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Thursday, July 24, 2014

A infeliz D. Maria Teles: com maridos destes...


Apesar do que diziam os compêndios, sempre tive uma simpatiazinha pela senhora D. Leonor Teles de Menezes. Talvez por tanta gente embirrar com ela, ou por a sua posição não ser fácil: uma mulher que se destaca assim raramente ganha simpatias, e em casos destes há tantas intrigas  que é sempre preciso tomar aquilo que se ouve e as crónicas que ficam com um grão de sal. E é mesmo disso que trata o episódio de que me lembrei hoje.


 De certo modo, eu, que em pequena me detinha a imaginar cenários destes, achava que D. Leonor conseguira conservar o amado e a pele onde a linda Inês de Castro, coitada, tinha falhado. Isso merecia-me algum crédito. 
  Depois, ela tinha de ser uma beldade para deixar o Rei tão encantado assim, e enfim, uma Rainha bonita desperta sempre a imaginação. 
   Além disso podiam dizer à vontade que ela não gostava do senhor D. Fernando, que era movida por uma ambição voraz, bla bla bla, mas até hoje nunca ninguém me convenceu de que, ao princípio pelo menos, a bela Leonor não estivesse apaixonada por ele - para já, era casada com um cavalheiro que, dizem, não ia para novo; depois, tenham paciência, D. Fernando era O Formoso, por amor de Deus: gostar dele não podia ser assim tão difícil, embora o seu carácter demasiado manipulável pudesse ser, a longo prazo ( arrisco eu, que não estava lá) uma das razões para o arrefecimento da paixão de D. Leonor. Com todo o respeito, não há coisa pior que um homem banana, mesmo que esse homem seja El-Rei.


  Ainda assim, El-Rei D. Fernando (que aparecia nos livros desenhado como um príncipe da Disney)  foi um dos meus primeiros fraquinhos, só vos digo isto. Dividia o pódio das minhas afeições com D.Pedro V, o Muito Amado, que era bem parecido e bonzinho e vinha estampado nas notas de mil escudos. Quando eu era muito pequena não percebia bem quem vinha a ser o Sr. D.Pedro V nem as suas boas obras, mas ficava toda contente quando me ofereciam uma nota de mil escudos porque além de ainda dar para comprar uma data de coisitas trazia a imagem do "lindo príncipe". Imaginação a mais, bem vos tenho dito, mas vendo as coisas podia dar-me para ter modelos piores, eu acho. 


Adiante, e voltemos a Leonor Teles: na minha opinião (que a quem traça a História não interessa rigorosamente para nada, logo posso dizer para aqui quantos disparates queira) houve uma acção e só uma que justificou terem-lhe posto a feia alcunha de Aleivosa.
 O resto vá, posso compreender ou desculpar; ela não foi a primeira nem a última a empregar a realpolitik para servir os seus  interesses e goste-se ou não dela, a senhora era de força.

 Mas mover os cordelinhos para que a sua infeliz (e muito mais ingénua) irmã, Maria Teles de Menezes, fosse assassinada pelo marido, isso foi muito feio. A pobre D. Maria teve aquilo que séculos mais tarde viria a chamar-se um azar dos Távoras: uma irmã traiçoeira e um marido ambicioso e desconfiado.


 Para quem já não se recorda do episódio D. Maria, como mulher prudente, não protegeu os amores - adúlteros - de D. Fernando com a irmã. Logo daí, D. Leonor terá guardado algum ressentimento. 
 Mas quando Maria teve o atrevimento de casar, mais ou menos em segredo, com o Infante D.João, meio irmão do Rei (filho de Inês de Castro, nem mais) pondo assim em perigo a sua segurança no trono e os direitos da sua filha, D. Beatriz, Leonor Teles mostrou as bonitas garras sem olhar a laços de sangue.

  Primeiro, tratou de convencer o cunhado de que a aliança tinha sido precipitada, já que ela fizera planos para o casar com Beatriz de Portugal, tornando-o no quase certo herdeiro do trono. 
 D. João, que era ganancioso, de ouvidos leves e enfim, já saciara a sua paixão pela mulher, caiu como um patinho. Convenceu-se de tão lisonjeiras palavras e nunca mais olhou da mesma forma para a esposa.
 Depois foi só Leonor dar-lhe a desculpa perfeita, fazendo circular o ruim boato de que ela o atraiçoava.
 Fiada na sua inocência, D. Maria continuou tranquilamente a sua vida em Coimbra, ignorando os avisos que lhe iam chegando. Se o marido não a honrava com a sua presença, sequer!

 Mas D. João, ciumento e ávido de poder, não teve dó nem piedade; rumou a Coimbra e ali mesmo, perto da Quinta das Lágrimas onde a sua mãe tivera tão triste fim - dá que pensar, à luz da ciência dos nossos dias, se o trauma não terá motivado um acto tão bárbaro - 
dispôs-se a sujeitar ao mesmo a bela e infeliz dama a quem dera o seu nome. Rodeado pelos seus homens, invadiu o Palácio de Sub Ripas a meio da noite e arrancando-a da cama à vista de todos, aos gritos de "adúltera!", assassinou-a a sangue frio.


Bem se deve ter arrependido: é claro que D. Leonor Teles o casou tanto com a filha como eu fui ao fim do mundo, e ainda arranjou mais um pretexto para perseguir o crédulo cunhado, pois não admitia competidores. D. João acabaria acossado por vários lados e castigado com o exílio, o que foi muito justo para aprender a não acreditar em todas as intrigas que lhe murmuravam aos ouvidos.
 E qual é a moral da História? Não há que crer em toda a lisonja, nem em toda a má nova. Quanto a quem é alvo de tais mentiras, não deve expôr-se ao perigo, escudando-se só na virtude e na inocência...quando se trata de mexericos, todo cuidado é pouco.










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