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Wednesday, July 2, 2014

Shakespeare dixit (?): gaba-te, cesto roto!


"As coisas mais mesquinhas enchem de orgulho os indivíduos baixos." disse (?) o tio William. Não consigo confirmar a origem da frase apesar de já ter virado o dicionário Shakespeariano cá de casa de alto a baixo e não gosto de confiar em citações da internet *aceitam-se ajudas de memórias melhores do que a minha*  mas seja. Poucas máximas resumem tão bem certo tipo de gente.

Dizia-me há dias uma pessoa chegada e muito sábia "quando ouço alguém começar uma frase por «eu, isto, eu aquilo» a pessoa está apresentada". Por "estar apresentada" entenda-se "esta criatura não vale um caracol". E acrescente-se, se a conversa começar com "EU FIZ, EU TENHO" está mesmo o caldo entornado.

Um pouco de fanfarronice pode ser necessária para que uma pessoa se imponha - quanto mais não seja, perante si própria. Ser fanfarrão de vez em quando é um bom exercício para combater a insegurança. Mas qualquer pessoa bem educada sabe que essa "fanfarronice estratégica" (o bom e velho truque "age como se valesses um milhão de dólares") é sobretudo interior e fala por si: é para mentalizar, não para dizer em voz alta.

Na maioria dos casos quem se vangloria não tem, para começo de conversa, grande coisa de que se orgulhar: lá diz a frase batida, o homem inferior
 gaba-se porque sabe que ninguém o fará por ele. É como as crianças malcriadas, que fazem tudo para chamar a atenção e depois dizem "agora quero palmas".

Quando alguém tem qualquer coisa digna de nota, a sociedade trata de reparar nisso aceitando essa pessoa em dados círculos, respeitando-a ou dando-lhe os merecidos elogios. A gabarolice é, portanto, fútil. Escusadinha.

  Calhou-me o azar de tropeçar em alguns gabarolas, e atrevo-me a afirmar que não conheço um que seja digno de louvor. A gabarolice costuma andar de mãos dadas com uma ambição desmedida e reles, com uma origem obscura e às vezes suspeita, com a esperteza saloia e pouca inteligência de facto, com  a sabujice, o descaramento, a faltinha de ética, de noção do seu lugar, de amor próprio e de dignidade típicos de quem é capaz de lamber todas as botas só para furar vidas. E o que faz um fura vidas quando dá um passinho em frente? Gaba-se.


 Se recebeu a mínima promoção social, o planeta tem que ser informado, por pouco que esteja interessado em saber. Arranjou convite para a festa lá da paróquia e isso apareceu em letras mínimas no jornal? O gabarolas trata de ampliar a imagem e colocá-la nas redes sociais. Tem um carro novo? Vai de publicar-se "a cavalo nele" com um sorriso parvo na cara.
 Qualquer coisinha, por modesta ou ínfima, o enche de vento, principalmente se isso lhe der ocasião de tentar amesquinhar os outros. Se não tiver mais nada que dizer (ou estiver com um acesso de inveja) o gabarolas precisa de gritar, ao menos "eu sou muito HUMILDE!". 


 Porém, pior que gabarolice, só a gabarolice sem motivos. A vanglória deslumbrada de quem nunca viu nada e teve muito pouca coisa de jeito. 

Se o novo rico que se gaba daquilo que tem e de quanto custou, ou o self made man que chegou a algum lado e não sabe estar calado são ridículos....pior é o pelintra ou o zé ninguém que se vangloria do berloque que custou X, ou do mamarracho medonho que os pais construíram, ou do muito que admira o patrão porque tem isto e aquilo, ou de ter sido aceite num clube pretensioso que é ridicularizado por aqueles que tenta realmente imitar. Nada é seu, ou pouco é seu, ou o que tem é mais para rir do que outra coisa, mas não o sabe gozar calado...e faz figura de parvo, claro.

Coitados, gabam-se do pouco porque nunca viram o muito

E isto, é óbvio, advém da falta de polidez, da ausência total de mundo.  Só quem está habituado a coisas realmente boas, sejam bens materiais ou estatuto ou elogios,  sabe o pouco valor que essas glórias e posses têm e as trata com a indiferença que merecem, servindo-se das coisas em vez de ser possuído por elas. Lá dizia Coco Chanel, elegância é recusa.

 A condição de pavão - ou em casos mais rudes, de "peru tão inchado que não lhe cabe um grão de milho" é incompatível com a naturalidade despretensiosa de quem toda a vida teve mérito/valor/bons hábitos, toda a vida conheceu o lugar que ocupa e pode, por isso, prestar mais atenção aos outros do que a si próprio. Mas isso, está claro, não é para quem quer.



2 comments:

Sandra Marques de Paiva said...

é para quem pode ;)

Carla Isabel Mendes said...

Há muito peru inchado e sem penas -.- mesmo assim agem como se lhe devêssemos agradecer a sua presença desnuda ^.-

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