Recomenda-se:

Netscope

Thursday, May 15, 2014

Estudantes de uma figa. Tenho dito.

A minha pessoa e o caro mano: um estudante deve manter a  compostura - toda a possível, mesmo que esteja com cara de tacho e cartola à banda por mais que se faça.

Se calhar não fica lá muito bem eu dizer isto, sendo de Coimbra, mas por mim saía da cidade nesta altura do ano, juro.

Não que eu seja anti tradições académicas: cumpri o meu dever de gritar EFE- ERRE-ÁS com o entusiasmo que me era pedido, embora a experiência de usar traje não fosse aquilo que eu esperava e multidões não sejam propriamente my cup of tea. 

Anti-praxe tão pouco: novamente, cumpri o meu dever de deixar que me enfiassem a cara num alguidar de farinha para procurar rebuçados Bolas de Neve com os dentes, e dois anos depois ainda praxei "cruelmente" alguns caloiros só para fazer o jeito ao outro "doutor" que precisava de ir à casinha num instante, fazendo-os cantar o Hino Nacional com mão no peito e saltar ao pé coxinho.



 E mais tarde, quando já tinha acabado o curso e estava mais distante de voltar a pôr capa do que de vestir um hábito de Carmelita Descalça (há quem o faça, mas eu não sou de saudosismos e a capa maçou-me tanto que espero nunca mais tropeçar, literalmente, em tal balandrau) cumpri o meu dever - já estão a ver que sou muito cumpridora das convenções sociais, mesmo que não me apeteça nada - de conimbricense paciente ao tolerar, sem chamar a Polícia, que a estudantada malcriada me fizesse barulho à porta e ainda gritasse, com sotaque da aldeia "se isto fosse na minha terra havia de ser bonito".  


 Ah pois...

Afinal, é de rigueur sofrer alguns excessos aos estudantes, como por exemplo ignorar quando roubam vasos ou lanternas da lojinha do chinês (true story). Faz parte, é uma forma de hospitalidade nossa, são só uns dias e fazer o quê, tradição é tradição. 


À estroinice do estudante manda a convenção que se responda com um encolher de ombros e um partilhar da alegria, ao que é suposto o estudante replicar com certa galanteria e boa educação de menino apanhado na lata das bolachas. Por exemplo, se uma velhinha o surpreendesse a mexer nas plantas ou a fazer qualquer disparate, era comum que o estudante, como pessoa formada, se desculpasse, mil perdões minha senhora, e dissesse uma piada qualquer. Mas claro, isso é a tradição, e cada vez menos a realidade. A falta de rigor e exigência dá nisto - e sendo as fornadas de estudantes cada vez menos seleccionadas, é natural que apareça de tudo.

Brincadeiras é uma coisa, abusos e faltas de respeito é outra - e tenho visto amigos a queixar-se de roubos mais sérios, insultos, atentados ao pudor e sabe-se lá o que mais. Isto para não falar nas "estudantes" vindas do quinto dos infernos, que estariam melhor a lavar pratos numa cozinha sem ofensa às ajudantes de cozinha ou a fazer unhas num salão da esquina sem ofensa às manicuras honestas que fazem macacadas nas unhas para ganhar o seu pão.

Criaturas que não beberam uma gota de chá nem conheceram palmatória na baiuca de onde vieram, que têm a lata de transformar o traje em mini saia, para não falar dos "trajes" com que aparecem nas aulas, manchando a dignidade da instituição- havaianas, cai cais e calções de stripper, entre outros farrapos de fugir (then again, aí é culpa da instituição: os tempos em que se mandavam estudantes fazer o exame para casa deles por não virem adequadamente vestidos vão-se perdendo, porque é proibido proibir e tudo e todos se aceitam sem perguntas).


Ora, e por causa dessas almas de Deus, ontem fiquei aborrecida que só visto.

Chego à costureira para ir provar e levantar uma série de coisas (e só eu sei como me desagrada ter certas peças fora de casa) e vejo a senhora toda enervada, toda despenteada, pálida e a desfazer-se em desculpas, que dava dó. 

  Sucede que não estava nada pronto porque as meninas (e meninos) estudantes me deixaram a modista, que coitada é bondosa e esteve pelos actos, à beira de um fanico com arranjos em trajes e fatiotas...que depois não se deram ao trabalho de ir levantar, não obstante os telefonemas desesperados da senhora que precisava de atender a outros clientes e de fechar a loja, porque estavam a curar a bebedeira da noite anterior. Isto apesar de a terem obrigado a fazer serão porque tinham MÁXIMA URGÊNCIA nos seus farrapos.

Esqueçamos por um momento a falta de respeito que isto é - fui estudante, fui bué da jovem e bué da parva (não fui, mas faz de conta) e nunca me passaria pela cabeça não cumprir a minha palavra, assim como nunca me passou pela ideia vestir-me como uma farrapeira seminua, logo vai tudo da educação que se tem em casa e o álcool não é assim tão poderoso, ora histórias.

Quanto à má criação, já nem me enervo com isso - e se não soubesse que fiquei com as coisas por arranjar (um vestido de renda vintage, uma saia Barbara Bui, e outras peças que adoro) por causa dos trajes transformados em tapa -cueca e vestidos medonhos do chinês que muitas dessas rapariguinhas trazem para dar cabo do baile de gala e empidericar Coimbra, até levava o caso na brincadeira. Mas há um limite para tudo, e quando alguém, principalmente alguém com um sentido de estilo de meter medo, toca na minha roupa, aí fico danada e acabou-se a tolerância.


Não só encrencam a cidade toda com as suas tropelias, ainda se atrevem a isto. Tentem agora mexer-me nos vasos, tentem - já tenho dito aqui que sou uma atiradora de ovos excelente. Aviso feito.







2 comments:

Sandra said...

hahahahaha. És tu com os estudantes e eu com as comunhões. Quero a minha roupa de volta :p

Sérgio S said...

A mim esses rituais passaram-me um pouco ao lado: nunca tive traje, e as "praxes" a que assisti foram todas muito soft, quando comparado com aquilo que oiço para aí falar que se fazem agora. Não sei se outros tempo, se falta de tradição da minha escola, se ambas. Em relação a Coimbra, a imagem que tenho da Universidade é negativa, aliás, é um bom exemplo daquilo que não deveria ser uma Universidade, ou seja, antes de mais um motor de desenvolvimento regional. Olhando à volta de Coimbra... Tenho muitas dúvidas que a Universidade seja o tal motor... Aliás, se tirasse a Universidade de Coimbra, quais seriam os impactos à volta (tirando na economia do "arrendamento de quartos e cafés")? Neste ponto diria que Aveiro ou Braga cumpre melhor esta missão. Coimbra tem muita tradição e muita história? Sim mas, a Universidade não deveria estar virada para o futuro?...

Em relação à nossa autora, se tivesse de escolher entre a imagem desta foto e a anterior, escolhia sem dúvida a anterior (do cabelo mais escuro). Esta (do cabelo loiro) é mais "glamorosa" é certo, mas o estilo "boneca" lembra-me anos 80 ou 90, e prefiro a imagem mais "madura" como me parece a anterior. Mas, como é sabido, a nossa autora aparece sempre com bom gosto... eheheh...

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...