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Sunday, July 27, 2014

Meninas e meninos, muito cuidado com as imitações.



Quando eu era pequena, teria dois ou três anos, Cuidado com as Imitações, do tio Sérgio Godinho, era muito a provavelmente a minha canção preferida (ex aequo com I want to break free, dos Queen) .


Estava sempre a pedir ao pai que pusesse o álbum Era uma Vez um Rapaz no gira-discos, pois eu não estava autorizada a mexer-lhe, não fosse algum vinil ficar riscado (o que conferia uma certa aura mística à maquineta) e - vá-se lá saber porquê - achava bem acompanhar a cantiga balançando-me no cavalinho de madeira (esse mesmo, abaixo) como se não houvesse amanhã. 

Tudo isto acontecia numa sala ampla que tínhamos, uma espécie de mistura entre lounge para receber os amigos e biblioteca, e onde eu jamais entrava sozinha nem que me pagassem pois morria de medo de uma máscara com chifres, coisa pagã que tinha sido trazida de Itália, vivia por cima da lareira e a quem pus o nome de "Xô":


Apresento-vos o Sr. Xô.

 O meu irmão acompanhava-me na brincadeira, pois a letra puxava-nos pela imaginação. Não lhe percebíamos o significado, claro, mas "orelhas equipadas com radar", "dentes de vampiro", "rabinho a dar a dar" e "nariz que parecia um elefante" eram imagens poderosas.

 Agora que já está tudo contextualizado, volto ao que me trouxe aqui: não sei se a canção de Sérgio Godinho, com os seus preciosos conselhos - "ser honesto não é só ser bem falante",
"não é preciso ser Casimiro para ter muito cuidado para não se deixar levar", etc - teve alguma influência nisso, mas a verdade é que me tornei um bocadinho como o Casimiro, que era assim como um vidente e tinha um olho mesmo no meio da testa, tinha as orelhas equipadas com radar e ouvia toda a gente muito sério e comedido mas a topar perfeitamente as intenções alheias.

 Já aqui disse mil vezes que o que mais há por este mundo é pantomineiros: entre as pessoas que são tão falsas como as carteiras que ostentam, carroceiros que julgam que um fato barato, palavras caras e hábitos postiços os transformam em cavalheiros, bajuladorespessoas Floribela e  mulheres da luta que passam por muito desinteressadas, muito dedicadas, há que ter todo o cuidado com as imitações. 

 Exercer ao máximo a intuição de profiler e confiar no primeiríssimo instinto, porque a impressão inicial raramente nos engana. A canção de Sérgio Godinho é perfeita, mas eu acrescentava-lhe duas máximas: evitar as segundas oportunidades, porque parvo é quem lá volta, e fugir como da peste de dar o benefício da dúvida. O benefício da dúvida dá SEMPRE que entender: fica o conselho para nosso governo.





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