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Friday, August 1, 2014

De Ofélia, todas temos um pouco.

Ophelia, Arthur Hughes


Ofélia é sem dúvida a personagem do Bardo mais representada na Arte. Da pintura à fotografia, passando pela moda, poucas mulheres da ficção foram tantas vezes retratadas ao longo dos séculos - ou mais analisadas.

                                         

Nem Julieta comove tanto - ou intriga tanto - porque Julieta tem a recompensa do amor (tanto na vida, como na morte) e é inocente, transparente, fácil de entender. Ama, é amada, o mundo não a deixa amar, morre sacrificada às paixões terrenas dos outros para continuar o seu destino no outro mundo ao lado do homem que escolheu, end of story. 



Além disso, Romeu era apenas um rapaz, com todo o ímpeto e idealismo dos rapazes. Hamlet era um homem e um príncipe, ou deveria sê-lo. Portia, Caterina, Jessica, Lady M., destacam-se pela sua iniciativa, pelo seu mau feitio, pela sua coragem ou ardil mas Ofélia, coitada -um pouco como Desdémona -  é lembrada por ser vítima do seu amor, do amor de Hamlet, da sua própria beleza, castigada por ser irresistível para Hamlet.


 " (...) Ophelia, I hope that your beauty is the reason for Hamlet’s insane behavior, just as I hope your virtues will return him to normal some day, for the good of both of you".

(Act III, cena I)

Não é uma mulher forte ou determinada: a única intensidade que se lhe conhece é a paixão, e a paixão é péssima conselheira.
Só os amores que corriam bem na vida podem correr bem no Além - os que não se resolveram neste mundo não se resolvem no outro. E assim é com Ofélia e Hamlet, já lá vamos.

Se Hamlet é considerada a maior obra de Shakespeare - e a mais densa - não seria eu (que ainda por cima, continuo a preferir, por um triz, a Peça Escocesa) que me atreveria a 
dissecá-la ou a traçar teorias.

 Mas sendo impossível a quem lê ou vê a peça (quem diz peça, diz filme) não tirar as suas conclusões, aqui vos digo em duas linhas: Ofélia ama Hamlet apesar de todos os avisos do pai e do irmão, que lhe dizem que sendo ele um príncipe não pode dispor de si, por muito boas intenções que tenha:

"Perhaps he loves you now (...)
 but you must fear.
His greatness weighed, his will is not his own,
For he himself is subject to his birth (...)".

                                                        (Act I, cena III)


E Hamlet ama Ofélia. Muitíssimo, demasiado. Nunca fica claro se a relação entre os dois foi consumada, mas vários trechos indicam que assim foi e que inclusive, Ofélia espera uma criança dele. O pior é que Hamlet, traumatizado pela morte do pai e revoltado pelo casamento quase imediato e escandaloso da mãe, começa a acreditar que nenhuma mulher é fiel, que todas são ardilosas e falsas, poços de sensualidade sem auto domínio nem coração que não fazem senão atraiçoar os homens que confiam nelas.


 Decide fingir-se de louco para desmascarar o tio usurpador do trono, mas a julgar pela sua atitude para com Ofélia (a quem passa a tratar como se fosse um tapete) fica no ar se o príncipe não estará mesmo descompensado de todo. Desconfia dela, imagina-a capaz dos piores actos (ou pelo menos, assim o diz, pois não se sabe se ele próprio acredita no que diz) e fá-la sentir-se culpada pela sua beleza pecaminosa. Segundo ele, beleza e virtude não podem andar juntas:

"Ay, truly, for the power of beauty will sooner transform honesty from what it is to a bawd than the force of honesty can translate beauty into his likeness. This was sometime a paradox, but now the time gives it proof. I did love you once". (Act III, cena I)

Os seus abusos descontrolam-se de tal maneira - com a infeliz a sofrer-lhe tudo, julgando que ele está gravemente doente - que ele chega a embaraçá-la em público, a mandá-la ir para um convento para não "gerar mais pecadores" ou casar com outro "casa com um tolo, pois os homens sábios percebem bem os monstros em que vocês [mulheres] os transformam" .

"Get thee to a nunnery, go. Farewell. Or, if thou wilt needs marry, marry a fool, for wise men know well enough what monsters you make of them. To a nunnery, go, and quickly too. Farewell".

Piorzinho ainda (conforme as traduções) Hamlet diz-lhe que vá para um bordelpois segundo certas teorias, "convento" era usado, naquela época, como eufemismo para casas de má fama:

"Vai p´rum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? (...)
OFÉLIA: Oh, céu clemente, ajudai-o!

HAMLET: Como te pintas! Deus deu-te uma cara e fazes outra (...) chega - foi isso que me enlouqueceu. P´rum bordel - vai! 

(Acto III.1)"
A  constante violência psicológica e o assassinato acidental do pai às mãos de Hamlet (porque o esquema do príncipe acaba mesmo por descarrilar, como era fácil de prever) acabam por levar Ofélia ao limite. É ela que enlouquece mesmo e - nunca se percebe se por pouca sorte ou suicídio - morre afogada.
 Essa combinação de sensualidade, fragilidade, culpa, amor desesperado e por fim a morte num elemento tradicionalmente feminino, a água, tornaram a personagem uma inspiração para centenas de artistas e motivaram incontáveis estudos por diferentes escolas de pensamento.

  Voltando à história, é claro que depois Hamlet chora muito e diz que sem ela não tem motivos para viver (e de facto, arranja mesmo maneira de morrer logo a seguir). Típico..

E porque digo eu que em cada mulher há um pouco de Ofélia? Porque não conheço nenhuma que, por amor, não se tenha sujeitado a ouvir ou suportar coisas que deviam ser atalhadas antes de começar, depois de já terem percebido há muito que algo vai podre no Reino da Dinamarca. E, como diria Hamlet, o resto é silêncio...






4 comments:

Ulisses L said...

Excelente

:)

Pedro said...

Ó Sissi! Ó tempo que não te visitava. Andas pela pornografia inglesa. Sim senhor.

Imperatriz Sissi said...

Ulisses, obrigada :D
Pedro, realmente há muito tempo que o cavalheiro não visitava o salão...mas Hamlet, pornografia? Está bem que o rapaz era um pouco malcriado, mas tanto...

Pedro said...

Perdoai-me, ó bela Imperatriz, que por mulheres como tu, Venus medieva, fizeram-se guerras e destruiram-se impérios... oh... perdoai-me o galanteio... não quero que a menina Sissi pense que eu estou aqui com "country matters", ou que eu, tal como o jovem Cupido, não saiba o que é «conscience».

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