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Wednesday, May 14, 2014

Fugir e juntar-se ao circo, parte II: o rapaz que engole espadas é um bom partido.


Por estes dias andava para trás e para a frente com o comando da máquina do tempo à procura de um documentário interessante (por acaso, tencionava ver um sobre criancinhas de três anos que eram mandadas para Gulags por serem "contra revolucionárias perigosas", mas esse já não estava disponível) e reparei nesta série sobre circos de aberrações, tema que sempre me despertou muita curiosidade. 


 O ambiente, a época em que estas exibições eram populares, o próprio décor, as estranhas histórias de vida, algumas bem dramáticas, das "aberrações" que ganhavam a vida por serem diferentes (o "Homem Elefante" e a "Vénus Hotentote" são dois exemplos tristes)  acho tudo isso fascinante; mas julgava que tais espectáculos tinham tido o seu auge em finais do século XIX e acabado por volta da década de 1950, porque afinal não é lá muito ético pasmar para a estranheza alheia.


Mas parece que não: há quem continue a tradição, e entre os que se juntam a estes circos porque a sua esquisitice voluntária não cabe num circo comum (faquires, artistas que se submeteram a modificações corporais extremas e coisas do tipo)  e aqueles que já nasceram assim ( a mulher barbuda, o rapaz lagosta e outros que tais) não falta gente que capitaliza a sua diferença a fazer habilidades. Eu cá não julgo- se se sentem bem assim é lá com eles e quanto à lei, desde que ninguém seja explorado nem enjaulado contra vontade, não creio que se possa dizer às pessoas onde é permitido ganhar a vida honestamente.

 E depois achei a maior das graças a este bem apessoado rapazinho com um elegante sentido de estilo minimalista e gótico, que é a coisa anti social mais amorosa que já se viu.


O ilusionista, que dá pelo bonito nome de Morgue (porque diz ele, se o comum dos mortais tentasse as suas doidices em casa era lá que ia parar) engole espadas, adora espetar-se com agulhas e outras excentricidades. Cultiva um visual de anjo caído e parece que não gosta nada de pessoas que não conhece, nem morre de amores por multidões em geral. Só tolera os outros seres humanos (a maioria deles, vá) quando está a trabalhar, depois prefere ficar no seu cantinho. Um encanto! Como eu o compreendo- o que prova que de génio e de louco, todos temos um pouco. 

Há uma pequena aberração em cada um de nós; o problema é que se a maioria a reserva para si, sem aborrecer ninguém, e outros vão para o circo que é onde as raridades pertencem, há uns quantos que andam por aí a espantar as almas fora do palco e da arena em plena luz do dia, a causar chatices aos outros.


 Em todo o caso, os moços do circo sempre tiveram o seu apelo para algumas mulheres: basta recordar as peripécias da Maria Monforte, dos Maias, com um "Apolo de feira que todas as cocottes disputavam", mas não vamos mais longe: uma senhora da minha família teve uma paixoneta assolapada pelo rapaz dos carrinhos de choque, e chegou a passar-lhe pela ideia uma divertida carreira de saltimbanca - felizmente para ela a feira foi-se embora e o "romance" não chegou, literalmente, a assentar arraiais. Perdeu-se uma artista...

Também conheci uma viúva que fugiu com um bruxo escandalizando a parentela toda, por isso não deve ser uma cousa tão rara como isso.

  Não que eu, menina de gostos do mais patrício e betinho que há, corra riscos de me encantar por um engolidor de fogo e juntar-me ao circo: já vos contei que os meus projectos de ir para o Chapitô foram breves e nunca mais me lembrei de tal, quanto mais não seja porque a vida nómada parece-me uma canseira ; de qualquer modo, que número podia eu fazer? 

Mas bem vistas as coisas, para corações mais aventureiros do que o meu, a ideia romântica de se  apaixonar por um saltimbanco é capaz de não ser tão disparatada: assim como assim, o que há mais é cavalheiros que são uns "artistas" de primeira ordem; e se engolir espadas, cuspir fogo e meter-se acorrentado em tanques de água gelada forem as únicas esquisitices que um homem faz o problema é dele, podia dar-lhe para pior e uma casa não anda tão mal governada como isso. 

 Tenho visto "circos" bem piores, e "proezas" bem mais problemáticas que se não estão no circo, ou num reality show de aberrações, deviam. 

Comparado com alguns que para aí andam, com carinha de quem não parte um prato e muito envolvidos em causas que são Dr. Jekill até ao meio dia e Mr. Hyde depois da hora do almoço, o Morgue até é capaz de ser um bom partido. Candidatas, apresentem-se!






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