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Saturday, July 19, 2014

Há a humildade saloia... e a que pertence aos grandes.


Ontem detive-me a seleccionar livros para escolher o que vai e o que se guarda... e quem me conhece sabe que não é tarefa que me corra muito bem: acabo sempre por me distrair a ler e fica tudo exactamente na mesma...

Estava eu a folhear um dos volumes que vão ficar e encontrei um conhecido episódio que quase se me tinha varrido da memória, mas que é uma bela lição de vida.

Embora eu embirre solenemente com o uso a torto e a direito da palavra "humildade" por quem considera humildade sinónimo de ser simplório ou zé ninguém e logo, uma qualidade, ou por quem de humilde não tem nada, de parolo muitíssimo, mas passa a vida a recomendar humildade àqueles que inveja (como expliquei tim tim por tim tim aqui) é preciso distinguir entre a humildade saloia, parente próxima da mesma esperteza, e a humildade que eleva e espiritualiza. 


Esta última só nasce nos espíritos que desejam aperfeiçoar-se e é a porta para que muitas outras qualidades se manifestem ou aumentem: a bondade, a graça, a elegância, a inteligência e a serenidade de quem não se considera uma grande pessoa (ainda que o seja) logo sabe pôr os outros em primeiro lugar, é capaz de ouvir, observar, aprender e evoluir, sabe não incomodar, e, abafando essa feia coisa que é o ego exacerbado, não se melindra com pouco, não condena com facilidade, não se agasta com duas palavras, sabe perdoar e não é consumido (a) pela amargura.


Essa é a humildade dos grandes - que pode surgir na pessoa mais discreta do mundo, desde que ela possua uma qualidade especial. Uma rapariga muito bonita mas que seja soberba perde muito do seu encanto. Um génio que amesquinhe os outros pode ser considerado anti social, ou mesmo um pouco lunático. Pensemos na humildade como um primer de maquilhagem (ou para os cavalheiros perceberem, o primário da pintura de uma casa, que vai dar ao mesmo): aperfeiçoa e prepara o terreno para que o resto seja realçado. Sem primário, a pintura pode não ficar uniforme; sem humildade, muitas boas qualidades podem perder-se.


A filha mais nova de Luís XV, o Bem amado, Luísa Maria de França - conhecida como Madame Dernière ("a última") - era uma princesinha espirituosa e senhora de si. Muito ciosa do seu papel, e mimada como seria de esperar, tinha o costume de admoestar as aias e criadas, dizendo, se a contrariavam, "lembra-te que sou filha do teu rei!".

  Entre elas havia uma - cuja identidade muda consoante os relatos, umas vezes a preceptora, outras vezes uma criada de quarto - que perante estes assomos de mau génio, lhe respondia com a maior simplicidade "e eu sou filha de Deus!". 


 Madame ouvia isto para seu governo e, sendo dotada das maiores prendas de espírito acabaria por se fazer carmelita, esperando com esse sacrifício conseguir que o pai deixasse a sua vida dissoluta (um objectivo que só seria alcançado por completo no leito de morte do Rei). Maria Luísa escolheu viver no carmelo mais pobre de França, com uma regra rigorosíssima, e deu tantas provas de perfeição que é hoje conhecida como Venerável Madre Thérèse de Saint-Augustin.

Nos seus anos como Carmelita, a princesa recordava muitas vezes como as palavras da sua servidora a tinham ajudado a dominar esse aspecto menos bonito do seu carácter.

Mas lá está: para tirar partido de uma boa lição é preciso ter a inteligência para a compreender, e a humildade (humildade da boa, não da saloia) para reflectir e colocá-la em prática...





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