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Thursday, July 24, 2014

As coisas que eu ouço: era um homem tão ciumento, mas tão ciumento...



Na terra dos meus avós, nos tempos em que a moral e os costumes eram outros, as mulheres honestas evitavam - como em toda a parte naquela época, de resto- andar desacompanhadas. Parecia mal a uma mulher casada, menina solteira ou a uma senhora de respeito ser vista em constantes passeatas.
  Se alguém insinuava a uma mulher que se tinha por virtuosa que ela passeava muito, ai ai: o mais certo era receber a resposta bem torta "era o que faltava! Tenho de aviar a minha vida!".
 Aviar não tinha, neste caso, o contexto de "despachar". Aviar a vida seria o que hoje se entende por ir às compras. E aviar a vida era precisamente uma das poucas desculpas que uma mulher tinha para pôr o nariz fora da porta, principalmente se não dispunha de pessoal doméstico que fizesse de pau de cabeleira ou - melhor ainda -  que aviasse a vida por si. 

Quando os transportes públicos se banalizaram,também não parecia bem ir sozinha numa camioneta cheia de estranhos; quem  tinha um marido com carro próprio evitava sujeitar-se a essas idas e vindas.

 Pois bem, mesmo neste cenário havia um homem que passava todas as marcas, o que ao mesmo tempo escandalizava e divertia os vizinhos. Casado com uma mulher ainda jovem e bonita, era de tal maneira possessivo, ciumento e desconfiado que entendia que toda a gente a achava tão deslumbrante como ele mesmo e via rivais até nas pedras do chão; a pobrezita não podia dar um passo porque o marido suspeitava da  própria sombra...

 Uma vez que o casal não era propriamente abastado, a esposa do ciumento era das tais que se precisava de "ir à cidade" tinha de o fazer de camioneta. Como o zeloso compulsivo trabalhava, não a podia acompanhar, e...que remédio senão deixá-la. Mas na véspera já estava em ânsias e fazia-lhe mil recomendações, que a infeliz sofria com paciência de santa.

 Ora, naquela altura estava na moda usar o cabelo nuns chignons, ou carrapitos, com a franja solta e ligeiramente ondulada. Pois uma das directrizes mais desesperadas do ciumento era que a mulher se livrasse de fazer a onda no cabelo, não fosse o motorista do autocarro apaixonar-se por ela!

 Ela lá lhe fazia a vontade, o que provocava muita troça entre as amigas: mas a verdade é que se  fosse mulher de lhe pregar alguma partida, não seria por falta de onda no cabelo que deixaria de o fazer...quem quer portar-se mal é capaz disso com onda ou sem onda, mais bem arranjada ou menos, e não precisa de se deslocar para isso, nem de arranjar namoro com o motorista da camioneta.

 Bem se vê que os ciúmes tornam os homens tolos. Já assim era no tempo de Boccaccio, e ainda hoje continua exactamente na mesma.


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