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Tuesday, May 13, 2014

Ulisses e a maldita DESCONFIANÇA.


Tal como vos disse, tenho acompanhado a *muitíssimo recomendável, nunca é demais repetir* série luso-francesa A Odisseia, que seguiu o enredo da dita cuja nos seis primeiros episódios para agora tomar algumas licenças poéticas.
 E na minha opinião, esta é uma perspectiva interessante: Ulisses podia ser um herói com sangue divino, bisneto de Deuses, certo; mas não deixava de ser um homem como os outros, com o ego frágil, o ciúme e os medos que assistem a todos eles.

Seria estranho que após 20 anos de batalhas horríveis de se ver, de assistir à morte dos seus companheiros, de andar em bolandas de Herodes para Pilatos (salvo seja) a enfrentar a ira de Deuses, monstros e toda a sorte de perigos, voltasse a Ítaca  todo contente só para encontrar a sua casa invadida de pretendentes sem noção a assediar-lhe a mulher, o reino de pantanas e o trono em perigo e que tudo isso não deixasse um bocadinho de trauma de guerra, de síndroma de stress pós traumático, de justificável paranóia.

 O pior é que o herói deixou que a cautela necessária para sobreviver a tantos transes se transformasse em insanidade, em desconfiança patológica (não sei se isso se chama assim, mas que existe, existe; eu já vi!).

Obcecado com a ideia de traição, passou a ver conspirações em toda a parte, nos corações mais leais, até na própria família que comeu o pão que o diabo amassou para lhe guardar o trono; a duvidar da fidelidade heróica e literalmente lendária da mulher, Penélope; mais facilmente acredita na intriga de um inimigo que diz qualquer coisa para salvar a pele do que nas pessoas que sempre conheceu; e por fim, está feito um tirano que comete injustiças, leva tudo à frente, é impossível de aturar, magoa toda a gente e põe em perigo as coisas que lhe são mais queridas, abrindo caminho para que os verdadeiros inimigos o ataquem.

  Como este Ulisses, tenho visto muita gente.

A vida e os relacionamentos são cheios de episódios que nos obrigam a erguer as defesas para sobreviver;  mas é preciso saber quando baixar a guarda e evitar que o coração seja toldado pelo veneno da desconfiança. 

Lá diz o povo, quem se aventura a amar aventura-se a sofrer - e quem quer de facto viver, aventura-se ao mesmo. Ser prudente não pode significar um regresso constante às mágoas do passado. Não pode implicar esconder-se, fechar-se, levar tudo a peito, destruir todas as hipóteses de cura, de paz, de reconciliação, de recomeço. Se o medo da surpresa, do sofrimento, das armadilhas e do engano estiver sempre presente, ninguém consegue reinar, nem viver.

Torna-se uma sombra de si mesmo - e um espectro para aqueles que o conheceram e amaram. Não sejamos como este Ulisses, de quem disseram "antes tivesse perecido em Tróia".




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