha. 

 Não me importava porque a Quaresma e a Páscoa sempre me pareceram, entre os dias sagrados do ano, os mais misteriosos. Havia aquela sensação de não compreender tudo, de me escapar a ligação entre a parte feliz, colorida, dos ovos e dos coelhos ( resquícios de tempos mais antigos em que a festa não era Cristã e estava ligada à fertilidade) e a violência da Paixão e morte de Cristo. Tudo isto me dava a sensação de participar num ritual de adultos, em que nem tudo era explicado. As Estações da Cruz sempre me afectaram, muito por causa  da Igreja de Santo António dos Olivais, onde me baptizaram e que fazia parte do meu quotidiano, que tem seis capelas com figuras de barro em tamanho natural a ilustrar todas as cenas - da angústia no Jardim das Oliveiras à descida da Cruz - com uma expressividade arrepiante. Só espreitava lá para dentro acompanhada, e lembro-me bem de o pai me dizer "quando era pequeno tinha medo destas capelas!". Pudera...

Em casa da avó as cantorias e brincadeiras eram substituídas - desde a minha primeira infância - pelos relatos do Calvário do Divino Redentor, que a início me aterrorizavam. E ela tinha uma maneira muito expressiva - com pouca consideração pela minha idade, talvez porque ela própria se comovia muito com este dia tão doloroso, talvez porque é de pequenino que as impressões se deixam...- de recordar as chicotadas, a coroa de espinhos, as troças e as humilhações de que Jesus foi alvo (que Lhe tivessem cuspido no rosto... isso era o que me custava mais, não sei dizer porquê) sem um gesto de revolta, sem um lamento. A cena da lança de Longinus, que horror! 

E eu, com a tendência das crianças para o final feliz, interrogava-me porque tendo tanto poder, não tinha Ele feito qualquer coisa...

 Mesmo sabendo que no Domingo ficava tudo bem, que Jesus ressuscitava e fazia cair o Templo e levantar os mortos, o Calvário não deixava de me indispor (até porque depois Jesus voltava para o Céu...para todos os efeitos não era bem a mesma coisa; a Sua vida na Terra tinha terminado, o que não era grande consolo para a minha imaginação); largava a chorar desconsolada ao imaginar o sofrimento de Nossa Senhora perante aquela cena horrível. Ainda hoje esse é o aspecto que me dá um apertozinho no peito. Não sei o que pessoas mais entendidas na matéria pensarão disto mas sinto que a empatia, o colocar-se no lugar do outro, é uma grande lição da Quaresma, quando bem explicada aos mais pequenos.

  Há um Deus e a Mãe de Deus que se colocaram no lugar da Humanidade, sofrendo as piores dores e humilhações. E depois, a Humanidade que ao recordar a história, alcança a dimensão desse sacrifício imaginando-se no Seu lugar...

Ainda hoje, em vários pontos do globo (por cá, em Trás- os -Montes) o encontro lancinante entre Mãe e Filho é representado em procissões que levam os fiéis às lágrimas e não deixam de impressionar os curiosos.

 Afinal, mesmo para os que não acreditam e que sentem interesse em analisar somente o aspecto arquetípico/mitológico, a universalidade do mito (Deus que se oferece em Holocausto pelo bem comum e ressuscita após descer ao Hades) estas continuam a ser  imagens poderosas, que falam ao inconsciente de cada um. E as manifestações de fé por todo o Mundo Cristão, mais ou menos contidas,  provam essa necessidade de Redenção, de Expiação, que é inata ao ser humano...por muito que a sociedade actual nos faça olhar para fora e para o espelho, que chame ao materialismo, é preciso reconhecer o sofrimento, a fragilidade, os erros, aceitar com resignação os momentos de impotência que a Vida nos reserva.

 Ainda a falar na música que não se faz neste dia de silêncio, seria impossível pensar nisso sem assinalar os filmes que passavam pela Páscoa- que me deliciavam e cada vez vão sendo menos transmitidos na televisão, em detrimento de coisas menos adequadas à data. O meu preferido, que eu via todo o ano (aprendi a banda sonora de cor e salteado aos 11 anos!) mas tinha especial significado nesta altura, era Jesus Christ Superstar

Os mais puristas acharão que dizer sobre um dos meus filmes indispensáveis, mas  é difícil considerar as letras sem reconhecer que o libreto, salvo seja,  embora sujeito a interpretação, é bastante fiel aos Evangelhos. Falo do filme porque sou incapaz de ver outras versões sem me encolher - não se deve tocar na perfeição. Poucas representações traduziram tão bem a angústia, as dúvidas e a aceitação no Jardim das Oliveiras como Gethsemane, e quanto a mim nunca houve um "Cristo" tão lindo, nem de expressão tão doce, como Ted Neeley.
 Por mais que tente imaginar Jesus com outra cara, não sou capaz...



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