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Wednesday, July 30, 2014

O amor é isto e tudo o mais são tretas.

(Cor. 13:7)

É muito fácil, muito imediato, desculpar certas maldades, fraquezas e pecadilhos com o amor. O amor é assim um penso rápido que justifica muita coisa. Bem diz o povo "pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira". Ou como reza a canção


Dizes que gostas de mim,
    O teu gosto é só um engano
Tu cortas na minha vida, 
Como a tesoura no pano!

Se tivesse um euro por cada vez que ouvi pessoas dizer que os seus ciúmes doentios são sinal de amor (sim, não duvido e algum ciume tem a sua graça, mas em exagero é doença) que vi perseguições e ameaças "por amor", ou que li no jornal crimes cometidos "por amor"...estava rica.

   Nada disto tem a ver com amor. Isso pode ser posse, luxúria, medo, egoísmo, paixão, mas amor é que não é. O amor até pode andar escondido no meio de sentimentos tão confusos, mas não está a ser posto em prática de certeza absoluta. A paixão sente-se, o  amor exerce-seComo disseram naquele filme,

            To love someone is to give and then want to give more.  Lust is to take and then take more.  To devour, to consume. No logic, no reason.

Posto isto, o amor dá uma grande trabalheira, porque exige um aperfeiçoamento diário da alma. Obriga quem ama a passar por cima das suas comodidades e conveniências, a fazer o seu próprio julgamento, a ter paciência, a perdoar - a perdoar efectivamente, não a dizer que sim senhor mas a fazer cenas de cada vez que se lembra de alguma coisa que se passou no tempo da Maria Cachucha - a fazer orelhas moucas às línguas do mundo, a resistir a tentações - a tentação de olhar para o lado, a tentação de discutir só porque lhe dá na veneta - a fazer ajustes e sacrifícios. 

Em suma, amor é querer bem: ao outro e a si mesmo. É não fazer isto ou aquilo porque vai entristecer ou perturbar o outro; pôr-se no lugar do outro, não fazendo o que não gostaria que lhe fizessem a si. É querer fazer coisas que façam a pessoa amada feliz. É defendê-la e tomar conta dela.

 É tirar, sim, mas também é dar muito mais do que se tira. Se dois são capazes desta generosidade então temos uma história de amor, porque o amor não pode ser unilateral. 
 Um exemplo simples é o enredo da Escrava Isaura, de que já falei aqui. A quem não leu o livro recomenda-se, mas quase toda a gente se recorda das duas novelas baseadas na obra de Bernardo Guimarães.


Leôncio, o mau da fita e senhor de Isaura, gosta muito dela à sua maneira. Pior, é doido por ela; tanto, que falta à promessa feita à sua mãe de alforriar a escrava, que foi  educada como uma filha da casa. Por aí logo se vê que paixão não é amor, porque ele se importa mais com ter Isaura por perto, mesmo contrariada, do que com o bem dela. Para piorar tudo, sendo casado não pode logicamente casar com ela e Isaura, apesar da sua condição, é uma rapariga virtuosa. Embora fiquemos com a ideia que Leôncio não lhe é indiferente, recusa sempre ceder aos seus avanços. Ele cada vez enlouquece mais e 

faz-lhe a vida num inferno, até que a pobre coitada é obrigada a fugir.


Entretanto Isaura conhece Álvaro, que apesar de ter um background semelhante ao de Leôncio é muito bom rapaz. Apaixona-se por ela à primeira vista, não se sente desencorajado quando ela se mostra esquiva (com medo de ser denunciada, não por não gostar dele) e quando descobre que Isaura, apesar dos seus dotes e qualidades, é uma escrava fugida, o seu amor não se altera. Fica um pouco abalado, é verdade, porque a idealizava de certa maneira e apesar de tudo, está sujeito às normas da sociedade em que vive; mas não deixa de a amar por causa disso, nem passa a tratá-la de modo diferente, com menos respeito ou cavalheirismo. Aliás, apaixona-se mais ainda quando a conhece melhor e percebe que ela necessita da sua protecção. 
 Isaura, que também gosta realmente dele, chega a pedir-lhe várias vezes que não se comprometa por causa dela, preferindo voltar para a casa de Leôncio e aceitar o seu destino a causar problemas ao amado (pois, porque amor é mesmo isso) mas Álvaro não  desiste de a salvar e tendo meios, emprega todos os esforços para ficar com a mulher que escolheu.

No fim acaba tudo bem menos para o Leôncio, que é realmente digno de pena...

* Bendito e louvado, meu conto acabado!*

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