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Thursday, July 10, 2014

Dos oferecidos sociais. Estilo "Manuel dos Plásticos".


Sabem, aqueles para quem há uma designação mais feia -vá, meretriz social, mas com um palavrão -  que eles próprios não têm vergonha de usar para se auto descrever, julgando que fazem com isso uma bela figura.

 Há poucas coisas mais ridículas (e incómodas)  do que ser vista em público com um passarão (ou galinhola, pois também as há) que faz gala em cumprimentar vaidosamente todo o mundo. Não se dá dois passos sem que a pessoa abrande ou deixe a conversa a meio para trocar salamaleques com quem passa. 

Se se cruza com o homem do lixo faz o coitado largar a vassoura, interrompe-lhe o trabalho, trata de lhe perguntar pela família toda, só para se sentir muito considerado, estilo "até as pedrinhas do chão me conhecem" com uma simpatia postiça que ninguém lhe encomendou.

    Se tropeça em alguém mais importante do que ele (a), larga o que está a fazer para lhe dar vénias até ao chão, maçar a pessoa de morte, interromper-lhe o almoço, impor a sua presença pelo tempo que lhe permitirem babujar e dar missa à personagem, sem respeito por quem está. 

Se um oferecido social se encontra, sei lá, num encontro romântico mas o telefone lhe toca e pior ainda, calha ser alguém com quem faz cerimónia, atende como se nada fosse e fala 20 minutos, enquanto se finge desesperado e faz sinaizinhos à pobre que aceitou jantar com ele, como quem diz "ai, desculpa, não me largam". 

 Pior ainda, faz questão de tratar pelo nome cada barmaid, porteira ou empregada de mesa que encontra, dando-se insuportáveis ares de D. Juan de balcão. (Caso vos suceda tal vexame, paguem a vossa conta, saiam de fininho e fujam para parte incerta: aviso de amiga). 

Se o criado é um homem ou - jackpot - um oferecido encontra o chefe de sala, temos sermão e missa cantada: oferecidos sociais adoram dar conversa a quem traz a bandeja, estilo "até as panelas me conhecem". Não me perguntem porquê, mas suspeito que a fixação tenha a ver com o facto de certos profissionais profissionais destes, que têm mais que fazer do que recordar o nome de cada palhaço que aparece mas não querem desagradar à clientela, tratarem toda a gente por "chefe" ou "doutor", brejeirice que as meretrizes sociais adoram. 

 E não se esqueçam que além de se querer fingir muito requisitado, muito famoso lá no burgo, muito necessário, um oferecido não deixa de falar de si mesmo até quando está a sós com alguém: a conversa é sempre EU, EU, EU, EU tenho, EU faço, EU sou.  Livrem-se de  conhecer um pavão pomposo destes mas caso tenham essa desdita, evitem aparecer com ele em público. Não há maçada nem mancha social pior.

  Mas vamos cá ver uma coisa: há as pessoas famosas, quanto mais não seja porque aparecem na televisão com muita regularidade por motivos de trabalho; depois há aquelas que são realmente consideradas em certos meios e que sofrem este tipo de abordagem, não tendo outro remédio senão corresponder-lhe para não parecerem malcriadas. A diferença é que não fazem gosto nisso e até fogem a tais coisas se puderem. Só quer protagonismo quem nunca o teve

 Ora, cá pelas bandas de Coimbra há umas personagens, vulgo mito urbano que nunca ninguém viu ou já morreram há muito tempo mas que estão sempre a vir à baila para ilustrar certos tipos. Se uma pessoa é pasmada, assim meio apoucada ou crédula (ou acontece tomarem-nos por tal)  diz-se "parece que é/julgas que eu sou filho da Parva do Tovim". Quem mora no Tovim é muitas vezes apelidado de parvo injustamente...

Se uma mulher é muito feia, muito má ou está muito desarranjada, diz-se que parece "a bruxa da Adémia". Tenho de procurar nos registos da Inquisição alguma bruxa por essas paragens  para saber se é mito ou não, mas que se diz, diz.

 E quando alguém é pantomineiro, fura vidas, alpinista, metediço, pouco selectivo, cumprimenta todo o bicho careta, é costume dizer-se " Credo, este parece o Manuel dos Plásticos" que não faço ideia de quem seja, mas imagino que fosse um tolinho que chateava todo o mundo para vender plásticos ou um sucateiro pouco honesto que fizesse negociatas com tutti quanti.

Em todo o caso, ser classificado como "Manuel dos Plásticos" nunca é lisonjeiro. Mas quem é de facto oferecido social ou Manuel dos Plásticos quer tanto que reparem nele que nem se rala com isso. Até a troça lhe serve!


2 comments:

Ulisses L said...

Quem é o Manuel dos Plásticos? é um personagem de uma anedota, embora costumem mais chamá-lo de zé dos plásticos.

Dois velhos colegas da escola primária encontram-se, por acaso, ao fim de muitos anos em frente aos passos do concelho em Lisboa.
-Olha o Tony! Que é feito, páh?
-Vidinha do costume! E tu Zé? Que é feito de ti?
-Olha tornei-me um empresário de sucesso no ramo dos plásticos e sou reconhecido no mundo inteiro…
-Tu és é um grande tretas! Mas sempre foste!
-Tou a falar a sério pá.
-Ya, ya! Olha, gostava muito de ficar na palheta, mas tenho de ir ver se consigo falar com o presidente da Câmara, mas não há meio de o gajo me receber…
-Quem, o Toino? Fosga-se, anda lá mais eu…
-Mas tu conheces o gajo?
-Então não…
E o amigo não só foi recebido como resolveu o problema!
Pelos vistos conheces mesmo…
-Peanuts! – diz o outro!
-Yá, tou mesmo a ver… Mas aposto que não conheces o 1º ministro…
-O Coelho? Fui eu que o apresentei ao Lá Féria quando queria ser cantor…
-Oh pá, vai-te…
-Anda mais eu.
Metem-se num mercedes, vão direitos à residência oficial onde são estupendamente recebidos.
-Pronto, ok, conheces o primeiro, mas o presidente…
Mais uma vez, enfiam-se no carro, vão a belém onde são recebidos para o almoço!
-Pronto Ok, conheces uns gajos em Portugal, mas isso não te faz reconhecido mundialmente!
-Diz uma pessoa!
O outro pensa um pouco e diz
-O Papa!
Umas horas depois estão no vaticano, no meio de milhares de turistas que esperam para ver o Papa.
-Espera aqui por mim e preta atenção à varanda.
O outro assim o fez e, dai a pouco, as portas abrem-se e sai o Papa junto com o Zé, recebendo um aplauso apoteótico.
O Tony nem queria acreditar! Mas para tirar as duvidas chega-se ao pé de uma das pessoa e pergunta:
-Sabe quem é que está naquela varanda?
ao que lhe respondem de imediato:
-Claro que sei! É o Zé dos plásticos! Agora, o tipo de branco é que não faço ideia de quem seja...

M said...

Já dizia o Jung: aquilo que nos irrita nos outros pode levar-nos a um conhecimento de nós próprios.

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