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Friday, August 1, 2014

Conto da noite: as sonsas são as piores, lá diz o povo.


A elegância, como a virtude, é recusa: dispensa espaventos e alardes. Quanto mais uma mulher se esforça por andar na última moda, luzir grandes toilettes, mais a sua elegância fica comprometida. Bem reza a velha regra de estilo: antes de sair de casa, olhe para o espelho e retire um acessório! E o mesmo vale para a virtude: uma mulher honesta, bem comportada, não precisa de gritar que o é nem fazer de beata, mesmo que seja do mais devoto. A única desculpa para afirmar, como antigamente se fazia muito "eu sou uma mulher honrada" será perante uma acusação injusta (como Catarina de Aragão, pobrezita)  e mesmo assim...o silêncio desdenhoso é sempre a melhor resposta.

Uma mulher de bem pode ir a toda a parte sem que isso a corrompa (bom, a quase toda a parte: há que evitar certos antros porque não basta ser séria, convém parecê-lo). Mas mesmo que vá a uma festa mundana ou seja arrastada sem saber para uma despedida de solteira cheia de malucas aos gritos não haverá mancha no seu carácter nem nos seus actos porque uma senhora só vê e ouve aquilo que quer e quem é seria é-o de raiz, logo não vai agir de modo diferente nem atirar-se a um poço só porque toda a gente o faz. 

A elegância e a virtude são como todas as coisas boas da vida: a riqueza, o estatuto, a beleza, a bondade, a santidade, as alegrias...lá dizia D. Francisco Manuel de Melo, "quem as tem que as goze, mas não que as mostre".

 Ou como fala o povo desde que o mundo é mundo, as sonsas são as piores

Isto lembra-me um conto popular recolhido por Teófilo Braga que vou tentar reproduzir à minha maneira:

«Na corte havia dois cavaleiros: um não parava de gabar as suas três filhas, que eram do mais piedoso, umas santinhas que se estavam nas tintas para as vaidades do mundo. O outro tinha uma só filha, que era muito alegre e divertida. O príncipe ouvia tais conversas e decidiu pôr à prova a virtude das meninas.

Mascarou-se de velhota e foi bater à porta do primeiro fidalgo, o tal que tinha as filhas muito beatas, dizendo-se vendedora de jóias. Mas a mãe das meninas avisou logo o príncipe disfarçado que as filhas não faziam senão rezar, por isso não iriam querer comprar nada. Então ele pediu ao menos que lhe dessem abrigo, não fossem as jóias ser-lhe roubadas na rua.

 A mãe falou nisso às filhas e elas, "nós não queremos cá velhas, que temos muito que rezar". Porém, a senhora lá as obrigou a deixar ficar a "velha" a um canto do quarto e elas, que remédio...

 Às tantas da noite, quando o príncipe fingia dormir, entraram pela janela três marmanjos, que eram os namorados das três santinhas; fizeram o que lhes apeteceu e de madrugada, cada um se esqueceu de um objecto. O príncipe agarrou nas três coisas e abalou.

 Na noite seguinte, repetiu a façanha em casa do segundo fidalgo: a menina bem disposta recebeu a falsa velhota com a maior gentileza e como se fazia tarde, convidou.a a ficar no seu quarto. Penteou-se, rezou e deitou-se. O príncipe, logo que a viu adormecida, roubou-lhe uma camisa de noite e fugiu.

 Dali a dias, deu uma grande festa para todas as famílias da corte: chamou os três mancebos que tinha visto no quarto das sonsas e, mostrando-lhe os objectos, 
perguntou-lhes se os reconheciam. Cada um disse que sim, e que os tinha deixado no quarto de uma menina, e as sonsas a morrer de vergonha...

Depois chamou a filha do segundo fidalgo e perguntou-lhe se conhecia aquela camisa: ela não se conteve e (apesar dos avisos da mãe) desatou a rir, ao perceber que a velha que lhe tinha furtado a camisa era na realidade o príncipe.

  Reconhecendo a verdadeira virtude, ele devolveu a camisa furtada e casou com a menina risonha; quanto às beatas, deu-lhes a sentença de serem metidas num convento, onde sendo tão santas se haviam de se sentir muito bem...»

Foi um bocadinho mauzinho, mas não deixou de ter razão, ou de ser bem feito...







1 comment:

Pedro said...

Esta sim recorda-me vossa senhoria: elegância no estilo literário, sapiência feminina, um Sol de virtude e honestida, como que saída de um romance francês da moral perfeita. Que de Inglaterra nunca lhe cheguem as nuvens negras do dramaturgo mercador, mas somente aqueles versos luminosos dos poetas piedosos, dos quais a menina Sissi é verbo feito carne.

All things counter, original, spare, strange;
Whatever is fickle, freckled (who knows how?)
With swift, slow; sweet, sour; adazzle, dim;
He fathers-forth whose beauty is past change:
Praise him.

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