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Tuesday, June 17, 2014

Coboiada da semana: apropriação cultural, esse crime.


     Dizia eu há dias que estamos tão democráticos, tão democráticos, que se instalou o terror de dizer ou fazer a mais leve coisa que cheire -ainda que não o seja de todo -  a pouco democrático. E quem diz pouco democrático diz de direita (o que vai aos poucos deixando de ser um palavrão, mas nunca fiando) sexista, classista, anti gordo, pró belezaanti ordinarice , minimamente honesto e assim por diante.

 Temos uma bela ditadurazinha do politicamente correcto. Estamos bonitos, com esta liberdade obrigatória tão restritiva, daqui a nada, como aquele regime horroroso do romance 1984, de George Orwell, que prendia as pessoas pelo delito de "crime-pensar".

    E embora a Europa para lá caminhe, os americanos continuam a ser os reis da paranóia no que concerne ao sempre sensível tema do racismo/subtilezas culturais.

    Pharrel apareceu na capa da Elle usando um toucado nativo americano. Não sei se o  empenachado apetrecho era Sioux, Navajo, Apache ou outro,  assim como não tenho a pretensão de exigir que um apache lá na sua reserva/casino saiba distinguir um traje de tricana de um de noiva do Minho, mas não vem ao caso; duvido que os produtores de moda da Elle o soubessem.

 Pois esta coisinha sem mal nenhum - quem nunca se mascarou de índio em pequeno que atire o primeiro tomahawk, porque até me lembro de haver kits de brincar que traziam arco, toucado e flecha - deu uma escandaleira tão grande, com sinais de fumo a cheirar tanto a esturro, que o cantor se viu obrigado a pedir muitas desculpas pela sua "apropriação cultural".
 O mesmo tem acontecido com várias cantoras e modelos que usaram bindis, só porque não são indianas. 

 Não sei se acordei numa realidade alternativa ou quê mas os bindis, tal como as tatuagens com henna, usaram-se muito nos anos 90, época em que a inspiração multicultural (por sua vez, um revivalismo das décadas de 1960/70) estava em voga. Então e os Village People, que tinham o índio (meio porto riquenho, meio sioux, pelo que só tinha direito a usar metade do penacho)  e o cowboy, fora o polícia e os outros?
 Faltinha de respeito - encerrem-nos em Guantanamo, esses malvados.


    Nem me apetece agora cansar a  memória a recordar as infindáveis colecções com referência a esta ou àquela cultura - chinoiserie, padrões africanos, kimono jackets, etc-  que temos visto nas passerelles ao longo dos anos. E de repente inspiração é crime?

 Certo, fazer uma tatuagem tribal, ou de um caractere chinês cujo significado se desconhece, é uma foleirada; mas daí a ser falta de respeito vai um grande passo.

 Por este andar não se pode comer sushi, nem pizza, nem aprender a dança do ventre ou qualquer dança estrangeira (está bem que eu embirro com a kizomba e as escolas de samba que por cá se fazem, mas por outras razões...) nem usar um olho turco ou  de Hórus ou escaravelho da sorte egípcio, e Deus nos livre de sair no Carnaval mascarados de sevilhana, de campino, de mandarim ou de toureiro
 Estão os americanos condenados a comer só bifes (porque lamento, mas o hamburguer e a salsicha do cachorro quente são alemães) e os portugueses coitados, a jantar só bacalhau mas não há-de vir da Noruega, porque isso seria apropriar-se da cultura escandinava. (E se assim for, como se vai descalçar a bota do nacionalismo, pergunto eu?).

 Tudo em nome do da tolerância, do suposto sacrossanto respeito por outros modos de vida. 
Já sabia que isto estava mau e que se embirrava com a globalização, mas agora 
ultrapassou-se tudo.

 Se nem multiculturalidade fofinha escapa ao politicamente correcto, ninguém está a salvo.



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