Recomenda-se:

Netscope

Monday, May 5, 2014

Das pessoas destinadas à grandeza.


Há quem saiba, desde o berço, estar reservado a um grande destino porque o nascimento, as circunstâncias, os dotes e os meios assim o determinam. Se está à altura ou não, se decide  rebelar-se e fazer algo completamente diferente com os seus dons, isso já é outra história. 
El-Rei D. Sebastião é um exemplo: desde pequenino que lhe apontavam um destino estratosférico, que o monarca tomou demasiado ao pé da letra...

  Existem também indivíduos que sempre sentiram dentro de si que farão algo de importante. 
      É um pressentimento, uma visão, como se possuíssem dentro de si uma estrela, um fogo que tem de ser canalizado para iluminar os outros, algo demasiado precioso para ficar em silêncio. O Mundo precisa deles, por isso acaba por abrir-lhes o caminho. As oportunidades proporcionam-se para que a voz, a beleza, as acções, o génio ou as descobertas de tais  indivíduos sejam oferecidos à Humanidade.

 (Claro que não falta por aí gente que se sente destinada a grandes voos sem possuir qualidades para tal, mas não é dessas que quero tratar hoje...). Um Mozart, um da Vinci, podem nascer na mais remota das aldeias e parecer destinados à obscuridade - mas quase sempre um capricho da Fortuna os coloca no merecido lugar ou antes, no lugar onde são necessários.

 Depois temos as musas, os génios e os heróis improváveis: indivíduos que à primeira vista nada têm de transcendente ou que mesmo tendo, nunca sonharam com a celebridade ou com fazer coisas grandiosas. Recordo-me de ouvir que Amália Rodrigues, quando vendia laranjas, gostava de cantar mas nunca tinha rezado por nenhuma das coisas boas que lhe aconteceram. A combinação de acaso, talento e boa estrela abriram as portas para que a sua voz e o seu estilo fossem dados a conhecer.
  Mas esta semana tive finalmente a oportunidade de rever com olhos de ver A Lista de Schindler, e dei por mim a pensar que até um grande malandro pode tornar-se um herói genuíno, se as suas capacidades de malandrice forem necessárias para actuar e agir em tempo de crise - e se possuir, apesar dos defeitos, um coração generoso, acompanhado  de gosto pelo risco.


 Oskar Schindler não era o que se chamaria um homem bom. Possuía encanto, carisma, generosidade, uma bela figura e uma grande capacidade de persuasão, mas não tinha nada de santo.

 No liceu, já era conhecido como "Schindler, o trapaceiro" por falsificar as notas. Era um mulherengo incorrigível: dizem que no fim da guerra, quando escapou para a Argentina com a mulher e alguns judeus da sua fábrica, também levou a amante consigo; depois abandonou as duas e quando morreu em 1974, aos 66 anos, tinha a seu lado a última amante, nem mais nem menos que esposa do seu médico.

 Gostava de ganhar dinheiro, e de o gastar com a mesma extravagância. Era uma daquelas pessoas divertidas que toda a gente adora, a quem se dá o desconto e com quem ninguém se zanga porque "não é defeito, é feitio".

 Nem sequer era um grande homem de negócios - no filme, o protagonista reconhece que a guerra era o ingrediente que lhe faltava para ter êxito - e devia ser verdade, porque em tempo de paz nunca mais conseguiu ter sucesso. Em todos os aspectos era um homem imaturo, com tendência para o excesso.

  Mas esses mesmos defeitos -a estroinice, a marotice, as falinhas mansas, o desembaraço, o jogo de cintura, a lata, a capacidade de acender uma vela a Deus e outra ao Diabo, a impulsividade e o hábito de arriscar sem pensar nas consequências para si próprio e para os outros - em tempo de guerra e de selvajaria, pela lei da sobrevivência do mais forte, valeram por qualidades. 

Para salvar mais de mil pessoas em tais circunstâncias seria preciso um Bom Malandro: um perdulário que não se importasse de queimar dinheiro; um parlapatão capaz de sorrir ao diabo, de fazer amizade com homens violentos e dizer-lhes o que queriam ouvir, de trapacear, de subornar, de se desdobrar em mil artimanhas para dissimular os seus impulsos generosos como fazendo parte do negócio, um homem destemperado e narcisista o suficiente para se arruinar e doido que chegasse para se entusiasmar com o seu próprio heroísmo, por mais perigos que corresse. Um homem honrado e prudente teria dificuldades em fazer tanto em iguais condições. Se Schindler não fosse tão vaidoso, tão esbanjador, poderia ter pensado melhor - e a sua lista seria mais pequena.

 Ele próprio não sabia dizer porque salvou tanta gente - conhecia-os, aconteceu. As pessoas que ajudou louvavam a sua bondade, mas nunca lhe compreenderam os motivos.

Schindler não seria exactamente um homem bom - era o homem certo na hora certa. A grandeza às vezes, calha a protagonistas que ninguém espera. Serve-se dos instrumentos que estão à mão. 

2 comments:

Fashionista said...

Mais um texto excelente! Parabéns Sissi!

Sandy said...

Quando era mais jovem também achava que tinha vindo ao mundo para fazer algo grandioso, agora já me caiu a ficha. Não passo de mais uma criaturinha no mundo ;) Beijinho

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...